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domingo, 21 de junho de 2009

- Roupa de Missa

Rua XV de Novembro em Blumenau
Apresentamos mais uma bela crônica da escritora historiadora, e Colunista Urda Alice Klueger, que nos brinda falando sobre as roupas de domingo. Quem não tinha, ou ainda cultiva este costume - uma roupa especial que diziamos de domingo ou "roupa de Missa".
"Histórias de nosso cotidiano":
Por Urda Alice Klueger
Saí na rua na manhã de Domingo. Blumenau é uma cidade que fica vazia aos domingos: se verão, está todo mundo na praia; se não é verão, está todo mundo dormindo, curtindo a ressaca do churrasco ou do baile da véspera. Mas, apesar do seu ar de cidade abandonada, sempre há uns corajosos que se aventuram a andar na rua nas manhãs de Domingo, e eles me chamaram a atenção.
Como se anda na rua, hoje, nas manhãs de Domingo?
Assim neste tempo de outono, os trajes variam das bermudas ao agasalho, do chinelo ao tênis. Eventualmente, vê-se uma velhinha em trajes chiques, na certa indo para a missa, e essas raras velhinhas me fizeram viajar no tempo, fizeram com que eu revivesse as manhãs de Domingo do começo da minha vida, quando todas as manhãs de Domingo eram manhãs muito solenes.
Igreja Nossa Senhora da Glória, déc.50,60,e em 2008
Na minha infância, e no começo da minha juventude, Domingo era dia de ir à missa. E ia-se à missa na maior estica, usando-se a melhor roupa que se tinha, com sapatos pretos muito bem engraxados, ou sapatos brancos recém-pintados de Nuget. Naquele tempo, tinha-se os vestidos de andar em casa, os vestidos mais-ou-menos, e os vestidos de ir à missa. Na época, as roupas masculinas eram totalmente sem graça e sem imaginação – todos os homens usavam camisas brancas engomadas e calças de casemira azul-marinho com vinco – de maneira que nem lembro como eram as roupas dos meninos, mas nós, meninas, arrasávamos nas cores e nos modelitos. Vestido de missa era coisa séria, tinha que estar muito bem passado, e armado por toda uma coleção de anáguas de bordado inglês cheias de goma. Na saída da missa, na hora do pacote de pipoca semanal, as meninas ficavam se exibindo umas para as outras, contando, sob a barra do vestido, quantas barras de rendas de anáguas que cada uma tinha – quantidade de anágua era questão de status.
Frei João Maria, em visita a uma residência no bairro Glória, logo após a celebração de uma missa. Notem a comunidade bem vestida a caráter para os domingos.
Nessa época, lá no começo da década de 60, minha tia Frieda, que vivia na fantástica cidade do Rio de Janeiro e que uma vez por ano viajava para Santa Catarina (ainda me lembro quando ela vinha do Rio de Janeiro de navio), trouxe, para mim e minhas irmãs, a última novidade em moda: anáguas de um material novo, que ficavam armadas sem necessidade de goma, cobertas de riquíssima renda de nylon, um arraso total para se usar, e, principalmente, para se exibir para as outras meninas na hora do pacote de pipoca semanal.
Eu adorava aquelas roupas rebuscadas e complicadas, aquelas roupas de ir à missa. Ainda na década de 60, porém, a moda começou a mudar. Surgiram fibras novas, a primeira delas sendo o nycron. Minha mãe, adepta das novidades, não titubeou: passou a vestir-nos de nycron e ban-lon, roupas que não precisavam ser engomadas, e sequer passadas a ferro. Por algum tempo, foi empolgante usar saia plissada de nycron e vestido de nycron, mas, para mim, aquilo logo perdeu a graça. Tinha saudades das roupas rebuscadas, complicadas e engomadas; sonhava com vestidos de organdi cheios de babadinhos, enquanto tinha que usar aquelas roupas de vanguarda, aquele chatíssimo vestido de nycron cor-de-rosa para as missas de Domingo, mas isso é outra história, coisas do meu gosto pessoal.

