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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

- Encontro com a onça Pintada do Spitzkopf

Histórias de nosso cotidiano

“CAÇADAS” - « A ONÇA PINTADA DO SPITZKOPF »
Memórias de Niels Deeke - Narração episódica de realidade ocorrida com Niels Deeke
Excerto da obra inédita :“ Águas Passadas, Algumas Límpidas, Outras Nem Tanto....”
«-Recordações de Niels Deeke-»
EPISÓDIOS REAIS
Familie Wappen
DEEKE

“ Nec Plus Ultra”
“ Natura non facit Saltum”
NIELS DEEKE
Fazenda Deeke





“ A ONÇA PINTADA DO SPITZKOPF
Niels Deeke – 1985, primeiros alinhavos..
< ENCONTRO COM A ONÇA PINTADA DO SPITZKOPF >
No ano imediato à comemoração do “Centenário de Blumenau”, na cidade havia poucos atrativos de lazer além de, como dizia-se, uma partida de futebol ou alguma sessão de cinema aos domingos, que pudessem entreter os jovens.
Durante os “Festejos”, em 1950, a juventude pôde extravasar suas energias deleitando-se no grandioso “Parque de Diversões” especialmente montado no local onde, na rua 07 de Setembro, atualmente encontram-se as edificações da “Casa Royal”, o novo prédio da Caixa Econômica e a seção oeste da rua John Kennedy, enfim situava-se sobre a então recém aterrada canalização do “ribeirão dos Padres”, no segmento onde iniciava-se o “Petterskanal”, fundos do Teatro Carlos Gomes, em terras que foram propriedade de meu bisavô, Frederico Deeke, lá estabelecido quando transferiu-se, vindo de Limeira ( Brusque) no ano de 1869.
Naquela “Disneyworld” de antanho, quando mal havia passado cinco anos do término da “grande guerra” pudemos nos esbaldar praticando todos tipos de diversão até então jamais sonhados, desde a roda gigante, mini-pista de corrida com protótipos de automóveis com motor a explosão, tiro ao alvo com armas de pressão e de fogo, até zanzar no grande ringue de patinação. Creio que toda a parafernália de entretenimentos existentes no país foi trazida para cá, só faltou a “Montanha Russa” legítima, entretanto desta havia um pequeno protótipo imitação. Foram dois meses de festa ininterrupta, quando, apesar de munidos com documento para “entrada franca”, esgotamos todos os níqueis mendigados aos nossos pais.Encerradas as preciosas exposições no Teatro Carlos Gomes e no Colégio dos Padres (Colégio Santo Antônio, “Mostra-Expositiva” levada a efeito na ala nova, então recém inaugurada) e outras solenidades como, desfiles alegóricos, bailes, ópera, inaugurações de hermas de ilustres cidadãos blumenauenses, e outras, o parque ainda permaneceu ativo por certo tempo, porém lentamente foram desmontando suas instalações e finalmente o ringue de patinação, que sempre estava lotado, tentou subsistir ativo, transferindo o tablado para local defronte à Loja Kieckbusch, entre a rua 15 de Novembro e a barranca do rio. Passados outros seis meses, também esta derradeira diversão encerrava suas funções.
Restava-nos a saudade da “festança” e como lembrança material colecionamos uma infinidade de adesivos, flâmulas, lápis, cinzeiros, canecos, pratos decalcados, selos comemorativos, brinquedos decalcados com o brasão armorial cidade, moedas de porcelana alusivas ao evento, catálogos da opera Anita Garibaldi, folhetos de propaganda, cardápios e guarda-napos assinados pelas autoridades homenageadas, jornais e revistas de todo o país.
Preenchemos todo um armário-expositor, dito como “o relicário do centenário”, com aquelas peças alusivas à celebração, dentre as quais ressaltava o precioso porta jóias com a grande “Chave de Ouro da Cidade de Blumenau”, o Livro do Centenário, uma imensidade de fotos esparsas, e dentre as mais variadas lembranças, recolhemos a grande bandeira com a “Flor do Centenário” - um enorme estandarte de pano, ao qual minha mãe ( Namy Deeke) e eu, demos ao tecido da relíquia o nome de “santo sudário” - do casal Hercílio Deeke, tendo como motivo o sofrido suor que exsudaram meus pais na espinhosa e árdua tarefa de organizar toda a comemoração, da qual o meu pai foi o Presidente da Comissão dos Festejos. Aquele pendão, onde constava decalcado o logotipo representativo do evento que foi uma tulipa vermelha, esteve hasteado em gigantesco mastro no alto do tope da barranca do morro desbastado atrás do edifício “Charilan” e parte do Hotel Himmelblau, além de, diversas outros exemplares, terem tremulado em vários pontos da cidade.
Continha, ainda, uma imensidade de fotos esparsas, e, também, o volumoso “Álbum Oficial do Centenário” ofertado a meu pai - peça única - ricamente legendado, em manuscrito, com tinta branca, elaborado em conjunto pelos fotógrafos Hans Baumgarten e Victor Bento, com a totalidade das fotos, muitas das quais deixaram de constar em outros álbuns que tivemos a oportunidade de apreciar, e cujo original compõe o acervo foto-catalográfico de Niels Deeke. Aliás, sem falsa modéstia. a coleção creio ser “completa” quanto a objetos, álbuns de fotos, estampas e documentos relativos ao Centenário de Blumenau 1850-1950, evento do qual meu pai, Hercílio Deeke, foi o Presidente da “Comissão de Festejos e que pelo seu exitoso desempenho, foi presenteado com vários exemplares de cada peça, além de protótipos de exemplares que não chegaram a ser produzidos, em série, para comercialização de lembranças daquele acontecimento.
Se por um lado o ano de 1950 foi triste pelo falecimento de minha avó Emma Deeke em 10/4/1950, não deixou de ser igualmente vibrante e pleno de realizações, época em que as mais variadas atividades foram desenvolvidas concomitantemente por meu pai, como Presidente da Comissão de Festejos e fautor dos deesempenhos, Diretor do Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina S/A- “ Inco”, vereador, em exercício da Presidência da Câmara de Vereadores de Blumenau, presidindo, efetivamente, o Conselho Curador do Hospital Santa Catarina, nosocômio do qual ele, no longo período de 1936 à 1955, do próprio punho, elaborava toda a correspondência ( vide- cópias acervo Niels Deeke) e ainda para complicar toda a miscelânea de funções no mesmo período estava ele em plena campanha eleitoral como candidato a prefeito de Blumenau, no pleito de 03 de outubro de 1950, quando Rio do Testo, ainda era distrito de Blumenau - hoje Pomerode - ocasião em que, pugnando em batalha renhida contra as forças coligadas do PSD e PTB, que tinham como candidato o não menos respeitado Sr. Guilherme Jensen - todo poderoso empresário da Cia. Jensen Agricultura Indústria e Comércio, conseguiu, meu “velho pai”, valorosamente, sagrar-se vitorioso por larga margem de votos.
Remontando a aquele período, quando as comunicações em Blumenau ainda eram muito precárias – asfalto só havia em única via, na Rua Hernann Hering – Bom Retiro – e mesmo assim limitada à faixa central da rua,, recordamo-nos da frenética e intensa movimentação exigida durante as projeções e planejamento, organização final e a própria celebração do “Centenário”, numa quadra temporânea em que pouquinhos automóveis e telefones por aqui havia, o que a cada momento requeria a pronta disponibilidade de alguém para, urgente, levar recados e material diverso, comunicados destinados a membros das comissões, pessoas responsáveis por serviços, repórteres tanto locais como os provindos de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, aqui hospedados em hotéis, políticos tanto da situação como da oposição e pessoas que de uma ou outra maneira estavam vinculadas à comissão executiva ou que devessem desempenhar alguma função.
Jamais meu pai, em toda sua existência, possuiu motorista particular ou oficial, e como os longos despachos eram executados no seu vasto gabinete residencial, onde a cada noite e principalmente nos fins de semana reuniam-se os encarregados das festividades, acontecia que eu, como seu único filho homem, precisava ficar de “prontidão” e enquanto bancava o garçom, servindo cafezinho a todo momento, porque garrafas térmicas, lá em casa, eram simplesmente abominadas como a maior falta de “finesse” e de etiqueta, aguardava ordens para levar, célere, dúzias de envelopes com instruções aos mais diversos destinatários. Lá seguia eu de motocicleta para entregá-los a Frei Ernesto Emmendoerfer, Frei João Capistrano Binder  — este o meu “guru - amigo, protetor e guia que, pouco mais tarde, matriculou-me em colégio no Rio de Janeiro — era Frei Capistrano o encarregado da triagem, correções e revisões de todos os textos, fossem dos convites e da matéria de propaganda e principalmente da organização do Livro Comemorativo do Centenário de Blumenau ( Fato desconhecido pela maioria dos historiadores que creditam, falsamente, tal mérito ao padre Ernesto Emmendoerfer !) demandando, também, às casas dos Srs. Frederico Guilherme Busch Jr., Victor Hering (Max Victor Hering) - presidente da subcomissão de exposições, Ingo Hering, Felix Steinbach, Ralf Bruno Gross, os fotógrafos Hans Baumgarten e Victor Bento, Paulo Malta Ferraz (Paulo Malta Ferraz que foi Delegado Regional de Polícia pouco antes de 1950 , Tabajara T.C., Comando Militar do 32 BC e dentre outros, Bruno Hildebrand  que morava na rua São Paulo, logo após s ribeirão do Tigre, em casa cuja propriedade era do Sr. Sander (proprietário da Chocolates Sander, em Itoupava Seca), próximo à Bebidas Thomsen. Se bem que a maioria morasse na cidade ou muito próximo, como minha tia Christiana Elisa Deeke Barreto, que estava intensamente envolvida na coleta de informes históricos; além do Sr. Franke  ( sogro do Sr. Roberto Baier - do Registro de Imóveis) que construía, a toque de caixa, o Hotel Rex para hospedar as autoridades, e como este houvesse recentemente, transferido sua residência para próximo de nossa casa, era uma das pessoas que invariavelmente estava presente às reuniões que antecederam as festividades. Outros havia que residiam distante como o escultor Erwin Teichmann  - encarregado de esculpir os bustos que seriam inaugurados - localizado em Rio do Testo, atual Pomerode.

