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quarta-feira, 3 de abril de 2019

- Barracão dos imigrantes

OS PRIMEIROS TEMPOS em Blumenau
José Ferreira da Silva 
Reprodução
Pelos relatórios deixados pelo Dr. Hermann Blumenau podemos, hoje, fazer urna ideia, mais ou menos exata, de corno foi formado o povoado que ele fundara às margens do Garcia e do Velha e certas particularidades da vida da Colônia que, de outra forma, se teriam perdido para a posteridade. Mas houve, também, visitantes e colonos que escreveram muita coisa interessante a respeito dos primeiros anos de Blumenau. Nesse particular, algumas cartas de colonos a amigos seus, na Alemanha, e a parentes são muito preciosas. Felizmente, muita coisa ainda nos ficou a esse respeito. Em 1903, um antigo colono de Blumenau publicou num Calendário, escrito em alemão e editado em Joinville, urnas memórias muito pitorescas a respeito das impressões que lhe ficaram da sua chegada à nascente povoado do Dr. Blumenau. Convém traduzir uns trechos dessas memórias. Esse colono, cujo nome, entretanto, não consta do escrito, chegou a Blumenau em 1856, juntamente com outros imigrantes, que formavam um pequeno grupo, e os quais eram tratados, pelos que já aqui se achavam estabelecidos, de "alemães novos". Eram todos bem pobres, corno era a grande maioria dos imigrantes que para cá veio, mas agricultores ativos e trabalhadores. Era verão, bem próximo do Natal, quando eles chegaram à chamada "Stadtplatz", que quer dizer local da cidade, que nada mais era do que a sede da Colônia.
Reprodução
E o colono acrescenta ironizando: "0 local, sem dúvida, estava ali à vista, mas a cidade, onde estava?" E continua: "Desta nada se via. Havia urna única construção a que se poderia dar o nome de casa. Nela estava instalado o único negócio do lugar, ou melhor, de toda a Colônia e também o escritório do Diretor da Colônia. As outras moradias não eram mais que miseráveis choupanas, algumas ainda abertas, cobertas de palha. Algumas dessas edificações, legitimamente brasileiras, estavam ocupadas por urna companhia de soldados que ali se encontravam corno guardas de proteção contra eventuais assaltos dos bugres. Mas a sua principal ocupação consistia em caçar e pescar e, quanto ao mais, eles ficavam afastados dos imigrados o mais possível. Para o povoado mesmo eles eram realmente urna proteção que não era para se desprezar, mas os colonos do interior, mais distantes da sede, esses teriam que se proteger por si mesmos. Onde hoje se erguem prédios majestosos, havia, então, só mato, árvores ao lado de árvores, a floresta virgem. Nesta, os macacos e muitos outros animais se amontoavam, apesar dos muitos caçadores que havia. Não muito longe da foz do Garcia no Itajaí, ficava a casa mais importante para nós, recém-vindos: o barracão dos imigrantes". Antes de irmos adiante com a descrição desse barracão, precisamos dar alguns esclarecimentos para a melhor compreensão da narrativa do nosso colono. A única casa da povoação que merecia mesmo esse nome e onde o autor diz que estava instalado o escritório do Dr. Blumenau, fora a primeira casa de alvenaria construída em Blumenau e ficava ao lado do atual prédio da Biblioteca Pública. Era urna casa de dois andares, construída, em 1852, por Guilherme Friedenreich, que viera dois anos antes, com os 17 imigrantes, fundadores de Blumenau. Nessa casa, realmente, o Dr. Blumenau alugara dois quartos: Um para o seu escritório e outro para uma venda que fornecia aos colonos gêneros de primeira necessidade e outras mercadorias. O barracão de imigrantes ficava, mais ou menos, onde hoje está (esteve) a estátua do Dr. Blumenau, no começo da rua das Palmeiras.
 

