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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

- Conspiração em Blumenau?






Em histórias de nosso cotidiano, apresentamos mais uma colaboração de Flavio Monteiro de Mattos.
"Flavio.... Blumenauense por opção , pelo traço do caricaturista chileno Jimmi Scotty, em 1971".
texto sobre suas andanças por Blumenau e região.

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UMA CONSPIRAÇÃO DOS DEUSES NO CAMINHO DE BLUMENAU

No início da década de 70 - o ano exato não recordo – um dos primos blumenauenses veio estudar engenharia no Rio e não passou na cabeça de ninguém que não ficasse lá em casa.
E o Rio dessa época era, sem falsa modéstia, o Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa.
Ipanema, onde morávamos era o centro do Rio. Lá vivia gente de todo o Brasil, até mesmo cariocas, muito embora nem todos lá morassem.
Andava-se a pé pelas suas ruas e era muito comum esbarrar com “gente da pesada” como o maestro Antônio Carlos Jobim e seu parceiro Vinícius de Moraes, que estavam sempre nos bares Veloso ou Jangadeiros.

O bar Zepellin era o local de encontro do Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e muito raramente o poeta Carlos Drummond de Andrade, vinha de Copacabana, onde morava, encontrar amigos “ipanemenses”.
Na sua praia famosa batiam ponto regularmente o gaúcho João Saldanha, a baiana Gal e sua trupe, a dupla “Vapor Barato” Jards Macalé & Wally Salomão, Paulo Coelho e até o Fernando Gabeira, outro mineiro que aparentemente ganhou mais notoriedade pelas sunginhas de crochê que usava do que com suas militâncias.
Mulheres bonitas estavam todas estavam por lá e foi em Ipanema que a deslumbrante blumenauense Vera Fischer “validou” seu passaporte de musa.
Como a vida se restringia ao bairro, Ipanema não dependia de ninguém.

No carnaval botava na rua o seu próprio bloco carnavalesco, A Banda de Ipanema tendo à frente Leila Diniz, sua eterna musa. E as novidades do bairro eram divulgadas no seu próprio jornal, O Pasquim, feitos por craques como o Henfil, Paulo Francis, Millor Fernandes, Paulo de Tarso, Ivan Lessa, Jaguar, Ziraldo e tantos outros que contribuíram para que o veículo obtivesse sucesso quase instantâneo.
Em cada esquina de Ipanema se produziam estórias, umas verdadeiras, outras puras folclore. Entre tantas destaco uma pouco conhecida do Tom Jobim, acontecida entre 67 ou 68, que foi contada pelo garçom que sempre o atendia no bar Veloso, agora Garota de Ipanema.
Dizia esse garçom que nosso maestro era procurado diária e constantemente por anônimos ou conhecidos. Mostravam-lhe músicas, textos, pediam orientações, autógrafos e todos eram atendidos com cordialidade e atenção.

Certa vez adentrou no bar uma figura “habitué” no bairro em busca do maestro, que tomava seu chopp de fim de tarde, na sua mesa habitual. Quando o viu, o sujeito dirigiu-se até ele sem a menor cerimônia, foi logo espalhando sobre a mesa as partituras de carregava debaixo do braço. Com a maior boa vontade o maestro o recebeu, o ouviu, fez alguns comentários e sugestões. Ao término da “consulta” o camarada foi embora com um ar esfuziante, cheio de esperanças e desse dia em diante passou a voltar sempre, dia sim, dia também em busca pelo mestre, sempre carregado das partituras.

Eis que um belo dia o maestro sumiu da área sem aviso prévio, como era do seu costume. E o tal camarada, que já se achava íntimo, desesperou-se. Ia ao bar em busca de seu mestre de manhã, à tarde, à noite, nas madrugas. Depois de várias tentativas frustradas, virou-se para o garçom e disse:
- Cadê o Tom, que não o acho por toda Ipanema? – perguntou, irritado.
- Foi encontrar o Frank – respondeu-lhe o garçom.
Rio  - Praia Arpoador/Ipanema - Foto Flavio

- Frank... Frank? Não conheço nenhum Frank em Ipanema... Quando o Tom aparecer diga que quero falar muito com ele – disse, em tom imperativo e foi embora, sempre com suas partituras debaixo do braço.
O tal Frank, embora nunca dantes visto em Ipanema, era o SINATRA, que convidara o maestro para ir à América para que gravassem juntos um disco de música brasileira e que se tornou sucesso mundial!

