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quinta-feira, 13 de março de 2014

- Sem trem “13 de março”

1971
                         
Passagem por Rio do Sul
A última viagem do trem
No dia 13 de março de 1971 a Estrada de Ferro Santa Catarina é erradicada por decisão das autoridades federais. A população assiste entristecida e melancólica, à derradeira viagem do trem em direção ao terminal de Itajaí. 
O comboio ferroviário deixa atrás  de si uma gama de relevantes serviços prestados ao desenvolvimento de toda a região e no coração das pessoas as lembranças de uma era cheia de poesias e encantamentos.
Blumenau
SEM TREM
Publicado no Jornal a CIDADE Ano II – Blumenau, domingo 14 de março de 1971 por Luiz Antônio Soares. (faleceu em 20/09/13 aos 72 anos).
Ouço ainda, na meditação das minhas reminiscências, com meus ouvidos de criança, aquele barulhento passar do trem, gostoso como só, amassando  as nossas maldosas pedrinhas sobre os trilhos, que as vezes, por serem mais que pedrinhas, resultavam num bom raspe de mão do bigodudo maquinista.
Lembro-me bem do apito ...
Ele era longo, pontual e por causa dele, na hora da correria, muita bolinha de gude eu perdi.
Tenho ainda na memória as marcas das varadas que levei bem aqui, pela imprudência de me aproximar – como numa gigantesca e perigosa aventura – daqueles vagões que ajudei a desbotar com meus dedos, ainda manchados de um vermelho surrado de sol.
Quem ficou verdolengo à beira dos trilhos não esquece. Não pode esquecer. O trem foi o brinquedo grande das crianças pobres.

Aquela gente toda nos abanava e nós sorríamos contes e orgulhosos quando alguém nos jogava um bombom ou um simples papel colorido.
Agora esse golpe. 
Quem poderia imaginar que as crianças de amanhã não terão a a mesma sorte que eu tive?
A delicia de furtar uma voltinha de vagonete na ostensiva distração do feitor. O saltitar infantil sobre dormentes que apodreceram aos nossos pés descalços. E aquele calor afetivo quando nos deitávamos sobre o trilho, ouvindo o barulhinho distante, anunciando que o trem já vinha ...
É de não se conformar.
Já se viu meu Deus, já se viu criança a beira dos trilhos, nem ver o barulhento passar do trem ???.
Foto: Livro Saudosa Indaial - Alfredo Nagel, Beno Pasold, Fernando Pasold.
_____________________________
Adendo de Luiz Carlos Henkels sobre a última viagem e seus maquinistas
Enviado por Angelina Wittmann 
Vamos por  partes que o assunto é mais  complexo:   Dois maquinistas operaram o  trem da  última  viagem. Anibal Rocha na  tarde de 12  de março entre Itajaí até  Itoupava Seca. Ali trocou a escala. De  Itoupava Seca até  Trombudo Central, na  tarde de 12 de março quem levou o  trem foi José Pacheco, ao  qual  ainda pude   entrevistar  em 1994.

        Agora  vamos à composição.  O trem na última viagem não tinha mais  cargas por  questões  óbvias. Era  um trem mais  pra fazer o rescaldo, recolher os  vagões  que  ainda estavam pelas  estações. A  desativação da EFSC  foi uma questão  bem planejada  Então de Itajaí a Trombudo Central,  subindo, o  trem  tinha apenas 4 vagões tracionados pela locomotiva 331.  Era  composto da seguinte forma. Atrás da locomotiva um pequeno vagão pra  transportar mercadorias  avulsas de maior  volume  numerado como FB 9301. Após  este vinha o bagageiro, que é aquele vagão que levava  o correio, bicicleta, cachorro,  lambreta, verdura, geladeira, armário, etc....e  que era  também a administração do  trem, ou seja abrigava  o reservado do chefe de  trem. Este carro era o BC 101. Atrás  deste vinha o carro  passageiro de  2ª classe que neste dia era o S 101 e  por fim o último carro  que era um misto ( tinha assentos de  1ª classe e 2ª classe ) e  que  não me  lembro qual era porque tinha dois  iguais, mas,  ou era o PS102 ou o PS103, mas, creio ter sido o PS 103.