Numa dessas reuniões que faziam num sábado à tarde, e como não conseguissem ligação telefônica com Pomerode ( na época Rio do Testo), através a ¨central ¨ da qual era telefonista a incansável Lurdes, nem mesmo por interferência do Sr. Cabral - gerente local da Cia. Telefônica, mandaram-me de moto, lá pelas 16 horas, levar recado para o Sr. Victor Weege, “descer” sem falta, no dia seguinte - domingo - à Blumenau.
Muitas vezes fui instruído para aguardar junto ao destinatário e trazer resposta imediata, creio mesmo que o Pastor Mettner de tantos recados que lhe levei já nem suportava, nas minhas chegadas, tornar a ouvir o “ronco” da motocicleta cujo miolo do escape (silencioso) eu havia suprimido. Era o preço que eu tinha que pagar por ter ganho minha primeira motocicleta, uma ¨magrela¨ Excelsior – inglesa de 3,8 HP, entretanto eu adorava a função e o intenso envolvimento naqueles afazeres, compulsoriamente absorveu meu interesse por tudo quanto se relacionasse com o evento. Afinal pratiquei tudo quanto fosse capaz e mesmo além de minhas aptidões. Num episódio de suspeita relativo ao correto apontamento da quantidade vendida de ingressos numa das seções do Parque, unidade em que o “Fundo de Recursos da Comissão” participava proporcionalmente na arrecadação, fui primeiramente investido como “fiscal de registro” - não havia catraca - e depois assumi a bilheteria em acordo com o proprietário do Ringue de Patinação. A entrada geral ao parque constituía arrecadação do “Fundo da Comissão”, algumas unidades de diversão tinham arrecadação exclusiva do concessionário, entretanto outras havia que, por contrato, repassariam percentagem à “Comissão Organizadora” para cobrir despesas.
Mas em meados de dezembro tudo voltou à velha rotina. Veio o natal, as férias na praia e no retorno a Blumenau, nada, mais havia para fazer, além das pescarias de robalos no rio Itajaí Açu, até o mês de abril.
A partir daí, sumido o peixe, como passatempo só havia o Snooker, e quem não gostasse de uma boa caçada ficaria no marasmo a aguardar as férias do fim do ano. No cinema, só então começaram a aparecer alguns filmes melhores : Limelight (Luzes da Ribalta- no Cine Busch), La Ronde-(Cine Blumenau) este era impróprio, mas dava-se um jeito entrando depois de iniciada a sessão, pelos fundos do Cine Blumenau com a ajuda do “Buby- compulsivo ¨cheirador-de-gasolina”, porém a grande maioria era de películas com bang-bang. Em nossa casa o Sr. Willy Sievert projetou, numa pequena tela, o que filmou durante o “Centenário” e outras tomadas de cena da cidade, eram entretanto “slides” fixos, não movimentados. Depois de ler todas as coleções de Karl May, de “Gibis”e “Guris”, como Capitão Atlas, Jaguar ( Capitão Atlas e Jaguar também eram novelas das 19 horas na Rádio Nacional e do “Capitão Atlas” do qual ainda guardo um belo “distintivo-brasão”, em bronze, recebido como prêmio pela minha transcrição da novela conforme audiência radiofônica, remetida em carta aos estúdios no Rio), O Pequeno Coiote; O Pequeno Xerife; O Arqueiro Verde; Capitão Marvel ; Mary Marvel; Zorro; Namor- o Príncipe Submarino; Battmann; Hopalong Cassidy; Flash Gordon; Capitão América; Mandrake; Tom Mix; Supermann; Fantasma- o espírito que anda; Pato Donald e uma infinidade de outras dessas obras da mais “refinada erudição”, só restavam os poucos romances que chegavam à livraria do Sr. Carl Wahle. Biblioteca Pública para nosso gosto suficientemente provida, não havia. Nossas coleções de estampas de carteiras de cigarros, caixas de fósforos, estampas de sabonete Eucalol, papeis de Bala Zequinha, botões de jogos, selos (1946) e moedas, lápis, canivetes, penas de aves, bolas de gude, e, por aí afora, estavam organizadas, se bem que nelas, lentamente, inseria o que me caísse nas mãos. Lastimo imensamente ter perdido a interessante coleção das revistas “Em Guarda”, uma publicação mensal, impressa à cores, retratando, em estampas, o progresso das Forças Aliadas na 2ª Grande Guerra - desde 1943 a 1945, e que era distribuída pelo consulado americano sediado em Curitiba PR. Quando eu já residia no Rio de Janeiro, perdi a coleção, pois que num daqueles quatro anos, (1954-1957) por ocasião de uma das muitas faxinas que minha mãe mandou fazer no meu “santuário do imenso sótão da casa”, aquelas revistas acompanharam as pilhas de jornais colecionados, cujo destino foi a venda, como “papel velho”, ao catador de quinquilharias, o sr. Gracher. Retornado a Blumenau, armei uma briga danada com meus velhos pais por terem profanado aquele meu “sacrário” e liquidado com as coleções de revistas e jornais, entretanto alegaram que tamanha quantidade de papel, no abafado sótão da casa, a expunha perigosamente ao risco de incêndio. Ainda procurei interceptar o material que foi vendido ao referido comprador de “usados” que, na mesma oportunidade adquiriu a minha primeira motocicleta, uma antiga máquina italiana com data de fabricação anterior à 2ª Grande Guerra, acionada a pedal. cuja marca era “Cuciollo”, uma jóia de motor provido com imenso magneto rotatório, e que jazia pendurada à armação do telhado da garagem. Mas a papelada já havia sido repassada ao Sr. Julianelli, que, por sua vez, embarcou tudo em caminhão para São Paulo junto a uma. partida de carcaças de baterias estragadas. Assim, transcorridos mais de dois meses da venda, por mais que tivesse me empenhado na recuperação, foi tudo em vão e imensa a minha desolação.
T.V. , televisiva - era sonho. Mesmo no Rio de Janeiro o primeiro canal só foi sofrivelmente captado alguns anos depois, se bem que a inauguração da primeira estação emissora de televisão tivesse, no Rio de Janeiro, ocorrido em 18/9/1950. A transmissão para captação a cores iniciou somente em 09/5/1963.
O que mais inventar para preencher o tempo naqueles idos de um frio mês de maio de 1951 ?
Os irmãos Benthien, Nivaldo e Ewald , já não suportavam mais as nossas caras de garoto no seu bar a rua XV de Novembro nº 1404, quando após o cinema para lá acorríamos a fim de permanecer, em grupo, por longas horas de papo, defronte única garrafa de cerveja. O refrigerante “Coca Cola” por aqui era raridade, e só pelo ano de 1953 podia-se tomar um “cuba-libre” preparado com “Ron Merino” ou um “hy-fy” com whisky batizado, bebidas que derrubavam a moçada.
Aventuras ? Sim ! Nada melhor que seguir, livres e libertários, em excursão por semanas, procurando orquídeas, caçando e nesse entretempo poder-se, despreocupados, apreciar a mata virgem, chapinhar nos distantes ribeirões dentro da floresta à cata das interessantes pedrinhas onde jamais mão humana houvesse tocado, era disto que gostávamos.

