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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

- Na Vila

Mais uma bela crônica da historiadora/doutora em Geografia, escritora Urda Alice Klueger nascida no Garcia como eu,  mas além de garcienses somos  blumenauenses. 
                                   (Para S. R. V. S.)

A VILA
Por Urda Alice Klueger                                  
A Vila estava ali – foi-se desenvolvendo ao longo do tempo, uma casa hoje, outra ano que vem, pastos com vacas, carreiros para carroças, morros com velhos brabos, a pedreira do seu Thomé (A pedreira do seu Thomé ficava na hoje Escola Agrícola) de onde se tiraram os paralelepípedos para a Rua XV, menino brincando com caminhões de madeira, a casa de comércio, sonhos e energias que circulavam, sílfides e outras crianças que nasciam... A Vila crescia, se esparramava, mandava energias para o entorno, trocava as carroças por automóveis antigos, trocava velhos acordeons por músicas de Roberto Carlos, a descendência do homem da pedreira crescia e se multiplicava como em alguns episódios bíblicos, na casa de comércio se tomava Laranjinha com pão e linguiça nas tardes de preguiça, quando meninas douradas ajudavam a arrumar as prateleiras...

                                   A partir de certo momento, estrangeira que era, vi-me tão envolvida com a Vila como se tivesse sido presa lá por cadeados de tão resistente aço que nunca mais se abriram. Disse: era estrangeira, nunca poderia fazer parte da Vila. Então havia que estar lá do jeito que dava: no silêncio das noites, parada, silenciosa, nos aceiros que ligavam as roças simples aos jardins que tinham as mais magníficas flores, tentando aspirar, na aragem, alguma molécula de perfume que as flores espalhavam sem saber, ou simplesmente sentindo o vibrar da Vila, quieta, imóvel dentro da velha carruagem puxada à lua, sentindo a intensidade daquele lugar que tanto podia, que tudo podia na minha emoção, sentindo o vibrar das energias da Vila, energias que pulsavam na mesma velocidade do meu coração que amava àquela Vila porque lá era o lugar sagrado onde, na caverna sagrada, sílfides de luz existiam e davam sentido ao fato de eu existir.
                                   
Vila rua da Glória
Também havia outro jeito de estar lá, e era quando dormia e saía vagando dentro dos sonhos. Os sonhos eram mais complexos – na verdade, eram atrozes, porque neles a minha nacionalidade estrangeira não importava, e eu andava pela Vila toda procurando, procurando, porque houvera alguém dentro do meu sono que dissera que o tesouro maior estava lá e eu poderia acha-lo. Noites terríveis eram aquelas, tantas vezes repetidas – afundei os caminhos da Vila com meus pés descalços de sonâmbula, e de todas elas despertei em profundo pranto, por causa da realidade da ausência – a Vila continuava sendo um mistério e um escrínio pejado de coisas maravilhosas, e nada daquilo estava ao meu alcance.
Igreja Nossa Senhora da Glória
                                             Penso, agora, como pude suportar a alegria do outro dia, tão imensa e maravilhosa era! Até agora custo a entender que aquilo aconteceu mesmo! De repente, eu estava na Vila, no Templo da Vila, lugar sagrado, impunemente sentada ali ao lado de uma das sílfides, e havia um halo dourado contornando tudo e ninguém parecia se importar com a minha condição de estrangeira nem que estivesse sendo recebida por um daqueles seres mágicos que exalavam aromas, como as flores. Mantive-me atenta ao que dizia o sacerdote, mas dentro de mim era tão imensa e intensa a alegria que, repito, não sei como podia suportar! Aquele era um templo de milagres e a magia andava solta, em girândolas coloridas por todos os lados – eu havia chegado à Vila! Dentre outras coisas, a água que se bebia lá era translúcida e brilhante, capaz de matar todas as sedes!
                                            Nossa, que caminhada longa que fora, e talvez nunca mais tenha outra oportunidade como aquela! Mas como valeu a pena!

                                            Blumenau, 06 de Março de 2016.

                                            Urda Alice Klueger
                                            Escritora, historiadora e doutora em Geografia.