Esse relato confirma o que se dizia na época: mesmo sendo você uma personalidade reconhecida em todo mundo, exceto em Ipanema, corria-se o risco de ser considerado eternamente um ilustre desconhecido!
E foi nessa Ipanema que o primo blumenauense se instalou nos cinco longos anos que ficou por aqui. Entretanto, sendo de boa cepa não se deixou seduzir pela efervescência ipanemense e jamais perdeu o foco. Afinal, veio para estudar e não decepcionou.
Nas férias escolares e feriados longos, lá ia o primo para sua terrinha, como o próprio a chamava. E eu, fã de carteirinha de Blumenau de longa data, quase sempre o acompanhava.
Íamos de ônibus e “quase” Íamos e “quase” voltávamos pela Viação Nossa Senhora da Penha, cujo slogan era “Vá e Venha pela Penha”. O “quase” se justifica porque a empresa não disponibilizava – e acho que atualmente ainda não - ligação direta Rio/Blumenau, que nos obrigava a fazer baldeações nem sempre tranqüilas em Curitiba ou Itajaí. Mal desembarcávamos nas rodoviárias dessas cidades, corríamos para os guichês da Catarinense ou Viação Garcia para comprar passagens no primeiro ônibus que saísse para Blumenau. Quando não conseguíamos, e isso acontecia com mais freqüência nas baldeações em Curitiba, o tempo total da nossa viagem que era de 17, 18 horas esticava mais um pouquinho.

Nos vários anos viajamos no auge do verão e o calor quase nos fazia desmanchar já que o ar refrigerado era mesmo a janela aberta, quando conseguíamos abri-la. No inverno a situação se invertia e por mais que tentássemos vedar as frestas por onde ar gelado entrava logo descobríamos outros e assim, íamos.
Travesseiros, cobertores, esqueça...! Tais mimos somente eram disponibilizados pela Penha nos ônibus leito da linha São Paulo/Blumenau.
Na linha Rio haviam somente ônibus normais e neles os espaços para os passageiros eram tão exíguos que somente se acomodavam confortavelmente crianças pequenas ou anões. As poltronas ofereciam somente as posições “sentado” e “inclinado”, mas quando o cansaço batia “desligávamos”... O que? O ônibus vai para logo agora? Que azzzar...

Mas na verdade, eram os passageiros que emprestavam um “colorido” todo especial às viagens e pela constância de ir e vir aprendemos identificar os bons, médios e maus companheiros de viagem.
Os “bons” eram aqueles que depois de alguns balanços do ônibus, logo dormiam nas paradas quase sempre desciam, se alimentavam moderadamente e para a sorte de todos nós, utilizavam os banheiros desses restaurantes.
Já os “médios” se dividiam em grupos distintos.
Tinha a turma que ficava a noite inteira acordados com aquela luzinha irritantemente acesa. Eram seguidos de perto pela turma dos fumantes. Fumantes, espantou-se? Sim, fumava-se a bordo desde que observadas as condições determinadas na plaquinha afixada no painel que dividia a cabine dos motoristas dos passageiros, que dizia “É PROIBIDO FUMAR OU CONDUZIR ACESSO CACHIMBO, CHARUTO E CIGARROS DE PALHA NO INTERIOR DESTE VEÍCULO”.
E antes que alguém pergunte o que fazer com os asmáticos, alérgicos ou crianças, a resposta também ali estava, em outra plaquinha quase colada à anterior e que dizia: “RECLAMAÇÕES DEVEM SER DIRIGIDAS À SEDE DA EMPRESA SITO EM...”. E não se fala mais no assunto, ok?
Fechavam o grupo os “passageiros de primeira viagem”. Excitadíssimos pela novidade falavam alto quase sem parar. Eram sempre os primeiros a desembarcar nas paradas e “esqueciam” de satisfazer as necessidades fisiológicas e somente se lembravam delas quando acalmavam.
Minha “teoria” era que seus organismos aproveitavam tais momentos de relaxamento e funcionavam desesperadamente. Quando sentiam os primeiros – E ÀS VÊZES, O ÚNICO! - sinais que seus APARELHOS DIGESTIVOS funcionavam à plena carga, se iniciavam seus dramas.
Se ocorresse à noite logo acendiam a luzinha irritante e tratavam de recolocar suas poltronas na posição “quase em pé”, na esperança que a nova postura os aliviasse de um possível mal estar passageiro (com trocadilhos, por favor). Se acontecesse, beleza, se não, quase sempre uma ida urgente ao banheiro do ônibus era inevitável e não havia nada ou ninguém que os segurasse no trajeto. Se por acaso o banheiro estivesse ocupado, batiam na porta com tanta insistência que usuário tratava logo de “abandonava a moita” temendo o pior. Quando “tomavam posse” do espaço concentravam-se apenas na “tarefa” e dispensavam distrações como fechar a janela o banheiro, no que todo o ônibus agradecia.
Mas o mau companheiro de viagem era o que realmente punha nossas vidas em perigo! Viajavam desacompanhados, silenciosos e soturnos em todo o trajeto, mas também solícitos quando necessário. Sentava-se geralmente nas poltronas do corredor que lhes permita agir com discrição. “Atacava” nas madrugadas, principalmente as de inverno e o local onde preparavam a “arma letal” era também o banheiro da “nave”. Entrava, fechava a janela para não correr o risco de falhas e não demorava em “detoná-la”, também sem alarde.
No momento que o “serial killer” abria aporta do banheiro... - bah! - o ônibus inteiro ia despertando como um rastilho queimando e logo se ouvia um “juro que não fui eu!”, “mas o que está acontecendo?”, “tem um morto no bagageiro?”, “acho que vou morrer”, “ahhhhhh, mas o que é isso?” e outras exclamações nessa ordem.