Morro do Spitzkopf
Naquele ano, como em quase todos os demais, meu companheiro de caçadas no Vale do Itajaí, foi meu primo Murillo Deeke ( nascido em 08/02/1935), aliás primos entre si eram os nossos pais, e enquanto discutíamos qual seria a área visada na próxima excursão, o pai de Murillo, o Sr. Ricardo Deeke, ( nascido em.1907 e falecido em 1995) mostrou-se interessado em acompanhar-nos, desde que fosse só para passarinhar, num domingo. Tratava-se de um experiente caçador e sugeriu uma rápida batida no sopé do Spitzkopf, no ribeirão Caeté, explicando que a caça, tanto de galhadas como a de chão, com o violento frio daquele inverno, certamente migrara para aqueles grotões onde estaria protegida da friagem.
Eu conhecia, razoavelmente, a região do Spitzkopf, porquanto em 1946 fora convidado para acompanhar, sentado à garupa da motocicleta do então delegado de polícia dr. Timótheo Braz Moreira ( #) , a escalada da montanha, seguindo pela íngreme estradinha aberta pelo prof. Max Humpl nos anos 1935/37, até alcançar quase o topo, ou seja fomos até onde o prof. Humpl edificara a sua casa, em altitude de cerca de 750 metros.. Em outra oportunidade, em julho de 1947, permaneci, solitário, por 25 dias, habitando a casinha de madeira - pintada em verde - construída pelo Clube dos Excursionistas do Spitzkopf e que estava sob responsabilidade de meu tio Raul Deeke, imóvel – terreno e casa a0s 750 m da altura da montanha, e dos quais era zelador do Sr. Ferrari, residente no sopé do Spitzkopf, onde há poucos anos encontravam-se as instalações da família Schadrack denominadas «Floresta Negra». Arlindo Ferrai que era filho do zelador .e trabalhava nas oficinas de Raul Deeke, em Blumenau, costumava contar acerca da imensidade de caça que por lá havia. Niels Deeke- totalmente fascinado, decidiu passar uma temporada do mês de julho de 1948 na região. Razoavelmente provido de mantimentos para manter-se por 30 dias, instalou-se na casa do alto da montanha, principalmente para recreio e caça. Lá ficou, solitário, cerca de 25 dias na casa de Raul Deeke, coabitando com duas enormes cobras muçuranas (muçaranas legítimas de cor negra, hoje muito raras), altamente amestradas, que seu tio mandava tratar pelo morador do sopé, «Sr. Ferrari », duas vezes ao mês, mediante oferecimento de cobaias ( preás e porquinhos da índia - cavia porcellus ) que eram deixadas vivas e com capim branco, além de milho, numa gaiola de tela, à qual as cobras adentravam pela parte superior, aberta. Posteriormente tais muçuranas foram trazidas à cidade de Blumenau e se desconhece seu destino, pois nem mesmo Luiz Manoel Franco, (Luiz Manoel Franco- nascido 08/7/1930 - uma preciosidade como pessoa, que foi criado por Raul Deeke e é atualmente (1996) funcionário da “Escola Barão do Rio Branco”-Bl’au) soube afirmar quem ficou com as duas “Rateiras”, entretanto recorda-se, o Sr. Luiz, que, de lá do morro, foram trazidas para a “cidade”. Ainda havia grandes bandos com inúmeros urus ( digo bandos com até 20 aves) e Niels deeke chegou até a matar, à luz do dia, dois urus empoleirados com um só tiro, acontecimento muito raro, somente passível de ser alcançado à noite, quando empoleirados. Solitários macucos, e jacupembas em pequenos bandos.

