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sábado, 12 de março de 2011

- Sob o domínio dos Botocudos Capítulo 2

Contos Folclóricos Catarinenses

SOB O DOMÍNIO DOS BOTOCUDOS

JOSÉ DEEKE
Tradução de Niels Deeke, neto do autor.
Original em alemão, compilado, em 1927, por José Deeke junto sua seleta de contos folclóricos catarinenses, intitulada “Am Lagerfeuer”. Apresentação será procedida em três capítulos.

“A M   L A G E R F E U E R”

( Ao Redor da Fogueira do Acampamento)
por

J O S É D E E K E

SOB  O  DOMÍNIO DOS BOTOCUDOS
Continuação
Apesar de minha pouca idade por fim percebi que nem mesmo os próprios bugres sabiam a razão do porquê estender a dita corda sobre o rio. Era apenas uma antiga tradição que talvez não abandonaram e significasse que desse modo acreditavam assegurar seu direito de posse sobre ambas as margens do rio, além de servir de corrimão para a travessia com segurança.
Destarte quando prosseguimos nossa marcha, o cabo foi estendido e o feito quase foi aproveitado, pois todos passavam a vau, pela água, e só no meio do cabo, onde chegava bem próximo ao espelho d’água, era tocado com a mão, como uma forma de apenas cumprir a tradição, sendo pegada por todos, pelo menos uma vez.
A região que deixávamos para trás, como bem podem imaginar, foi totalmente
explorada. Todas as colmeias foram esvaziadas e a caça que não puderam matar, fugiu para outras paragens. Contudo, facilmente, poderiam ter encontrado outro lugar de caça, não muito distante, no máximo um dia rio acima ou abaixo, mas tal procedimento os índios não exerceram. Tomaram a margem oposta e rumaram em ângulo reto do rio em direção à serra e logo estavam nos íngremes desfiladeiros das encostas das montanhas, onde o alimento era escasso porque a caça, nesta região, nada rendia.
Não demorei a perceber que nesta caminhada rumavam, perseguindo uma orientação especial e definida, objetivando uma finalidade importante, porque, às vezes o cacique se reunia em “conselho de guerra” com os bugres mais velhos, a fim de deliberar a maneira de alcançarem, mais facilmente, determinada região.
Também vi como, freqüentemente, examinavam os frutos e as florações de certos arbustos e árvores para determinar, pelo amadurecimento e pela florescência, a
aproximação de algum período que lhes parecia ser de relevante importância.
Inicialmente não me foi possível compreender coisa alguma disso e quando a respeito perguntava à minha mãe adotiva, ela respondia com brevidade que estava para acontecer um grande evento, enquanto seu semblante demonstrava júbilo e transmitia tanta satisfação quanto estampa um cristão piamente crente em Deus quando se reporta à festa do padroeiro de sua cidade ou aldeia.

