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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

- Onde rola a bola

“Em histórias de nosso cotidiano, apresentamos Flavio Monteiro de Mattos (foto), carioca de nascimento e BLUMENAUENSE POR OPÇÃO”, contando um pouco de suas lembranças quando vinha do Rio de Janeiro visitar Blumenau, com sua família.

ONDE ROLA A BOLA, TODO MUNDO VAI ATRÁS!
Sou de uma época em que o futebol era a principal diversão dos garotos da maioria das cidades brasileiras e a postagem “Futebol anda de trem” do cronista José Geraldo Reis Pfau " Zé Pfau" me fez reviver um pouco desse tempo.
Fosse onde estivesse, fanáticos como eu davam um jeito de jogar uma “pelada” (termo empregado na época), desde que para isso houvesse ao menos um parceiro. O resto era detalhe. A bola, necessariamente, não precisava ser uma bola tradicional, bastava algum objeto que pudesse ser chutado e aí eram considerados desde uma pequena pedra, passando por chapinhas de refrigerante (dava-se esse nome às tampas, que eram de metal chanfrado), caixas de papelão e, claro, as amadas bolas, de couro plástico ou até as feitas com meias. Os “campos” variavam desde quartos, corredores, garagens, calçadas ou pátios e as disputas tinham formatos variados: desde o rudimentar “gol a gol” (com apenas dois “atletas”, um chutando para o outro, alternadamente), duplas ou times. O tempo de duração da competição era totalmente imponderável. Podia ser breve por conta da “bola” improvisada desfazer-se e não haver outra disponível, ou ainda muito breve, interrompida por alguém extra-campo que constatava assoalhos arranhados; copos, vasos, cinzeiros, vidraças atingidos por “boladas”, ou ainda as sumárias, interrupção da disputa por um dos “atletas” machucados e/ou “desgaste do material“ – rasgos nas roupas, destruição de sapatos.
Mas sem dúvida era tudo muito simples se comparado às exigências de hoje. Aconteciam em função da oportunidade – dois ou mais “jogadores” disponíveis -, e capacidade de improvisação dos “atletas” – balizas, a bola e uniformes, geralmente eram os sem camisa contra os de camisa.