Passageiros mais desesperados recorriam aos motoristas e o que abrisse a porta da cabine que os separava do resto do ônibus, ao perceber a “encrenca que pairava no ar” limitava-se a apontar para outra plaqueta afixada na divisória que dizia “É PROIBIDO FALAR COM O MOTORISTA” e sumia para dentro da sua gaiola.
Em algumas vezes tivemos o azar de viajar nas poltronas que ficavam ao lado do banheiro e nestas situações estávamos colados à “detonação“! Você não pode imaginar como era...

 Imagem Blumenau - Foto Flavio
Mas tudo ficava para trás no momento em que o ônibus estacionava na velha rodoviária no Centro de Blumenau!
Num dia conversava com os parentes e amigos, no outro revia algum filme no cine Blumenau com direito a uma passada obrigatória na Confeitaria Tonjes e traçar o inigualável apfelstrudel com chantilly.

Às noites se animavam com uma ida aos restaurantes como o Cavalinho Branco, Moinho do Vale ou Fhrosinn e depois balançar o esqueleto (e ver as meninas, é claro) no Caça e Tiro ou em Gaspar – até lá eu fui! – ou pegar mais pesado na boate Foca´s, do Carlinhos Müller e terminar a noite em umas das carrocinhas que ficavam pela Beira Rio até de madrugada onde eram servidos “EggCheeseTudo” ao som da Blumenau FM.
Quando haviam corridas na pista de kart do Paraíso dos Pôneis “todo mundo” estava lá. Almoçar na Gruta Azul, ver as novidades na Blu Discos. Azarar as amigas das primas nas festas ou no Carlos Gomes e é claro, quase todas as tardes e noites dar infindáveis “rolés” de carro pela XV no trecho compreendido entre o Fórum / Chefatura de Polícia até a pracinha que ficava logo depois da Casa Willy Sievert.