Transcorrido algum tempo, chegamos a um território maravilhoso onde havia densa floresta de pinheiros - era este o local que, desde semanas, demandávamos.
Apesar de havermos chegado ao lugar alvo de nosso destino, os bugres aparentavam descontentamento - comunicavam-se em voz baixa e quando alguns guerreiros enviados pelo cacique em todas direções, voltaram trazendo respostas negativas, todos abaixavam as cabeças tristemente.
Um belo dia, porém, as coisas mudaram. Levantaram-se mais cedo que de costume  as festas noturnas, devido ao ambiente um tanto preocupante, há muito não aconteciam, e já se preparavam para dividir-se em grupos, a fim de executar as tarefas diárias, quando se ouviu ao longe, um prolongado grito humano.
Nisso, os membros da minha tribo modificaram sua atitude. Todos levantaram-se, ruidosamente alegres e os jovens guerreiros precipitaram-se mato adentro na direção donde partira o grito.
Era outra tribo de botocudos que se aproximava a fim de reunir-se à nossa compunha-se, mais ou menos de idêntico número de pessoas, porém aparentavam não possuir um chefe, porque desde o princípio obedeciam às ordens que o nosso cacique lhes dava.
A partir daí começou uma vida nova, muito movimentada. Fizeram um grande pouso para acampar e o cercaram com uma espécie de linha de defesa que consistia, em parte de uma série de fossos no chão com alçapões, complementada por um ripado de cerca, bem ligado e fechado.
No decorrer do dia juntaram-se a nós ainda outras tribos e com sua chegada a alegria de todos crescia sempre mais. Por fim iniciaram a fabricação de tonéis com troncos de árvores para servirem de recipientes na preparação de maior quantidade de “cerveja mastigada”, juntando ainda à bebida, mel e o milho – estas últimas, provisões trazidas por uma das tribos como produto de um assalto recente.
Antes eu disse que a primeira tribo encontrada não tinha chefe, entretanto me
exprimi erradamente, porque na realidade eles o tinham, porém sua posição hierárquica era inferior a do nosso, e sua autoridade, bem como suas ordens, só eram válidas quando estava sozinho com sua tribo, isto é, em ação fora do acampamento principal. Só com o correr do tempo e aos poucos, fui compreendendo toda essa confusa organização, apesar de não ser difícil entender, em virtude de ser tudo
bastante simples.
O nosso cacique era o chefe supremo de um grande ramo de botocudos. Mas como nem todos podiam sustentar-se num único lugar, ele os dividiu em vários grupos, dando a cada facção, um chefe, seu subalterno, sob o comando do qual o grupo repartido percorria a floresta, podendo assim viver melhor.
Todos os anos, esses diversos grupos se reuniam numa época predeterminada e em local previamente combinado para celebrar a “festa da irmanação ”[1] cuja comemoração ora se realizava.
__________________
[1]  Festa da Irmanação ou Festa da Fraternidade. Após a criação do “Dia do Índio”, na região sul do país, os “Xockleng”, celebram a “Festa do Ky-Ky” na entrada no inverno, aliás observando a mesma estação de seus ancestrais, quando reúnem-se e preparam a bebida, denominada “Ky-Ky”, em razão dos frutos fermentados em troncos escavados de árvores, aos quais adicionam o  hidromel.

Provavelmente ficarão curiosos em saber de quantas pessoas se compunha toda a nação dos botocudos, no entanto só posso, aproximadamente, calcular seu número. Estimo que, consideradas as mulheres e crianças, talvez fossem duzentos indivíduos, contudo, esta avaliação é grosseira, pois o sistema numérico e de contagem dos
botocudos é muito restrito, e eu próprio, naquela época era muito moço e não
suficientemente desenvolvido para que pudesse fazer contas.

O botocudo, como é do conhecimento geral, só conta até três, entretanto, os mais inteligentes da tribo, concebem a noção numérica até vinte. O número quatro, por exemplo é representado por “dois mais dois” e cinco por “uma mão”, e assim segue: “ uma mão e um”, “ uma mão e dois”, “uma mão e três”, “ uma mão e dois mais dois” , “ duas mãos”, até os pés, onde contam os dedos. Além de vinte, nunca vi algum que contasse, pois a partir daí, a quantidade passa a ser “ muito” , “muito-muito” e “incontável”.

Quanto à impressão que minha pessoa causou aos inúmeros índios recém chegados, não posso dizer coisa alguma, nem mesmo se me olharam com curiosidade ou se ficaram surpresos com a minha presença. Admitiam, simplesmente, como um fato, sem questionar as razões ou motivos, pois só lhes interessavam os preparativos para a “festa” tão ansiosamente aguardada como o objetivo máximo do botocudo, que para tanto havia recolhido provisões, destinadas para tal dia especial do seu calendário. Eles acumularam os produtos, estocando-os especificamente para essa finalidade, procedimento que não observam para qualquer outra ocasião, quando imediatamente consumiam tudo quanto coletavam.
E o dia da festa afinal chegou.
Começou com o cacique separando os jovens que, no decorrer do último ano, alcançaram a puberdade, reunindo-os no centro do pátio e declarando a todos os presentes que a cerimônia iria ter início e que os rapazes ingressariam na categoria de guerreiros.
Quando o cacique terminou de falar, todo o acampamento vibrou de júbilo e a festa propriamente dita teve início com a abertura das pipas de “cerveja”.
A “cerveja” que na verdade não tem gosto tão ruim quando lhe adicionam mel, adquiriu um teor alcóolico bastante elevado e a beberagem não demorou a manifestar-se nos bugres; velhos e jovens ficaram muito animados.

