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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

- Crônicas de Helga Erbe Kamp

Em histórias de nosso cotidiano apresentamos hoje duas crônicas da senhora Helga Erbe Kamp.

Marga Helga Erbe Kamp nasceu em Brusque no dia 13 de março de 1932. Estudou canto lírico e línguas estrangeiras e é diplomada em Inglês pela Cambridge University e Southern Illinois University. Primeira franqueada do Instituto de Idiomas Yázigi em Brusque, em 1969, e Blumenau, em 1980, ensinou inglês de 1966 a 1997. Após aposentadoria, é tradutora do inglês, francês e alemão para o vernáculo, em conjunto com seu marido, Ernst Otto Kamp.
 É autora de Micki - Passagens e Paisagens de minha vida – crônicas autobiográficas, publicado em 2012.
Atualmente dedica-se à criação de novas crônicas, bem como à pesquisa e organização de documentos históricos da família.

NA PRÉ-ESTREIA DA ÓPERA ANITA 
Minha amiga Inge Schelling e eu não perdíamos um único espetáculo ou concerto no Teatro Carlos Gomes nos anos em que éramos colegas de ginásio em Blumenau, até o ano de 1947.
Para o ano seguinte, os seus pais decidiram matriculá-la no curso de Economia Doméstica em Novo Hamburgo, enquanto eu optara - ou foi a proposta de meus pais - pelo Curso Colegial no Colégio Santo Antônio.

Em 1950, contudo, eu já estava estudando no Colégio Estadual do Paraná. Por quê? Porque este colégio recém-inaugurado me atraíra por oferecer uma piscina olímpica! E eu via ali a possibilidade de desenvolver meu sonhado potencial de nadadora!  Mas, a comemoração do Centenário de Blumenau foi razão suficiente para que Inge e eu estivéssemos em Blumenau durante aquela semana de festejos.
E, era lógico que fôssemos assistir ao ensaio geral, na véspera da estréia. (Embora não me recorde de ter assistido à estreia no dia seguinte, 2 de setembro.)
Imaginem! Uma ópera sobre a história de uma heroína catarinense, composta pelo Maestro Geyer, dirigente da Orquestra Sinfônica do Teatro Carlos Gomes local! Ela iria ter a sua gloriosa estréia em Blumenau, no próprio dia em que se comemorava o centenário de sua fundação!
 
Foto Blumenau Antigamente em Blumenau, de Fritz! Danke, Fritz
Mas, voltando ao assunto do título deste relato: A Ópera Anita era uma obra grandiosa, suas melodiosas árias, nascidas dos delírios do maestro e compositor Heinz Geyer, então dirigente da Orquestra Sinfônica do Teatro Carlos Gomes. O roteiro baseava-se em literatura existente sobre o aventureiro Garibaldi e sua valente companheira, Anita de Jesus, a “heroína de duas pátrias”.
O Maestro havia conseguido contratar como diretora artística Alícia Pincherle, renomada empresária teatral de São Paulo. Se me recordo bem, ela havia nascido na Croácia, crescera e casara em Trieste, transferindo-se com seu esposo e seus dois filhos para o Brasil, no início da Segunda Guerra Mundial.