Era essa a Blumenau que me motivava sempre visitá-la e a cada nova ida tudo isso e mais alguma coisa me esperava.
Portanto era difícil, mas difícil mesmo que deixasse de ir para Blumenau seja a época que fosse. No entanto, houve uma vez e somente uma, que aconteceram tantos fatos esquisitos que quase minha ida não se realiza.
Rodoviária de Blumenau - antiga
De cara, por conta de alguns contratempos não pude viajar junto com o primo blumenauense, como sempre fazia e quando me liberei restavam uns poucos dias de folga. Teria que viajar sozinho, que era muito chato, mas ir à Blumenau valia qualquer sacrifício.
E lá fui eu para a Rodoviária para comprar passagem - isso mesmo, só se comprava passagem na Rodoviária, no guichê da empresa! – e somente havia lugar vago na ligação para Florianópolis e a data mais próxima era naquele mesmo dia, dali a quatro horas aproximadamente. Sem acreditar, lembro ter perguntado ao funcionário da empresa em que posição do ônibus se localizava o lugar vago, pois se ficasse no fim do ônibus junto ao banheiro, desistiria.
- Terceira fileira, corredor – respondeu-me, meio mal humorado. Mesmo com a passagem no bolso, minha animação era cada vez menor. Descer em Itajaí? O que seria desta vez?
Cheguei para o embarque “aos 45 do segundo tempo” e fui um dos últimos, senão o último a embarcar. Minha companheira de viagem era uma simpática senhora que me recebeu com um tímido sorriso. No horário e lotado, o ônibus deixou para trás a Rodoviária Novo Rio e logo estávamos na Via Dutra. Era uma tarde ensolarada e agradável, sem o calorão que sempre caracterizou o Rio.
Quilômetros depois a senhora, minha companheira de viagem, fez comentários sobre alguma coisa que chamara sua atenção, mas logo se calou. Curiosamente, percebi que no ônibus ninguém falava alto, crianças não choravam, nada.
Macaco velho e com várias viagens no lombo lembrei-me de um antigo ditado que dizia que “o silêncio nunca anda sozinho”. Quase que instantaneamente a porta da cabine dos motoristas se abriu e um deles surgiu para informar que faríamos uma rápida parada não programada, acrescentando que quem quisesse poderia descer para comprar biscoitos, beber alguma coisa...
Parada não programada na Serra das Araras! Essa viagem promete, pensei.
Olhei para a senhora, minha companheira de viagem, perguntei se queria descer, que recusou. Vários passageiros desceram e logo retornaram, já que fora mesmo uma rápida parada e o ônibus seguiu viagem. Acho que este fato fora do “script” foi o gerador para que começassem a ser ouvidas risadas pelo interior da “nave”, mas nada que incomodasse.
Após subirmos a tal Serra acomodei-me para tentar tirar um cochilo. Fechei os olhos na esperança de “desligar” e quando eventualmente os abria flagrava a senhora, minha companheira de viagem, me vigiando com um olhar sorrateiro. Instantaneamente, veio a lembrança daquele “serial killer” que descrevi e logo tratei de afastar do pensamento.
Mas a tentativa da soneca foi por terra quando um passageiro desastrado esbarrou no encosto de minha poltrona ao passar pelo corredor. Abri os olhos, mas não dirigi o olhar na direção do sem jeito, que se desculpou tocando meu ombro. Restou somente apreciar o que se oferecia pela janela da senhora, minha companheira de viagem.
Não sei por quanto tempo permaneci observando a monotonia da estrada até que novamente alguém se apoiou no encosto de minha poltrona e logo pensei no retorno do passageiro desastrado ao seu lugar, mas desta vez tive interesse de ver sua face.
O desastrado, aliás, a desastrada se apresentou e era de tirar o fôlego! Sem dirigir-me o olhar, ela tomou o lugar imediatamente à frente do meu e se ajoelhou sobre o assento de sua poltrona que era a única forma de se comunicar com pessoas conhecidas que ocupavam lugares mais atrás. E aquele belo rosto flutuava no meu canal “PAY PER VIEW” e seu narizinho arrebitado, em “FULL HD”, era de arrasar!

Não sei por quanto tempo permaneci em estado catatônico e quando “retornei à vida” minha primeira preocupação foi verificar se não havia esganado a senhora, minha companheira de viagem ou tido outras atitudes tão comuns quando se “sai do ar”. Como ela parecia cochilar, me tranqüilizei.
Se comigo tudo parecia em ordem, os marmanjos que estavam sentados na mesma fileira que a minha, do outro lado do corredor, necessitavam de “cuidados urgentes”.
O mais próximo parecia estar em estado catatônico. Olhava sem piscar para a dona do belo rosto, tinha a boca inteiramente aberta e deixava escorrer pelos cantos um líquido transparente, que se costuma chamar de BABA! O que se sentava ao lado deste dirigia para a dona do belo rosto um olhar aparvalhado e somente conseguia manter sua boca fechada porque apoiara o queixo sobre o encosto da poltrona da frente. Entretanto, os solavancos do ônibus jogavam sua cabeça de encontro ao vidro da janela, mas o sujeito não se importava nem um pouco.
Em face do estado dessas “vítimas” próximas conclui que até me saíra muito bem e aparentemente sem “seqüelas”. O diabo é que não havia como evitar olhar a dona do belo rosto. Lembro ter tido a idéia de tirar os óculos que na época era obrigado a usar, na esperança que sem eles a imagem se desfigurasse. Pura ilusão...
A dona do belo rosto, do alto de sua privilegiada posição tudo percebia e parecia se divertir com as reações que sua bonita estampa provocava. Indefesos, eu e os demais esperávamos alguma providência para que saíssemos – ou não retornássemos – do estado que fomos submetidos até que por fim, aconteceu.
Cansada, a dona do belo rosto resolveu se sentar e quando o fez ecoou um sentido “ohhhhhhh” pelo ônibus.