O passar do tempo e uma maior autonomia de ir e vir foram responsáveis por uma mudança de status das disputas e a orla marítima do Rio passou a ser o novo palco desses “atletas”. As “peladas” continuavam sendo disputadas nas suas variadas formas, mas a areia abria um “novo” formato de participação para os que evoluíram nos fundamentos demonstrassem habilidades, que era a chamada “linha de passes” (ou “modernamente” batizada de altinho). O objetivo era a troca de passes sem deixar a bola tocar no chão, tendo o chute liberado ao arco quando o número de toques fosse igual ou maior do que o número dos atletas presentes. Se resultasse em gol, o escalado para o gol – tinha que haver um! - permanecia de castigo debaixo das traves. Haviam duas únicas oportunidades de deixar o castigo e integrar a linha: o goleiro defender o chute ou que fosse para fora.  
O futebol de areia foi fundamental para definir se você levava jeito para a coisa ou deveria procurar outro esporte. Muitos dos que se tornaram profissionais vieram do futebol de praia e entre eles, os que voaram mais alto foram o Paulo Cesar Cajú, Júnior, Edinho, que atuaram nos campos do Colúmbia (Leblon), Lagoa (Ipanema), Tatuís, La Vai Bola, Juventus, Radar, Copaleme (Copacabana), entre outros.
O futebol de areia também foi a escola para alguns juízes que se destacaram no futebol de campo. Entre eles o que mais alcançou fama e prestígio foi o Arnaldo Cesar Coelho. Entre os folclóricos o mais lembrado foi o Jorge Emiliano dos Santos, o Margarida, homossexual assumido.
Mas não pensem que era fácil apitar na areia, pois não era mesmo! Não havia arquibancadas, curralzinho vip ou sequer policiamento, por isso era muito comum ver vários árbitros encerrarem as partidas próximos ao mar, que era a única rota de fuga disponível para escapar dos torcedores e jogadores inconformados com as atuações das “vossas senhorias”.
Deverá estar se perguntando o leitor o que o futebol de areia tem a ver com Blumenau, que nem praia tem, exceto a prainha do rio Itajaí.
Acreditem, prezados leitores do prestigioso blog do Amigo Adalberto Day, que este que vos escreve testemunhou em Blumenau o mesmo afã da “piazada” local no que diz respeito às disputas de suas “peladas”.
O primeiro palco que conheci em Blumenau foi a casa dos meus parentes na Alameda Rio Branco, que ainda está de pé. Os “jogos” aconteciam em um pequeno gramado lateral onde se estendiam roupas, cujas dimensões eram totalmente adequadas ao porte dos “atletas” da época. Comportava times com até quatro ou cinco jogadores de cada lado e os suportes dos varais serviam como balizas.
Quando o “campo” era ocupado pelas roupas postas para secar, utilizávamos a área em frente à garagem, que reduzia significativamente o número de jogadores por time e até mesmo a própria garagem, nos dias de chuva. Na impossibilidade do uso desses “estádios”, as “peladas” aconteciam ainda na rua lateral, que se a memória não falha era a continuação da Rua Paraná. Esse trecho da rua não tinha saída e o piso era de terra e as muitas pedras no chão, pequenas é verdade, provocavam dor quando as pisávamos descalços. Por várias vezes tentei retirar as maiores do “campo”, mas as esquecia por completo quando começava o “jogo”.
Havia ainda outro detalhe que nos fazia evitar a rua terra, além das eventuais interrupções por conta da passagem de veículos dos moradores. Era quando a bola caia no jardim da casa da temida fräu Scholz, que nos espreitava de uma das janelas. Decidia-se quem seria o corajoso na recuperação da bola no par ou impar, mas bastava que o valente pulasse o muro para que a dona da casa aparecesse, esbravejando em alemão palavras que aos meus ouvidos soava como uma real ameaça à nossas vidas. Meia hora depois já estávamos lá novamente...
Depois de um tempo as dimensões do campo da casa dos parentes não comportavam as estaturas dos “atletas”, lembro ter jogado algumas vezes em um terreno gramado que existia no Olímpico, para além do campo oficial e na direção no ribeirão Garcia, acredito.
O terreno ficava em um nível inferior aos demais e olhando de lá na direção da Alameda, somente se via as últimas fileiras da arquibancada coberta e o muro da rua parecia gigantesco.
O “campo” era comprido, porém estreito e um chute transversal jogava a bola no mato, que era alto e dificultava a recuperação do esférico. Creio que dali avistava-se o ribeirão Garcia, mas era certo ouvir o ruído de suas águas fluindo.
São também dessa época as lembranças das “peladas” ocorridas em um campo verdadeiro com balizas e tudo, que ficava atrás do prédio que foi o primeiro ginásio do Estado, do antigo Clube de Ginastica de Blumenau -  atual de propriedade do Colégio Pedro II. Não lembro por onde era o acesso, entretanto é quase certo que após o campo havia uma grande construção, que não lembro como era utilizada.
Com a mudança dos primos para uma casa na Frederico Guilherme Busch, não dispúnhamos de área como a da Alameda, em compensação havia um terreno desocupado em uma das esquinas da Rua Nereu Ramos com uma de suas transversais que se transformou quase em um estádio permanente. Primos, amigos dos primos e amigos dos amigos dos primos puseram balizas e mesmo com um chão de terra era ideal para a prática futebolística. Partidas disputadas sob a chuva ou debaixo dos súbitos temporais que comumente desabavam nos dias abafados de verão eram saudados quase como os praticantes de esportes de inverno saúdam a neve, muito mais pela diversão de patinar na lama do que jogar futebol, propriamente dito.
Ficávamos imundos e nossa entrada em casa somente era liberada após um banho de mangueira para tirar o grosso e sempre ouvíamos o alerta de que um dia um de nós seria atingido por um raio, que felizmente nunca aconteceu.  
E esse deveria ser o caminho traçado de alguns dos que vi jogar no Olímpico, que levavam um número significativo de torcedores ao estádio da Alameda, que ficava tomada por carros, lambretas e bicicletas dos que vinham prestigiar o evento, lotando não somente as arquibancadas cobertas, mas também em torno do alambrado que cercava o gramado. Ficava-se tão próximo do campo que se ouvia claramente o barulho dos chutes mais violentos, das disputas pela bola ou dos gols, quando as redes recebiam o impacto da bola. Nas partidas noturnas, as lâmpadas dos refletores atraiam uma infinidade de insetos e lembro algumas partidas disputadas sob chuva, com os jogadores enlameados deixando a cancha ao término das partidas.
Como disse a crônica do "Zé Pfau" que inspirou tais lembranças, ouso acrescentar que não somente o futebol andava de trem, mas também de carro, motos, bicicletas, a pé ou qualquer outro meio de locomoção, todos válidos para se torcer por nossos times de coração.