Aos jovens candidatos a guerreiro foi oferecida maior quantidade de bebida e quando era meio dia já estavam bastante embriagados, alcançando, alguns, o estado de inconsciência. Foi quando lhes perfuraram os lábios, a fim de introduzir no orifício o dito “botoque”, daí a razão desses índios serem chamados botocudos.
Essa operação não é tão simples, pois o lábio é cortado mediante um processo de incisão em que o instrumento usado para a referida abertura do orifício, não é afiado, porque o fazem com um “punção” de madeira, especialmente confeccionado para tal fim, que é muito rombudo e cego, vindo a produzir tamanha dor ao paciente que, embora embriagado e inconsciente, dava altos e lancinantes gritos.
Finda a operação, a euforia atingiu o clímax, bebiam e dançavam sem parar. Mas à noite todos se recolheram, relativamente cedo, e dormiram até altas horas do dia seguinte.

Na manhã do dia seguinte, após se levantarem, o ambiente era de silêncio e preocupação. Poder-se-ia pensar que o fato era conseqüência natural do álcool ingerido, e talvez fosse o caso de ressaca, porém o motivo principal da tristeza das mulheres e da preocupação dos homens era pelo que estava por acontecer  o ato principal da “festa da irmanação” - que poderia ser traduzido como sendo a “reconstituição das famílias .”
Esse ato tinha início com a separação de todos os participantes da festa pelo sexo, em dois grupos. No meio da clareira, contido num círculo maior, havia outro menor, separado do primeiro por um espaço livre. Neste círculo pequeno, postava-se o cacique e diante dele, à direita, colocou os homens e as mulheres, à esquerda.
Quando todos estavam devidamente posicionados, os jovens guerreiros que no dia anterior tiveram os lábios perfurados, foram os primeiros a receber ordens de adentrar no círculo. Seus lábios foram, novamente, examinados para constatar se os “botoques” estavam bem aplicados e seguros e, em seguida o “Pataema” marcou-lhes os rostos e queixo, riscando vários sinais com carvão, sendo-lhes designado um lugar no círculo dos guerreiros.
Tão logo os recém empossados guerreiros saíram do círculo, deixando o espaço livre, este foi ocupado pelas moças que no decorrer do último ano também atingiram a puberdade. Com elas não se fez muita cerimônia, e depois de poucas palavras do cacique, foram mandadas retornar ao grupo de mulheres.
Nisso o cacique declarou que a “reconstituição das famílias” começaria e que ele próprio a iniciaria. Feita essa comunicação a excitação atingiu o limite. Reinava um silencioso tumular, como jamais se verificara num acampamento de bugres. Kruro, minha mãe adotiva, estava muito nervosa, com todo o corpo a tremer e olhava para o cacique com os olhos marejados de lágrimas. Este tinha seus olhos voltados para as moças - examinando-as, uma a uma, e quando se decidiu pela mais bonita de nome “Mendosa”, chamou-a, passou seu braço em volta de sua cintura e declarou-a sua esposa número um.
Minha mãe adotiva mal se agüentava de pé, tamanha a fraqueza que se apossara dela. Entretanto mais ainda pareciam sofrer as outras duas mulheres mais velhas do cacique, pois sabiam que mais de três esposas o cacique não queria possuir, e caso ele resolvesse tomar todas as três do grupo de jovens ou se contentasse em tomar apenas uma “nova ”, então resultaria que pelo menos uma das antigas teria que se retirar  e para a mulher indígena, não ter um homem, é a pior e mais insustentável situação que pode ocorrer.
O cacique se contentou com somente uma nova mulher, e em segundo lugar chamou Kruro e para terceira, hesitou um pouco, parecendo que lhe era difícil a escolha entre as duas antigas, cujo medo do resultado se via estampado no rosto de ambas. Afinal teve que decidir e a mulher sobre a qual recaiu a escolha, levantou-se alegre e com um grito de alegria pulou para o seu lado.
As queixas e a tristeza da repudiada, naturalmente, foram muitas, mas sem dúvida ela era uma mulher inteligente, pois em vez de lamentar-se ou mesmo zangar-se, ela prudentemente, tomou outra atitude para escapar da “falta” que lhe faria um homem. Deu um pulo até a frente do cacique e de mãos estendidas, implorou-lhe :
“Ó grande e poderoso cacique, não me quiseste mais como tua serva e este é teu direito  mas, ó valente chefe, não me deixes sozinha sem um homem, designa-me como serva de um de teus guerreiros”.
Essa conduta impressionou o cacique e também a maioria dos guerreiros, provocando aplausos. E em resposta, o cacique falou-lhe :
“Em virtude de teres, tão resignadamente, aceito a minha decisão, não te quero ser ingrato e assim designo o jovem guerreiro “Matambá ” para ser teu homem.