Arquivo de Adalberto Day/Cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

- Jorge Amado

Mais uma colaboração exclusiva do jornalista e escritor Carlos Braga Mueller
Por Carlos Braga Mueller
BLUMENAU SOB A ÓTICA DE JORGE AMADO
Jorge Amado foi um dos mais prolíficos escritores brasileiros.
Autor de 49 livros, entre os quais muitos romances, alguns de crônicas, contos e memórias, teve suas obras traduzidas em 80 países.
Amado, cujo nome completo era Jorge Leal Amado de Faria,
começou sua carreira de escritor em 1931 com o romance O País do Carnaval.
Nasceu em Itabuna, na Bahia, em 10 de agosto de 1912 e morreu no dia 6 de agosto de 2001, em Salvador.
Zélia Gattai, também escritora, foi a companheira que o incentivou, secretariou, e que sempre esteve ao seu lado, nas boas e nas más horas.

FARDA FARDÃO CAMISOLA DE DORMIR
Em 1979 publicou  Farda Fardão Camisola de Dormir (assim mesmo, sem virgulas ) um romance, ou “fábula para acender uma esperança”, como ele sub intitula a obra.
Uma história pictórica, em que Jorge Amado toma a liberdade de cometer algumas indiscrições contra uma vetusta Academia de Letras. Vale lembrar que ele próprio era membro da Academia Brasileira de Letras.
Farda, porque Amado conta a estóica batalha de um coronel, em busca de uma cadeira na Academia, aberta como sempre pela morte de um dos seus membros.
Fardão, porque os imortais da Academia tem que trajá-lo ( e não custa pouco) desde o ingresso até que se despedem, morrem, mas permanecem “imortais”.
Camisola de Dormir porque um dos personagens assim classifica a nudez de uma de suas mais ardentes e inesquecíveis amantes.
Construído esse cenário, Jorge Amado começa a narrar como funcionam os bastidores onde circulam os literatos, aos quais caberá indicar e votar em um novo acadêmico. E entram aí, digladiando entre si, os mais antigos e respeitados dos membros da Academia,  povoando o universo acadêmico com firulas e fofocas.

E O QUE  BLUMENAU TEM COM TUDO ISSO ?
Interessante é citar que Blumenau ocupa um pequeno, mas significativo, espaço na história, mais especificamente no capítulo ”Os acontecimentos de Santa Catarina”.
Antes de transcrever parte deste capítulo, vale fazer algumas considerações sobre o enredo de Farda Fardão Camisola de Dormir.
O Coronel Agnaldo Sampaio Pereira (nome fictício) se considerava um literato digno de ingressar na Academia.  Mas alguns acadêmicos queriam ver o diabo, não queriam vê-lo lá. Isto porque Sampaio Pereira, integrante do Exército durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, era considerado um adepto da filosofia nazista, em uma época em que o governo brasileiro parecia manifestar simpatia pelas ações do nazismo de Hitler e pelo fascismo de Mussolini. O Planeta caminhava, célere, para um conflito que ficaria registrado nos anais como a Segunda Guerra Mundial.

Para melar a candidatura de Sampaio Pereira, alguns acadêmicos descobriram outro escritor tão militar quanto ele, ou talvez até melhor, porque General, de patente superior, apto a concorrer com o Coronel, embora seus escritos não fossem lá essas coisas: tratava-se do General Waldomiro  Moreira, respeitado muito mais que o oponente.

OS ACONTECIMENTOS DE SANTA CATARINA
No livro, em determinado momento, para abafar as manifestações nazistas, pró Alemanha, que ocorriam em Santa Catarina, foi designado para salvaguardar a lei e a ordem em território catarinense o capitão Joaquim Gravatá, oficial educado no amor à Pátria e que, chegando ao destino, seria um ferrenho cumpridor da lei. Gravatá não desconfiava, porém, que movimentos pró Hitler poderiam ter simpatizantes entre os integrantes do Estado Novo, a ditadura implantada por Getúlio em 1937.

