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segunda-feira, 13 de maio de 2013

- A BUGRA Ana do Convento das Freiras

A imagem de 1960 mostra a Bugra Ana. Aparecem na foto Maria da Graça Silva, Ana Bugra, Ângela Solange Chaves e Teresinha Fernandes.
Órfã de pais, assassinados pelos implacáveis "bugreiros",uma indefesa indiazinha foi entregue às freiras do Convento das Irmãs da Divina Providência em Blumenau. Era o início do Século XX. Recebeu um nome cristão, Ana, e durante toda a sua vida dedicou-se aos serviços do Convento e do Colégio Sagrada Família, retribuindo assim sua adoção.
Tornou-se uma cristã civilizada e era muito benquista na comunidade blumenauense.
Imagem arquivo Lorena Karasinski/Enviada por Adalberto Day
Publicado no Jornal de Santa Catarina dia 13/05/2013, dia da abolição da abolição da escravatura no Brasil (1888).
Coluna Almanaque do Vale/Jackson Fachini

Em História de nosso cotidiano apresentamos hoje à conhecida “Índia Bugra”, foto enviada por Lorena Karasinski. 
Segundo A senhora Lorena a “Índia Bugra” como era conhecida era uma pessoa calada, taciturna, e que adorava brincos e outras bijuterias.
Tinha um sorriso fácil e as poucas palavras que balbuciava nem sempre eram entendidas por nós. Ajudava as Irmãs na cozinha, varria as dependências do colégio, mas acho que o que mais gostava de fazer era trabalhar na horta.
Poder-se-ia dizer que vivia seu próprio mundo. Na época as Irmãs contavam que ela foi encontrada no mato quando os outros índios fugiam  ela então com mais ou menos - 2 anos de idade , tropeçou em uma raiz e devido ao acidente ficou para trás.
Realmente lhe faltava à parte da frente (dedos) do pé e por isso mancava. Como se vê na foto, usava um pedaço de galho como bengala. Desde então foi criada pelas freiras. Em 1960, ano desta foto, devia estar perto ou com mais de 100 anos. Por não ter possibilidade de precisar sua data de nascimento, a data de aniversário era comemorada junto o aniversário do colégio. Os estudantes a respeitavam muito e nesta data a presenteavam com bijuterias, sabonetes e outros.
Já dona Isolde W. Nascimento (esposa de Roberto P. do Nascimento o Robertão ex atleta do G.E. Olímpico), conheceu a Ana Bugra por volta de 1947, e relata que era uma pessoa de pouca fala e sua particularidade era plantar milho. Quando em fase de recolhimento do plantio, digeria o milho cru. 

A BUGRA DO CONVENTO DAS FREIRAS 
Depoimento do jornalista Carlos Braga Mueller
Quando eu era criança, lá pelos anos cinquenta, e frequentava a missa das 9 horas da  antiga igreja matriz de S. Paulo Apóstolo de Blumenau, muitas vezes encontrava uma senhora indígena, de idade já avançada, que orava de maneira fervorosa em frente ao altar.
Era a "Bugra do Colégio das Freiras", que havia sido criada no Convento das Irmãs da Divina Providência.
Ela caminhava com dificuldade e os pés se voltavam para dentro, como se ela fosse tropeçar nela mesma. Sempre andava acompanhada de uma freira ou funcionária do Convento.
Mas por que será que ela caminhava dessa forma? Era a questão que martelava na cabeça da então criança que eu era.
A resposta me foi dada pelas minhas tias, que conheciam bem a  história dessa bugra.
No final do Século XIX e início do Século XX,  no Vale do Itajaí, os índios eram dizimados pelos "bugreiros", caboclos impiedosos que atacavam as aldeias durante a noite. Degolavam os homens, aprisionavam as mulheres e as crianças, que traziam para a "civilização" como prova, para assim receber sua recompensa pela matança.
Era um trabalho sujo, patrocinado por colonos e até por prefeituras do Vale do Itajaí, pois a integridade física dos agricultores era constantemente colocada em risco pelo ataque dos bugres.
Numa destas investidas, a pequena bugra foi aprisionada e deixada no Convento das freiras de Blumenau.
Esta foto está inserida na Revista do Sul, n°202, ano 1970 - abril e maio, Diretor-Proprietário Dr. Osias Guimarães - Reportagem Comemorativa dos 75 anos do Colégio Sagrada Família, pg 39 - 47.
Acervo Ellen Ern.
 Ali recebeu um nome cristão e tornou-se fiel seguidora dos mandamentos cristãos.
E por que mancava e cruzava os pés, andando com tanta dificuldade?
A revelação, contada pelas minhas tias, até hoje me incomoda: para que as crianças indígenas não fugissem enquanto seus pais eram mortos ou aprisionados, os bugreiros retalhavam a facão a sola dos seus pés.
Não existem registros oficiais desse tipo de barbaridade cometida pelos bugreiros, mas o fato era voz corrente na comunidade blumenauense daqueles tempos.
A matança só terminou quando por volta de 1914 foi criado o SPI, Serviço de Proteção aos Índios (hoje FUNAI), sob o comando de Cândido Rondon. Foi instalado um Posto Avançado do SPI na região de Ibirama (José Boiteux) para atrair os bugres e tentar civilizá-los.
Em Blumenau, a bugra Ana dedicou-se integralmente ao Convento e ao Colégio Sagrada Família.
Era uma figura muito popular e quando morreu já idosa, deixou saudades. 

