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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

- Urda Alice Klueger

Exclusivo:dados extraídos do memorial documentado da Escritora Urda Alice Klueger

Urda Alice Klueger é, de ambas as suas famílias, da primeira geração a nascer fora da agricultura. Descende de agricultores vários, colonizadores ou não. Seu pai, Roland Klueger, neto de um alemão imigrante e filho de uma imigrante lituana, nasce no então já município de Blumenau/SC, onde se cria na labuta da terra, sendo dela afastado quando a Segunda Guerra Mundial o leva para o Exército e o tira do seu amanho.
A mãe de Urda, Minervina Klueger, nascida Soares de Souza, descendia de antigos agricultores da região do grande município de Tijucas/SC, e é também no período da Segunda Guerra Mundial que vai aportar a Blumenau, atraída pela crescente industrialização da região, coisa iniciada já desde os princípios do século XX, e vai ocupar um posto na indústria têxtil. Há que se acrescentar que as tantas centenas de pessoas que a essa altura trocavam a vida da lavoura pela da fábrica já estavam a cumprir um desígnio governamental e capitalista:
A criança Urda Alice Klueger vai guardar intensamente suas lembranças desde os três anos de idade. Mesmo na vida adulta, ela tem muito vivas as cenas, as impressões e as sensações daquele inverno, outono e primavera de quando tinha tal idade, sensações e impressões que envolvem desde a fragrância e a luminosidade de morangos maduros na horta familiar, até a sensação mágica que era ver os raios de sol rasgarem a névoa das manhãs daquele setembro. Um mundo muito mágico se descortina para a menina, um mundo que vai resultar, ao longo da vida, em inúmeros escritos. Tal magia vai se acentuar com o cultuamento das festas de Natal e de Páscoa por sua gente.

A ESCOLA


A Escola São José, situada ao lado da Igreja Nossa Senhora da Glória, no bairro Garcia(Glória), Blumenau/SC, fora criada a partir de doações da comunidade e era gerida pela comunidade, tendo um diferencial, portanto, em relação às escolas públicas e particulares que existiam na época, na cidade. Fora a comunidade quem contratara as Irmãs da Providência, que eram as responsáveis pelo ensino na escola, e que no Brasil tinham vindo da cidade de Itajubá/MG, mas que tinham ascendência francesa. Fora na França que a ordem fora fundada por um religioso chamado Beato João Martinho, que depois se dirigira à China como missionário, e a presença de diversas coisas francesas e mineiras eram uma constante na vida do colégio situado em colono bairro operário de ascendência alemã, onde tais novidades funcionavam como um sopro vivificante. Vale lembrar que o colégio fora construído com as doações das comunidades católica e luterana do bairro, e que era freqüentado pelas crianças de ambas as religiões, e de outras, se as houvesse.
Quando a mãe de Urda se dirige ao colégio para matriculá-la, já havia passado o período de matrículas e não havia mais vagas no então chamado “primeiro ano”. Como a menina já estava prestes a fazer oito anos, dizia o bom senso que ela não poderia esperar por mais um ano para começar a frequentar a escola, e a solução encontrada pela mesma foi matricular a nova aluna junto com o primeiro ano repetente, sala que reunia todos os alunos que de alguma forma não conseguiam a aprovação anual para passar para a série subseqüente. Alguns dos alunos já estavam a seis ou sete anos repetindo o primeiro ano, e naquele 1960 completaram 14 anos e saíram da escola para irem trabalhar nas fábricas, sem estarem, absolutamente, sequer alfabetizados.
A professora daquela turma era a Dona Maria Pisa, de origem italiana, natural da vizinha cidade de Ascurra/SC, experiente professora que sabia orquestrar um certo caos que havia naquela sala problemática. Ela tinha a informação de que todos os alunos eram repetentes, e a presença de uma aluna novata foi-lhe uma surpresa, mas que ela soube administrar muito bem.
A Irmã Maria Conceição, diretora da escola, avisara à mãe de Urda que havia necessidade de a menina ser alfabetizada antes de começarem as aulas, para que pudesse acompanhar o primeiro ano repetente, e tal fora feito rapidamente, em algumas semanas. Como aquela sala era considerada “alfabetizada”, não recebia ela uma cartilha de alfabetização, como então se fazia com alunos iniciantes, e Urda não chegou a ter tal experiência. Recebeu logo um “primeiro livro de leitura”, e com a parca e rápida alfabetização que tivera, levou o livro para casa e o leu inteiramente no primeiro dia, não se limitando às lições escolares, mas lendo a introdução, comentários e tudo o mais que houvesse no livro, enquanto seus colegas repetentes, na maioria, chegaram ao final do ano sem terem conseguido ler todas as lições. Começara, assim, para Urda, a grande aventura da leitura, coisa que a acompanharia por toda a vida.
Aquele primeiro ano ficou na lembrança de Urda como um tempo um pouco confuso, em que participou de uma peça de teatro realizada no colégio (As velhas), relacionou-se com muitas crianças e jovens de diversos pensamentos e procedências, que havia na sua sala de aula, procurou fazer todas as coisas que a paciente professora esperava de cada um deles – e que teve a imensa surpresa, no final do ano, de ser chamada para tirar a fotografia oficial dos alunos que tinham tirado o primeiro lugar em cada classe.
Nas férias de final de ano ela já sabia o suficiente para ler O Inferno, de Dante, que vinha na revista A família cristã, não se limitando, mais, a ficar admirando as ilustrações. Na verdade, já estava lendo tudo a que tinha acesso, tanto livros quanto a própria natureza, e tal incluía as trovoadas, as enxurradas, as variações das estações, os Natais, as brincadeiras com os primos – enfim, o mundo era um livro aberto para muitas leituras, e Urda se servia dele para criar um grande arsenal de sensações e experiências que mais tarde lhe facilitariam muito a escrita de muitas centenas de textos e de milhares de páginas.
Os anos seguintes foram de normalidade na escola. As segunda, terceira e quarta séries foram com alunos não repetentes, com professoras freiras (Irmã Rosária, Irmã Simone e Irmã Adalgisa) que se dedicavam às suas classes com as pedagogias corretas para cada idade. Havia uma classificação mensal dos alunos, onde Urda recebia, invariavelmente, o título de primeira aluna da sala. No único mês em que perdeu tal título para outra criança (já não se lembra em qual ano) tomou um susto – era possível ter outros alunos à sua frente – e ela teve como que uma tomada de consciência prematura, onde se deu conta de que, para manter a posição que tinha na escola não havia apenas que deixar a vida seguir: era necessária muita aplicação e estudo para manter sua situação privilegiada.