Na Alameda Duque de Caxias (permanência de 32 anos - de 1967 a 1999)
Foto - Arquivo H. José Ferreira da Silva
Vamos ver como o nosso colono-escritor descreve esse barracão: "0 aspecto dele não era muito convidativo. Tanto no exterior, como no interior, a sua aparência era das mais lamentáveis. Era cumprido e estreito e dividido em muitos compartilhamentos que parecia mais currais de ovelhas que outra coisa. naturalmente, havia sido construído só de palmitos e a cobertura era de folhas de palmeira. As paredes eram de pau-a-pique e haviam sido uma vez cobertas de barro. Mas como, de tempos em tempos, o Garcia transbordava, provocando enchentes que atingiam o barracão, o barro havia caído e jazia, misturado com lama, no chão, dentro e fora do barracão. Janelas e gateiras tinham sido julgadas desnecessárias e a porta ainda não havia sido colocada na abertura a qual, assim, fornecia uma farta ventilação para o interior. O soalho era de terra batida, que haviam esquecido de aplainar. E, para completar o quadro, uma junta de bois havia feito do Barracão seu quartel general e os quais, de quando em quando, inundavam de um para outro compartilhamento, deixando em cada um deles evidentes e legítimos sinais de sua ocupação. A pobre construção fora demolida "Casa de Recepção de Imigrantes" e as respectivas divisões eram chamadas quartos. Os imigrantes recém-chegados, por felicidade, não haviam ainda esquecido os trabalhos que haviam passado a bordo do navio que os trouxera e por isso ocupavam o barracão sem reclamar. Somente alguns, que, na Alemanha, tinham visto melhores dias, estavam a resmungar coisas que, certamente, não eram lá muito lisonjeiras. Mas, de que poderia servir agora? Agora era tocar para diante e levar tudo pelo melhor, com paciência e alegria. E, realmente, as coisas se sucederam de maneira melhor do que a esperada. Uns ajudavam os outros a suportarem e a se acostumarem à nova pátria e ao novo lar e, em pouco tempo, também o Barracão se tornara habitável e suportável. Realmente, para nós, que tivemos que ocupar o barracão de imigrantes, foi aquele, o pior tempo que passamos. Não havia ajuda pecuniária por parte do governo; a maioria era paupérrima e alguns até estavam carregados de dívidas quando aqui chegaram e trabalho renumerado era bem raro. Ainda por cima tínhamos que suportar um calor medonho e prolongado, os insetos de que a gente não sabia como se livrar, a mudança de alimentação, os inconvenientes da aclimatação etc. Muitos também sentiam saudades. Mas, o remédio era fazer tudo por acostumar-se. Para alguns a coisa foi fácil. Mas outros, só a duras penas, com muitas lágrimas e suspiros podiam esquecer a velha Pátria distante que nunca mais veriam. Realmente, é duro destacar-se da terra em que se nasceu e onde se passou a mocidade." Eis como o nosso colono-escritor viu e sentiu os primeiros anos de Blumenau. E, como ele, todos os que para cá vieram, tiveram os seus dias de tristezas e sofrimentos até que pudessem contemplar,
felizes, a grandeza da nossa terra e também fruir do bem-estar de nossa gente.
Para saber mais sobre a história de Blumenau acesse:
Revista Blumenau em Cadernos – Julho de 1968 Páginas 122,123.

2 comentários:

sergio luiz buchmann disse...

Bom dia Professor! Só me resta dizer de toda a minha admiração,respeito por esses imigrantes. Vieram do tudo pra o lugar algum e lutaram muito por suas vidas e fazer de Blumenau e região o que temos nos dias de hoje. Obvio que muitos anos se passaram,mas sem a luta e muito trabalho dos que vieram primeiro o que seriamos hoje? E também meu agradecimentos aos historiadores,poie se não fossem eles não teríamos tão belas historias,e nos faz crescer ainda mais como seres humanos. Obrigado Professor e meus agradecimentos a todos. Grande abraço!

Marilene disse...

Excelente relato.
No Brasil ainda existe assoalhos de terra batida.
Barro branco na parede, casa de pau a pique.
Chão limpinho, encerado com fezes de boi.

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