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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

- Dr. Blumenau e os Hering

HISTÓRIA ROMANCEADA DE BLUMENAU E DO SEU FUNDADOR
Nemésio Heusi

A situação calamitosa dos vienenses, em 1875, atingiu Hartha, prejudicando comerciantes e industriais, direta e indiretamente.
A firma dos “Irmãos Hering”, em Hartha, Saxônia, lutou muito para que a sua casa de varejo e atacado (“Engros & Detail”) não fosse levada à ruína.
Firmas menores faliram. E, por não poderem cumprir os seus compromissos, arrastaram muitas outras maiores à perda total.


Foi exatamente nesta época difícil que Weise chegou a Hartha, e, em conversa com uns e outros, acabou por encontrar Hermann Hering, que se interessou pela conversa de Weise sobre a Colônia do Dr. Blumenau e indagou, curioso:

- Mas, Sr. Weise, e o clima da Colônia?
- Clima tropical. Quente no verão, muito frio no inverno, bastante chuvoso e por vezes úmido. Um rio maravilhoso ligando a Colônia ao Oceano Atlântico. Florestas com muita madeira, riachos e ribeirões ricos em quedas d’água. Terra fértil, enfim, um lugar ideal para se viver, trabalhar e progredir.
- Sr. Hering, os senhores são descendentes de tecelões, não é?
- Desde os nossos antepassados até nós, sempre trabalhamos como tecelões. Mas, Sr. Weise, o Sr. Acha possível, no interior do Brasil. Como disse há pouco, em plena mata virgem como é esta sua Colônia, se implantar uma indústria Têxtil?
No Brasil já existe indústria têxtil nos grandes centros, como na Corte e em São Paulo.
- Bem, Sr. Weise, em principio é um caso a ser estudado. Tudo vai depender de uma reunião em família, para que possamos resolver.
Feita essa reunião em família, ficou resolvido que Hermann Hering, viajaria para o Brasil, a fim de estudar as possibilidades da Colônia do Dr. Blumenau.
Deixando a sua família com o seu irmão Bruno, seu ex-sócio, embarcou para o Brasil, em 1878.
O Dr. Blumenau (Foto) recebeu Hermann Hering com muita satisfação e tudo fez para que ele começasse a sua vida na Colônia como tecelão.
- D. Blumenau, não será fácil tecer sem tear e sem matéria prima!
- Eu sei muito bem, Sr. Hermann, mas vamos procurar onde encontrar esses elementos básicos. O que desejo é que o Sr. comece já a pensar em implantar, embora modestamente, uma indústria de tecelagem
- E não se desvie deste princípio, que é de suma importância para a nossa Colônia.
- Muito bem Dr. Blumenau, eu preciso, porém, sobreviver até que encontremos os nossos teares e a matéria prima, que são os fios. Até lá, para não se consumirem as minhas economias, vou trabalhar como guarda-livros para alguns comerciantes.
- Muito bem, Sr. Hering. Eu vou me corresponder com várias colônias, até encontrar o que necessitamos para tecer. Estamos entendidos, Sr. Hermann?
- Se encontrar tear e fios, já é um bom começo, Dr. Blumenau!
- Vou acabar encontrando, Sr. Hermann!
- O Sr., Dr. Blumenau, é persistente, heim?
- Foi assim teimando, querendo, lutando, que eu consegui realizar o que realizei até aqui em nossa Colônia.
- O que estou vendo e sentindo já é, Dr. Blumenau, uma esplêndida realidade: a sua magnífica Colônia!
- Quer dizer que não está pensando em voltar para a Saxônia, Sr. Hering?
- Não, Dr. Blumenau. Espero aqui ficar definitivamente!
- Já é um bom começo, Sr. Hering.
Mas as coisas demoraram e Hermann Hering teve que expandir os seus negócios, já que só de escritas não dava para conservar as suas economias. Acabou comprando um botequim e foi lá que o Dr. Blumenau o encontrou, mostrando-lhe radiante uma carta que recebera da Colônia Dona Francisca.
- Veja, Sr. Hermann – disse-lhe Blumenau, contente com a carta na mão - leia, Sr. Hering. É a oferta de um tear e uma caixa de fios!
Curioso, Hermann Hering leu a carta enquanto o Dr. Blumenau nervoso, o aconselhava:
- Vá, vá logo, Sr. Hering, a Joinville. Eu financio a viagem e até mesmo a compra.
- Calma Dr. Blumenau. Farei a viagem e vou primeiro examinar o que lhe oferecem. Irei o mais breve possível.
Alguns dias depois, voltava Hermann Hering de Joinville.
- Pronto, Dr. Blumenau, aqui estão o tear e a caixa de fios!
- Ótimo! Ótimo, Sr. Hering!
- Mas, Dr. Blumenau, um tear circular é bem diferente de um simples tear de tecelagem. Há muito ainda a se fazer para chegarmos até lá, Dr. Blumenau.
- Mas, é o começo, Sr. Hering, e como todo começo é difícil.
- É claro, Dr. Blumenau, que não vim para a sua Colônia a fim de ficar atrás deste balcão e de braços cruzados assistir ao esgotamento de minhas economias, pouco a pouco, sem reposições. Agora, porém, surgem novos horizontes, novos rumos.
O fato é que aquele tear e aquela caixa de fios, trazidas por Hermann Hering de Joinville, despertaram nele o sangue de seus antepassados, os quais foram, desde o ano de 1688, sem exceções, tecelões e mestres de tecelagem.