# Timotheo Braz Moreira, foi, em Blumenau, o temido delegado de polócia durante a Grande Guerra. Advogado formando pela Faculdade de Direito de Santa Catarina em 1939, foi um dos fundadores do Rotary Clube de Blumenau em 07 de outubro de 1943, ( Vide Estatutos Publicados no “ Boletim Mensal Ano III abril 1947 nº 32- do Rotary Clube de Blumenau) conforme informações pessoais mais recentes prestadas, pessoalmente, pelo emérito historiógrafo Theobaldo Costa Jamundá , era nascido em 1912 em Mafra SC, Bacharel em Direito e oficial da Polícia Militar e Delegado da Ordem Política e Social do Estado de Santa Catarina, depois de exercer o cargo de delegado de polícia, enquanto, ao mesmo tempo, era tenente da Força Pública Estadual. Dr. Timótheo submeteu-se a concurso para juiz de direito, no qual foi aprovado, exercendo a magistratura no Estado de Santa Catarina. Faleceu em 1995 com 83 anos de idade..
. Arlindo Ferrari, ainda solteiro, era um dos funcionários da oficinas de Raul Deeke, na cidade, sendo filho do zelador do morro, ambos residindo no sopé da montanha (onde há poucos anos encontravam-se instalações da família Schadrack denominadas «Floresta Negra»), e como Arlindo costumava contar acerca da imensidade de caça que por lá havia, Niels Deeke- totalmente fascinado, decidiu passar uma temporada do mês de julho de 1948 na região. Chegou ao intermédio do morro resolvendo instalar-se na casa do alto da montanha, principalmente para recreio e caça. Lá ficou cerca de 25 dias na casa de Raul Deeke, coabitando com duas enormes cobras muçuranas (muçaranas legítimas de cor negra, hoje muito raras), altamente amestradas, que seu tio mandava tratar pelo morador do sopé, «Sr. Ferrari », duas vezes ao mês, mediante oferecimento de cobaias ( preás e porquinhos da índia - cavia porcellus ) que eram deixadas vivas e com capim branco, além de milho, numa gaiola de tela, a qual as cobras adentravam pela parte superior aberta. Posteriormente tais muçuranas foram trazidas à cidade de Blumenau e se desconhece seu destino, pois nem mesmo Luiz Manoel Franco, (Luiz Manoel Franco- nascido 08/7/1930 - uma preciosidade como pessoa, que foi criado por Raul Deeke e é atualmente (1996) funcionário da “Escola Barão do Rio Branco”-Bl’au) soube afirmar quem ficou com as duas “Rateiras”, entretanto recorda-se, o Sr. Luiz, que, de lá do morro, foram trazidas para a “cidade”. Ainda havia grandes bandos com inúmeros urus ( digo bandos com até 20 aves) e Niels Deeke chegou até a matar, à luz do dia, dois urus empoleirados com um só tiro, acontecimento muito raro, somente passível de ser alcançado à noite, quando empoleirados. Solitários macucos, jacupembas em pequenos bandos, (Verbete: jacupemba. Ave galiforme, da família dos cracídeos (Penélope superciliaris, havendo a subespécie Spix), comum no Brasil central e oriental, de dorso bruno-avermelhado, com as coberteiras das asas orladas de castanho e as penas da cabeça, pescoço e peito orladas de cinza-claro; jacupema, jacupeba, jacu-velho.) e muitos pavões , arapongas , surucuás e, as aves que mais havia eram os tucaniços, estas de bando, além dos casais de tucanos-boi. Porém jacutingas não mais existiam em 1948, pelo menos nunca vimos nem ouvimos relatos de sua ocorrência na região naquela época.
Em 1949, em uma terceira excursão venatória, Niels Deeke, seguiu ao Spitzkopf, desta vez acompanhado de seu primo Murillo Deeke-F5N34B81, (Classificação utilizada na Crônica Genealógica da Família Deeke), o qual desconhecia a região. Certo domingo Niels Deeke, quando lá caçava solitário, foi abordado pelo Sr. Udo Schadrack que percorria, a pé, em vigília as estradas do morro a fim de flagrar caçadores e sendo energicamente inquirido sobre o que lá fazia, informou ao Sr. Schadrack sua condição de “visitante (caçador) autorizado” nas terras mantidas por seu tio Raul Deeke. O Sr. Schadrack, que ouvira um tiro, (não se atirava a esmo) precisou resignar-se, pedindo entretanto que, independentemente da condição de visitnte-caçador, lhe informasse, quando do retorno, em seus escritórios à rua Santo Antônio ( Rua que supostamente foi, no século passado, chamada Rua do Abrantes, e que seria uma homenagem ao Marquês ( Visconde) de Abrantes, ou seja Miguel Calmon du Pin e Almeida : 26/.10/1794 – 05/10/1865, de quem o Dr. Blumenau privou da amizade), caso visse ou ouvisse outros caçadores, e pudesse identificá-los, nas terras, aquém e além, que lhe pertenciam. Naquela época o morro pertencia a diversos proprietários, dos quais, paulatinamente, o Sr. Schadrack foi adquirindo as glebas. No período tiros distantes foram ouvidos, porém ninguém foi visto, pois os caçadores agiam muito furtivamente, pelo temor de serem apanhados pelo Fiscal Regional de Armas e Munições no município de Blumenau – o temido Sr. Amaro da Silva Pacheco - com poderes para Fiscalização de Caça e Pesca (y).Cumpre dizer que a caça era abundante, e puderam ser até mesmo observados, fora do alcance de tiro da arma 28 - cano simples, marca “Dumoulin-belga”, diversos tatus, alguns tatetos e, noutra oportunidade poucos anos após , muito próxima, em plena manhã, uma bela onça pintada, de porte considerável. Em 1946 havia no Spitzkopf quatro edificações cobertas com telhas, todas construídas acima da altura de 700 metros, além da casa com serraria no sopé da montanha, sendo esta habitada pela família Ferrari, assim discriminadas: lª - No tope da montanha, casa pintada com cal, de alvenaria com cerca de 20 m2, sujeita a forte ventania, na época já muito danificada, que podia ser divisada do centro da cidade de Blumenau, a partir do ponto da interseção da rua 15 de Novembro com a alameda Rio Branco, inabitada perenemente; 2ª - Casa de madeira pintada de verde claro, bem conservada, mantida por Raul Deeke, inabitada perenemente; 3ª - Casa de chacareiro, situada a cerca de 60 metros da anterior, construção bastante deteriorada, com pé direito muito baixo, onde ainda se percebia, bem visíveis, as antigas instalações de aviário, inabitada perenemente (Creio que tais instalações fossem as do antigo aviário de Max Humpl ) ; 4ª - casa mista de alvenaria e madeira (Construída pelo Prof. Max Humpl) que pertencia ao Sr. Franz (Francisco, Chico) Hering, situada mais abaixo das citadas em cerca de 200 metros de extensão de caminho, muito pouco ensolarada pois foi construída em local inapropriado, ou seja voltada para o sul e tendo uma escarpa ao norte, porém com farto e fácil provimento de água corrente que chegava até o local conduzida por calhas de ripas de palmiteiro (palmiteiro=Pindotiba) secionadas longitudinalmente, e próxima de um belo terreno plano que entremeia duas rampas da montanha (Neste terreno plano- um pequeno “plateau” –derrubei, em 1946, em plena manhã de sol, dois “urus” empoleirados com um só tiro de chumbeira- 28, fogo central), inabitada perenemente. Durante a 2ª Grande Guerra (1944) o Batalhão do Exército Nacional estacionado em Blumenau cogitou instalar baterias antiaéreas no Spitzkopf, e para tanto alguns oficiais estiveram no local a fim efetuar estudos de viabilidade, oportunidade em que Raul Deeke cedeu, às Forças Armadas, o “Grande Mapa Cadastral e Estatístico” elaborado por José Deeke, devolvido à Família Deeke em 1947, e que atualmente, depois de perambular, em Florianópolis, por diversas repartições do Governo do Estado, encontra-se no “Arquivo Histórico de Blumenau”. ( Obs. em princípios de 1960, Niels Deeke o resgatou o espesso rolo do mapa que localizou nas desordenadas prateleiras do Departarmento de Geografia e Estatística do Estado de Santa Catarina, no prédio das Secretarias, em Florinaópolis – um verdadeiro achado! )

