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terça-feira, 21 de setembro de 2010

- No tempo em que faltava carne

A escritora e Colunista Urda Alice Klueger, nos apresenta uma crônica sobre o "Plano Cruzado" 28.01.1986 a 15.01.1989, decreto de 22.02.1986, em seguida "Cruzado Novo".
Foto : "Calendário de Blumenau 1988".
Em Blumenau como todo território nacional o entusiasmo tomou conta da população. Até os mais céticos acreditaram, mas o sonho a esperança do povo começou rapidamente a ruir e os "Zeros" voltaram. 
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Por Urda A. Klueger
Quem é jovem, não deve se lembrar, se bem faltou leite, também, e muita gente teve a mamadeira em perigo. Então, para os mais jovens, eu explico :
Em 1986, tivemos no Brasil uma coisa que se chamou Plano Cruzado. Foi uma coisa estupenda: com uma penada, o governo acabou com a inflação, tirou três zeros da nossa moeda e mudou o nome dela. Só isso não foi estupendo: estupenda foi a reação do nosso povo, que acreditou que seus problemas tinham terminado, e embarcou de cabeça no sonho de que "ia dar certo". Como milhões e milhões de outros brasileiros, eu também acreditei, e fiquei fula da vida quando ouvi a única voz que se levantou contra o plano: com horário político reservado para aqueles primeiros dias, o Leonel Brizola deitou e rolou em cima do entusiasmo do brasileiro, afirmando que inflação não se acaba por decreto, que o plano era furado e tinha vida curta. Fiquei cheia de rancor para com o Brizola, advogado do diabo dos nossos mais caros sonhos e, rapidinho, passei a admirá-lo, quando plano escorreu pelo ralo e nós embarcamos numa ciranda financeira que chegou a gerar 84,32% (Março de 1990) de inflação em um só mês.
Pois bem, mas a estupenda reação do nosso povo a favor do plano fez coisas dignas de nota: não dá para esquecer como pessoas comuns se sentiam indignadas a ponto de fechar supermercados, em nome do povo brasileiro, e outras coisas assim, como denunciar pequenos negociantes porque haviam subido o preço de alguma quinquilharia, indo um monte de gente parar na cadeia, levados pela deusa da época, uma tal de SUNAB.
O plano tinha sido em fevereiro: resistiu até a metade do ano. Lá por agosto, setembro, começaram a faltar coisas: carne, feijão, arroz, leite. O que mais doía na alma do brasileiro era a falta de carne - frango havia à vontade, e peixe também, mas carne, para o brasileiro, é a de gado, e aqueles sucedâneos não contavam. Eu era daquelas que acreditavam que, se todos nos uníssemos, o plano acabaria dando certo. Assim, quando a carne faltou (conseguia-se carne com ágio, secretamente), decidi que não me rebaixaria a pagar ágio, e que tudo faria para o sucesso do plano. Assim, se não havia carne, eu comeria sardinha - e durante semanas, fiz incontáveis tortas picantes, lindas, bem decoradas, recheadas com sardinha de lata, e me alimentei de torta picante até não poder mais nem olhar para uma.
E o plano foi para o brejo, bem como Brizola havia falado. Houve outras coisas estupendas antes que nos déssemos por vencidos, como a SUNAB, de helicóptero, reunindo no campo, gado que os donos se negavam a vender, tudo devidamente filmado e assistido no Jornal Nacional, e importação de carne da Europa, que chegou aqui com fama de ser carne contaminada pelo recente desastre nuclear de Chernobyl, carne que os europeus não queriam, coisa boa só para gente de Terceiro Mundo. Apesar da fama de contaminada, tal carne européia causou toda uma disputa: políticos de esquerda do Vale do Itajaí foram ao porto, exigir que a carne ficasse no Vale, e não fosse enviada para Curitiba, segundo constava que seria. Houve pega entre a polícia e os políticos, e eles foram em cana lá em Itajaí, bem como as coisas eram num país que recém saíra de uma ditadura e ainda não sabia como agir. Outro dia ouvi uma conversa de que tal carne, vinte e quatro anos depois, ainda está estocada em algum frigorífico, para que se decida se está ou não contaminada pelo desastre de Chernobyl. Nossos políticos de esquerda, porém, tiveram que amargar a cana e responder a processos pela sua defesa do Vale, coisa que também considerei estupenda, por eles terem tido a coragem de dar a cara para bater em defesa do que acreditavam.
Na festa de fim de ano do meu emprego, naquele ano, havia toda uma fartura de coisas: camarão, pernil, peixe, frango, mas estávamos todos tão obcecados com a falta de carne, que quando o garçom apareceu com uma grande travessa de carne de gado e deu um pedacinho para cada um, só um pedacinho, para que não faltasse para ninguém, houve uma ovação no salão, e o camarão, e o pernil, e tudo o mais, deixaram de ter importância. Só que aí eu já não estava achando a coisa estupenda - já houvera incidentes demais por causa do plano, e eu passara a dar razão a Brizola, de que inflação a gente não acaba por decreto.
Mas que foi um tempo divertido, foi. Há tantas histórias engraçadas devido à falta de carne, que daria para escrever um livro!