Inconformados, alguns marmanjos logo iniciaram romarias à frente do ônibus para dar mais uma olhadinha na dona do belo rosto, mas o segundo motorista os percebeu e mandou que todos voltassem para seus lugares, já que era proibido viajar em pé. Pensa que se conformaram? Logo estavam de volta e desta vez a “desculpa” era um súbito interesse em saber quanto tempo ainda levaria para a próxima parada. Os “totalmente dominados” nem isso faziam. Vinha mudos e mudos retornavam para seus lugares.
Ao chegarmos à parada a dona do belo rosto se levantou e o coro no ônibus desta vez foi um animado “ahhhhhhh!”. Ela se preparou para descer e pensei em segui-la, mas como instantaneamente se formou uma fila de fãs junto a sua poltrona, desisti. A senhora, minha companheira de viagem desembarcou meio contrariada e somente fiz o mesmo quando o movimento no corredor cessou.
No restaurante da parada, apesar de todas as tentativas não consegui contemplar o “conjunto da obra”, pois o séquito da dona do belo rosto não dava uma folga e quando consegui foi de forma inesperada. Aguardava na fila do caixa a vez para pagar minha despesa e quando me virei a dona do belo rosto estava exatamente atrás de mim. Não era uma boa posição de contemplação, mas se não foi possível avaliar como pretendia o “conjunto”, a proximidade permitiu comprovar a excelência de seu “acabamento”. De primeiríssima, posso garantir...
Pressentindo que poderia novamente entrar em “alfa” apressei o passo para retornar ao ônibus e quando lá cheguei vi que a senhora, minha companheira de viagem já estava acomodada. Instalei-me em minha poltrona e permaneci imóvel até que os demais passageiros retomaram o embarque e entre eles a dona do belo rosto, que passou direto pelo lugar que ocupava à minha frente e foi se instalar novamente ao fundo da “nave”. Desta vez houve um único “ohhhhh” foi o meu e no lugar que ela ocupara se sentou outra pessoa que até hoje não sei se era homem, mulher ou até mesmo um ser humano.
O ônibus se pôs em marcha novamente e logo a noite começava a chegar. Com ela vieram também os faróis o que levou primeiramente os motoristas a fecharem as cortinas da cabine e logo a seguir a senhora, minha companheira de viagem também cerrou as da sua janela.
Quilômetros adiante o ônibus estacionou da nova parada, a dona do belo rosto desceu para um lanche rápido e novamente embarcou, ocupando desta vez o lugar à frente do meu. Novamente seguimos viagem e naquela escuridão a única coisa a fazer era tentar dormir. Acomodei-me do jeito que pude e novamente percebi que a senhora, minha companheira de viagem continuava a me espionar como antes.
Mas sono que é bom, nada. Numa das vezes que mudei de posição percebi que a dona do belo rosto abraçara o encosto de sua poltrona provavelmente em busca de uma posição mais confortável e com isso seu braço ficou a poucos centímetros do meu joelho, que o apoiara também no encosto de sua poltrona. Se adormecesse naquela posição, certamente seu braço escorregaria e acabaria apoiado no meu joelho. Achei conveniente mover o joelho para baixo e logo depois o braço da dona do belo rosto começou a escorregar até que ela o fez subir novamente. A situação se repetiu algumas vezes e percebi que se ela colocasse essa mão por dentro de uma espécie de fronha que envolvia a parte superior das poltronas onde os passageiros apoiavam a cabeça, o “problema” estava resolvido.