História: Colégio Sagrada Familia.
Data oficial de fundação do Colégio Sagrada Família 27 de abril de 1895.
A história do COLÉGIO SAGRADA FAMÍLIA foi iniciada em 1895, pelas Irmãs Anna, Rufina e Paula. A elas juntaram-se, já em 1896, as Irmãs Júlia e Roberta, e, em 1897, a Irmã Godeharda. Foram lutas e sacrifícios os primeiros anos, mas de entusiasmo missionário –uma das pioneiras, Irmã Anna, cuja saúde não logrou resistir aos de Chegadas a Blumenau no dia 27 de abril de 1895, após a breve passagem por Brusque, as Irmãs iniciaram imediatamente a sua atividade educacional, atraindo logo um bom número de alunas. Muito depressa se fez sentir a exiguidade de espaço na primeira casa, entravando a expansão da atividade. Após diligente busca, e vencidas grandes dificuldades, foi possível adquirir uma propriedade muito bem localizada, próxima à Igreja e ao convento dos padres franciscanos, os quais, desde que o guardião, Fr. Zeno Wallbröhl, fora buscá-las em Brusque, sempre apoiaram fraternalmente o trabalho das Irmãs.
As próprias Irmãs colaboraram na medida de suas forças, ou melhor, “acima de suas forças, de modo que uma ou outra sofreu a vida inteira as conseqüências desse esforço sobre-humano”. Em junho de 1898, com a valiosa ajuda dos frades franciscanos, foi possível iniciar a construção, e em 20 de março do ano seguinte, pronta uma parte da casa, celebrou-se aí a primeira s. Missa, inaugurando com a bênção de Deus a nova sede, então colocada sob o patrocínio da “Sagrada Família”.
“No mesmo dia celebrou-se na nova capela a vestição da primeira noviça, Irmã Clemência, diz a crônica, frisando que, durante anos, muitas candidatas, provindas não só de famílias alemãs, mas também de origem italiana, polonesa e rutena, entre elas diversas ex-alunas do colégio, aí se preparavam para ingressar na vida religiosa.

Para saber mais sobre o Colégio Sociedade Divina Providência Sagrada Família acesse:
Arquivo Lorena Karasinsky/Ursel Kilian/Colaboração Carlos Braga Mueller/Adalberto Day 

17 comentários:

Djalma( Anapolis) disse...

Bom dia. Não conhecia esta história não. Muito interesante

Wieland Lickfeld disse...

Caro Adalberto, na década de 1970, quando cursava o ensino fundamental no Pedro II, ouvi falar da menina índia que fora criada pelas irmãs do Sagrada Família, a tal 'Bugra'. Éramos crianças e o tema era tratado em tom de mistério, pois se dizia que ela raramente aparecia em público e já 'tinha quase 100 anos' - havia, muito provavelmente, certo exagero nisso. Atiçava nossa imaginação por se tratar de uma situação tão diferente da realidade que conhecíamos em nossas famílias. Parabéns a todos que colaboraram com a homenagem feita a ela, preservando a sua memória. Grande abraço!

Renate disse...