Arquivo: Adalberto Day/crônica de Urda Alice Klueger-escritora/Colaboração José Geraldo Reis Pfau

7 comentários:

Fernando Pasold disse...

Sim sim, eu lembro disso. Naquela época, meus pais, eu e minha irmã viajamos para visitar parentes no Rio de Janeiro. Lembro que meu pai levou no ônibus um isopor cheio de carne comprada com ágio, direto de produtores rurais no interior. Foi um sucesso no Rio. Acho que "incomodamos" toda a vizinhança com a fumaça cheirosa do churrasco!

otrabuco disse...

Lembro da Polícia Federal laçando gado no pasto. Que vexame! Mas este pessoal está aí, apoiando a Dilma!

Angeline disse...

Parabéns a autora do artigo é sensacional. Apesar de nova na época vivi tudo isso e o caso da sardinha foi p mim uma realidade, claro, contávamos com a criatividade e a primazia da nossa mãe, exímia cozinheira e professora.

Anônimo disse...

Lembro bem daquele triste tempo. O que será que vai nos faltar?

Paulo

Cao Zone disse...

Só faltou mesmo dar nome aos bois: José Sarney, Dilson Funaro, João Sayad, Edmar Bacha, André Lara Resende, Persio Arida e outros. O plano estava pronto, mas o presidente relutava em assinar só o fazendo depois aquela "pegadinha" que o Jorge Murad aplicou no sogro José Sarney.

Cao Zone
caozone@uol.com.br

Prof. Wieland Lickfeld disse...

Caríssimos Urda e Adalberto, que surpresa agradável ser lembrado deste período pós-guerra-europeu-cubano de nosso passado recente. Lembro que pouco antes disso, entre 1979 e 1982, aproximadamente, em certas épocas havia filas imensas em nossos postos devido à escassez de álcool combustível. Recordo também de um senhor que morava na Velha que vendia gasolina clandestinamente, perigosamente armazenada em tambores, pois os postos não abriam aos domingos. No tocante ao texto em si, impossível não lembrar desse tempo em que ninguém acreditava que a inflação pudesse ser vencida. Tão entranhada estava em nosso cotidiano, que as empresas se preocupavam mais com o lucro que tinham aplicando seu dinheiro no "over", o famoso "overnight", do que em investir em eficiência e competitividade. Lembram da patética cena do nosso então presidente, o imortal de Marimbondos de Fogo, picareta que declarou a moratória da nossa dívida externa e congelou os preços com um canetaço, convocando "Brasileiros e brasileiras!" a atuar como "Fiscais do Sarney"? E da famosa "tablita", que veio a tiracolo, para recalcular o valor de prestações calculadas antes do congelamento de preços? Ela continha índices pelos quais os valores das prestações eram multiplicados a fim de ser gradativamente reduzidos. Oxalá termos como Plano Cruzado, Plano Bresser e Plano Verão fiquem para sempre apenas no âmbito das pesquisas sobre nossos fracassos político-econômicos. Olhando para trás, parece inacreditável que, ao menos por enaquanto, podemos comemorar vitória sobre a inflação. A pergunta que me faço é sobre o que a Urda escreverá daqui a outros 25 anos. A respeito da nossa vitória sobre o exemplo vergonhoso que estamos dando ao mundo, enquanto povo e nação, à medida que aceitamos, defendemos e apoiamos a corrupção que reina na esfera política como nunca antes neste país e, desprovidos de qualquer orgulho nos prostituímos, vendendo nossa dignidade em troca de quase nada? Sinceramente, espero que não demore tanto. Grande abraço!

Silvio Roberto de Oliveira Silvio disse...

Faltou cimento,só pagando ágio.Fui na Hermes Macedo comprar uma betoneira de 360 litros , um vibrador para concretagem e não tinha.Os fabricantes não estavam entregando.Foi uma época difícil para nós que trabalhávamos na área da construção Civil.Tudo desapareceu do mercado e só tinha,se pagássemos ágio.Teve também o DEFLATOR que quebrou muito comerciante.Foi criado o Plano Cruzado,Cruzeiro virou Cruzado.Sai da cabeça dos economistas Plano cruzado II e o Cruzado virou Cruzado Novo.Dorme com uma loucura dessa
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