Mas como fazê-la tentar era outro problema. Tomar sua mão e colocá-la no local, nem pensar. Como era provável que ainda estivesse acordada tive a idéia de bater com meus dedos por entre os dedos que mantinha sobre o encosto e assim chamar sua atenção. A tática deu tão certo que depois do terceiro “batuque”, o belo rosto surgiu junto ao meu joelho perguntando se estaria me incomodando e respondi que de maneira nenhuma. Apresentei-lhe minha sugestão e ela agradeceu, sem demonstrar entusiasmo. Acho que como também não estava a fim de dormir optou por puxar conversa, me salvando de fazê-lo e dizer alguma bobagem.
Até a nova parada em Registro, divisa dos estados de São Paulo e Paraná eu já sabia além do seu nome, que morava em Criciúma e para lá voltaria depois de passar mais alguns dias em Florianópolis. Sabia também que esta fora a sua primeira estada no Rio e que achara a cidade maravilhosa. O mais engraçado é que para conversarmos éramos obrigados a curvar o corpo, eu para frente e ela, para trás e assim ficávamos até que a coluna de um ou outro reclamasse primeiro.
E foi a partir da aproximação com a dona do belo rosto que confirmei minhas suspeitas iniciais sobre a senhora, minha companheira de viagem e a incluí definitivamente na categoria dos “maus companheiros de viagem” em companhia do tal “serial killer”. Isto porque a dita senhora, ao perceber minha aproximação com a dona do belo rosto, além de acender peremptoriamente aquela luzinha irritante não teve um gesto de grandeza, naquele momento importante, de propor uma troca de lugares, que não lhe traria nenhum prejuízo. Se assim tivesse procedido não teria somente minha eterna gratidão como a estaria citando seu nome nestas minhas lembranças. Como não o fez só posso intuir que sua pobre alma percorreu sua derradeira viagem totalmente na escuridão, sem uma mísera luzinha a iluminar seu caminho...
Na parada de Registro pude, enfim, aprovar com louvor o “conjunto da obra” além de aferir outros detalhes do “acabamento” da dona do belo rosto. E ver de pertinho seu nariz arrebitado, perfeito! Estavam de parabéns o Criador, pelo arranjo e seus pais, pela concepção. Essa também foi a única conversa que mantivemos durante a viagem em condições normais, sem contorcionismos. Foi nesse mesmo local que sugeri à dona do belo rosto que trilhasse caminhos onde a beleza se constituía como predicado fundamental e ela me revelou, bem baixinho, que tinha sido a Miss Criciúma e concorrido à Miss Santa Catarina, de alguns concursos atrás.
- Mas não ganhei – ela disse, sem demonstrar tristeza ou mágoa.
- Ainda bem – respondi-lhe.
- Como assim, ainda bem? – indagou.
- Pois se tivesse ganhado certamente eu não a teria conhecido em uma viagem de ônibus – expliquei e ela teve que concordar comigo.