Jorge Amado é quem conta em sua ficção, que beira a realidade:
“Vindo diretamente do meio dos caboclos ribeirinhos para comandar a Companhia sediada em Blumenau, cidade de colonização alemã, o Capitão Gravatá pensou ter desembarcado em terras estrangeiras. Menos pela brancura da gente ariana, os cabelos loiros, os olhos azuis, a inconfortável predominância do idioma alemão sobre o português, mas sobretudo por constatar completo desprezo e freqüente desobediência às leis ditadas pelo Governo – mau ou bom, tratava-se do Governo do Brasil, país independente, situado na América do Sul.
Até bem poucos anos brasileira e pacífica, durante a guerra Blumenau parecia belicosa colônia germânica. Sergipano, favorável à miscigenação, exigente no respeito à soberania nacional, o Capitão aborreceu-se com o que ali viu e constatou. Realizavam-se constantes manifestações políticas, públicas e ruidosas, em clubes, escolas, templos, ruas e praças. Passeatas percorriam a cidade, comemorando vitórias dos exércitos nazistas, conduzindo bandeiras e emblemas, a suástica e retratos do Führer. Desfiles paramilitares, os jovens fardados com uniformes dos SS e dos SA, camisas pardas e camisas negras, marchando a passo de ganso, os braços levantados em saudação aos Chefes, os gritos de Heil Hitler! “Nos palanques dos jardins e parques, pronunciavam discursos exaltados e agressivos- em dialeto bávaro soavam ainda mais insolentes.”
A narrativa de Jorge Amado prossegue contando o que o Capitão
Gravatá fez para instaurar a ordem em Blumenau:
“Ora, as manifestações políticas em recinto fechado ou em praça pública, estavam todas elas proibidas. Também o funcionamento dos partidos, sem exceção. Todavia, o Partido Nacional-Socialista Alemão, cujos órgãos supremos sediavam em Berlim, agia abertamente naquela cidade que, na opinião do Capitão Joaquim Gravatá e da tropa sob seu comando, devia permanecer brasileira.
Disposto a fazer respeitar a lei, o oficial procurou o Prefeito para uma ação conjunta. O antigo Prefeito fora substituído no começo da guerra e o novo acumulava o cargo de chefe da secção local do Partido. Sorriu da ingenuidade do molesto e mestiço Capitão – os decretos sobre concentrações políticas não se referiam às manifestações de júbilo com que a comunidade germânica comemorava as vitórias da Wehrmacht e, quanto ao partido, escapava, por alemão e nazi, das injunções da lei brasileira.
Sorriu de novo, dando o assunto por encerrado. O Capitão não gostou das explicações nem do sorriso e agiu. Apreendeu bandeiras, cruzes suásticas, emblemas diversos, ampla literatura em língua alemã, cartazes com palavras de ordem, inúmeros retratos do Führer e boa quantidade de armas. Fechou a sede do Partido, guardou a chave. O Prefeito revidou com uma passeata, o Capitão a dissolveu, trancafiando no xadrez alguns dos manifestantes mais exaltados.”

Jorge Amado narra que foi então que aconteceu a precipitada viagem do Coronel Agnaldo Sampaio Pereira a Santa Catarina e a Blumenau. Pereira, contrariado, deixou de lado no Rio de Janeiro a campanha para sua eleição à Academia de Letras, e veio resolver a situação criada pelo Capitão Gravatá.
Trazendo instruções dos superiores, não fez por menos: providenciou a imediata remoção do Capitão, contra o qual foi instaurado inquérito militar.
Houve então a reintegração da suástica ao som das fanfarras, os braços para o alto, os discursos e os rugidos de Heil Hitler !
SEM MÁGOAS, FICA O REGISTRO
Esta é a ficção que Jorge Amado colocou  nas páginas 78, 79 e 80 da 3ª. edição de Farda Fardão Camisola de Dormir, lançada pela Editora Record em 1980.
 
Integralistas em Blumenau

Muito do que o livro conta realmente aconteceu, mas ao utilizar  nomes fictícios e fatos ocorridos em ordem não cronológica, Jorge Amado apenas corroborou posições de outros literatos brasileiros, entre os quais Rachel de Queiróz, que no final dos anos 50 escreveu uma crônica na revista “O Cruzeiro”, na época a de maior circulação nacional, criticando os olhos azuis dos blumenauenses e o falar arrastado e germânico da nossa gente.

Jorge Amado, na introdução da obra, esclarece que “Toda e qualquer semelhança com tipos, organizações, academias, classes e castas, figuras e sucessos da vida real será pura e simples coincidência ...”

Não nos move a intenção de tecer aqui críticas ao que se escreveu, em qualquer tempo, a respeito da identidade cultural de Blumenau, seja ela realidade ou ficção; apenas rememoramos Jorge Amado e este seu romance no sentido de agregar ao acervo histórico da nossa terra as manifestações que importantes mestres um dia fizeram sobre nossa cidade.