Caro Adalberto Day, caro Braga Mueller.Muito bom terem trazido o assunto à tona. Grandes historiadores se virariam no túmulo ao ouvir que no Vale do Itajaí, os índios eram dizimados pelos "bugreiros", caboclos impiedosos que atacavam as aldeias durante a noite. Degolavam os homens, aprisionavam as mulheres e as crianças, que traziam para a "civilização" como prova, para assim receber sua recompensa pela matança.
Era um trabalho sujo, patrocinado por colonos e até por prefeituras do Vale do Itajaí, pois a integridade física dos agricultores era constantemente colocada em risco pelo ataque dos bugres. Não podemos dar a culpa da dizimação de nossos índios aos “impiedosos caboclos e aos colonos”, muito menos às prefeituras da época. O assunto é bem mais complexo.
Sabemos através do trabalho de reconhecidos historiadores que já no próprio século XVI nossos índios do litoral, os carijós, foram levados como escravos para as plantações de cana e moinhos de açúcar de São Paulo e assim foi, pelos séculos, até à dizimação total, sempre sob as bênçãos do Governo, já que não tinham alma. Tanto não tinham alma que durante séculos os padres católicos não deixavam que fossem enterrados nos cemitérios públicos, assim como depois também os escravos negros, depois a mesma proibição valeu para os hereges (todos os não católicos). Na verdade sempre foi o Governo o responsável pela dizimação e por acuar os índios cada vez mais para dentro das matas. Fê-lo por não entender os indígenas. Não entendeu que os indígenas eram os legítimos donos destas terras e aqui no sul do Brasil, vendeu as terras dos índios aos colonizadores. Foi o palco da “Tragédia Euro-Xokleng” – livro do padre Dorvalino Eloy Koch,(de Azambuja, Brusque, SC), 303 páginas, 1987, publicado pelo Inst. Histórico e Geográfico de Santa Catarina
Estes dias me caiu nas mãos novamente o valioso livro de Theobaldo da Costa Jamundá (da Academia Catarinense de Letras), - um nordestino de coração catarinense, como ele mesmo gostava de se denominar. Num trabalho profundo e que levou anos, ele traz uma imensa coletânea de citações de famosos historiadores, corroborando o que eu disse acima e estendendo o assunto.
O livro chama-se “OS CARIJÓS lá nas suas raízes”., Imprensa Oficial do Estado de Santa Catarina. Tem 67 páginas. Todo o catarinense deveria lê-lo, mas principalmente os catarinense da zona litorânea e da Capital, deveriam lê-lo e seu coração se encheria de orgulho.
Uma contribuição ao tema,
Renate S. Odebrecht, Blumenau

Lorena disse...

Adalberto
Ficou super legal, José Geraldo Reis Pfau. Adorei.
Lorena Karasinski

Anônimo disse...

Parece mentira, que os chamados civilizados, cometam, até hoje, estas barbaridades e outras de igual teor.
O pior, como dizia meu pai," nós não horrorizamos com as coisas erradas que estamos habituados a ver!".
É muito difícil, as pessoas mudarem interiormente suas atitudes.

Paulo R. Bornhofen disse...

O genocídio contra os povos das américas é contado em séculos.

O livro do Theobaldo Jamundá, realmente, deveria ser leitura obrigatória. Tenho um exemplar e é muito bom.

Parabéns Adalberto, por trazer este tema tão pouco estudado e debatido.

Abraços,

Paulo R. Bornhofen

Osmar Hinkeldey disse...

Boa tarde Adalberto

matéria interessante, pois desconhecia o assunto.
O problema é nossa indiferença, mas todo ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus e como tal deve ser respeitado, a exemplo do acolhimento dado pelo Convento das Irmãs da Divina Providência.
Abraço

Sérgio disse...


Adalberto Parabéns por mais este artigo.Abraços e saúde.
Sergio Marcellino

Urda disse...

Adalberto:
Que bom ver a Ana Bugra ressuscitar aí na tua página. Estou com um trabalho quase pronto para publicar, sobre ela. Assim que terminar o doutorado, deve sair tal livro. Eu muito convivi com a Ana Bugra na década de 1960, nas missas das oito (da manhã), nos domingos da igreja de São Paulo Apóstolo. Estou contando tais coisas nesse livro. Pensava que Blumenau a havia esquecido, mas vejo que não - isto é maravilhoso!
Grande abraço,
Urda A Klueger.

Braz disse...

Adalberto
Parabéns às irmãs da Divina Providência, que criaram com um carinho todo especial essa índia Tenho relatos de pessoas que com ela conviveram, no Colégio Sagrada Família, de que era extremamente exigente, e tudo o que fazia, fazia-o à perfeição.
Braz dos Santos

Toni disse...

Fiz o primário no Sagrada Familia e havia um manto de mistério sobre esta Índia... mas nada que nos metesse medo..era algo que nos incutia a demonstração da necessidade de sermos cristãos...cheguei a vê-la em meio à horta ...nossa casa ficava praticamente em frente ao colégio.
Toni Coelho

Santos disse...