A mulher podia dar-se por satisfeita, pois a troca lhe fora bastante favorável. Passou de uma posição não muito significativa, de terceira esposa do cacique, um homem já adentrado nos anos, para os braços de um jovem e fogoso guerreiro. E este também não podia se queixar, pois entre os botocudos não é permitido a um moço receber uma jovem por esposa. São os velhos e influentes guerreiros que reclamam para si estas flores desabrochando.
Os rapazes recebem mulheres velhas que os outros não querem mais  e como a mulher rejeitada pelo cacique eram bem bonita, o guerreiro e jovem marido ainda podia dar-se por muito bem aquinhoado.
Depois do cacique, chegou a vez dos demais guerreiros, primeiramente dos mais velhos e poderosos em “renovar sua família”. Entretanto o modo de agir era bem diferente e alguns não quiseram alteração alguma.
As moças eram as primeiras a ser requisitadas e assim logo “esgotaram”, pois os guerreiros mais velhos, evidentemente, trocaram-nas por suas mulheres mais velhas, ou tomavam uma jovem por segunda esposa, porém conservando a outra, pois três esposas era privilégio exclusivo do cacique.
Depois que todos os velhos guerreiros “reconstituíram suas famílias”, o restante das mulheres foi distribuído aos jovens guerreiros que tinham recebido o “botoque”, mas como cada um deles só podia ter uma mulher, acabaram sobrando três mulheres velhas.
Concluída a “renovação das famílias”, entregaram-se à animada festa que embalaram desde o anoitecer até metade da noite.
Na manhã do dia seguinte levantaram acampamento, dissolvendo-se nos diversos grupos que partiram em todas as direções dos quatro cantos do mundo.