E aqueles breves anos passaram, com Urda sempre estudando e lendo muito. Lia tudo o que havia na sua casa (inclusive diversos romances católicos que ainda tinham o “Imprimatur” da igreja, coisa oriunda lá da Contra-Reforma do século XVI) e que lhe deram vislumbres da História, pois eram romances que abordavam a revolução mexicana e tempos medievais, entre outros, e lia o que havia nos vizinhos, nos parentes, e na própria escola, o que incluía as enciclopédias Barsa e Delta Larousse inteiras. A própria escola era uma incentivadora da leitura, e os alunos conheciam importantes poemas e outros textos, além de cantos de diversas regiões do Brasil e também em outras línguas, como o espanhol e o italiano. Tanto culturas diversas chegaram à menina através das aulas de canto, como também mistérios de outras línguas: no futuro, em ocasiões em que precisou entender línguas diferentes em viagens, por exemplo, muito lhe valeram o conhecimento de frases e entonações trazidas à tona desde lá das mais distantes lembranças da escola. Ela crê, até hoje, que sua escola primária foi de grande excelência.

O ACIDENTE

Na imagem acima de 1963 (Local do acidente) mostramos a partir da Rua 12 de outubro uma antiga transversal da Rua da Glória, onde hoje verificamos uma mudança significativa. Com a demolição das casas, e o ribeirão Grevsmuhl desaparecendo com as tubulações, é construída a nova Praça Getulio Vargas, o Terminal Garcia, e o CSU – Centro Social Urbano e outros pontos comerciais.

