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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

- Lembranças e futuro do Morro Spitzkopf. Parte I

Hoje temos o prazer dentro do nosso quadro histórias de nosso cotidiano, apresentar um belíssimo texto do nosso ecólogo e ambientalista Lauro Bacca. Desde garoto Bacca se tornou amante e defensor da natureza - até os dias correntes Em sua narrativa, nos brinda com sua experiência pelos rincões de nossas matas, morros, e ambientes dos mais belos de nosso Bairro Progresso no Distrito do Garcia.
Histórias de nosso cotidiano
Por Lauro Eduardo Bacca
Não lembro bem quando ouvi falar do morro Spitzkopf pela primeira vez, mas com certeza foi ainda na minha infância. Um dia, isso lembro bem, o assunto mereceu comentários em aula, da inesquecível professora Aurora Dorigatti, de quem fui privilegiado aluno no quarto ano primário, do Colégio Sagrada Família, em Blumenau. A partir daí, pouco a pouco, a menção de dona Aurora ao “morro mais alto de Blumenau”, passou a exercer mais que uma atração, um verdadeiro fascínio sobre mim.
Conversas em família, suscitadas por perguntas curiosas de minha parte, completavam de quando em vez alguma vaga informação nova sobre o assunto. Criança já com interesse despertado para a natureza, avistava, da janela dos fundos do segundo andar de nossa casa, na Rua Amazonas, no. 1.204, um morro aparecendo bem ao fundo, quase que escondido pelo encontro de outros dois morros mais próximos à sua frente. “Só pode ser aquele”, vivia dizendo para mim mesmo. Mas não era, como descobri mais tarde.
Quase esquecendo o Spitzkopf, acabei, por alguns anos, elegendo um insignificante morro, porém bem mais próximo que também avistava dos fundos da casa de minha infância, como a minha “montanha” particular, por cujo flanco dorsal, soube depois, sobe a Rua Epitácio Pessoa, entre os bairros Jardim Blumenau e Vila Formosa, fundos da Alameda Rio Branco, em Blumenau.
O tempo passou e eis que chegou a oportunidade de conhecer e “escalar” o famoso Spitzkopf pela primeira vez. Foi num passeio promovido pelo saudoso Professor Lothar Krieck, com seus alunos da 1ª. Série B (minha turma) e outros de outras turmas, do Colégio Pedro II de Blumenau. A grande aventura aconteceu nos dias 12 e 13 de novembro de 1966. Clóvis Barbieri, Eriberto Dalla Rosa, Ana Ramers, Evelásio Paulo Vieira, Germano Beduschi Jr, Guido Kurth, Luis Augusto Bayer Gomes, Marcos Leyendecker, Nelson Odair Pereira, Oscar Jenichen, Osmar Machado, Paulo Michels Bento, Ronaldo César Schork, Wilson Pereira e tantos outros, faziam parte daquela turma, a maioria tendo participado da aventura.
Pedra no Morro do Spitzkopf.
O transporte, sem as rigorosas leis de trânsito atuais, aconteceu com todos livres e soltos em meio à bagunça dos pertences e tralhas, sobre a carroceria aberta de um dos caminhões da Transportadora Labes. O motorista foi Osmar Labes, colega do curso noturno com habilitação para dirigir recém-obtida. Num ponto a cerca de um km antes da entrada da propriedade de Udo Schadrack, dono do pico e grande parte do morro, todos desembarcaram. A partir da empresa Artex, no início do bairro Progresso, é bom lembrar, as ruas eram pouco ou nada pavimentadas.
A subida foi inesquecível. O colega Theo Falce, que já conhecia o acesso, ficava explicando quanto faltava para chegar. Quase ninguém tinha as modernas mochilas e apetrechos que hoje facilitam as caminhadas. Bebidas geladas foram penosamente carregadas por todo o trajeto de 7 km de subida, numa pesada geladeira portátil (isopor?), pendurada feito liteira num improvisado galho comprido e resistente, apoiado nos ombros de heróicos carregadores que se revezavam. Não se cumpria à conduta consciente em ambientes naturais e muitos deixaram seus nomes ou iniciais gravados em paredes e pedras, algo que não sabíamos (e nem fomos alertados pelo professor), ser absolutamente condenável e atualmente simplesmente inadmissível.
Após essa primeira subida, seguiram-se muitas outras, num total de setenta e uma até o momento, computadas apenas as que foram feitas a pé. Em 11/11/2006, junto com vários amigos, comemorei 40 anos daquela primeira subida ao Spitzkopf. Tencionava completar e comemorar logo a centésima subida, sempre premiado, ao final dos esforços, pela contemplação impagável de uma das mais espetaculares paisagens que existem no Vale do Itajaí, do alto do seu pico de 913,98 metros acima do nível do mar (altura oficial IBGE/ Cartografia). Nos últimos anos, porém, este prazer vem sendo afetado pela presença nada agradável de motocicletas, seus barulhos e desagradável odor de fumaça, trânsito de alguns veículos que danificam e facilitam a erosão na estrada/caminho de acesso, visitantes pouco conscientes que sufocam o silêncio da natureza com músicas emitidas de seus aparelhos portáteis e outros inconvenientes. Isso afasta os verdadeiros amantes da natureza, que sabem respeitá-la como ela é e que procuram lugares belos para apenas contemplá-la e ter a sensação de fugir por uns momentos da civilização.
Conheci o Spitzkopf e ali curti muito do que melhor há para ser curtido junto à natureza primitiva, ainda num tempo em que lá havia um confortável abrigo com muitos beliches com colchões de palha, cozinha com fogão a lenha anexa e engenhoso maquinismo de obtenção de água através de um balde conduzido por roldana e pendurado num resistente arame até uma nascente localizada 100 metros abaixo do lugar da cabana que servia de abrigo. Praticamente tudo igual ao que foi construído no início da existência do "Spitzkopf Club", no longínquo ano de 1929. A visitação acontecia sob rigoroso controle pessoal do proprietário, Sr. Udo Schadrack.
Atualmente o morro Spitzkopf está incluído dentro do perímetro do Parque Nacional da Serra do Itajaí e, se depender do que se espera do Plano de Manejo do Parque Nacional, ele deverá passar a ser talvez a mais importante atração dessa nova e importante Unidade de Conservação da Mata Atlântica brasileira, localizada no médio Vale do Itajaí. Com muitos visitantes e muitos atrativos. Mas também com muito respeito e contemplação da natureza, comprovando ser viável o desafio de permitir o acesso à Natureza ao maior número possível de pessoas, sem, no entanto desvirtuar os princípios que regem a conduta consciente dos visitantes de ambientes naturais.
Lauro Eduardo Bacca – ecólogo e ambientalista; presidente da Associação dos Proprietários de RPPN de SC; garciense.
Arquivo Adalberto Day e João Carlos Day