Mas afinal, como termina a história de Farda Fardão Camisola de Dormir? O Coronel conseguirá eleger-se membro da Academia de Letras ?
Recomendo a leitura do livro, uma gostosa incursão nos bastidores da Academia e nos circunlóquios dos seus ilustres “imortais”.
(Carlos Braga Mueller) Arquivo Adalberto Day e fotos divulgação.
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Já que estamos falando de escritores, aproveito a oportunidade para anunciar o livro do amigo Flávio Monteiro de Mattos  é carioca de nascimento e blumenauense por opção. e de coração, também colunista deste espaço. Sugiro adquirir o exemplar.
e-mail para contato e adquirir o livro:

sábado, 3 de setembro de 2016

- Os guardiões da história

 
03/09/2016 | N° 13921
GERA
Os guardiões da história
Descobrir, conhecer e cuidar de 166 anos – sem contar a pré-história – é tarefa para poucos. Como se tivessem sido escolhidos por doutor Hermann Bruno Otto Blumenau, Sueli Petry e Adalberto Day zelam pelas memórias da cidade. Cada um à sua maneira dedica os dias a registrar e proteger os fatos que narram o desenvolvimento da comunidade e contam hoje um pouco de suas versões preferidas dos acontecimentos

O homem dos porquês
Um pouco da história de Blumenau está guardado em cada cantinho da morada do professor Adalberto Day, o Beto, que aos 63 anos (em 2016) desfila pelos causos da cidade como se fossem suas próprias memórias. A propriedade ao falar de cada detalhe faz com que o espectador viaje para a chegada de Hermann Blumenau, aos corredores da Empresa Industrial Garcia, aos jogos do Amazonas Esporte Clube, deixando transparecer que sua história de vida se confunde com a da cidade. Menino curioso desde a infância, tirava a avó Ana do sério:
– Sempre queria saber o porquê das coisas. Se a minha avó me dizia que ia na casa da tia Maria, que morava na Rua Rui Barbosa, eu perguntava “Onde ela mora?”, e ela dizia “Lá no Kroba”, então eu questionava “Mas onde fica esse Kroba?”, depois descobri que era o Krohbergerbach, onde ficava a antiga Ponte Preta. Mas chegava uma hora que ela não me respondia mais de tantas perguntas!
Foram os porquês que fizeram o professor se transformar em um dos guardiões da história de Blumenau, mesmo que Day nunca tenha se sentado em um banco da faculdade de História. Formado em Ciências Sociais, ensinou a história da cidade a muitos blumenauenses e prefere ser chamado de pesquisador da história:
– Os historiadores dizem que não sou historiador, mas não me ofendo, porque gosto mesmo é de pesquisar e descobrir as coisas.
E a história da cidade também passa por ele. Nome forte da região do Distrito do Garcia, é respeitado e ouvido por muitas autoridades. Para confirmar, registra a passagem de cada um que lhe visita em um livro de presença como aqueles de museu, que conta com mais de 4,2 mil assinaturas desde 1998, quando foi iniciado.
Um livro foi projetado, mas a burocracia e a politicagem o fizeram desistir da publicação. Foi então que surgiu o blog, por sugestão da filha jornalista, em 2007. Em 10 anos de internet, Day contabiliza mais de 800 postagens contando os episódios que descobriu sobre a história da cidade e de seus habitantes.
Entrevista, Adalberto Day 
Qual seu episódio preferido da história de Blumenau? 
Tenho lá no blog os mitos e verdades de Blumenau, e poderia dizer que é o que mais surpreende. Os túneis, por exemplo, são contados de forma totalmente errada. Falam que as freiras do Sagrada Família e do Santo Antônio, que era ali na frente, namoravam com os padres dentro dos túneis. Mas, olha só, isso é uma inverdade! As galerias existiam, mas eram fluviais e lá dentro corria esgoto. Aí eu pontuo: tu achas que um padre e uma freira iam fazer amor lá dentro, num lugar desse? Claro que não! Mas o povo gosta da lenda, que toda cidade tem.
E qual o seu personagem preferido da história de Blumenau? 
Da fundação, em primeiro lugar, o Doutor Blumenau. Depois citaria uma das pessoas que é pouquíssimo falada, Hermann Wendeburg, que era, digamos, um vice-prefeito. Depois citaria a família dos Friedenreich, Fritz Muller, Os irmãos Hermann e Bruno Hering, e Gustav Salinger. E dos dias de hoje Carlos Curt Zadrozny Felix Theiss, Lauro Bacca, Victor Fernando Sasse e Dalto dos Reis. Na educação o Frei Odorico Durieux, Johann Heinrich Grevsmuhl, Ernesto Stodieck Jr., também o João Medeiros Jr., fundador da Rádio Clube de Blumenau e do Radioamadorismo em Santa Catarina, e para representar os esportistas de Blumenau, Waldemar Thiago de Souza.
Uma saudade da antiga Blumenau que conheceu? 
Tenho saudades de muitas coisas: das goiabas, das primas, das quilicas (bolas de gude), de tanta coisa... Do Hotel Holetz (onde fica hoje o prédio do Grande Hotel), da antiga Igreja Matriz, de pescar, brincar na rua, jogar futebol no estádio do Amazonas e no Clube 12, mas, principalmente, do meu pai.
INDICAÇÕES DE BLUMENAU
