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domingo, 12 de setembro de 2010

- Henrique Janning

Henrique Janning: meu padrinho

A escritora e Colunista Urda Alice Klueger, nos apresenta uma crônica belíssima sobre seu tio padrinho Henrique Janning.
Por Urda Alice Kluger

Ele devia gostar muito de mim. Eu fui conseqüência de uma relação familiar que já parecia antiga, embora tivesse, creio, pouco mais de uma década.
Era plena Segunda Guerra Mundial quando minha mãe, com 17 anos, chegou a Blumenau e foi ocupar uma vaga na então Empresa Industrial Garcia (Foto) e morar na casa do irmão dela, o tio Arnoldo, que eu vi uma única vez na vida, mas do qual guardo a lembrança de um homem moreno e bonito, verdadeiro moçárabe, daqueles lusos do qual nos fala Gilberto Freire . Há uma foto dele a atestar que minha impressão lá da primeira infância não estava equivocada. Agora que minha mãe já partiu, fico pensando que deveria ter perguntado mais, saber hoje mais detalhes do que aconteceu naqueles anos até 1944, quando ela e meu pai se casaram. Sei que por algum tempo ela também “pagou bóia” na casa da D. Madalena Hort, e que, antes de casar, pagava bóia na casa do jovem casal Janning, Henrique e Emília, que já tinha a filhinha Norma.
Tanto quanto me consta, minha mãe saiu da casa dos Janning para casar – Emília era nascida Bacca, família longeva de muitos filhos, e aquela moçada era amiga dos jovens meus futuros pais, que mais tarde, ao longo da minha infância, sempre estavam contando esta ou aquela história divertida vivida em companhia dos Bacca.
Então, aquela amizade com os Janning e com os Bacca começou mais ou menos uma década antes de eu nascer – quando nasci, em 1952, Henique e Emília Janning (foto) foram meus padrinhos.
Que ela gostava de mim está fora de dúvida – convivi com ela pela vida afora por mais de meio século. Quem partiu cedo foi ele, mas quantas lembranças! De outras, claro, não há como me lembrar: como teria sido aquele dia que deve ter sido festivo, quando me levaram à pia batismal e ele apresentou a meus pais a caderneta de poupança que havia aberto para mim no Banco INCO, extinto há décadas, encampado por um dos grandes tubarões do mundo bancário brasileiro? Fizeram churrasco? Assaram galinha? Houve Reicekaesel, macarrão ou maionese, os quitutes daqueles tempos em que eu era criança? Sei é que aquela caderneta de poupança era algo luminoso na minha infância – eu desconhecia qualquer outra criança que tivesse uma, e meus pais estavam sempre falando nela, no grande presente que eu ganhara, reserva certa para eu ir ao banco retirar quando completasse 18 anos.
Grande Hotel e o Banco INCO
Quando eu fiz 18 anos nem o banco existia mais e um monstro chamado Inflação há muito comera aquela caderneta...
Mas havia outras coisas que tinham vindo do meu padrinho e que iluminavam a minha infância: um baldinho com tampa, pintado de azul e com muitos desenhinhos, que um dia viera cheio de balas coloridas e translúcidas. E um ovo de Páscoa de madeira, com duas metades que se encaixavam perfeitamente. Era um ovo grande e oco, que podia ser enchido de guloseimas a cada Páscoa de novo... Eram coisas únicas, tesouros inestimáveis, que minha mãe guardava no armário de vidro da sala, aquele que um dia tinha sido da minha avó lituana, e que hoje está no meu escritório.
E havia as visitas. Lembro o quanto era xucra nesse começo da minha vida, de como temia que os outros percebessem as minhas emoções e os meus sentimentos. Então, quando sabia que os meus padrinhos vinham de visita, escondia-me, evitava olhar para eles, tanta era a expansão afogante que acontecia no meu coração diante de tamanha emoção. Assim era em Blumenau; assim era em Camboriú, no tempo em que a gente morava lá na boca da Lagoa. Lá em Camboriu, inclusive, houve um dia que passou sem que eu entendesse como, tanto me escondi por vergonha da minha emoção com a presença do meu padrinho. Quando começou a anoitecer eu temi como decerto se temia nos tempos bíblicos diante dos mistérios da natureza, pois, nas minhas contas, estava-se no começo do dia, e não no fim. Só saí do meu esconderijo de debaixo da casa quando me garantiram que não era um mistério que estava acontecendo, mas apenas um anoitecer normal, e que meu padrinho já fora embora. Da ocasião, restou-me um bocado de bichos-de-pé adquiridos no esconderijo da minha emoção.
Padrinho, naquela altura, era dindinho, mas poucas vezes usei dindinho ou dindinha para aquela dupla que me queria bem, mesmo depois que cresci mais e deixei de ser tão xucra. Eu os chamava de Henrique e Emília, e até hoje fica difícil, para mim, pensar neles com outra denominação.
Então, quando já era uma mocinha, minha mãe me disse que meu dindinho Henrique estava doente, e eu fui vê-lo. Teria, penso, uns 15 anos, e fui à sua casa na rua Mariana Bronnemann, em Blumenau.
Ele estava alquebrado e muito magro – guardava um leito de alvos lençóis, mas me recebeu com toda a efusão de que era capaz, e lembro dos seus olhos que eram como poços de ternura. Nessa altura, ao invés de xucra, eu estava muito adolescente, sem a maturidade suficiente para ter aproveitado aquele momento. Fiquei algum tempo lá, sem graça, sem saber como agir, enquanto ele me fazia perguntas pejadas daquela ternura que via nos seus olhos cheios de febre.
Não o vi nunca mais. Minha mãe me avisou outras vezes de que ele estava doente, mas eu andava preocupada demais amando aos Beatles e aos Rolling Stones para pensar muito no meu padrinho, e quando soube, ele já tinha morrido.
Guardo dele essas coisas, os olhos cheios de ternura, o baldinho azul, o ovo de Páscoa de madeira, a famosa caderneta de poupança do Banco INCO, os bichos de pé que peguei naquela vez em que me escondi tanto. Queria ter uma foto dele para ter certeza se ele era como eu me lembro.
Agora é muito tarde para tudo. Ele amou uma pequena menina que batizou lá no pós-guerra a ponto de ter para ela aqueles olhos cheios de ternura dos quais me lembro – a menina envelheceu recordando como tanto temia que alguém visse a emoção dentro do seu coração a ponto de se esconder do seu padrinho – os caminhos dos dois estiveram por muito pouco tempo próximos um do outro, mas como dói, agora.
Choro, Henrique Janning, meu padrinho. Pelo que foi possível, mas mais pelo que não foi.
Blumenau, 30 de agosto de 2010.
Urda Alice Klueger Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR
Arquivo de Adalberto Day e família Klueger

Um comentário:

Cao Zone disse...

Minha mãe cabelereira negocia pedaços de fazenda que comprava em cooperativas e trocava no interior por cabelos para fazer peruca. Numa dessas permutas ela deixou uma peça de pano para lençois branco com listinha azul provavelmente da Empresa Industrial Garcia. Para nossa surpresa quando um ano depois essa família veio a nossa casa para um novo negócio, todos os mais de dez filhos usavam camisa ou vestido de pano branco com listinha azul. Eram os tais panos para lençóis da Garcia. E que bela camisa Alfredinho!

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