Quatro anos depois, em 1953, quando eu já trabalhava na Exprinter Turismo, na movimentada Rua Barão de Itapetininga na capital paulista, ela me havia sido indicada como a melhor professora de canto lírico em São Paulo. De pele alva e faces rosadas, um corpo de matrona. Os longos cabelos de um cobreado que lembrava as voluptuosas figuras femininas das telas de Ticiano, presos em uma grossa trança!
Como sua aluna, eu não só conheci e cheguei a ver sua filha Nydia Lícia como atriz dramática no palco do teatro Sérgio Cardoso – essa casa de espetáculos tinha o nome do seu marido, um então aplaudido, intérprete de Hamlet de Shakespeare – ela nessa hora como poderoso soprano dramático, interpretando “Gretchen am Spinnrade”, um dificílimo Lied de Schubert. Com merecido orgulho, Dona Alícia me contou que sua filha havia, há alguns anos, tido a oportunidade de cantar para o então maior tenor operístico do mundo, Bengiamino Gigli.
O filho de Dona Alícia, Lívio Túlio, era psiquiatra. O seu marido, radiologista. Na época, com dedos terrivelmente deformados, já então vivia numa cadeira de rodas.
Atores e atrizes eram discípulos de impostação de voz e dicção de Dona Alicia. Lembro ter assistido aulas dadas por Dona Alícia aos famosos nos palcos paulistanos da época. Lá estavam John Herbert, Eva Wilma, a ‘musa’ da época, Cacilda Becker e sua irmã, Cleide Yaconis. Devo à exigente professora a habilidade que também a mim foi útil mais tarde, não só como cantora, mas também como professora de inglês que fui durante quase trinta anos.
 
Pois então: Em 1950 a montagem cênica de "Anita" fora obra de Da. Alicia Pincherle como diretora artística.  Meu primeiro professor de canto lírico em Blumenau, Lubo Maciuk, havia assumido o papel do herói Garibaldi, enquanto Norma Cresto interpretava a valente guerreira, a heroína Anita. (Lubo Maciuk era tenor, não? Garibaldi, um tenor? Estranho...) A jovem soprano blumenauense Leonor Lídia Fuchs fazia o papel de Maria da Glória, a confidente de Anita. A sua voz era muito bonita, contudo percebia-se que era delicada demais para a acústica do amplo auditório do Teatro Carlos Gomes que pouco corroborava com o transporte do volume de sua voz tão meiga.
O filho psiquiatra de dona Alicia, Lívio Túlio, pelo contrário, enchia o ambiente com sua poderosa voz de barítono.  Hoje sei que Vitor Bona e Caetano de Figueiredo, ambos conhecidos meus, interpretavam figuras do “casting”, lembrança que me escapara.