Renascia no ânimo do Dr. Blumenau a vontade de transformar Hermann Hering no primeiro tecelão de sua Colônia, já que a sua primeira tentativa, alguns anos atrás, fracassara completamente. Agora revivia no colonizador a forte esperança de ver implantada em sua nascente Colônia, a indústria têxtil, tão necessária ao desenvolvimento industrial diversificado do seu empreendimento.
O Dr. Blumenau, melhor do que ninguém sabia que em Hermann Hering estava bem viva a velha tradição de seus ancestrais. Todos, sem distinção, foram tecelões ou mestres de tecelagem e malharia, que agora acordava para novos rumos realizadores em terras brasileiras.

E foi assim que, auxiliado por um colono um tanto curioso e experimentado na construção de máquinas, conseguiu, Hermann Hering, montar o tear circular e realizar, sob grande expectativa, as primeiras experiências, com as quais tanto sonhara o colonizador que assistia nervoso, todo o trabalho.
- Como é, Hermann, vai funcionar?
- Tenho muita esperança, Dr. Blumenau!
Sob sorrisos e muita alegria, o tear funcionou satisfatoriamente!
- Pronto, Dr. Blumenau, aí está o começo de tudo. Podemos tomar uma cerveja para comemorar - disse Hermann Hering, exultando de alegria e satisfação.
- Agora, Sr. Hermann cabe multiplicar este tear por muitos e muitos outros.
- Sem dúvida, Dr. Blumenau, é o que faremos se a Providência nos ajudar!
Tudo começou a caminhar bem enquanto surgiu a possibilidade de se produzir artigos melhores, Hermann Hering escreveu à esposa, pedindo-lhe para mandar Paul e Elise, seus filhos mais velhos para ajudá-lo.

Triste, a mãe relutava quanto ao embarque dos filhos. Mas...”este era o sinal de boas notícias”, ponderava Bruno Hering, procurando convencer a sua cunhada em consentir no embarque...”Se Hermann, Minna, está pedindo para mandar seus dois filhos mais velhos, é porque ele confia no seu futuro, lá no Brasil, minha querida cunhada”.
Depois de muito argumentar, Bruno conseguiu convencer finalmente a sua cunhada.
- Nota bem o que vou te dizer Minna. Daqui a pouco, somos todos nós que estaremos sendo chamados por Hermann!