        Ao chegar a Trombudo o  trem voltou imediatamente  para Itoupava Seca, conduzido pelo mesmo  José Pacheco, recolhendo ainda alguns  vagões ao longo das  estações. Este trem passou aqui por Encano por volta de  2:00hs da  manhã. Levantei para  vê-lo passar. Devia  ter uns  10 vagões.

        No dia   13 de março  que  era  sábado, estes vagões remanescentes  foram levados até  Itajaí, onde  permaneceriam até o momento de  serem transladados  via marítima até o porto de São Francisco, onde foram incorporados à  frota da RVPSC. Neste dia 13 somente a  locomotiva  331 voltou para Itoupava Seca, sendo guardada  no  galpão  principal. As  locomotivas a  vapor eram muito pesadas e  o pessoal não queria  ter o  trabalho de transladar  todas as  12  que tinha para São Francisco, por ser desnecessário. Jurássicas como eram, não teriam serventia na RVPSC  que  já operava a  diesel. Assim ficaram em Itoupava até  1973  para  daí  serem sucateadas.

        Nestas operações do  dia  13 não se sabe o nome do maquinista. Os  ferroviários davam pouca  importância pra isso, afinal era  só mais  um  trem  na  escala deles, apesar de  ser  a última escala. Interessante  também colocar  que  o  próprio José Pacheco  se  irritou  várias vezes  na  última viagem para  Trombudo, pois alguns  filhos de  ferroviários, para curtir a  última viagem, foram na cabine da  locomotiva  e  sucessivamente trilavam o  apito pra   chamar a  atenção, até que irritado,  o Pacheco pediu pra  eles pararem  com essa  “M...” porque  "  estava   enchendo  o saco". Curto e  grosso, o Pacheco não era afeito a  esses  fru - fru - fru - e  me  disse  que odiava cada  vez  que alguém acenava ou abanava com lenços a passagem do último  trem.

        Mas  quem apitou pela  última vez  em Blumenau foi o Aníbal  Rocha, já aposentado,  em 1973, quando foi convocado para puxar as locomotivas para fora  do pátio da Itoupava Seca   para o procedimento do  sucateamento, quando foi acesa novamente a  331 . Neste dia  várias fotos  foram feitas e o próprio Anibal Rocha mais   afeito  à fotos fez .
Este último  trem, que como  já postei no  grupo da EFSC não tinha nada de  muito romântico. Nem em Blumenau não tinha muita gente  na estação não.  A  maioria  aplaudiu mesmo é   a  parada do   trem   que “enfeava "  a  glamorosa   Blumenau  de  então  e o  trem era  tido  como o  transporte da  pobreza de então e  como alguém escreveu num jornal de   Brusque,  que  o  trem servia  mesmo só pros  pobres  que afinal  tinham tempo pra  andar de  trem ou seja, eram pobres porque  não gostavam de  trabalhar.


Macuca
Na  década de 1990 a Macuca foi reformada e colocada na Praça ao lado da prefeitura de Blumenau desde 31 de agosto de 1991.
Arquivo de Adalberto Day/texto de Luiz Antônio Soares memorialista em Blumenau.
Para saber mais acesse:

9 comentários:

Vângela Queiroz disse...

Nossa que depoimento lindo e romântico. Me transportei em pensamentos naquilo que não vivi, mas pude sentir... Era como se eu estivesse vendo o trem passar. Obrigado pelo texto! Abraço Beto :)

Dr. José Victor Iten disse...

Bom dia caro amigo Beto

A importância deste tipo de transporte é latente, tanto é que há um projeto de implantarmos a ferrovia do "frango" que está em fase de estudos ambientais e econômicos.
Nos faz também queres entender o porque da desativação na época, quem decidiu e porque?
Não tenho dúvidas de que se tivéssemos a ferrovia estaríamos muito mais desenvolvidos e sem estes corredores da morte que foram criados, exemplo BR 470 e SC 108.
Parabéns por nos brindar com estes excelentes artigos.
Abraços
Iten

Nilton Sergio Zuqui disse...

Meu caro Adalberto,
Não tive este privilegio de ter viajado ou até mesmo brincado ao longo dos trilhos, mas imagino que certamente não tem como esquecer.
Deveríamos ter transporte coletivo de qualidade em nosso município , mas infelizmente não temos, porque não sobre trilhos? Certamente sería mais barato e rápido.