- Um museu: Todos são importantes, mas acho que hoje o que está mais à frente em termos de tecnologia, modernidade, é o Museu da Hering.
- Um tesouro escondido:
Tesouros escondidos desconheço, mas temos muitas histórias escondidas que poderão ser reveladas somente no ano de 2.050. Casos de erros médicos, mortes... Porque as pessoas que sabiam deixaram pedidos para que fossem revelados só dali a 50 anos.
- Um cartão-postal: O Morro do Spitzkopf.
- Um capítulo desconhecido da história: O blumenauense teria que conhecer melhor toda a história da sua cidade, porque são vários capítulos desconhecidos, e a história de Blumenau é muito linda e muito rica.
A menina do arquivo
Foi nas páginas das antigas enciclopédias – o refúgio dos estudantes na era pré-internet – que a menina Sueli descobriu o encanto pela história. Ela queria conhecer o mundo e se imaginava naqueles lugares distantes, conhecendo culturas diferentes da dela, que fora criada na pequena Indaial dos anos 1950. A magia continuou e a levou para a faculdade de História e para o mestrado, onde ela se viu, mais uma vez, encantada. Desta vez foram os clubes de caça e tiro, que desfilavam sisudos e tradicionais pela Rua XV de Novembro em um 2 de setembro longínquo, despertando a curiosidade da jovem pesquisadora. Só mais alguns passos e o destino estava traçado: a apuração para a tese, os primeiros contatos com o singelo arquivo histórico dos meados dos anos 1970, uma conversa. A professora que criticava a (falta de) organização foi alçada a arquivista oficial. Começava um longo casamento que já dura quatro décadas:
– Está chegando a minha “expulsória” (aposentadoria compulsória do serviço público) e acho que vou trabalhar voluntariamente, porque 40 anos fazendo o que você ama, não dá para parar, nem posso. 
Foi assim, através dos clubes de caça e tiro, que a professora e diretora do Patrimônio Histórico-Museológico de Blumenau, Sueli Maria Vanzuita Petry, 67 anos (em 2016), imergiu na história da cidade e se tornou uma guardiã dos capítulos que formaram a porção de terra germano-brasileira incrustada no Vale do Itajaí. Entre as prateleiras do Arquivo Histórico José Ferreira da Silva ela guarda as próprias memórias, que se misturam às lembranças dos cidadãos que doaram alguma parte de sua história para integrar a biografia da cidade. 
No incêndio de 1958 (na antiga sede da prefeitura, onde atualmente funciona a Fundação Cultural) foram perdidos praticamente todos os documentos do arquivo, então foi preciso recuperar muita coisa e, para conseguir isso, sempre contamos com as pessoas – conta, relatando o “trabalho de formiguinha” para conquistar a confiança da comunidade.
Entrevista, Sueli Petry 
Qual o seu episódio preferido da história de Blumenau? 
Todas as histórias são interessantes, mas quando fui a Hamburgo, na Alemanha, que é um dos principais portos de onde saíram os imigrantes, e vi o rio Elba, me emocionei muito porque lembrei das cartas que li onde eles se despediam e diziam: “Adeus, pátria querida. Estamos atravessando o Elba para entrar no (mar) Báltico e chegar ao (oceano) Atlântico, nunca mais te verei”. Aquilo me emocionou, as cartas e o que as pessoas sentiam.
E qual o seu personagem preferido da história de Blumenau? 
Admiro muito Gustav Salinger, Pedro Christiano Feddersen, que foram pessoas que alavancaram o progresso, e também Alwin Schrader. Nós temos personagens bem interessantes, os anônimos que fizeram a história e não são lembrados, porque nós sabemos que se há o grande empresário, o grande comerciante, nos bastidores eram os colonos e operários que eram as formigas que carregavam a folha maior.
Uma saudade da antiga Blumenau que conheceu? 
De ver a Rua XV de Novembro fervilhando de pessoas, olhando as vitrines... Era uma Blumenau que já não existe mais, tenho plena consciência, mas as pessoas vinham de trem, e como filha de ferroviário me incluo nessa porque morava em Gaspar, e vir a Blumenau era como ir a São Paulo, à grande metrópole. E tenho saudade dos passeios que se faziam com tranquilidade, mesmo com o trânsito que existia.
INDICAÇÕES DE BLUMENAU
- Um museu: Todos têm uma particularidade, um sentimento, não tenho uma preferência. O Museu de Hábitos e Costumes tem um glamour diferente. Assim como o Museu da Família Colonial, que tem um valor inestimável.
- Um tesouro escondido: São tantos! Mas acho que o blumenauense, para descobrir os seus tesouros perdidos, ele primeiro precisa descobrir a si mesmo. Quem é a minha cidade? O que faço pela minha cidade? Preservo o meu patrimônio cultural? Acho que o tesouro está dentro de nós mesmos.
- Um cartão-postal: Têm vários, mas um que gosto muito é a Igreja Evangélica.
- Um capítulo desconhecido da história:
A transição dos anos 1940 e 1950, o período após a Segunda Guerra Mundial.
Para saber mais acesse:
ALINE CAMARGO | ALINE.CAMARGO@SANTA.COM.BR/ Fotos Patrick Rodrigues.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