As saudades do marido eram muitas. E as proféticas e otimistas palavras de seu bom cunhado, reanimaram-na e ela, pesarosa mais feliz, consentiu em que seus filhos embarcassem.
- Eu sei Bruno, que se Hermann está pedindo para mandar nossos filhos, é porque confia no seu futuro lá no Brasil! Mas....não sei se eles, tão jovens, vão se adaptar a esta completa mudança de vida e de clima.
- Veja bem, minha cunhada - Dizia-lhe Bruno, animando-a - Paul está com 18 anos e Elise com 14. Ambos com muita saúde. Portanto se adaptarão logo. Hermann não se adaptou? Então o mesmo acontecerá com eles e com maior facilidade.
- Dizem Bruno, que o custo de vida lá no Brasil é muito alto e o trabalho é muito difícil e penoso.
- Olha Minna, vou te confessar uma coisa: Eu, até hoje, não pensei em casar por causa dessas ladainhas das mulheres nos ouvidos de seus maridos. E isso desde os tempos de mamãe e papai: “Meu Deus, como tudo está tão caro! Tudo sobe cada vez mais! Não sei como se pode viver com este custo de vida subindo, subindo, sempre e cada vez mais!”. Por ouvir sempre esta mesma ladainha de mamãe, acabei me complexando e tendo pavor do casamento, Minna! E agora você volta a me assustar. Eu acabo mesmo sem nunca me casar!
- É porque você, Bruno, não lida com comidas nem roupas para as crianças. Só vives com os teus livros na mão, lendo o teu Goethe e recitando Fausto. Esta beleza que tu sabes quase todo de cor!
- Obrigado, minha querida. Mas, confessa que está com pena de mandar os teus filhos. Eu bem posso compreender a tua relutância.
- É, sim - disse ela quase chorando. - Já estou morrendo de saudades de Hermann e agora, quando eles partirem, como vou agüentar tamanha saudade, Bruno?
- Minna, analisemos o caso por outro ângulo, sem sentimentalismo, mas sim, de maneira prática, real e verdadeira:
Se Hermann chamou os seus dois filhos mais velhos, é porque as coisas, para ele, lá no Brasil, começam a melhorar.
Hermann sempre foi muito prudente, responsável e, sobretudo humano. Não iria se aventurar a chamar seus filhos se não tivesse certeza de lhes dar vida igual ou melhor do que a que eles têm aqui.
Se negares, Minna, atender ao seu pedido, provas que não confias em teu marido!
- Não é nada disto, Bruno! Eu tenho absoluta confiança em Hermann, mas como mãe vou sentir muito a ausência deles, como já o sinto com relação a Hermann.
Bruno insistia e argumentava:
- Tenho absoluta certeza Minna, que logo, logo mesmo, quase em seguida a partida de teus filhos, iremos também, nós, minha queria!
Ela sorriu, Bruno, comovido, viu então que acabara definitivamente de convencê-la. Notou em seus olhos tristes duas lágrimas que desciam pelo rosto. Bruno, ligeiro, tirou o seu lenço enxugando-as. E abraçando-a, disse-lhe, carinhosamente:
- Chora minha querida; chora à vontade - Desabafa e alivia o teu coração de mãe extraordinária. Minna! Isto te fará bem!
Cia.Hering nos primórdios de 1890
Alguns dias depois, Paul e Elise embarcaram rumo ao Brasil.
Com a chegada dos filhos, Hermann Hering criou alma nova. Tão logo chegaram à Colônia, levou-os para apresentá-los ao Dr. Blumenau.
- Aqui estão, Dr. Blumenau, meus queridos filhos, Elise e Paul!
- Muito prazer em conhecê-los, jovens fortes e bonitos. Então vieram para ajudar o papai, não é?
- É, sim senhor. Viemos para trabalhar com o papai - apressou-se em responder Paul.
Elise, curiosa e pronta para mostrar os seus dotes, disse:
- Eu vou costurar as camisetas que o papai está fabricando!
- Então já é costureira? Muito bem, jovem. Além de bonita, é prendada. Que idade tem Elise?
- Fiz 14 nos no dia 1º de julho passado, Dr. Blumenau. Mas eu já sei costurar desde os 12 anos. Aprendi com mamãe não só costurar, como também bordar.
- E o jovem, o que estudava?
- Eu estava na escola de artífices.