Acerca da conquista da cume da montanha, foi, na segunda metade do século XIX, muito propalada uma historieta, sempre repetida pelos membros da Família Deeke, e que consta, romanceada, na obra de José Deeke “Am Lagerfeuer” no capítulo - “A Descoberta do Spitzkopf” , sob a forma do conto de uma patranha. José Deeke referia-se à lendária história de seu pai, o Capitão-Comandante das Guardas de Batedores do Mato - Frederico Deeke, que, em 1872, numa caçada de antas, as perseguiu com sua matilha de cães até as poças do alto ribeirão Garcia, próximo ao sopé do Spitzkopf. Lá matou algumas que pôs para moquear ( # ), deixando-as em fumeiro alto, a salvo dos cachorros, quando, de inopino, um dos tapires seguiu, perseguido pelos cães, em carreira pelo riacho Ouro, sito a sudeste do pé do morro, contrariando a lógica que seria tomar o curso do riacho Caeté, este uma bifurcação em sentido noroeste, que geralmente os caçadores percorriam em demanda do vale do Encano. A perseguição à anta pelo riacho do Ouro resolveu o problema da escalada pois seu curso d’água atinge 85% da altura a vencer. Alcançado o cume, Deeke elaborou dois desenhos, representando os perfis panorâmicos das montanhas que podia divisar, os quais, em razão de seu ofício remunerado através da Presidência da Província de Sta.Catarina, foram entregues ao diretor Dr. Blumenau, e perdidos no incêndio do paço municipal de novembro - 1958. Era voz corrente, a blague que naquela época faziam sobre Deeke, quando, pilheriando, diziam que subira o Spitzkopf montado no costado de uma anta, e desta forma conquistara o cume. A fantasia tinha explicação, em parte, pela compreensão truncada dos ouvintes, como no português arrevesado e enxacoco com que Deeke relatava o caso, quando da seguinte forma se exprimia: “Fui atrás do costado de um anta, porque anta picho pon , come xente ,come cachorra”. (sic).O real significado era: “fui perseguindo visualmente o costado de uma anta, (e não montado nela) porque a carne da anta tanto é boa para a gente como para os cachorros”. Daí a perseguição à anta, riacho do Ouro acima, tê-lo levado a encontrar o melhor caminho para escalar o Spitzkopf, do qual foi o primeiro conquistador, naquele final do ano de 1872. O “Jornal de Santa Catarina” edição de 03/6/1998 – Caderno B –página de face- relativa a Semana do Meio Ambiente, consigna na reportagem de Guarim Liberato Júnior- título –“Lendas que Mantêm Animais Vivos”, o seguinte texto introdutório : « Blumenau – Um conto folclórico sobre a descoberta do Morro Spitzkopf, escrito em 1925 pelo presidente da Cia. de Colonização Hanseática, o agrimensor e historiador José Deeke, revela as dificuldades que os empregados do Dr.Blumenau tiveram para abrir uma picada até o topo morro. A empreitada só foi possível graças a ajuda de uma “anta”. Isso mesmo. Foi preciso que o mamífero mais procurado, na época, pelos caçadores da região, conduzisse um dos exploradores morro acima em seu dorso para que fosse alcançado o topo da Cabeça Pontuda (Spitzkopf = Cabeça pontuda, em português)». A parte superior da montanha foi adquirida, somente em 1950 , por Udo Schadrack. As colônias que existiam em 1920, além do entroncamento com o caminho que seguia para a “Mina de Prata” – “Silbermine” e que se localizavam à beira do caminho que demandava o Spitzkopf eram as “Colônia Schwabe”, “Colônia Schreiber” (Bruno Schreiber), “Colônia Erhardt”, “Colônia Pfiffer”, o armazém – “Vende de Gustav Gräser”, os colonos Labes, Boss, e a atafona do colono Faht no sopé da montanha e antes destas houve a Colônia Schleiff, situada ainda mais à montante. (Remeta pesquisa para obra “Arka” in verbete “Cortada”- “Companhia Cortada”, empresa argentina que foi concessionária de vasto território com cerca de 30 milhões de metros quadrados, desde a “Mina de Prata”- « Silbermine » até alcançar as áreas a oeste do Spitzkopf, no vale do Encano- Fotocópia do mapa constando a “Cia. Cortada” na obra “Arka” .
# Moquear: verbo de étimo tupi, não existindo na língua portuguesa outro que o substitua - consistindo a moqueação no método de preparar conservas de carne, peixe e frutas que os indígenas e os mateiros utilizavam submetendo-as a lento calor, porque não se moqueia bem uma carne sem o espaço de três dias, pois outro processo não havia para sua preservação que não fosse mediante uso intenso do sal - in opus de José Vieira Couto de Magalhães ( 01/11/1837-14/9/1898) - “O Selvagem”- 1876 Verbete: moquear V. t. d. Bras., N. Secar {a carne ou o peixe} no moquém, para conservá-los. Bras., S. Assar « a carne » em moquém. Niels Deeke, ao elaborar estes apontamentos recordou-se da expressão inglesa “Smoked” bem como da alemã “Schmok” e percebeu que existe certa semelhança sonora entre “Smoked”, “Schmok” e “Moquém”,” todas para configurar “esfumaçado” ou “defumado”. Seria esta mais uma dentre as tantas palavras de sons e significados idênticos existentes nas línguas ameríndias e indo- européias ?
Pois bem, após debatermos, tanto prós como contras, a viabilidade da caçada de domingo, resolvemos praticá-la.
Cerca de hora e meia antes de sairmos em plena madrugada, Sr. Ricardo já se adiantara à nossa frente, seguindo de bicicleta — seriam duas horas de intensivo pedalar. Atrasados partimos, Murillo e eu, de motocicleta e lá pelas 7 horas chegávamos praticamente juntos à boca do mato, ao ¨caajuru¨ em língua Tupi – como nos referíamos à “boca da mata”- geralmente constituída por capoeirões de aborrecida ultrapassagem.
Depois de ultrapassarmos a casa do Sr. Ferrari, sita no sopé do Spitzkopf,, seguimos pelo caminho geral de acesso à montanha, e na bifurcação com legítimo ribeirão do Ouro,( a toponímia atual o situa em lugar diverso) que demandava à antiga casa do Professor Max Humpl, o abandonamos e tomamos a trilha muito batida, à direita, pela qual, conforme informações, se chegaria até o ribeirão Espinho, afluente do ribeirão Encano.
Margeando a sanga no grotão havia uma picada muito limpa e de mata sem “baraços”, onde abundava o caeté. ( caa-ete : caa= mato + etê= verdadeiro).
Depois de adentrarmos, pela trilha, cerca de uma hora, um macuco respondeu ao nosso pio e resolvemos, naquele domingo, dedicar todo nosso empenho no objetivo de atirar a grande ave. Passadas duas horas na espera, aguardando a lenta aproximação do pássaro, eis que de repente pela picada surgiram dois caçadores com algo em torno de três cachorros, já em retirada para casa. Vinham da caçada no alto ribeirão Encano, despreocupados e falando alto, o que acabou com a nossa festa daquele dia, pois nada pior que o barulhão de cachorros e vozes para espantar por semanas macucos e inhambus. Desanimamos e consideramos a caçada do domingo esgotada, porém não desistiríamos daquela grande ave tão facilmente e, no retorno, já armávamos, Murillo e eu, nova empreitada de domingo para pegá-la no pio.
Passadas algumas semanas, retornamos, só Murillo e eu, ao local que margeava o “ribeirão Caeté” e, bem cedo, começamos a paciente arte da atração “chamando” o macuco pelo pio. Deveria ser um espécime que cursou “faculdade federal” pois esse macuco estava mais escolado que “doutor”. Recordo-me dos nossos preparativos : roupa toda escura, nada havia de claro - até mesmo as mãos mantínhamos escondidas, não se acendeu cigarro algum e tanto a respiração como o piscar de olhos eram controlados.
Sabíamos, pelo característico assobio mais demorado, que tratava-se de uma “fêmea”, por isso contávamos com longa espera, pois estas são menos afoitas em “jogarem-se” na direção dos chamados dos parceiros machos.
Malgrado toda nossa ciência o “bicho” paralisou a aproximação quando ainda estava muito distante, frustrando-nos.
Estáticos por horas a fio, nossa “paciência de Jó” esgotou-se, quando começamos a ouvir um interminável berreiro de tucanos, entretanto tínhamos como norma não perseguir tucanos pelo chalrado, pois o sucesso em alcançá-los sempre foi muito remoto e naquele dia estávamos interessados somente naquele macuco ou então nos inhambus que respondessem ao pio. Porém o chalreio dos “bicudos”, morro acima, era tanto e continuado, sempre provindo do mesmo ponto, que acabamos não resistindo e lá fomos silentes e, com o máximo cuidado, para tentar uma aproximação favorável ao tiro.
Havia, no entremeio, um perau brabo, mas devagar fomos vencendo a distância até perto ao bando que continuava seu incrível berreiro. Na realidade algo estranho ocorria, pois a gritaria que faziam não era normal, realmente inusitada, e se tivéssemos posto a cabeça para pensar pouco melhor, teríamos percebido que, no mínimo, a tucanada deveria estar numa ¨ bagueira¨ disputando o alimento com outra espécie de ave de porte avantajado, ou então protegendo seus filhotes no ninho. . Mas nosso objetivo era a aproximação e estávamos compenetrados em não permitir que os “ bicudos” nos percebessem.
Chegamos bastante perto, pelo lado desfavorável da insolação, e em nível paralelo ao morro, quase tanto quanto seria a distância mínima para atingi-los com as cargas fortemente socadas de pólvora “piquete” dos cartuchos de metal para nossas espingardas, calibre 28 - fogo central. O progresso da nossa aproximação foi silenciosa e perfeita, porém repentina e inexplicavelmente tudo emudeceu num sossego sepulcral. Frustrados nos deitamos, em descanso, a beira do grotão enquanto intimamente jurávamos jamais tornar a perseguir tucanos pelo berro-chalrado, por serem aves itinerantes..
Murillo, muito comodista e cheio de sofisticações como sempre foi — chegando ao requinte de só beber água dos ribeirões em folha de caeté previamente formatadas¬, ¬ para não molhar seus fundilhos deitou-se sobre nossas espingardas. Já na subida da íngreme pirambeira se ressentira da dificuldade na escalada por estar calçado com sapato comum, quando eu calçava botas com tachões cravejados no salto, permitindo melhor fixação da botina no terreno, detalhe que ele observou, perguntando quando eu pregara aqueles cravos na bota. Respondi que tratava-se de uma segunda bota, que inclusive já utilizara na caçada anterior da qual ele próprio participou. Ele, não admitindo que tivesse deixado de perceber o detalhe, entretanto nas caçadas cada qual tomava uma picada diversa e a reunião só acontecia no retorno ou ao fim do dia, preferiu acreditar que eu tivesse adquirido, separadamente, os tachões na “Casa Moellmann” e os houvesse aplicado na bota que ele conhecia, e talvez enciumado por não dispor de igual acessório tão útil , ficou emburrado e de “mona” pela fútil questão.
Estafado pela escalada, permaneci sentado a observar a majestade das árvores que se desenvolviam crescendo adaptadas num ângulo de 45º em relação a aclividade da escarpa e tentava visualizar alguma orquídea para minha coleção que pudesse eventualmente ser recolhida.
Deveria ser 10 horas quando acendi um “maldito” cigarro da marca “Saratoga” que de tão forte sua maior serventia era espantar os mosquitos. Mantinha meus olhos de caçador fixos numa frondosa árvore, próxima cerca de 15 metros, cujo grosso tronco projetava-se perpendicularmente à montanha, em cuja galhada estiveram os tucanos antes de sumirem.
De inopino, ao rodar a pedra do isqueiro de duas cabeças, ( na floresta, para maior segurança e conserva, usávamos isqueiros com duas pedras mestras) como num filme de desenho animado, pasmo e esbugalhado divisei o corpo inteiro e longo de uma espetacular “Onça Pintada”, descendo calma e fleumaticamente, a pisar com todo o cuidado, caminhando muito lentamente, para frente, com sua cara virada para a direita e com os olhos brilhantes pregados em mim. Descia justamente pelo grosso tronco inclinado da árvore onde estiveram os tucanos.