Por outro lado, lembro perfeitamente daquela noite da pré-estreia: o maestro e Da. Alicia correndo de lá para cá, a orquestra interrompendo a execução em alguma parte, aguardando que o maestro ou Da. Alice dessem suas instruções do que deveria ser corrigido ou melhorado. A platéia - lembrando-me especificamente de Da. Eva Gross Schelling, mãe de minha amiga Inge, ao lado das Sras. Paul e Vitor Hering - aos cochichos e risadinhas discretas, observando e trocando comentários de todas as nuances.
Ao fim das três, em vez de duas horas, até nós duas adolescentes não tínhamos muita certeza sobre a esperada e desejada longevidade da ópera. Eu, pessoalmente, apenas me lembro da delicada Ária "Anita, oh doce Anita", cantada por Maciuk.
Maestro HEINZ GEYER
Quem sabe, talvez hoje “Anita”, com alguns retoques, com a evolução da arte operística, cênica, de dramaturgia, acústica e de sonografia, conseguisse um público que aplaudisse entusiasticamente uma apresentação esmerada. O roteiro e a própria obra bem o mereceriam.
Contudo, desconheço algum esforço nesse sentido, para ressuscitar esta obra memorável do Maestro Heinz Geyer.
Postscripto 
Em 1985, por ocasião de nossas bodas de prata, lá veio a amiga Inge com uma maravilhosa coroa de flores do campo para eu usar sobre minha cabeça aquela noite! A comemoração da grande data festiva não teria sido a mesma, sem aquela demonstração de afeto e dedicação da amiga de longa data.
  Em março de 1992 eu estava comemorando os meus 60 anos. É claro que minha fiel amiga também chegasse de Blumenau para a festa. (Ela havia se casado com Igor von Hertwig, meu colega de classe no Colégio Santo Antônio) Em 1968 havia caído sobre ela a escolha para batizar nosso quarto filho – e que madrinha dedicada foi!
 Naquele dia 13 de março ela trazia nas mãos uma enorme torta de mocca - a sua especialidade com o número “50” caprichosamente desenhado em letras de chocolate sobre a cobertura da apetitosa torta.
- Tia Inge, mas mamãe faz sessenta anos hoje, e não cinquenta! Observou nossa filha Anja.
- Eu sei, mas faz cinquenta anos que sua mãe e eu nos conhecemos durante a temporada de verão em Cabeçudas. Portanto, esta torta quer lembrar que estamos também comemorando os cinquenta anos de nossa amizade.
Amiga fiel e querida!
A saudade me aperta o coração.
Pois Inge foi, já poucos anos depois, viver em outras dimensões.                                                
No sótão de Tante Nanny.
09/05/2013
No ano de 1949 eu cursava o primeiro ano do Curso Científico, isto é, o nono ano do segundo grau, no Colégio Santo Antonio em Blumenau, dirigido pelos Padres Franciscanos.
Tante Nanny era a irmã da avó de minha grande amiga Inge,  a escritora de romances Gertrud Gross, e autora de peças teatrais que costumavam ser apresentadas no teatro Frohsinn antes do ano de 1937.
Tanto Tante Nanny Poetig, como Frau Gross, eram da segunda geração dos Hering, cujos membros habitavam vistosas mansões na Rua Bom Retiro.
A septuagenária Tante Nanny compartilhava a mansão de três pisos com uma senhora de idade semelhante, a Frau Liese.
Não me recordo através de que passos diplomáticos da mãe de minha amiga Inge, filha de Gertrud Gross, eu fui aceita como pensionista pela Sra. Poetig.
A sua casa nesta rua ainda lá está, entre uma série de vistosas mansões da Belle Époque.  Todas elas, naquela época, propriedades da segunda geração dos pioneiros Hering,
No terceiro andar da casa então habitada por Tante Nanny pode se ver uma grande torre envidraçada que acabou sendo o meu quarto enquanto pensionista.
O lavabo e banheiro se encontravam no fim do corredor escuro (principalmente à noite!) do segundo andar.
Num pequeno quarto ao lado do meu, contudo, havia uma estante com bacia, jarra e balde, além de um penico, peças importantes para a minha higiene particular.  
A empregada doméstica ocupava um quarto à esquerda do meu.
 No forro do meu quartinho da torre haviam-se alojado algumas famílias de ruidosos morcegos. Após me queixar de que perturbavam um bocado o meu sono noturno, dois empregados da Cia. Hering tiveram sucesso em afastar os indesejados inquilinos do forro.
Antiga Maternidade Johannastift
Dos 180 graus envidraçados da torre tinha-se uma bela vista para as altas palmeiras, o bem cuidado jardim com seus canteiros de roseiras e gérberas, a casa construída por Curt e Johanna Hering (a que patrocinou a edificação do Johannastift, onde eu nasci a 13 de março de 1932) à direita. E do outro lado da rua, a casa construída por Paul Hering para a sua família. À esquerda da casa de Tante Nanny, ficavam as residências de Gertrud Hering Gross e de seus filhos, Ralf Gross, Hildegard Gross (Hans) Kegel e Eva (Max) Schelling.
Um grupo teatral vindo da Alemanha havia anunciado a sua pretensiosa apresentação da primeira parte do drama Dr. Faustus de Goethe, no Teatro Carlos Gomes.
A alta sociedade blumenauense, após o jejum imposto não somente pela Segunda Guerra Mundial, mas já pelos anos após a nacionalização em 1937, avidamente queria aplaudir os atores, mesmo que tivessem dificuldade em entender totalmente a mensagem contida nessa profunda obra de Johann Wolfgang von Goethe.
Muitas famílias blumenauenses ofereceram receber os vários atores como hóspedes em suas residências. Sobretudo todos os Hering. E Tante Nanny mereceu receber em sua casa o ator principal e sua companheira. Esta, acometida de uma forte rinite, em consequência da inusitada umidade do clima blumenauense.
 É claro que Inge e eu fomos ao espetáculo. Faceiras, como sempre, de camarote, naqueles reservados para os mecenas Hering.