Nisso recomeçou a atividade monótona de antes. Vagamos por meses inteiros pela floresta, sem que a rotina fosse alterada.
Certo dia cruzamos uma estrada, era um caminho para cargueiros muares que ligava o planalto à região litorânea e, provavelmente, nos encontrávamos outra vez próximos a uma colônia de brancos, pois os caçadores traziam de suas incursões balaios com espigas de milho, no início ainda verdes e posteriormente já amadurecidas. Esta circunstância era logo aproveitada para preparar a “cerveja de mastigação ”.
Mas dessa vez não acondicionaram-na em pipas, como na festa da irmanação.
Utilizaram, “tipiti ” uma espécie de cesto sem alças, firmemente trançado, que era vedado por dentro com cera de abelhas. Diversos destes foram colocados em covas especialmente adaptadas, em forma de berços para ali, em repouso, a mistura fermentar.
Dentre outras coisas, soube que neste ano não se realizaria a “festa da irmanação”, todavia não consegui descobrir o verdadeiro motivo do cancelamento. Às minhas perguntas, sempre recebia respostas evasivas, tais como “assim deveria ser” e ainda a alegação de que a “chuva branca”, ocorrida há dois anos passados e acompanhada de gélido frio que assolou o planalto, congelando as lagoas, queimara as flores dos pinheiros e portanto, no presente ano, não teríamos pinhões.
Esta fruta, em verdade, requer períodos de dois anos desde a floração até a apresentação da pinha madura e caso tivesse ocorrido intensa geada e neve, queimando sua floração, então, não poderíamos colher pinhões, conforme sempre fazíamos no final do outono, e isto para mim estava claro.
Entretanto eu não podia estabelecer relação entre os pinhões e a festa da irmanação, pois no evento do ano passado não vira fruta alguma no acampamento. Além disso, se quiséssemos fazer uma festa e nos faltasse o milho, então beberíamos cachaça. Mas, a essência do ser selvagem é duma natureza espiritual complexa - eles, no nosso entendimento, não têm noção alguma do que seja “direito” e “propriedade” e seus respectivos contrários, não sabem distinguir o “meu” do “teu”, contudo, entre si, existem princípios que observam e cumprem à risca, apesar de muitas vezes não saberem a razão nem o sentido dos procedimentos .
Estávamos nos avizinhando de uma colônia de brancos e algumas vezes, quando subi em altas árvores para tirar abelheiras, tive a oportunidade de ver, ao longe, as clareiras e nelas divisei as casas dos colonos.
Fui naquela oportunidade tomado de profunda comoção - uma saudade imensa da minha vida de civilizado, como tinha antigamente, se apossou de mim e pensei nos meus queridos pais mortos. Nisso a minha vida com os indígenas me pareceu bastante indigna, apesar de tê-la aceito e me adaptado razoavelmente bem às suas condições e inclusive tive ímpetos de voltar ao convívio dos meus.
Essa repulsa que me dominou, levando-me a auto reprovação, aumentou ainda mais quando notei que meus companheiros estavam preparando um ataque aos colonos brancos.
Mas nada podia fazer, pois não me sentia suficientemente forte e corajoso para correr em direção às casas a fim de preveni-los do perigo que corriam. Os bugres logo perceberiam a fuga, me perseguiriam e certamente me alcançariam, tornando a apoderar-se de mim. E mesmo que eu conseguisse sucesso na fuga, como seria recebido pelos brancos ?
Eu, com minha nudez e de cabeleira cortada parecia um legítimo bugre! E finalmente fiquei com pena de minha mãe adotiva, de abandoná-la desta maneira, à ela que me acolheu com tanta bondade e que me dava tanto amor e carinho.
Mas foi inevitável, certo dia aconteceu. Por várias vezes o grupo de atacantes saiu de manhã, com os balaios, entretanto não teve oportunidade de praticar um grande assalto, pois só trouxeram milho roubado e eu fazia votos que não passasse disso.
Mas como disse, acabaram conseguindo atacar.
Mataram alguns brancos e afugentaram os demais. Em seguida saquearam algumas casas, porém não lograram arrebatar muitos produtos na pilhagem, todo o butim não passava de muito poucas peças de roupa e ferramentas, donde se depreendia que as vítimas eram sem dúvida gente muito pobre.
A minha maior tristeza foi que Kruro, minha mãe adotiva, participou do assalto.
Além do mais ela estava tomada de grande alegria e, depois que o cacique fazendo valer seu direito de marido, retirou para si as melhores peças que o balaio continha, também me presenteou com alguns objetos roubados: uma faca de mesa, um lenço colorido já desbotado e um pedaço de vidro de janela, ao qual minha mãe adotiva parecia dar especial importância, pois repetidamente examinava sua consistência e transparência.
Obviamente estes objetos roubados não me deram alegria alguma, ao contrário,
voltou-me a lembrança do assalto que me trouxe à convivência com meus atuais companheiros e senti enorme amargura.
Com o passar do tempo habituei-me tanto ao modo de vida dos selvagens que a
minha ascendência branca quase desapareceu da minha memória mas, naquele
momento percebi quão profundo era o fosso que me separava desse povo.
Quando Kruro notou a minha depressão, ficou surpresa e quando lhe falei o motivo e, delicadamente, a repreendi por ter ajudado a roubar e matar meus conterrâneos, ela não atinou para o que eu lhe dizia.
Os brancos lá fora disse ela, são nada menos que “cocolés” e matá-los em nada se diferencia do ato de liquidar um animal selvagem ou outra fera qualquer.
__________________
[1] Cocolé - inimigo. ( Obs de N.D. :Cunhambira :Cunhambyra : do tupi   cunhamembyra : mulher mestiça de índio e branco. Generalizado para mestiço, filho (a) de estrangeiro, fosse branco ou índio, com mulher tupi.)

