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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

- Enchentes de 1983 e 1984 em Blumenau

Hoje em histórias de nosso cotidiano, apresento um depoimento- texto de um renomado amigo Psicólogo Antonio de Andrade – que fala sobre sua experiência nas enchentes de Blumenau atuando como rádio-amador.
Histórias de nosso Cotidiano
Prezado Adalberto Day, de Blumenau. Pesquisando na internet deparei-me com a página http://www.adalbertoday.blogspot.com/ onde há trechos seus da história de Blumenau, mais especificadamente dos acontecimentos das enchentes de 83 e 84. Lendo o que escreveu me vieram à memória algumas coisas desses acontecimentos.
Eu participei ativamente nos acontecimentos das enchentes. Na de 84, como rádio-amador, era o responsável pelo Posto nº 7, no Clube que fica na entrada de Blumenau - Clube Caça e Tiro Blumenauense, Rua Itajaí. Lembro-me que horas antes da enchente chegar, ouvia pelo rádio amador em minha casa que estava passando água por cima da represa em Rio do Sul e que devido ao volume de água e com a continuação das chuvas fortes, o nível das águas em Blumenau chegaria em torno dos 15 metros. Para prevenir, fui com minha esposa e 4 filhos pequenos para o morro desse clube, que ficava mais perto de onde eu residia e lá instalei minha barraca e junto o rádio amador, que ficava em meu carro. Levei mantimentos para agüentar pelo menos 7 dias. E muita gente também subiu esse morro, com a subida das águas. Pessoas se acomodavam onde podiam nas instalações do clube e muitas outras que tinham barracas de acampamento, se instalavam no descampado que havia no alto do morro do clube. Junto com alguns escoteiros que também ficaram no morro (eu na época era membro do Grupo Escoteiros da cidade, tendo 2 filhos como lobinhos), procuramos organizar o que fosse possível, montamos um acampamento com alguma organização, fizemos banheiros, com fossa coberta com bambu amarrados, cercados de bambus (estilo caracol que não precisa de porta, com pedaço de pano em uma cordinha no alto de um bambu, quando estava livre e abaixado quando estava ocupado). Isso foi necessário porque os poucos banheiros do clube não iriam dar conta do número de pessoas. E coisas curiosas aconteceram lá nesse Posto de Emergência nº 7. A chuva não parava e na "varandinha", extensão que havia em minha barraca, certa hora apareceu duas pessoas, um senhor e sua esposa, encharcados até os ossos e estavam com fome. Não tinham com eles comida, mas seguravam agarrados ao corpo umas 4 caixas pequenas de metal onde carregavam barrinhas de ouro e jóias da mulher. Não tinham comida e nem agasalho. Lembro que reparti com eles um pacote de bolachas e um cobertor. E assim eles ficaram ali umas horas e depois sumiram. Não soube mais nada deles, só fiquei sabendo que o senhor era um dos donos de uma empresa da cidade. A situação começou a melhorar um pouco e a dar mais esperança para as pessoas quando começaram a chegar os helicópteros da Marinha. Na final da tarde do segundo dia chegou ao acampamento um cabo da Marinha que veio desde Gaspar caminhando pelo mato. Foi chegando e perguntando qual era o oficial comandante do acampamento, pois ele achava que tinha sido organizado por militar. Informamos que tinha sido feito por um grupo de escoteiros. E ele começou a ajudar no que ele podia, inclusive utilizando o meu rádio amador para se comunicar com outras equipes da Marinha e mais tarde com os helicópteros que começaram a descer no morro em que estávamos e deixava alimentos e levava sacos plásticos envolvidos por sacos de estopa, com água potável que era abundante em bicas naquele morro. Muita gente ajudava a descarregar os alimentos e estocar no salão do clube, protegendo da chuva, e depois esses alimentos eram levados pelos helicópteros e descido com cordas em prédios, em hospitais e outros morros onde havia necessidade de alimento e de água.