O inusitado espetáculo se me afigurava um quadro surrealista.

Fiquei paralisado não de temor, muito ao contrário, mas de espanto, e meus reflexos de caçador contumaz que em ato-resposta deveriam instintivamente “visar” de imediato a “alça de mira da arma ”, e só depois observar a “peça-alvo”, falharam por completo diante tão magnífica e inesperada cena.
Estático permaneci por alguns segundos, embevecido ou talvez hipnotizado, apreciando a elegância com que a onça langüidamente se movimentava e admirei sua ousadia, pois apesar de ciente de nossa proximidade, não “atropelou-se”, prosseguindo sua caminhada como se estivesse condicionada para seguir.mecanicamente, em ritmo de câmara lenta.
O mais impressionante era que o “bicho”, mesmo andando, não desgrudava os olhos de mim.
Ainda hoje não posso precisar exatamente quantos segundos se passaram, porém quando, após uma instantânea parada, ela prosseguiu sua caminhada em direção ao barranco, e eu como um autômato, sem torcer a cabeça, estiquei o braço direito tentando puxar minha espingarda sobre a qual o refinado-esnobe do Murillo estava deitado, porém ele, qual cão, ao perceber que lhe desejam subtrair o osso, “rosnou contrariado”.
Sem me virar, baixinho pronunciei : “Uma Onça, rápido passa a minha espingarda”.
Murillo, sem mover-se, riu irônico, dizendo galhofeiro : “Hoje tiraste o dia para pregar mentiras, como a dos tachões que pregaste nas botas e agora me vens “atochar” com uma de “onça” ! Tu sim és um “amigo da onça”, pois bem que podias ter arrumado lá no “Moellmann” uma dúzia destes “cravos de botas” também para mim e então acabaria a tua vantagem e estaríamos em pé de igualdade para subir este perau ! Vê se te mancas, já que, das pernas, manco estou eu !”.
Ainda perplexo e com os nervos cardíacos a pulsar mais de milhão de batidas por segundo, precisei tomar a minha arma com violência, enquanto ele permanecia esticado e indolente com o chapéu cobrindo os olhos e toda sua cara.
Entrementes, com meu brusco movimento, a oportunidade de tiro foi perdida.
Ainda foi possível ao Murillo igualmente ouvir o crepitar da sarapilheira amassada pelo bichano que na fuga atalhou a distância do barranco com um espetacular salto .
A “Onça”, com toda certeza, também estava à caça daqueles tucanos e deveria ter ficado tão obcecada na tarefa, a ponto de, à semelhança da hipnose, desprezar quaisquer outros ruídos que não fossem os oriundos das penosas que pretendia caçar para matar sua fome. A discussão que se seguiu foi braba, todos os defeitos e deficiências de cada um de nós foram recíproca e veementemente declinados e uma “briga” daquelas em plena floresta, entre dois sujeitos armados era coisa mais perigosa que a própria onça, pois sempre tivéramos por princípio, numa caçada jamais fazer “troças” ou deixar de acreditar nas afirmações do colega dentro da selva.
Murillo quebrara o pacto de credibilidade. Paralisamos a caçada e, na pastagem já fora da mata, quando aliviei meus terminais dos órgãos locomotores trasieros do desconforto das botas, ele sentindo-se “ injuriado”, encheu-as de “bosta de vaca” e eu retribui esfregando-lhe o rosto com o capim descomido pelo gado que por ali pastava.
Retornado à cidade, relatei minuciosamente o “caso” ao Sr. Ricardo, que depois de ouvir teceu diversas considerações sobre aquela onça. Dentre outras explicou que já durante a caçada do primeiro domingo achara muito estranho o som do “pio” daquela “macuca”, longo demais se comparado às demais da espécie, além da sua incomum falta de progressão na aproximação. Contou que, entre os antigos caçadores de macuco,. era voz corrente e crença generalizada a possibilidade da onça imitar o pio do macuco para atraí-lo e, por todas as circunstâncias observadas naquele episódio, certamente pelo menos “uma” onça haveria naquele local. Entretanto muito provavelmente seriam “duas” a caçar, uma na tentativa de apanhar os tucanos e a outra temporariamente iludida pelo nosso apito de macuco ao qual teria respondido com aquele sopro mais demorado.
Longos meses se passaram até Murillo e eu nos reconciliarmos. Em 1995, num encontro que tive com meu primo, recordando o episódio da Onça, — e preciso salientar que tratava-se de uma legítima Onça Pintada e não uma simples Jaguatirica, creio que pelo tamanho o animal devesse pesar estimados 80 kg ou mais, pois era bem maior que meu cachorro da raça “Pointer” chamado “Barão” que 70 kg pesava - e seu descrédito no que eu dizia, acabamos concordando num ponto : foi providencial aquela descrença de Murillo, pois assim salvou-se mais um espécime de uma raça em extinção em nossas matas, caso contrário com toda certeza teria levado a carga de chumbo fino que se destinava aos tucanos e, talvez, somente ferida, fosse morrer distante, não deixando-nos nem mesmo o seu couro como recordação.
Tempos após, decorrendo o ano de 1952, nos meses de maio a julho, quando geralmente fazíamos nossas caçadas pelas matas do Vale do Itajaí, numa dessas, feita no ribeirão Espinho, alto Kannebach, (Ribeirão Encano- cujas nascentes situam-se a sudoeste do Spitzkopf ) na qual também acompanhou-me o meu primo, a fim de passarinhar, pois lá caçávamos somente aves, vez que nossas caçadas com cães eram organizadas pelo meu tio Raul Deeke e as fazíamos na Serra, ou melhor nos capões e matos do Planalto Serrano Catarinense, topamos com um grupo de caçadores, dentre os quais estava o Sr. Erwin Belz, pai do médico Dr.Walmor Erwin Belz ( Erwin Belz era proprietário do Hotel Brasil ou Delphi, - não me recordo o nome correto da época, porquanto o hotel possuiu tanto uma como a outra denominação em diversas épocas; em todo o caso era o antigo prédio do Hotel Gross « proprietário W. Gross- que foi o suplente de delegado encarregado da prisão do Padre Jacobs, quando este, por descumprimento à lei que proibia casamento religioso precedendo o ato civil, fugiu para Rodeio », enfim o hotel situava-se ao lado das Lojas Hering, defronte a farmácia Odin – após “Suafarma”) pessoal que retornava com a cachorrada, de uma caçada a porcos do mato. Não traziam porco algum, porém numa grossa vara, dois homens carregavam, morta, uma comprida e arcada “Onça Parda – um Puma ou Leão-da-Serra”.
Surpreso, eles, de encontrar, tão distante na floresta, dois jovens a caçar aves - e talvez para amedrontar-nos disseram que a “Onça” caçada era somente uma das duas que os cachorros haviam perseguido, quando conseguiram acuar um dos “bichanos” que empoleirou numa árvore e foi possível atirar. A “Onça” que escapou certamente deveria procurar a companheira desaparecida - portanto recomendaram-nos cautela. Contudo na caçada nada de anormal percebemos, A criação de jaguatiricas verdadeiras « Leopardus Pardalis Chibiguazu », diferenciadas da jaguatirica comum - «Felis Pardalis», maracajá , ou maracajá guaçu « Noctifelis Pardanoides », foi durante 06 anos praticada na “Fazenda Deeke” no Ribeirão Branco, Blumenau, quando chegamos a adquirir um espécime “Via Varig”, provindo da Colômbia. O intercâmbio de procedimentos criatórios era mantido com outro criador local o Sr. Günter H.H. Koczorski, ferreiro artístico e prestimoso criador aficionado aos felinos que, além das Jaguatiricas, criou e ainda cria (1996) as grandes onças pintadas.
Nesta prática éramos respaldados legal e oficialmente pelo Jardim Zoológico de Pomerode , cujo responsável recebeu do Sr. Armin Weege, nosso muito especial e saudoso colega e contra-parente, as necessárias instruções para dar-nos aconselhamento especializado ou seja enquadramento na Portaria 130/78 de 06 de abril de 1978 do antigo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal - IBDF .