Hamilton disse...

Adalberto

Andei muito de trem nos anos 60, era um garotão e meu pai me levava junto nas suas viagens, eu só não gostava de viajar na Litorina que balançava muito.
Mas história é história e só quem conhece é que pode contar, escrever, como você.
Abraços amigo, e lembra mesmo estando chovendo o dia está lindo. DEUS existe.

Hamilton Antonio

Anônimo disse...

Seu blog é sempre cheio de boas surpresa. Esta crônica remexeu com minhas lembranças de infância e adolescência. Passear de trem na infância era programa de domingo,é claro que não era todo domingo,esta é a razão de ficar para sempre na memória. E em 13 de março de 1971 nosso primeiro filho completava 1 ano.Esta data faz uma nova história em nossas vidas.
Abraços gasparenses da
Arlete Trentini dos Santos e família

Izabella Pavesi disse...

Adoraria que ainda tivéssemos trens por essa nossa terra. Como é delicioso o barulhinho, apreciar as paisagens, pois quando a gente vai pra Europa, temos o prazer de andar de trem. Além do mais,o preço das passagens seriam bem econômicas do que andar de ônibus. Teríamos uma alternativa melhor.
Muito bom! Izabella Pavesi

Wieland Lickfeld disse...

Estimado Adalberto, é sempre bom recordar do trem. Passava atrás da nossa casa na minha infância, quando morávamos na Ponta Aguda. O apito, quando passava pelo elevado da Sul Fabril e na Ponte dos Arcos, anunciava que os pais deviam olhar por seus filhos, que muitas vezes brincavam sobre os trilhos. Lembro dos constantes rumores de que os filhos de certa família da região colocavam pedras sobre os trilhos, uma perigosa traquinagem. Hoje, trabalhando com viagens, sempre que possível procuro incluir algum trem em nossos roteiros. Foi o que fizemos em Apiúna, no último domingo. É sempre uma experiência marcante. Grande abraço!

Henry disse...

Adalberto
Andei muito neste trem, quando menino, íamos até Ibirama, (subida) depois de ônibus até Presidente Getúlio, mais três horas de carroça, para visitar meus avós paternos. (na Serra Vencida)
Época quando Escoteiro, utilizávamos o tem para ir de Blumenau, para Indaial, Ascura, ou Ilhota e Itajaí. (Para fazer acampamentos)
Mais tarde utilizamos os serviços da transportadora rodoferroviária, que utilizavas os caminhões F N M, ou os Alfa Romeo, traziam os motores da WEG ou Kolbhach de Jaraguá do Sul para a extinta Ind. de Maq. Udo Schadrack, na rua Amazonas 3003 de pois na Rua Bahia 4300.
Era o frete mais barato, em relação a outras transportes, como não tinha ligação de trem Jaraguá a Blumenau, acontecia via rodovia.

É lamentável ter sido desativado.
Enquanto em vários países da Europa e nos Estados Unidos se amplia e moderniza, no Brasil se desativa.
Um país que não preserva sua História.

Abraços,:

Henry Georg Spring

Santos disse...

Amigo Beto.
Quanta saudade eu guardo desse tempo! Quantas voltinhas eu dei até o final da linha e até o começo (itajaí). Não posso afirmar assim de pronto onde foi o começo e onde foi o fim da sua construção. Só posso afirmar que o seu FIM foi uma desgraça, em conjunto com todas as demais do país. Como é custoso construir uma estrada férrea e aqui no nosso \Brasil ela foi eliminada com uma canetada apenas do Juscelino Kubitscheck E quanta necessidade e falta nosso país acusa, principalmente por ocasião dessas super safras de grãos.
Tenho a impressão que mesmo com as estradas férreas funcionando, haveria outro grande problema. O estrangulamento de nossos portos como estamos presenciando atualmente, a ponto de nossos importadores desistirem de compras devido a demora em embarcar os grãos. Como se isso não bastasse (nossos portos mal equipados instalações superadas, ineficientes e obsoletos) vai essa praga dessa Dilma até Cuba, um pais completamente mal das pernas, e manda construir ali um porto moderno sem justificativa alguma, enquanto os nossos estão nesse estado precário.
E.A.Santos.

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