No tocante a mim, sobretudo reportando-se à razão de me haverem recolhido por ocasião do assalto, esclareceu que assim procederam porque eu não me parecia, em nada, com um “cocolé ”. Além disso eu já então pertencia inteiramente a ela, que me criara como filho, e a sua gente, sendo inadmissível criticar usos e costumes que há tempos imemoriais eram praticados por sua tribo. Eu não me deixei convencer, porém igualmente ela não cedia nem um pouco em suas opiniões. Não que odiasse os brancos, o que não era o caso, mas estava convicta de que eram nada além daquilo que nós civilizados, consideramos inerente a um animal.
Infelizmente esta nossa troca de palavras chamou a atenção dos demais e de súbito, o cacique estava diante de nós e em nossa volta postavam-se outros curiosos.
Continua no capítulo 3

4 comentários:

Santos disse...

Boa noite amigo Beto. Historia interessantíssima. Incrível os detalhes da narrativa, inclusive dando "nome aos bois. Colocando-se do lado dos colonos daquela época, pode-se ter uma idéia do receio que os nossos colonizadores possuíam dos tais bugres. Meus tios citavam esses aborígenes como "buga". E eles atacavam realmente as aldeias e muitas vezes, eram recebidos a tiros. Muito interessante mesmo. Aguardarei novamente ansioso pela continuação. Um grande abraço e um ótimo final de semana.
Eutraclínio A. dos Santos

ARLETE TRENTINI DOS SANTOS disse...

AINDA VOU AGUARDAR O OUTRO CAPITULO.
MEU PAI ERA PROFESSOR E MOROU NA REGIÃO DE IBIRAMA JOSÉ BOITEUX.
E ELE CONTAVA ESTES FATOS SEMPRE COM MUITA EMOÇÃO.NESTA LEITURA FUI RELEMBRANDO DE TODA UMA HISTÓRIA QUE ESCUTEI DELE. OS MESMOS DETALHES QUE AQUI ESTÃO SENDO NARRADOS FORAM OS QUE EU ESCUTEI.
MAIS UMA VÊZ PARABÉNS.

Cao Zone disse...

Prezados/as, um dos meus antepassados também colonizou a região de Ibirama e o dr. Niels escreveu detalhes daquela colônia que foram primordiais para a nossa genealogia. Abraços. Cao

Prof. Wieland Lickfeld disse...

Caro Adalberto, com estas narrativas tomamos conhecimento de interessantes vocábulos indígenas. Santos, que deixou um comentário, referiu-se aos 'buga' citados por seus tios. Se o termo de fato existisse, sua grafia certamente seria 'Buger', cuja pronúncia soaria 'Buga'. Trata-se de uma 'germanização forçada' do termo 'bugre', como acontece com outras palavras que não existem no idioma alemão, mas que entre os alemães do Vale do Itajaí são comuns: 'Pate' = pato; 'bast' = pasto; 'poteare' = porteira, etc. No livro do Centenário de Blumenau existe um pequeno glossário com estes termos. Grande abraço, Wieland Lickfeld

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