Oi amigo Beto.
Mais uma bonita história de nossa região. Essa Ana Bugra, aqui mencionada, era muito conhecida das estudantes do Colégio Sagrada Familia, já que foi criada pelas freiras do convento. A Margot lembra-se bem dela. Interessante isso. Ela foi deixada pra traz pelos pais dos indígenas e foi apanhada pelos colonizadores e acabou no convento para ser criada pelas freiras. Teve um destino feliz. Já o avô do Dr. Niels, teve um destino diferente e do contrário. Foi sequestrado pelos Caigangues e viveu alguns anos com eles, aprendendo seus costumes, e comendo sabe Deus o que tudo... É, faz parte da história nossa.
Valeu Beto. Um grande abraço.
E.A.Santos

Ana Maria disse...


Quando entendermos que o homem é fruto de sua contemporaneidade, poderemos vê-lo em plenitude e sem julgamentos.
A dizimação do diferente - que são todos aqueles que fogem do aceito como normal ou representam alguma forma de ameaça - está vinculado aos valores em vigência, e se apresenta em toda forma de exclusão, não apenas representado pelo seu desaparecimento.
Os métodos de dizimação das populações indígenas eram feitas à bala, machado, facão...hoje usamos outros métodos mais polidos de exclusão, porém não menos cruéis e não apenas dos indígenas, diga-se de passagem.
Senhora Renate, ao historiador cabe lembrar aquilo que muitos querem esquecer, possivelmente todos os grandes vilões da humanidade não gostam ou gostariam de ouvir do que foram capazes.
Não podemos pensar que o ocultamento da verdade impede-a de ter existência: um dia, mais cedo, mais tarde, ressurge.
Nada resta então, a não ser coragem de defrontar-se com as torpezas, tão abissais quanto as grandezas, das quais o ser humano é capaz.
"Nada de novo no front", pois, senhores! Somente mudamos os métodos e as vítimas.

Ana Maria L Moraes
Historiadora

Vilma disse...

Adalberto,

Bom dia.

A forma como você redige me faz sempre querer ler seu blog.
É como se você estivesse sentado a minha frente, contando, conversando...
A forma com você estrutura suas ideias e constrói a narrativa é suave e ao mesmo tempo convincente.
Sempre há um "que" de curiosidade, misturado com tradição, resultando num conhecimento histórico.
Obrigada por compartilhar seu conhecimento conosco.

Um abração,
Profª Vilma Chegatti Dallagnelo
Quando nascemos encontramos um mundo... É nossa missão deixá-lo um pouco melhor. (Martha Medeiros)

Valdir disse...

Alo amigo todos bem, Beto bonita a lembrança mas eu digo ou era Índia ou bugre, nos tínhamos aqui no vale Indios, la em cima em Ibirama os bugres, assim diz um pedreiro meu que é Índio, mas eu te peço para pesquizar na figura da tradicional Madalena do Garcia especialmente da rua da glória, que todos adoravam e ajudavam.
Grato abraços.
Valdir Salvador

EA disse...


Teve a família massacra e foi transformada em escrava... como é linda a caridade cristã.

Neusa disse...

Amigo Adalberto

Lendo e vendo teu blogspot... vi a referência que fazes à ANA BUGRA.

Eu a conheci no Colégio das Irmãs da Sagrada Família, pois lá fiquei “INTERNA” estudando, de 52 à 56. Gaspar, na época , não existia ônibus que coincidice com o horário das aulas no Colégio.

Meu pai queria muito que cursasse o Ginásio ( pois em Gaspar só tinha o Curso Primário – até a 4ª. Série ) e para lá fui com “malas e cuias” onde estudei 5 anos... desde o ADMISSÃO até a 4ª. Série do Ginásio.

Faço parte da Câmara Brasileira de Jovens Escritores – CBJE – RJ - onde a cada mês escrevo um Poema e envio para ser selecionada. Já estou na 122ª. Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos.

Como sempre escrevo Poemas com temas variados...situações do meu dia a dia... tudo o que me emociona e tudo o que vai no meu coração... hoje lembrei da ANA do Colégio e resolvi escrever o que sei sobre ela.

Entrei no teu Blogspot e qual não foi minha surpresa quando vi a foto da ANA – chamada de ANA BUGRA!

Sabia e via que mancava... mas as Irmãs nunca nos falaram o porquê... naquela época tudo era muito sigiloso... a educação muito rígida, ainda mais no INTERNATO. Só vínhamos para casa ( Gaspar ) 1 vez por mês... meu pai não tinha carro e as cidades eram distantes...

Posso ter acesso à foto da Ana Bugra? Escreverei o que sei sobre ela e assim que meu POEMA estiver pronto... serás o primeiro a recebê-lo . Enviarei por e-mail.

Obrigada.

Neusa Bridon dos Santos Garcia.

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