Certa tarde nos poucos dias em que ficamos naquele morro, uma pessoa chega e diz, que havia morrido uma senhora que tinha estado muito doente há dias. Pelo rádio informei à central que estava no Quartel do Exército, o 23º BI, e depois de uns minutos de consulta às autoridades que lá estavam, a central informou que deveria ser datilografado um termo de responsabilidade com o nome da pessoa falecida, a identificação de familiares com endereços e a pessoa enterrada em saco plástico em um local do morro, devidamente sinalizado, e após a catástrofe deveriam ser levados os documentos ao Fórum da cidade. As pessoas que ouviam, em volta de minha barraca, pelo rádio amador, caíram na risada porque estávamos ali com um bloquinho de anotações, um caderninho e uma caneta. A central não se tinha dado conta que estávamos em uma catástrofe e que não havia como datilografar em 3 vias o que eles pediam.
No morro onde estávamos de vez em quando ouvíamos um barulho forte e pelo binóculo foi verificado que o barulho era provocado por botijões de gás levados pela correnteza que batiam com força nos pilares da ponte. E isso era constante, muitos botijões eram levados pela correnteza. Passava também gado morto e muitos galhos de árvores. No segundo dia, quando muitos já não tinham alimento, foi organizada uma equipe do nosso morro para fazer uma busca nos trechos da estrada que eram mais elevados e não havia água da enchente, mas que estavam com alguns caminhões presos entre as águas. Foram encontrados dois caminhões, um com arroz e sacos plásticos e outro, frigorífico, com frango congelado. Através do rádio amador e da central que comandava as ações de socorro á população, conseguimos que os donos das mercadorias cedessem os alimentos e na cozinha do clube, onde havia panelões, mulheres voluntárias começaram a fazer comida para as muitas pessoas que estavam naquele morro e sem alimento. O cardápio era "muito variado" duas vezes ao dia: arroz com frango, sem tempero que não havia e para variar na segunda vez era frango com arroz. Naquela situação de catástrofe qualquer coisa era usada para relaxar as pessoas, até rir do "cardápio". Lembro que as pessoas comiam como se estivessem comendo um banquete, com a fome que estavam, comiam com as mãos mesmo, com a comida colocada em saco plástico. Depois, com a chegada dos helicópteros, muito daquele arroz e frango foram enviados a outros morros, hospitais e outros locais onde havia necessidade.
Outra coisa de que me recordo é que com o passar do tempo e o nível da enchente não abaixava, devido a ter encontrado maré alta na foz do rio lá em Itajaí, segundo as informações que vinham pelo rádio-amador. As pessoas começavam a ficar apreensivas, perdendo a esperança, algumas até mais nervosas, algumas tinham crises de choro e houve até casos de histerismo, com descontrole, e tivemos que organizar grupos de pessoas mais calmas para poderem ajudar as pessoas a se acalmarem, ficando conversando com elas, tentando dar um pouco de esperança. Como eu atuava em clínica psicológica, nessa época, dei as orientações básicas para os que iam ajudar. Outra coisa que aconteceu, curiosa, é que um casal de namorados foi encontrado em atividade sexual e algumas pessoas foram à barraca do rádio-amador perguntar o que deveria ser feito. No morro estava presente um delegado de polícia, que sempre estava pela barraca, ajudando nas transmissões e ações, e após uma conversa rápida, decidiu-se que nada seria feito, somente para as pessoas pedirem ao casal para irem para um lugar mais reservado, já que eram jovens maiores de idade... O interessante, do ponto de vista psicológico e sociológico, é que naquela situação de catástrofe como a dessa enchente de 84, as pessoas pareciam voltar a um comportamento de "tribo", primitivo, perdendo o "verniz da cultura e do aprendizado social" e as "convenções sociais", mudando para outro estilo, onde em vez de decidirem por si mesmas, queriam que "alguém" (alguma autoridade) decidisse por elas. Era também um modo de elas conversarem com pessoas, sentindo-se um pouco mais protegidas , diminuindo a insegurança que sentiam. Aí está um bom tema comportamental para pesquisadores examinarem em épocas de catástrofe coletiva.
Lembro-me também que pela "rodada botina preta" que acontecia todo dia às 18 horas, pelo rádio amador, com exame do que acontecia nos morros onde havia rádios-amadores, e com informações das autoridades que comandavam as ações de socorro á população, era a única hora em que se ficava sabendo das notícias e dos acontecimentos. As 18 horas as pessoas ficavam em volta do meu rádio-amador, estavam ávidas em querer saber o que estava acontecendo na cidade. Na "rodada botina branca" que ocorria após a primeira de informações gerais, médicos davam orientações a casos específicos aos vários postos de emergência.
- Outro fato que me lembro este a meu ver, grave, é que nas primeiras horas da grande enchente, todo mundo gritava para que não se encostasse às águas porque parecia que ela estava com eletricidade, pois segundo corriam as notícias, a rede elétrica de alta tensão não havia ainda sido desligada e alguns fios já encostavam nas águas, um perigo. - Esses acontecimentos e muitas outras anotações que fiz naqueles dias, depois de passadas a limpo, entreguei ao comando do 23º BI do Exército quando houve uma reunião após a catástrofe, com todos os rádios-amadores dos diversos postos de emergência. Anotações e sugestões práticas, como por exemplo, o quartel mapear melhor a cidade para se ter melhor condição de enfrentar futuras catástrofes como a de 84, com anotações e mapeamento onde há bicas de água potável, por exemplo, já que em uma catástrofe a água potável é essencial. Lembro-me que uma das sugestões foi fazer pelos morros que circundam a cidade de Blumenau, um caminho, ou picada onde se pudesse haver deslocamento de equipes de socorro pelo alto dos morros. Estabelecer em pontos estratégicos em morros ou outros locais, lugares para atender a população que se deslocariam para esses locais em caso de enchentes. E que nesses locais as bicas de água tivessem uma canalização (com canos ou bambus, para que maior número de pessoas pudesse beber água). Outra sugestão é que a cidade não permitisse que lojas que comercializavam botijões de gás ficassem muito perto do rio, para evitar que os botijões fossem levados pela correnteza e afetassem a estrutura das pontes. - Sugestão dada também, para que fosse estabelecido onde ficaria a central de atendimento, via rádio amador ou outro sistema, para evitar "briguinhas" entre o poder executivo da cidade e o comando do 23º BI, como ocorreu em 84, briguinha pelo rádio, acompanhado por todos os que ouviam nos postos de emergência. Em situações de emergência, alguém tem que comandar e tem que ser gente com experiência em enfrentar catástrofe e, certamente, a pessoa mais indicada não seria um político que administrava a cidade e que nada tinha experiência de enfrentamento de catástrofe. Nessa hora um militar com experiência de enfrentamento de crises certamente seria a pessoa mais indicada. Egos têm que ser deixados de lado nessa hora de crises e decidir logo de uma vez quem irá decidir as ações efetivas para enfrentar a situação. O povo merece melhor organização dos poderes constituídos, seja civil ou militar, para que não sofram tanto com catástrofes como a de 84.
- Logo após a enchente, concluí que não havia mais condições de trabalho na cidade, porque eu atuava em Clínica Psicológica, com grande parte do atendimento a empregados das empresas, e a maioria das empresas tinha sofrido com as enchentes e ficaria parada por longos meses. Saí da clínica onde eu era sócio, encerrando a sociedade ltda que tinha com outra sócia, psicóloga. Então, coloquei a casa nova, recém-construída, à venda, e que foi comprada em menos de um dia por um empresário da cidade (cuja casa tinha sido totalmente coberta pelas águas), e como no campo familiar minha esposa também não queria mais ficar na cidade, resolvemos retornar para nossa cidade de origem, em Lorena, SP, em busca de outra região onde eu pudesse realizar trabalhos profissionais. Devido a isso não acompanhei as ações feitas na cidade após a catástrofe de 1984. Acredito que tenham sido feitos planejamentos mais eficazes para que em futuras catástrofes, as ações fossem melhores.
Atenciosamente,
Antonio de Andrade.
e-mail:opcao@editora-opcao.com.br
Lorena, SP, Brasil
Arquivo de Adalberto Day