- A senhora Cassiano

Crônica de Adalberto Day  com colaboradores citados no final. 
Maria Mansur e sua filha Neide quando jovens.
Senhora Maria Mansur Neves já idosa
(fotos da família)
 Em Histórias de nosso cotidiano apresentamos Maria Cassiano. Já mostramos neste espaço diversas personalidades de Blumenau e a pedido também carinhosamente abro meu coração para falar dessa cidadã folclórica (se assim podemos intitular a senhora Maria Cassiano), com muito respeito e carinho, moradora de um dos mais importantes bairros de Blumenau – bairro da Glória.
Certamente como qualquer cidadão não desejaria ter a vida que levou com tantos sacrifícios, rotulada com certo “desprezo por alguns da comunidade em geral”. Porém soube levar a vida conforme pôde e sustentar sua família, cidadãos de bem de nossa cidade.
Rua da Glória
Quando a conheci, a senhora Cassiano ajudava a cuidar de um neto filho de sua filha Neide, chamado Sidnei, Nascido em 13/06/1954 e faleceu 21/09/2000 Sidnei, por último morou no final da rua Emilio Talmann, depois que a casa “incendiou-se” , foi embora. Meses depois faleceu em um acidente automobilístico. Eu o conhecia desde minha infância na rua da Glória.
Maria Cassiano tinha um filho conhecido como Zone Cassiano que trabalhava com alto-falantes fazendo propagandas. Foi um dos pioneiros na comunicação (propaganda) com serviço de alto-falante - inclusive veículos do serviço de alto-falantes.
De boné HAROLDO GONÇALVES DA LUZ (pai do José Carlos) ex. gerente das lojas Prosdócimo. ZONE CASSIANO valorizando a foto, fazendo uma entrevista do evento. 
Zone Cassiano
Nome Waldemiro Neves (Cassiano) faleceu em 1992. Conhecido como Zone Cassiano. Zone teve seis filhos e duas filhas. Uma empresa familiar nos serviços de som pela cidade. A primeira empresa a trabalhar na Oktoberfest em Blumenau, contrato assinado pelo seu filho Jonas. Uma empresa muito respeitada e conhecida na cidade. A Oktoberfest mudou o destino do Som Cassiano que era especializada em propaganda externa em carro de som (cornetas). Tinha muita tradição e o carinho dos blumenauenses e região. Sua frota era composta de vinte carros.
Na opinião da maioria, era um som impecável.
O estabelecimento se localizava aonde (foto) está a casa comercial de cor azul.
Conheci a senhora Maria Cassiano já idosa na Rua da Glória (na época estrada de barro lamacenta) em uma pequena garapeira inominada, no atual endereço de número 546 ao lado do antigo comércio do senhor Emilio Felsky que também era barbeiro, próximo também da alfaiataria do senhor “Milico”. Uma referencia também conhecida o comércio do senhor Oswaldo Pfiffer. A rua da Glória antes era conhecida como Specktiefe (palavra de origem alemã que quer dizer caminho lamacento ou gorduroso. - speck significa toicinho, e tiefe, profundidade). O nome Specktiefe porque desde o início da Rua da Glória até próximo ao atual CSU - Centro Social Urbano, existiam pés de eucaliptos dos dois lados da rua, mantendo este espaço sempre sombrio, e, consequentemente, muito lamacento.
Rua da Glória década de 1920 , -  quando era conhecida como Specktiefe