Frei João Maria, o terceiro da esquerda para a direita, com os missionários em 1964 - Igreja N.S. da Glória

O fato é que as pessoas do começo da minha vida vestiam-se de festa a cada manhã de Domingo. As mulheres usavam suas sedas e suas jóias; os homens usavam seus chatos ternos pretos ou azuis-marinhos – a caminho da igreja, dentro dela, todos se comportavam-se coma maior urbanidade possível, e cada manhã de Domingo era uma festa solene, onde se via a melhor cara da sociedade onde se vivia.
Os tempos mudaram, as pessoas mudaram, a sociedade mudou. Eu, pessoalmente, acho que tudo mudou para melhor – vivemos, desde lá, grandes mudanças, a partir da filosofia que veio com o movimento hippie. Acho que hoje somos menos preconceituosos, menos hipócritas, menos preocupados com a opinião dos vizinhos. Achei legal, hoje, ver como as pessoas se vestem informalmente nas manhãs de Domingo, como curtem com liberdade seu dia de lazer, seu dia sem as pressões do trabalho que garante o pão nosso de cada dia.
As pessoas andam soltas e livres com seus chinelos e suas bermudas, sem a exibição da quantidade de anáguas, sem a opressão das golas e colarinhos cheios de goma. Sou totalmente favorável a esse novo modo de se vestir descompromissadamente nas manhãs de Domingo, mas que deu uma saudadezinha do tempo em que se tinha as roupas de missa, ah! Isso deu!
Blumenau, 28 de Abril de 1996. Urda Alice Klueger/Escritora e historiadora Arquivo de Adalberto Day/Olimpio Moritz/Rubens Heusi

4 comentários:

Bettina disse...

Adalberto
esse lance de roupa de domingo é muito relativo. :-) Certa vez li um conto onde uma senhora recebera do marido um lenço de presente. Sempre que o marido a questionada sobre a data em que iria usar o lenço, ela respondia dizendo que estava aguardando um momento especial, um dia importante. O tempo passou e esse dia chegou. A mulher falecera e finalmente o marido a vira usando o lenço. :-) Sou da opinião de que cada dia é um dia especial e importante. Todo dia é dia de Missa :-) Todo dia é dia de encontrar com Deus, então por q não estar arrumada então todos os dias ? :-)



--
Bettina Riffel
Jornalista na Alemanha

Angeline disse...

Caro Adalberto,

Além do tema muito interessante e tradição em vários lugares, pelo menos no Brasil, assim era na minha cidade, Miracema, não tanto hoje, mas nos meus tempos de catecismo e adolescência ainda era assim... quero destacar a primeira imagem.

Talvez seja essa a imagem q gravei, de uma rua central de Blumenau, onde à época em que fui, havia até um carro com Papai Noel desfilando pela cidade, ao som de uma banda.

Abçs
Angeline

Tere disse...

Beto, lendo essa belíssima crônica, minhas lembranças retornaram ao tempo de minha infância, nas missas de domingo e na pipoca. Confesso que pensava muito na pipoca quentinha durante a missa, as vezes não via a hora de acabar, pareciam as vezes tão longas....ainda mais quando o padre rezava a missa toda em latim e cantada e aquele cheiro de incenso sempre me deixava com náuseas. E lembram que durante um tempo os homens ficavam do lado direito e as mulheres do lado esquerdo dentro da igreja? Depois isso mudou, e isso ocorreu muito lentamente, de vez em quando uma mulher se arriscava ir para o lado dos homens ou vice versa, até que um dia não se via mais essa divisão.

Um abraço.

Arlete disse...

Caro Adalberto
Gosto muito das crônicas da Urda.Lembro com saudade desse tempo e de vê-la sempre com um livro debaixo do braço. Que saudade do Frei João (apesar de ser muito enérgico), fiz a primeira comunhão com ele.

Abraço, Arlete

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