Flavio Monteiro de Mattos
Referencias: 
- Columbia Praia Clube - http://blogdoiata.com/?p=2200
- Paulo Cesar Lima (Caju) - http://oglobo.globo.com/blogs/blog-do-caju/ 

6 comentários:

Djalma Fontanella disse...

Bom dia a todos. Boa postagem este relato. Não vi Junior, pc Caju, mas vi Bigo, Nene, Ticanca, e nois no campinho do 12 aos sabados a tarde, torneios disputadissimos valendo ums...garrafa de capilé, que eram celebrados e bebidos la no poço do Oswsldo Malheiros. Cads região com suas memorias, cada memória com seus idolos.

Nilton Sérgio Zuqui disse...

Meu caro Adalberto,
É sem duvidas um excelente texto, pois tenho certeza que para vc é sempre muito prazeroso escrever ou falar de futebol, seja ele amador ou profissional.
Não conheço o Sr. em destaque neste texto, mas ao ler o mesmo não teve como não lembrar como fazíamos as nossas bolas. Juntávamos os papéis dos lanches na escola, formando então uma BOLA, e então envolvíamos a mesma em pacotes de leite(TREVO)pois eram plásticos bastante resistente, durava o recreio kkkkk, mas lembrei deste tempo também , parabéns uma excelente lembrança.

Alexandre disse...

Adalberto, Bela história. Bons tempos os que jogávamos futebol despreocupados. Hoje não temos mais "campos", tampouco amigos nas ruas...
Alexandre Farias

Zé disse...

Bela crônica Beto e Flávio.
Um relato que nos remete nossa infância nos tempos do 12 ou Morro na Rua Almirante Saldanha da Gama. Tinha a turma da Velha Guarda, O Valter, Walfrido, Dedé, Aurélio, Dico e tantos outros, e depois a nossa turma Alvinho,Calinho, Sylvio,Zinho, Tide e tantos outros. Lembras do Sr. Hipólito que recolhia as traves do campinho? kkk. Bem mas a crônica do Sr. Flávio é muito boa nos faz recordar de tantas coisas boas. Claro que não jogamos nos campinhos do centro e nem sabia da existência desses citados. Fiquei sabendo outro dia em seu blog e entrevista na TV que o primeiro campo de Blumenau se localizava ali onde hoje é a Casa do Comércio, que foi o antigo Cavalinho Branco e anteriormente hotel e Maternidade. Belos tempos.
Parabéns a ambos
do amigo José Abreu.

Saulo disse...

Adalberto e Flávio Joguei muito nestes campinhos de barro, arrumávamos qualquer coisa para a rede, a bola cai suave, eram grossas!
Saulo Ramos Raitz ‏

Valdir Salvador disse...

Pos é amigo Beto, eu pouco posso opinar sobre futebol pois não era o meu fraco,mas nos corriamos ali mesmo em frente de casa na rua do Fifa hoje Belo Horizonte,éra a tradicional bola feita com uma meia cheia de papel ou capim,o ploblema era pegar de volta depois de varias vezes cair no quintal do vizinho,e o cachorro ficava em baixo do soalho da casa so esperando, mas o nosso passatenpo era artistico , éra fazer circo tourada, e torear o cabrito do Sr José Oliveira,pai do Bernadino e o seu irmão Alidor,era divertido e ganhavamos dinheiro cobrando entradas, as famosas moédas de 0,10 e 0,20 centavos do Getulio tenho dito abraços Valdir Salvador.

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