2 comentários:

Arthur disse...

Primeiramente me apresentando me chamo Arthur e moro em São Paulo!!
Gostaria de agradecer e parabenizá-los pelo site de pesquisa!!!!
Recentemente tive que fazer um trabalho sobre Hermann Blumenau e consegui informações muito importantes para meu trabalho, fora este ainda passei pelo site para olhar outras matérias e fiquei impressionado com o trabalho!!!!!!
Muito obrigado!!!
Abraços Arthur

CArlos A.Salles de Oliveira disse...

Peço ao caro amigo Adalberto que se possível inclua um pouco da biografia ou, da história do Professor Lauro Bacca, a quem solicito o favor de transferir, ao nosso “guardião da história”, tudo o que for possível nesse sentido, para que no presente possamos aprender e ensinar sobre sua pessoa e sobre o seu trabalho e, para que no futuro as novas gerações possam conhecer e se enriquecer com a sua obra.
Ele não vai lembrar-se de mim, mas eu, nunca esqueci, quando ainda pequeno estive com amigos na residência do jovem Lauro e, na ocasião, fiquei muito assustado e impressionado com a enorme quantidade de bichos, de muitas espécies, que este conservava, de todas as formas e, muitos, ainda vivos. Tranqüilizei-me quando percebi o seu grande conhecimento nesta área e o absoluto controle em manuseá-los e ministrar a respeito, principalmente quanto as arrepiantes e enormes aranhas, que aos olhares dos estarrecidos espectadores, estas em suas tranqüilas mãos nos apresentava.
Na época, quando sobre ele lembrava ou o via, uma certa intuição dedutiva fazia-me sempre recordar do que aprendera sobre o nosso grande biólogo do início da colonização e, instintivamente eu raciocinava – “o Lauro vai ser o nosso Fritz Mueller dessa época”, do nosso tempo e, hoje percebo que a minha intuição não estava errada, pois é dessa forma que todos, que conhecem ao menos uma parte sobre ele e sobre seu trabalho, o vêem e reconhecem, como o maior naturalista desta época da nossa história.
Parabéns pelo incrível e amplo trabalho, obrigado pelo riquíssimo ensinamento e, também quero lembrá-lo, de não esquecer de enviar as demais partes desta matéria e das outras tantas, que este grande ecólogo e ambientalista poderá, como presente, nos oferecer.
Carlos A. Salles Oliveira.

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