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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

- Lá foi o trem

Nossa emoção sobre as histórias do trem EFSC, continua com o texto do nosso amigo Tenente Coronel Paulo Roberto Bornhofen, que faz um relato emocionante no livro Lá foi o trem. Estação Catarina: o trem passou por aqui. Blumenau:
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Por Paulo Roberto Bornhofen

Quando cheguei a Blumenau, lá pelo fim da década de 80, como um Aspirante começando minha carreira como oficial da Polícia Militar, fui apresentado a algumas reminiscências do que outrora fora uma importante e bela ferrovia. Ferrovia que cortava o vale levando a riqueza aqui produzida, ou seja, seu bravo e orgulhoso povo e seus produtos. Uma ferrovia que não mais existia. O trem sumiu.
A riqueza do vale agora segue pelas rodovias. As poderosas máquinas puxando enormes composições ficaram apenas na lembrança. Assim como ficaram na lembrança, e em vários registros fotográficos, as pessoas em suas indumentárias próprias da época. Os homens metidos em seus ternos e as mulheres em seus vestidos maravilhosos, ambos devidamente adornados por chapéus. Naquele tempo o passeio, ou a viagem de trem exigiam um tratamento especial.
Restavam, ainda, algumas instalações e um já quase apagado trilho de trem, serpenteando a margem do rio Itajaí-Açú. Aqui e ali, o caminho de ferro, teimosamente, resistia. Ainda era possível encontrar o que sobrou de uma estação, um túnel, uma ponte, um marco qualquer. Tudo aquilo chamava a minha atenção, pois de onde eu vinha não havia trem. Em Florianópolis eu não havia convivido com o trem.
O tempo estava se encarregando de apagar lentamente as lembranças do trem e sua admirável e charmosa ferrovia. Mas, não era tão fácil assim. Algumas destas instalações ainda estavam em boas condições, ou melhor, em condições de uso. Sua capacidade de adaptação foi sua salvação, pois elas continuavam úteis, apesar de terem outra finalidade. Assim, eu era apresentado a uma clinica veterinária, funcionando no que já tinha sido uma pequena estação. Um ponto de ônibus, que tinha sido um ponto de parada para o trem. Havia, ainda, as pontes, que como tinham uma estrutura forte para agüentarem o peso da composição, agora estavam servindo para a passagem dos veículos. E, tinham os túneis, ou melhor, o túnel.
Havia um túnel abandonado na Ponta Aguda. Hoje ele está integrado ao sistema viário da cidade e o acesso a ele se dá ao final da ponte Aldo Pereira de Andrade, ou simplesmente ponte de ferro, como ficou conhecida. Naquele tempo, quando cheguei em Blumenau, o túnel tinha outro tipo de freqüentadores. Eram os seres da noite, mas não eram morcegos, muito menos zumbis. Eram pessoas que por seu comportamento ficaram conhecidas como os famosos marginais, os que vivem, ou agem, as margens da sociedade. Eram basicamente usuários de drogas e profissionais do sexo pago.
Regularmente éramos obrigados a fazer rondas e a “dar batidas” no túnel e sempre encontrávamos algo, e alguns de seus habitantes. Eram usuários, às vezes traficantes e quase sempre travestis vendendo prazer, não encontrávamos prostitutas. Era um universo exclusivamente masculino. Sempre havia um “cidadão de bem”, que incomodado, denunciava o comportamento daqueles seres marginais. Quando acontecia um furto, ou um assalto na área central da cidade, mandávamos uma viatura para o túnel. Quando não encontrávamos nenhum dos tristes seres da noite, encontrávamos o espólio da empreitada criminosa, pelo menos a carteira com os documentos do infeliz, o dinheiro sempre sumia. Havia ainda os que pagavam pelo sexo e depois se arrependiam, então inventavam a “história” de que tinham sido vítimas dos criminosos. Era mais fácil justificar para a família a perda do sofrido salário com um boletim de ocorrência policial na mão. “Eu fui assaltado por um travesti” era uma história mais aceitável, digna até de pesares, do que admitir que gastou ( o tão esperado salário do mês) com efêmeros momentos de prazer.
Era uma lástima testemunhar no que havia sido transformado o túnel. É assim que a vida seguia o seu rumo depois que o trem se foi. Dizem alguns saudosistas, que o trem vai voltar. A linha vai ser reativada! Bradam outros. Como o trem não veio e a linha não foi reativada, o túnel foi restaurado e integrado ao sistema viário. Agora são os veículos que fazem uso dele. Os marginais foram expulsos, pelo menos do túnel. A vida segue, só falta o trem que um dia se foi e até hoje não mais voltou.
Paulo Roberto Bornhofen
15 de abril de 2009.

