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quinta-feira, 15 de março de 2012

- Meu Primo Charles

Em histórias de nosso cotidiano, apresentamos hoje mais uma crônica da escritora Urda, relatando sua dor com o primo Charles que faleceu precocemente aos 50 anos em 10/março/2012.


Por Urda Alice Klueger
(Para Mário Charles Lindner, meu primo)



No nosso pequeno mundo de crianças, Charles foi uma vidinha que aconteceu sem que percebêssemos, pois ainda era o tempo em que acreditávamos na Cegonha, e quando ele chegou, como era lindo, com seus grandes olhos azuis de longos cílios, copiados da mãe dele, a minha prima Synova!
Eu já estava no segundo ano da escola, naquela altura, e quantas vezes, na volta para casa, fugi do meu itinerário para ir lá espiar o neném da Synova, aquele menino de faces rosadas, bonito como um principezinho, envolto nas mantas brancas como o lembro, e que a Synova tratava com o desvelo de leoa. Diversas vezes levei bronca em casa por chegar atrasada, pois vivia indo lá espiar o Charles, que crescia como um querubim! Conforme ele passou a comer algo mais que leite, dentre as demais coisas que fazem um bebê crescer bem, Synova passou a lhe dar, todos os dias, uma maçã raspadinha a colher, e naquele tempo maçã era coisa cara, importada da Argentina, o que fazia com que certa ala mais velha da família achasse que aquilo era um desperdício – minha mãe era da turma do contra, da turma que achava que a mãe de Charles fazia muito bem em lhe dar todo o dia a maçã.
- O que entra por aqui, ó – e minha mãe apontava a boca – aparece aqui e aqui – concluía ela dando tapinhas alternados nas faces. E Charles crescia saudável e lindo, bem como um menino que come maçã importada todos os dias.
Quando eu tinha 17 anos e Charles, portanto, tinha 8, fiquei morando um longo tempo na casa dos seus pais. Foi bem na época em que a televisão chegou a Blumenau, quando vivíamos os Festivais Internacionais da Canção e o Movimento Hippie, e aquele menino pequeno ainda era muito pequeno para nossas aventuras “adultas”, como falar de política escondidas, eu e sua irmã Rosiani, por exemplo, já que atravessávamos o tempo brabo de uma ditadura. Mas havia aquele menino ali junto com a gente, e ele era encantado pelos desenhos animados que passavam na televisão, e ficava andando pela casa em câmara lenta, imitando seus heróis preferidos, o que fazia com que todos prestássemos atenção às suas graças de ator!

O tempo foi passando, e um dia, na antiga Rua Hermann Huscher, ainda virgem de prédios e de asfalto, Charles parou sua Brasília ao meu lado para me apresentar Cléia, a linda namorada. Ele continuava muito bonito, com seus longos cílios em torno dos olhos azuis, e Cléia era uma simpatia, bem como a fada que chega na vida do príncipe! Eles se casaram um pouco depois, e fizeram a sua casa, e muito Charles trabalhou na profissão da sua escolha, que era de consertar motores de barcos de luxo, sempre indo e vindo para as praias onde as pessoas granfinas ancoravam os mesmos, sem contar da quantidade de barcos que eram rebocados até sua oficina.

Há 16 anos atrás nasceu Ricardo, o único filho de Charles, o menino Lindner que é tão parecido com a Cléia.
Faz poucas semanas que estive na propriedade do Charles, e vi muitos abacates verdes caídos no chão.

- Posso apanhá-los? – perguntei.
Claro que acima de mim havia uma enorme abacateiro carregadinho.

- Colhe do pé – me disse Charles. – Pode levar quanto quiser! – e eu colhi diversos deles. Não poderia jamais fazer idéia que nunca mais falaria com ele.
Charles morreu ontem à tarde. Daqui a pouco volto ao seu velório. Ontem à noite, no seu terno azul marinho, dormindo seu sono tranquilo, ele continuava tão bonito como sempre o conheci – só seus olhos azuis se tinham fechado para sempre, embora os grandes cílios fossem tão evidentes, por mais algumas horas. A fada Cléia permanecia a seu lado, fazendo aquele tipo de carinho que só sabem fazer as pessoas que amam muito.

Como pode acontecer tal coisa, Charles? Tu eras o mais novinho de toda a nossa turminha de primos – por que tinhas que ir tão cedo?

Choro muito, claro.
Blumenau, 11 de março de 2012.

Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

3 comentários:

Valdir Appel disse...

Seja bem vindo de volta, Beto. Saude e sucesso sempre pra ti, nós merecemos.

Osmar Hinkeldey disse...

Boa tarde Adalberto

há notícias que nos deixam tristes, principalmente quando se trata de parentes.
Eu soube do falecimento do Charles Lindner no domingo de manhã as 9:00hs quando o Pastor fez o anúncio no culto e o meu irmão Waldemar foi no velório a tarde e levou consigo o violino.
abraço

Sabine disse...

Urda,

li a tua crônica no blog do Adalberto Day, é muito triste, Urda, meus sentimentos e um abracao Sabine

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