Seguimos viagem e ainda conversamos um pouco, naquela posição desconfortável que nossos lugares obrigavam. Não consegui pregar o olho em momento algum. Horas e muitos quilômetros adiante, com o dia nascendo o ônibus fez nova parada e desta vez em Garuva. Desci sem a companhia da dona do belo rosto, que dormia. O café da manhã foi horrível como também foi horrível aceitar que na próxima parada eu desembarcaria e certamente nunca mais a veria de novo.
Blumenau Beira Rio - foto Flavio
O ônibus chegou à Itajaí muito mais rápido do que gostaria e logo que deixou a estrada, um dos motoristas abriu a porta da cabine para informar que a parada seria de apenas dez minutos. Com isso a dona do belo rosto acordou, aproveitamos para trocar endereços, telefones, nos despedimos e quando desembarquei já não lembrava deles.
Parado na calçada da rodoviária de Itajaí vi o ônibus manobrar, se por novamente à caminho e logo desaparecer. Lembro que naquele momento já não sabia mais se seguia para Blumenau, Criciúma, Florianópolis ou simplesmente voltava para o Rio. Sentia-me mais idiota do que o Forrest Gump, personagem vivido por Tom Hanks, para dar ao momento uma dimensão atualizada.

Acabei seguindo para Blumenau (foto) e quando lá cheguei queria uma cama e dormir tão profundamente para que meus neurônios já enlouquecidos desligassem, pois tinha medo que fundissem.
Nos dias que se seguiram os ares de Blumenau me trouxeram de novo à vida e a única coisa que consegui concluir que os deuses jogaram muito pesado comigo, quase uma covardia. O tempo passou rápido demais e regressamos para o Rio, o primo e eu. Lembro que embarcava nos ônibus desconfiado, mas desta feita tudo transcorreu sem qualquer novidade a bordo.
Quando tudo parecia se acomodar chegou lá em casa uma correspondência de Criciúma e nem preciso dizer quem remetia. Lembro que minha surpresa foi tanta que passei um bom tempo para abri-la e outro tanto para responder, já que para ser bem visto nessa época era quase obrigatório ter uma letra bonita e ser capaz de “produzir” um texto com, no mínimo, duas ou três páginas.
Hoje em dia, admito, tudo ficou mais fácil. O “carteiro” demora apenas o tempo de um click. A linguagem concisa não obriga mais do que um “e ai, bleza? axei vc. maneira. to na parada. valeu!”. E tudo está dito!
Depois de algumas cartas combinamos que iria até Criciúma durante um feriado longo. Pedi o carro emprestado aos meus pais e a condição que impuseram é que somente liberariam se levasse junto algum amigo. Disseram que era melhor ter companhia em uma viagem tão longa, mas hoje percebo que o temor era que eu ficasse por lá. No fundo, foi até bom não ter ido sozinho. Sabe-se lá o que os deuses poderiam aprontar novamente?
Convenci o amigo mais fiel e no dia marcado, partimos. Nossa intenção era ir direto à Criciúma, mas ninguém passa direto pela entrada de Blumenau sem dar uma chegadinha à cidade. Era fim da tarde e o meu amigo ficou tão encantando com o cenário que na mesma hora propôs que eu fosse sozinho à Criciúma.
Sem acordo, na manhã do dia seguinte deixamos o Hotel Glória e à tarde chegamos ao nosso destino. Ocorre que chegar à Criciúma não era como chegar à Blumenau, dadas as características de cada cidade. Instalamo-nos em um hotel e dali seguimos para encontrar a dona do belo rosto, que nos aguardava.
À noite, no hotel, meu amigo comentou que não havia na cidade nada e ninguém mais bonita que a dona do belo rosto e como ela já tinha companhia, retornaria no dia seguinte para Blumenau.
Fiquei em Criciúma por mais dois dias e a dona do belo rosto me mostrou, nesse curto espaço de tempo que seu encanto não residia somente na “forma”, mas também no “conteúdo”. Inteligente, não demorou perceber que um capricho do destino cruzara nossos caminhos e somente nos restava descruzá-los.
Deixei Criciúma no começo de uma noite fria e chuvosa. Tinha tanto receio de mudar de idéia que dirigi um bom tempo sem olhar os retrovisores. Em Blumenau, reencontrei o amigo e no dia seguinte, antes de partirmos de volta para o Rio assistimos uma exibição da equipe do Euclides Pinheiro, que na Alameda fazia os carros fazia os carros rodarem apenas sobre duas rodas apenas.
Naquele momento eu sabia que demoraria bastante para novamente andar com confiança sobre minhas duas pernas.

Flavio Monteiro de Mattos
Arquivo: Flavio Monteiro de Mattos /Adalberto Day

15 comentários:

Edgar disse...

Excelente. Um escritor nato. Sugiro prosseguir escrevendo estas ótimas histórias.

Aída disse...

Concordo inteiramente com o Edgard. Texto bem escrito e interessente (pq prende a atenção). Parabéns Flávio! Vc deveria aproveitar e dar continuidade à veia de escritor e começar a pensar em um livro. Que tal?

Reinaldo disse...

Caro Flávio,
Adorei mais esta estória, já que também li a de Blumenal. Quanto a moça do rosto bonito, me fez lembrar de algumas aventuras já vividas. Garanto que minha alma está contente, pois recordar é viver!!!Parabéns.
Forte abraço Reinaldo

Anônimo disse...

Então...
Esta história tem protagonistas reais.
Se eu soubesse, naquele dia, o "frisson" causado, não teria deixado este passageiro descer...
Uma delícia ler e relembrar deste fato...
Simples assim: Eu existo!

Anônimo disse...

Ótimo artigo, parabens. ...é o Rio era lindo mesmo antes da democracia aonde os valores morais e familiares estavam em primeiro plano
Hoje vivemos em liberdade....

Claudio Muller
Curitiba

Prof. Wieland Lickfeld disse...