Rua 12 de Outubro
Urda Alice Klueger foi a oradora da turma que se formou no curso primário da Escola São José em 1963, tendo redigido, sozinha, o discurso. Sua professora ficou bastante admirada por ela não ter pedido ajuda para tal.
Após a formatura, ainda haveria uma festinha e algumas atividades no colégio, e as crianças já formadas ainda iam até lá para ensaiar algumas coisas – foi numa dessas tardes que Urda, saindo do colégio com uma bicicleta emprestada, sofreu grave acidente, caindo de uma ponte dentro de um ribeirão, quebrando o tornozelo em mais de um lugar. Após permanecer alguns dias no hospital, a menina amargou um verão de gesso, sem as naturais travessuras da idade, ficando com sequelas que a acompanhariam pelo resto da vida.
Foi um verão inteiro de apenas leituras – sua mãe a carregava no colo até a sombra de uma árvore, a colocava sobre uma colcha e lhe deixava um livro, normalmente algo piedoso, que era o que a Igreja Católica recomendava. Foi naquele verão que Urda vai passar a se interessar cada vez mais pela França, principalmente depois de ler a história de um santo católico chamado João Vianney, homem humilde, que vivia com sobriedade, mas que foi um grande pensador. Sua biografia estava recheada de vívidas paisagens e costumes franceses, e a menina passa a se interessar cada vez mais por aquele país. Naquela ocasião, ela tinha 11 anos - seu sonho de consumo era chegar aos 12 anos, quando então poderia se associar à Biblioteca Pública Municipal Dr. Fritz Mueller, da sua cidade de Blumenau.

No final daquele verão, quando ficou livre do gesso, Urda estava com o tornozelo irremediavelmente torto, e nos dois anos seguintes, sem conseguir firmar bem o pé no chão, sofrendo muitas quedas, ficou sob o cuidado de massagistas, que faziam o que se sabia naquela altura para resolver um caso assim. Dois anos de aula foram perdidos, mas Urda crê que ganhou, e muito, ficando em casa lendo durante aquele período. Já que não podia andar com segurança, a menina acostumou-se a usar da bicicleta com segurança, e montada em tal veículo, num instante passou o tomar o rumo da Biblioteca Pública, que agora, com 12 anos, conquistara o direito de frequentar. Só se podia pegar um livro emprestado por vez, e então Urda ia lá quase todos os dias trocar de livro. Ela se lembra como começou a ler pela seção infantojuvenil da Biblioteca, que era composta de diversas prateleiras – lia os livros por prateleira, um depois do outro – em pouco tempo, esgotara aquela seção e passara para os livros para adultos.
Ela não conseguia dormir enquanto não terminasse o livro que estava na sua casa, o que criava sérios problemas com a sua mãe. Inúmeras vezes ela disfarçou, fez que dormia, esperou a própria mãe dormir, para então voltar a acender a luz e terminar o livro. Era este o motivo que fazia com que sua mãe não permitisse que ela fosse à Biblioteca Pública todos os dias – a mãe exigia certos dias de folga, onde ela deveria fazer outras coisas. Urda guardou, no entanto, os muitos mistérios vistos e lidos na natureza e na vida durante suas idas e vindas à Biblioteca, como as coisas da natureza, as mudanças das estações, a análise das casas e seus jardins, para as quais imaginava histórias, durante suas andanças de bicicletas. Algumas vistas de morros distantes, que ela classificava como que “da cor da nostalgia”, como que lhe tiravam o fôlego e lhe faziam disparar o coração – preparava, ela, os cenários para seus futuros livros e outros escritos.
Depois que passou tal fase de ler “por prateleira” foi que Urda se deu conta de quanta coisa inútil e sem valor ela lera – e também, de como no meio de tantas coisas sem importância, foram surgindo os livros que realmente valiam à pena: Dostoiewski, Érico Veríssimo, dentre tantos outros. O saldo foi positivo: aqueles anos lhe trariam conhecimentos que ela não teria adquirido de outra forma.
Vale aqui citar um fato acontecido mais de 30 anos depois, referente àquele acidente de infância: num dia em que estava sem assunto para a crônica de jornal onde trabalhava, Urda contou, em parcas 80 linhas, o que então acontecera, sob o título de “Por causa do Papai Noel”. Mais tarde tal texto foi publicado em um dos seus livros de crônicas, e despertou o interesse da cineasta Mara Salla, que criou o filme homônimo (curta metragem de 15 minutos) a respeito do acidente de Urda, filme que foi premiadíssimo, tendo participado de mais de 40 festivais no Brasil, além de um festival em Lisboa/Portugal, Moscou/Rússia e Seul/Coréia.
Arquivo : Urda Alice Klueger e Adalberto Day

3 comentários:

Antonio Aires disse...

Exelente,sua forma de contar os fatos me levou viver e ver as imagens desta personalidade de força intima e abençoada por nosso criador.
Parabens por seu trabalho.

LCC disse...

Sexta feira passou uma mulher de bicicleta por mim. Parecia Urda. Muito bom ler sobre ela.

Alfredo disse...

Alfredo Pintarelli
Grande escritora e amiga desde os tempos da Caixa Econômica.

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