3 comentários:

Antonio de Andrade disse...

As lembranças que minha filha comentou em seu blog não são as de 84, são lembranças de outra enchente que ocorreu na véspera do Natal, do ano que não me recordo. Essas lembranças misturadas a outras de enchentes é coisa normal, afinal nos anos em que residimos ai pegamos umas 8 ou 9 enchentes, sendo as piores as de 83 e 84. A casa que ela se refere no comentário dela, era a que residia na época, ficava no final da Rua Alwin Schrader e pegou água no primeiro andar pela metade da janela e eu e a esposa ficávamos em cima de uma mesa, com lanternas para afugentar pessoas que chegavam de canoa para tentar roubar alguma coisa. No morro em frente morava uma vizinha que acolheu meus filhos nos dias da enchente. Foi um Natal muito triste para todos porque estávamos com água em toda a casa, mas apesar da tristeza pudemos alegrar os filhos na noite de Natal, como ela se lembrou. Logo após essa enchente mudamos para um apartamento e mais tarde iniciei a construção da casa que cito em meu texto sobre a enchente de 84.
Andrade

Anônimo disse...

José Geraldo Reis Pfau diz
"Excelente documento e perfeito relato do Sr. Antônio de Andrade, mais um dos anônimos heróis que ajudaram a nossa Blumenau naqueles momentos difíceis"

Em Tempo SC disse...

Parabéns pelo post. É a história viva de Blumenau e Vale do Itajaí. Históriacomo estas devem permanecer vivas na memória do blumenauese.

emtemposc.blogspot.com

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