O então diretor da Empresa Industrial Garcia, João Medeiros Jr., mandou colocar barro vermelho, e esta mistura fez o lamaçal ficar com cor de toicinho. A partir de 1938 recebeu o nome de rua da Glória em Homenagem a um antigo conjunto musical chamado “Glória”.
Maria Cassiano (também conhecida por Dinha pelos netos e bisnetos)  nascida em  13/09/1910 e faleceu em 1997.
Era casada e creio que seu marido se chamava Cassiano Neves, antigo Inspetor de Quarteirão da região.
Era conhecida como a “Velha Cassiano”! Segundo relatos na pesquisa, muito “braba e desbocada”, assustava os clientes. Não gostava de ser chamada dessa forma, pois seu nome era Maria Mansur Neves. Fazia questão de deixar escrito e explicito dentro de sua garapeira este descontentamento, com seu verdadeiro nome. Chegou a existir uma plaquinha “M.M” de Maria Mansur. "M.M" interpretado por alguns pejorativamente. 
Em seu estabelecimento vendia caldo de cana, a famosa bananinha, e de forma geral frutas.
Nos relatos que obtive, este estabelecimento existiu desde o início de 1950 até próximo ao ano de 1990.
Ela sentava aos fundos de seu estabelecimento e controlava as pessoas com um espelho e avistava quem estava ali por perto e indagava, “entra ou vá embora se não desejas nada”.
A preferencia era as bananas, que comprávamos em “pencas”.
Certa vez ao adentrar sua pequena garapeira, por solicitação de meu pai que solicitou para comprar bananas, alertado por ele de escolher aquelas que não estavam “pretas” ou machucadas, apalpei-as e ela me reprendeu dizendo em tom alto “porque estás mexendo, não queres vá embora”. E foi o que fiz, nunca mais entrei lá. Passava por ali para ir à Escola São José (atual Celso Ramos) com certo receio. Quando às vezes olhava para dentro da vendinha ela de lá dizia “tais olhando o quê”!
Com mais esta história espero a compreensão dos netos, familiares e que possam até acrescentar algo a mais, e quem sabe com fotos da garapeira e da senhora Cassiano.
Personagens que moravam próximo, para saber acessem:
Senhor Milico
Senhora Muchi

Colaboraram na pesquisa: José Geraldo Reis Pfau, Valdir Salvador, Mauro Malheiro, Cornélio de Souza, Neide Fronza, Carlos Hiebert, SUZY ALINE SANTOS, e  Samantha Aline,   bisnetas da senhora Maria Cassiano. 
Arquivo Adalberto Day/Zé Pfau. 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

- Campinho de chão batido.