Parabéns ao Flávio pelo belo texto! Os nostálgicos 'ipanemismos' me fizeram recordar do saudoso Jamundá, das 'blumenauensidades' e dos 'catarinensismos'. Seus relatos das viagens de ônibus imediatamente evocaram lembranças. Quem não coletou impressões inesquecíveis de longas viagens de ônibus? Lembro de uma viagem noturna, entre São Paulo e Vitória em fins de 1985. Dormir? Nem pensar? No banco logo atrás do meu, duas solteironas, ambas empregadas domésticas, disputaram a noite inteira o título de mulher mais enganada por homens que conheceram em bailões de solteiros, xingando sem dó aqueles que, ao invés de ser o príncipe encantado enfim encontrado, supostamente só se aproveitaram delas. À medida em que o tempo passava, o grau de desgraça aumentava e nenhuma das duas parecia disposta a perder a disputa. O objetivo máximo era ser mais infeliz que a outra. Inacreditável! Numa viagem de Blumenau a São Paulo, também na década de 1980, um senhor que ia para lá a fim de fazer exames por conta de uma doença cardíaca, puxou conversa com o passageiro ao lado. O resultado? Uma interminável disputa para determinar qual dos dois tinha uma doença mais grave. Parecia que se orgulhavam cada vez que assumiam a liderança da corrida da desgraça. Durma com um barulho desses. Numa volta de São Paulo, na mesma época, o problema foi fumaça de cigarro, mas era permitido fumar no ônibus. Era inverno e fez muito frio naquela noite. Felizmente encontrei uma saída, digamos, 'negociada'. Sem titubear, abri a janela e deixei o ar gelado purificar o ambiente. Obviamente o berreiro foi geral, mas não arredei o pé. Não demorou e a coisa se resolveu: o povo, com frio, não sendo atendido por mim para que fechasse a janela, partiu para cima do fumante, que, sem escolha, afinal cedeu. Finalizo com uma da minha infância, na década de 1970. Ônibus da Penha, da linha Curitiba - Blumenau, no qual embarquei em Pomerode, vindo de uma visita a familiares. A estrada ainda não era asfaltada naquela época. Ao meu lado, dois senhores: um dormia e outro lia o jornal. O que dormia, tossia sem parar e balançava de um lado para o outro seguindo o ritmo do ônibus, importunando o que lia. Lá pelas tantas, o ápice da situação: numa tossida forte, eis que aterrisa, sobre o jornal do leitor, a dentadura do dorminhoco, devidamente ligada, desculpe a não omissão deste detalhe, a um longo 'cordão salival'. E pior: ele nem percebeu e continuou dormindo. Teve que ser acordado por sua 'vitima'. Coisa de historinha do Mr. Bean! Grande abraço!

Patricia Mattos disse...

Muito bom Pai!!!
Mais uma história deliciosa de se ler... muito bem narrada e detalhada.
Só acho que poderia ter investido um pouco mais na tal deusa, já que era tãããão bonita assim. Rsrsrs.
Bjssss

Anônimo disse...

Patrícia...
Sinceramente? Concordo contigo...
Certeza que ela teria retribuído.
Até porque, só eu sei das saudades dela...

Anônimo disse...

Sr.Flavio.
Excelente!
Que mal lhe pergunte: Porque deixou escapar a "dona do belo rosto"?
E mais, onde andará esta Miss? Já tentou encontrá-la?
Felicidades.
Marcelo Ferraz

Anônimo disse...

Prezado Sr.
Li todo este artigo e tambem os comentários. Sr.Reinaldo, esta história, em nenhum momento dá impressao de aventura, bem contrario. O autor, ao que parece, não mostra isto pois alem de ter se encantado, pareceu apaixonado. Vai saber se não? Ou seria apenas uma estoria? Criatividade de escritor? Fantasia? Ou um sonho que teve durante a tal viagem? Já que a dona do rosto bonito estava alí, bem na sua frente.?
Se é verdade ele deveria ter procurado conquistar o coração dela. já que estava tao encantado.
Abraços a todos,
Thiago Baptista

Tia Teresinha disse...

Como sua tia,e que tambem viveu nesta época e nestes lugares, fico admirada e feliz de ver como voce está escrevendo muito bem. Sua mãe ficaria orgulhosa!
Não pare nunca!
Beijos
Tia Teresinha

Rita Portugal disse...

Adorei, simplesmente por ser um texto de nossa época e por saber que este assunto realmente existiu.Gostei de ver que vc escreve bem e pode contar vários enredos intercalando palavras de época e tão atuais.Bjs e continue enviando os contos

Adalberto Klüser disse...

Muito bom! São raros os textos na internet que conseguem prender minha atenção na leitura.

Normalmente prefiro ler livros, revistas e jornais impressos.

Parabéns!

Anônimo disse...

Olá...
Excelente!
A "viagem no tempo" me fez recordar tudo o que também vivi nesta mesma época, nestes mesmos lugares e, o mais importante, também eu sabia do episódio "viagem de retorno".
Sou um grande amigo da Miss em questão.
Parabéns ao autor, cuja descrição sobre a beleza da Miss é perfeita, e todos somos admiradores dela (ainda!).
Felicitações.
Sérgio.

vuca disse...

ola primo,adorei essa historia,mas fiquei muito curiosa sobre a tal moça bonita...
Vou pesquisar...
Parabens,realmente escreves muito bem e concordo com a Terezinha,a Celeste ficaria muito orgulhosa.

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