Acesse também :
BORNHOFEN, Paulo Roberto. Lá foi o trem. In: VENUTTI, Fátima (Org). Estação Catarina: o trem passou por aqui. Blumenau: Nova Letra, 2009.
Arquivo: Jornal de Santa Catarina/ACIB/Dalva e Adalberto Day

8 comentários:

Leonardo Oliveira disse...

Olá Prof. Adalberto, passei por aqui mais uma vez para aprender um pouco mais sobre a bela Blumenau, que seu blog trata de forma tão brilhante. Abraços.

Maurício da Silva Junior disse...

Eu pensava que o túnel havia sido incorporado à malha viária logo após a desativação da EFSC...

Mas, pelo visto, por mais de 10 anos ele ficou lá abandonado...

Santos disse...

Beto.
Ao ler a manifestação do oficial da Policia Militar Sr. Paulo Roberto Bornhofen, sobre a extinta e saudosa E.F.S.C., veio-me a lembrança de muitas historias do antigo trem. Aquele funcionário da Red que controlava as passagens perfurando-as, e que anunciava a aproximação de determinada estação ou localidade, com aquela pronuncia sotaqueada, aquelas fagulhas que a chaminé da locomotiva desprendia e as vezes passava pra dentro dos vagões e acidentalmente perfurava a roupa, as amizades que fazíamos com os funcionários da Estrada (o Teixeirinha era um deles), a ligação que o futebol da época possuía com esses funcionários, (a maior parte do time do Palmeiras era composta de funcionários da Estrada). Também me veio a triste lembrança daquele infeliz ato do presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira assinando a extinção da Rede Ferroviária Federal e decretando, com isso,a extirpação de uma vital parcela da infra-estrutura ligada ao ministério dos transportes. Lamentavelmente, hoje estamos sentindo na pele as consequencias desse irresponsável gesto do Sr. Juscelino, quando o pais necessita urgentemente da ampliação de seu sistema de transporte na área da agroindústria. Mas, como diz o ditado,agora não adianta chorar o leite derramado. O jeito é gastar essa imensa fortuna na conservação das estradas de rodagem, obras que não tem fim por serem temporárias.E o governo federal está perdendo essa batalha. É isto, meu amigo Beto, que mexeu em minhas lembranças da Estrada de Ferro mencionada pelo sr.Cap. Paulo, em seu blog. Um grande abraço.

E.A.Santos

Prof. Wieland Lickfeld disse...

Caro Adalberto, eu tinha 09 anos de idade quando o trem fez sua última viagem. Na época, morava na Rua Bolívia, e apenas um terreno separava nosso jardim da ferrovia. Lá morava o Seu José, funcionário da EFSC. Era comum vê-lo em casa nas horas de folga, cortando fumo em corda com um pequeno canivete para fazer um palheiro. Às vezes brincávamos com a Taninha, sua filha, mas caminhar sobre os trilhos nos era terminantemente proibido. Se sempre obedecíamos, é outra história, pois crianças são curiosas por natureza. Lembro do apito do trem quando este passava pela região da Sul Fabril/Ponte dos Arcos. Contava-se que a gurizada que morava ao longo da linha, vez por outra, tentava sabotar o trem depositando pedras sobre os trilhos. Algumas vezes meu pai, Willi Lickfeld, nos levava para passear nos trilhos, em horários em que fazer isso era seguro, e aproveitávamos para passar pelo túnel e atravessar a ponte metálica. Cruzar a ponte a pé ou de bicicleta tinha lá seus riscos, pois volta e meia faltava uma tábua do piso. Atravessar o túnel era divertido, mas era preciso estar preparado para o mau cheiro que lá reinava. Na época este ainda tinha uma pequena área de escape, uma espécie de refúgio, utilizada como banheiro de emergência por algumas pessoas que por lá passavam. Com a construção da estrada o refúgio foi lacrado, talvez como medida de segurança, em função do aumento da criminalidade em nossa cidade. Nossos agradecimentos ao Tenente-Coronel Bornhofen pela sua contribuição ao blog. Grande abraço!

Anônimo disse...

Il semble que vous soyez un expert dans ce domaine, vos remarques sont tres interessantes, merci.

- Daniel

werner henrique tönjes disse...

Eis a genuína tradição blumenauense, representadas pelo Dr. Niels Deeke , e o cientista social Professor Adalberto Day, ambos velhos Amigos meus.Foi um encontro feliz. Que Deus os tenha em boa saúde ,transmitindo seus conhecimentos para gerações novas.

Werner Henrique T6onjes disse...

Eis a expressão da genuína tradição e cultura blumenauense,representada por Dr.Niels Deeke e professor e cientista social Adalberto Day num feliz encontro.Que Deus lhes dê uma longa vida sempre transmitindo às novas gerações os seus inestimáveis conhecimentos .

Daniel disse...

danizimmermann mas um dia vai voltar, nao pela ponte de ferro é claro. RT @adalbertoday: Lá foi o trem http://bit.ly/ii7SPC o último apito em Blumenau 1971

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