- Ótimo, então será um excelente tecelão como todos os seus antepassados, não é, Paul?
- É, sim senhor. Dr. Blumenau. Eu quero ser o que o meu pai vai ser aqui na sua Colônia.
Hermann Hering, silencioso e feliz, assistia ao diálogo animado de seus filhos com o Dr. Blumenau.
- Bem, Sr. Hermann Hering, já tem o Sr. Braços hábeis para o trabalho.
- Hábeis e baratos. Por ora, trabalharão apenas pela comida. E, sorrindo, disse para Paul: ou será que vão exigir salários?
Paul olhou para o pai e com um sorriso brejeiro, lhe disse:
- Por enquanto, não! Mas, quando os negócios prosperarem, quero um bom salário, pai!
Elise, ligeira entrou na conversa e olhando carinhosamente par ao pai, falou:
- Pois eu vou trabalhar toda a vida sempre de graça para o papai! Hermann Hering abraçou seus filhos, feliz e carinhosamente.
- Muito bem, Hermann, meus parabéns! E para comemorar este feliz encontro, hoje mesmo estão convidados para o jantar; lá em minha casa. Aceitam?
- Eu aceito! - disse Elise, rapidamente.
- Muito obrigado, Dr. Blumenau. É um prazer que aceitamos o seu gentil convite.
- E sua senhora, como está?
- Muito bem! Saudosa e preocupada com o alto custo de vida aqui no Brasil!
- Cus...to de vi...da, alto? Na Alemanha a vida é muitas vezes mais cara do que aqui, Hermann!
- Eu sei Dr. Blumenau. Mas, sabe como são as mulheres e o fantasma do custo de vida, que as persegue por toda a vida.
Não é bem, Dr. Blumenau, o custo de vida. É mais o medo da longa travessia que a preocupa.
- Tem toda razão, Hermann. Aliás, sejamos justos. Pois, para uma senhora com filhos menores, é, sem dúvida, algo assustador a longa travessia oceânica de muitos e muitos dias.
Algum tempo depois da chegada dos filhos, Hermann Hering, auxiliado por eles nos trabalhos caseiros, sentiu-se encorajado e resolveu chamar toda a família.
Em Hartha, a vida corria normal. Sempre com os olhos atentos ao carteiro do bairro, Minna, disfarçadamente, na hora da sua passagem corria para a janela à espera de que ele batesse à porta. E ficava triste quando ele passava direto, dando-lhe apenas um aceno.
Um dia, porém, de longe, o carteiro lhe deu um aceno mais alegre e gesticulava feliz, com uma carta na mão.
Ela levou a mão ao peito para conter as batidas do seu coração que parecia querer disparar e sorrindo e chorando, abriu a porta para receber o carteiro mais simpático deste mundo!
- Dona Minna! Dona Minna! - Dizia o carteiro quase gritando de tanta satisfação - é do Brasil! Do Sr. Hermann, Dona Minna!
- Obrigado! Muito obrigado, meu jovem!
Com a chegada da carta, um novo raio de sol e de esperança iluminou o lar dos Hering, na longínqua Hertha.
*****************************
Blumenau em Cadernos – TOMO XXIII – Nº 3 Marçode 1982
Arquivo – AHJFS/ Sávio Abi-Zaid/Adalberto Day

Para saber mais acesse:
http://adalbertoday.blogspot.com/2010/05/ciahering-130-anos-de-historia.html

http://adalbertoday.blogspot.com/2011/12/museu-hering-e-malha.html

3 comentários:

Nilton disse...

Adalberto
Muito boa esta historia.
Nilton

Braz disse...

Adalberto
Que tempos difíceis eram aqueles vividos pelos alemães, na busca de uma forma mais digna de vida É pena que até hoje não conseguimos pagar a enorme dívida que temos com os africanos, libertados da escravidão sem um projeto social de longo alcance, e até hoje marginalizados da vida brasileira, devido às mazelas de um sistema educacional falido, que tentam organizar de forma simplista, sem qualquer espécie de planejamento.
Braz dos Santos

Santos disse...

Que beleza meu querido amigo Beto. Mais uma pagina importante da historia de nossa colonização por essa notável gente da Alemanha, que colocou em evidencia o nosso Estado. Quanto devemos a eles pelo progresso de nossa região.
E.A.Santos

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