Imagem Andre Riodades
REGRAS DO FUTEBOL DE CAMPINHO
(1) Os dois melhores não podem estar no mesmo lado. Logo, eles tiram par-impar e escolhem os times.
(2) Ser escolhido por último é uma grande humilhação.
(3) Um time joga sem camisa.
(4) O pior de cada time vira goleiro, a não ser que tenha alguém que goste de Catar.
(5) Se ninguém aceitar ser goleiro adota-se um rodízio: cada um cata até sofrer um gol.
(6) Quando tem um pênalti, sai o goleiro ruim e entra um bom só pra tentar pegar a cobrança.
(7) Os piores de cada lado ficam na zaga.
(8) O dono da bola joga no mesmo time do melhor jogador.
(9) Não tem juiz.
(10) As faltas são marcadas no grito: se você foi atingido, grite como se tivesse quebrado uma perna e conseguirás a falta.
(11) Se você está no lance e a bola sai pela lateral, grite "nossa" e pegue a bola o mais rápido possível para fazer a cobrança (essa regra também se aplica a "escanteio").
(12) Lesões como destroncar o dedão do pé, ralar o joelho, sangrar o nariz e outras são normais.
(13) Quem chuta a bola para longe tem que buscar.
(14) Lances polêmicos são resolvidos no grito ou, se for o caso, no tapa.
(15) A partida acaba quando todos estão cansados, quando anoitece, ou quando a mãe do dono da bola o manda ir pra casa.
(16) O jogo normalmente vai até 10. “5 muda de lado”.
(17) Troféu garrafas de capilé.
(18) Traves precisam ser trocadas frequentemente, pois quebram ou alguém levou para fazer fogo no fogão.
Lembrou tua infância, então tu foi uma criança normal ...
Autor ;desconhecido
Campinho do 12 ou Morro:
O campo do “12” ou Morro Foto Sábado à tarde, domingo pela manhã sol ou chuva, “vamos ao majestoso¹”  estádio dos eucaliptos o clube “12”, para mais um jogo. Geralmente tínhamos que erguer novas traves, pois o Sr. Hipólito tinha recolhido para queimar em seu fogão a lenha. O pequeno campo do “12” ou Morro se localizava na rua Almirante Saldanha da Gama bairro Glória, próximo às empresas Garcia e Artex em Blumenau. Muitos craques se revelaram nesse pequeno campo, e foram jogar em equipes como Amazonas, Palmeiras, Olímpico e tantos outros. Suas dimensões não ultrapassavam 60x30, mais barro que grama, e foi palco de diversos jogos valendo uma “garrafa de capilé” (troféu da época). Obs.:  O "12" existiu devido a retirada do barro para a aterrar a antiga Praça Getúlio Vargas em 1954. 
Quem teve oportunidade de conhecer esse pequeno espaço de propriedade da Empresa Industrial Garcia, com funcionamento, a partir de 1954 até 1979, jamais esquecerá, pois irá recordar de um gol (“eu fiz alguns de cabeça²”), de machucar o pé ou o dedo no solo irregular, (era comum o atleta atuar descalço). O Nino Valênçio, disse que fez cinco só em um jogo, será? Depois se tornou um dos melhores goleiros da história do Amazonas. Nesse dia o Ziza foi o goleiro, o Dinho, Luizinho, Cao, Egon, Dico, Aurélio, Fininho, Walfrido, Jonas Husadel, Ride, Valter Hiebert , Celesio Berns,Valmor, Edson e o Dedé também jogaram. Essa era a velha guarda, na nova geração até seu final, atuaram os Oliveiras, que só eles davam um time, os Vieira, Massaneiros, Malheiros, Silvas e Fontanelas, os Siegels (Nenê,Ticanca e Bigo), os Cavacos, Oechsler, Day, Moritz, os Galassini (Zinho e Tide) os Izidoros, os Zuchi, Huzadel, os Souza , os Schnaider, e tantos outros. Até você que está lendo este artigo agora, deve ter feito um gol, ou então sabe de um amigo ou parente que diz ter feito pelo menos um. Embora ninguém acredite até o Álvaro Luiz dos Santos (Toureiro) diz ter marcado um. Antes do jogo, o aquecimento era o famoso controle, só valia gol de cabeça. O Silvio Roberto de Oliveira , O Nilton das Silva eram bons também na cabeça e controle. 


¹ majestoso
² de cabeça, Beto Day

Arquivo de Adalberto Day/Andre Riodades colaboração José Geraldo Reis Pfau 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Personalidade de SC Adalberto Day

Personalidade Catarinense Adalberto Day
Entrevista concedida dia 28 de julho de 2016 a jornalista Danubia de Souza da Ric Record. Foi ao ar no dia 30 de Julho/2016 Jornal Meio Dia Ric Record.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história de Blumenau.
Para assistir a todos os meus vídeos no YOUTUBE 

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