Naqueles dias eu fui testemunha, quando Tante Nanny, à mesa do almoço, mencionou a história de sucessos teatrais nos bons tempos do Frohsinn, revelando que, com o encerramento das atividades desta casa de espetáculos, todo o guarda-roupa, espadas, lanças, além de outras armas, armaduras, peças de cenário e tudo o mais, haviam acabado sendo guardados numa parte de seu sótão.
A visível demonstração de curiosidade do intérprete do Dr. Faustus fez com que Tante Nanny se dispusesse a levar o ator - e esta jovem pensionista não menos curiosa - até um misterioso quarto no sótão, até então sempre trancado a chave. Nele se viam, bem protegidas por velhas cortinas e lençóis, as testemunhas da gloriosa história do “Frohsinn”. Eram perucas, espadas, lanças, coroas, trajes, luvas, sapatos e botas e não sei o que mais.
E, ao que hoje chamariam de crime contra o patrimônio cultural e histórico de Blumenau, aconteceu neste momento: Tante Nanny ofereceu - sendo sua generosidade aceita imediatamente com visível prazer - doar todo o acervo existente naquele quarto de seu sótão ao presunçoso intérprete de Dr. Faustus de J.W. von Goethe.
PÓS-SCRIPTO
Nos domingos à tardinha, após o fim de semana com a família em Brusque, quando um ônibus do Expresso Brusquense já me havia devolvido a Blumenau para a próxima semana de aulas no colégio, Tante Nanny me aguardava, sentada em sua confortável sala de estar, ao lado do piano, no qual esta, não muito talentosa aluna de Da. Geninha Tavares, tinha que praticar diariamente durante algumas longas horas. Faz parte de minhas memórias que a tão gentil e compreensiva  Tante Nanny, naqueles fins de domingo sempre encerrava o dia, estendendo-me um delicioso ‘Sonho de Valsa’ da Lacta.
 Helga Erbe Kamp
Arquivo de Carlos Braga Mueller/ Adalberto Day

3 comentários:

sergio luiz buchmann disse...

Crônicas de Helga Erbe Kamp. Não só cultura como aprendizado.História de pessoas q em busca de seus sonhos se superarão, realizaram.E ao ver citar atores , e atrizes como John Herbert, Eva Wilma,Cacilda Becker e sua irmã, Cleide Yaconis.Pessoas q se consagraram na dramaturgia em no País.Hoje ao ver (atores,atrizes)VEMOS só beleza e interpretação numa mesmice, onde interpretam o mesmo personagem,só mudando o nome.Ator , e atriz mesmo não saõ muitos q temos na verdade.E Anita Garibalde, um exemplo de Mulher guerreira, inspiração de Muitas Mulheres ate os dias de Hoje.TEATRO CARLOS GOMES O q dizer? Quantas peças,e apresentações maravilhosas ao longo de sua história.Não posso deixar de citar as dificuldade q os menos favorecidos tinham pra acessar O TEATRO. Eu ate frequentei algumas vezes em época de colégio, outras já adulto quando tinha condições. PARABÉNS PROFESSOR ADALBERTO, SRA HELGA ERBE KAMP POR SEMPRE NOS FORNECER CONHECIMENTO.ME PERMITA DIZER Q TUDO O Q LEIO E COMENTO REPASSO A PESSOAS Q NÃO TEM A OPORTUNIDADE DE LER E APRENDER COM SEU MARAVILHOSO BLOG!ABRAÇO!

Urda disse...

Que delícia de crônicas, senhora Helga e Adalberto!!!
Parabéns.
Urda Alice Klueger

Nilton Sergio Zuqui disse...

Meu caro Adalberto,
Querendo ou não é sim uma excelente historia(cronica) como queiram,o que vale é tirar um tempinho e ler sempre suas postagens,parabéns.

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