Na juventude tive a felicidade impar de poder desfrutar da intimidade familiar do sócio proprietário do Jardim Zoológico de Pomerode, Sr.Victor Weege, meu tio, e do qual fomos acompanhantes em algumas memoráveis caçadas e nesta condição tivemos a oportunidade de vivenciar, por longos anos, o cotidiano de um zoológico, quando cedinho alimentávamos e medicávamos os animais junto com o zelador Sr. Roedel ( o técnico Johannes Roedel - alemão nato) e atentamente o escutávamos depois da faina de ajudar no trato das feras e aves, junto à mesa do café ( Frühstück ) de sua residência sita no próprio parque. Ouvíamos, com enorme interesse, suas longas explanações sobre o comportamento dos animais e cuidados que deveriam ser observados, ensinamentos quanto ao preparo das rações enquanto ajudávamos a prepará-las. Caçávamos preás ( cobaias) para as cobras e buscávamos cachos de banana além de trato verde “puxado” de carroça das lavouras da “Empresa Weege” e as sobras de carne, ossos não totalmente esburgados e fressuras do seu matadouro. Naquele tempo (1943-1952) tudo, até mesmo as frutas, precisavam ser pessoalmente colhidas e não nos eram postas defronte ao nariz vindas do “Ceasa” de São Paulo. Para nós, todo aquele aprendizado no “Tiergarten” durante o período da segunda grande guerra e após até 1952, foi de grande valia.
Durante a grande enchente de 1983 o Sr. Koczorski perdeu, afogadas, quase todas as Jaguatiricas que mantinha na rua Mal. Deodoro 555 em Bl’au, desistindo a partir de então de persistir na criação destas, continuando somente com a de onças verdadeiras. Criamos, por seis anos, as grandes jaguatiricas ( cerca de 50 kg de peso - Colombianas), todavia sentimo-nos descoroçoados em prosseguir tendo em vista a verdadeira fúria com que o “serviço de vigilância ambiental”, interpretando a seu bel prazer a lei 5.197/67 e mais tarde reforçada com as subseqüentes alterações em 1988, perseguia nossos colegas, antigos criadores, de épocas anteriores a 1950, chegando a interditar o “Parque do Jardim Zoológico de Pomerode” e liquidar inteiramente o “Zoológico Capistrano” de Florianópolis. Após ouvirmos o desabafo de nosso saudoso amigo Armin Weege com relação às intervenções institucionais do “Ibama” no seu Parque Zoológico, sentimo-nos desestimulados e interrompemos a criação, não somente de “felinos” como também de “tatetos” e talvez para gáudio daqueles que detestam a natureza, ou ecologistas domingueiros, travestidos pelo fardamento em policiais ambientais e ecólogos de gabinete - pontificando nas “faculdades”, sem a mínima experiência e incapazes de auxiliar num simples parto natural de gatos domésticos, alguns inclusive fardados, bizarramente, à moda “Montana” ou “Canadense”, quando mais se parecem com meninos escoteiros, mas que deveriam não estar somente “aptos” - eufemismo que usam para justificar seus empregos públicos - mas saber, no mínimo, realizar, com precisão e eficácia, uma “cesariana” numa porca selvagem, intervenção que muitos de nós, meros “mateiros práticos” facilmente executamos através cirurgia.
Também por outros nove anos criamos, em semi-cativeiro na nossa “Fazenda”, além de capivaras ( Estas trazidas de Rondônia por nossos caminhões) , pacas e cervos. A vara dos “taititus” ( Tatetos) formamos a partir de um cachaço e duas fêmeas, e tantos, destes últimos, conseguimos que reproduzissem, ao ponto de - apesar dos muitos festins de fim de ano e de páscoa, providos de excedentes machos, preparados ao forno ( iguaria de sabor divino) - chegamos a ter 16 animais reunidos num só tempo, todavia sentimo-nos descoroçoados em prosseguir quando prevendo problemas com a controvertida ação do “serviço de vigilância ambiental” - então recém estabelecido em Blumenau. Para impedir que na sua incontida volúpia de mostrar serviço a qualquer preço, tripudiassem sobre os costados dos animais e dos nossos próprios espinhaços, previamente convocando repórteres e fotógrafos, como invariavelmente estes barnabés fazem, a fim de, promovendo grande estardalhaço, escandalizar a todos com as qualificações de um pretenso ilícito, fato que, em absoluto, não corresponderia à verdade e, assim para não lhes dar o “gostinho” de taxar-nos, com sua sanha, injusta e injustificadamente, de “ predadores” da fauna - decidimos, se bem que pesarosos, nós próprios fazermos a festa antes que adentrassem a fazenda, extinguindo uma fértil e prolífera vara de Taititus.
Uma das últimas comilanças de porcada selvagem, realizamos numa churrascada em 1994, no “Bela Vista Country Clube” de Gaspar - SC, convidando todo o grupo de cerca de cem aposentados do “Viva a Vida”, e lá se foram para os “Campos da Caça Eterna”, mais três daqueles artiodáctilos que certamente devolvidos à vida selvagem morreriam, inexoravelmente, de fome ou por estresse, pois a totalidade dos “rilhadores dentuços” jamais vivera em floresta – na fazenda nasceu e comia em nossas mãos, por isso não se adaptaria ( não readaptar porque nunca à selva foram adaptados) às condições atuais da floresta no Vale do Itajaí, não obstante terem nascido e sido criados em semi-cativeiro, em área específica e apartada de vinte mil metros quadrados, mui custosamente cercada com alambrado, e em terreno especialmente florestado para aquela criação – portanto objetivando tecnicamente tal fim.
Não nos surpreenderíamos se ousassem, após fazer vista grossa e até consentir nos ilícitos predatórios praticados por “eminências pardas” de nossa vizinhança, estabelecer para as “florestas antrópicas” de nossa “Fazenda”, que mantivemos e incrementamos durante 50 anos mediante elevados custos, não só financeiros mas também com considerável desgaste físico e prejuízo no desfrute de lazeres, além de representados por atos de desinteresse especulativo, quando então tais ditos proficientes administradores públicos - guindados a imerecidos postos, arvorando-se em “Classificadores de Parques de Preservação”, ditos “Permanentes”, ou outras invencionices burocráticas de gabinete, desejando mostrar “serviço” para assim levarem o leitinho às suas crias domésticas urbanitas, certamente determinariam “convenientes” normas de procedimento e manejo, calcadas em qualquer das suas esdrúxulas portarias capitulatórias, consubstanciadas em respeitável papel timbrado, ou ainda com suas fisionomias magnânimas, expressando complacência - sabe-se lá calcados em que motivação, externando um ar de confessa conivência ou aquiescência, descendo de seus pedestais, outorgar-nos- iriam algum laurel, querendo fazer-nos crer que com tal deferência em “certificar-nos”, estariam concedendo um “especial favor”, permitindo-nos garantir as condições da selva que há mais de meio século vimos criteriosamente zelando, independentemente do concurso institucional, mesmo porque não seria um “diploma” vindo dessas bandas, motivação cabal para satisfazer qualquer preservador consciente da natureza.
Será muito difícil incutir nos bestuntos dos legisladores burocratas - “ urbanóides”- acostumados aos “duplex” no asfalto da avenida “Vieira Souto”  e à praia de Ipanema ou aos passeios “ecológicos” à beira do “Lago Paranoá ”, que só e exclusivamente será possível aumentar a população de certos animais selvagens mediante a intensiva criação em semi-cativeiro, e mesmo assim, criteriosa e antropicamente manejados. Temo porém que seja muito tarde para dar início a estas providências, vez que a paulatina extinção de certas espécies inexoravelmente ocorrerá, pela impossibilidade de fazerem cessar a progressiva diminuição das áreas onde localizam-se os seus habitat, já somente contido em muito exíguas faixas da selva remanescente. A culpa caberá exclusivamente à legislação “burra” e apedêutica que desconsiderou a única forma de perpetuação de diversos animais de nossa fauna, ou seja o incentivo ou ao menos o consentimento, sem formalidades bizantinas, da criação das espécies selvagens em semi-cativeiro.
{« “ Aos “muleteiros” às mulas não as “muletas ” » }
Urge autorizar e mesmo incentivar a propagação intensiva de animais selvagens em semi-cativeiro, mediante a soltura controlada de excedentes produzidos em ambientes da mata remanescente. Isto constatarão com o passar do tempo, quando talvez já for demasiado tarde e então, a nós idealistas e perdedores sem volta, cumpriria assestar-lhes o “canhão do crime inafiançável” contra aqueles apologistas piegas da atual incompetência.
Neste nosso moroso e indolente país, já pretextava um infeliz “Primeiro Mandatário” (Fernando C de Mello.) ao dizer : “O tempo será senhor da razão”, entretanto ele escoa veloz e a natureza se recompõe muito lentamente. Por isso cientes de que na natureza as transformações são lentas e não se completam senão no decurso de alguns séculos, cumpre-nos alertar, citando o enunciado pelo clássico aforismo:

“ Natura non facit saltum”
E tudo realmente mais tarde aconteceu como previmos. Depois de morosa e exaustiva tramitação burocrática, onde certamente ainda teriam a suprema audácia de fazer imposições determinando procederes e prescrições a serem observadas com o fito de poderem continuar justificando sua permanência nos empregos institucionais, dos quais há muito deveriam ter resignado ou mesmo ter sido defenestrados.
Declinamos da vaidade de receber títulos.
Pois sim ! Iludem-se com sua presunção, porque não distinguem um jambeiro (Jambaca) de um abacateiro e nada mais pretendem que abanar com chapéu alheio. O fato da erradicação da bela vara de taititus está consumado e tudo quanto devesse ter sido preservado como ecológico, destruído, para gáudio daqueles que certamente tornarão a sufragá-los, capacitando-os na continuidade da sanha de sua sina policialesco-predatória.
A nós restará, somente parodiar o evocativo título do artigo publicado pelo emérito botânico blumenauense, o Dr. Klaus G. Hering na Folha de São Paulo em 29/5/l988 e, dentro em pouco dar o “ ADEUS A MINHA MATA ”, e por estar na “ hora do onça beber água”, aqui encerro o conto deste episódio verídico.
Bl’au , iniciado em 1985 e concluído em 1996 Niels Deeke
E.T.. : Malgrado as pressões, na “Fazenda Deeke”, continuamos as criações de felinos até 1987, quando o funesto “Plano Funaro de Estabilização Econômica” provocou o desaparecimento da carne de aves do mercado por mais de 30 dias, levando-nos a decidir pelo sacrifício misericordioso dos animais a fim de poupá-los do sofrimento pela fome, sobrando-nos o triste consolo de possuir, como sua lembrança, uma dúzia de suas peles curtidas. O “Parque da Citur" em Balneário de Camboriú, na pessoa do seu responsável o Sr. Ciro Gevaerd, declinou de aceitá-las, e observe-se que lá o espaço, das jaulas, era e ainda é infinitamente menor do que o similar que era mantido em nossa “Fazenda”. Quando passados três anos daquele nossa oferta, Gevaerd procurou recebê-las, as peludas já estavam mortas.
Niels Deeke - Memorialista em Blumenau -SC
__________________________
Arquivo/imagens Adalberto Day

6 comentários:

Marcos disse...

Comentário
Meu amigo Beto Day. Você teve a oportunidade de visitar o Dr. Niels em sua fazenda , onde ele abriga um dos maiores acervos de nossa cidade. Ele deve se orgulhar do passado de sua família e os trabalhos em nossa Blumenau. Porém lendo em seu blog, sobre sua visita, percebo que você relatou muito pouco sobre seu acervo, pelo que meu pai conta o Dr. Niels possui uma vasta documentação que deveria estar ao alcance de todos. Por outro lado meu caro Day, prefiro os textos não tão extensos como este. Mas de qualquer forma para pesquisas de nossa gente e dos gincaneiros, é formidável estes dados aqui relatados. Um dia desses passo aí para te visitar. Parabéns também a você pelos belos artigos na coluna Almanaque Santa, Jornal O GARCIA, TV já vi muitas coisas e rádios, ah e agora vejo alguma coisa em uma revista chamada Bela Vida.
Parabéns ao Dr. Niels e a você pelo espaço.
Marcos

Prof. Wieland Lickfeld disse...

Valeu pelo post, Adalberto, e também neste caso nossos agradecimentos ao Dr. Niels. É pelo relato detalhado das testemunhas dos acontecimentos que os eventos passados ganham vida. Merece destaque também o relato sobre aspectos referentes aos festejos do Centenário de Blumenau, que parecem ter sido muito caros ao meu falecido pai, Willi Lickfeld, que à época adquiriu alguns dos itens listados pelo Dr. Niels, que guardo com muito carinho. Muitos outros fui adquirindo ao longo do tempo em antiquários e sites de colecionismo. Grande abraço!

Santos disse...

Beto.
Isso aí foi uma verdadeira aula de historia, botânica, genealogia, e muita coisa mais que é completamente desconhecida de muitos blumenauenses. Muito interessante aquela procura de orquídeas e a descrição de nossas madeiras nobres que faziam parte da mata atlântica e conseguiram exterminar completamente. Lembro-me da canela sassafrás, da qual extraiam o óleo e o vendiam para os americanos. Nessa época, quando eu estava em atividade no BB, passaram por mim muitas operações de exportação desse óleo por uma empresa aqui do Vale. Houve uma passagem em que os americanos exigiram que os tambores utilizados para embalar o óleo fosse revestido internamente por um material isolante para que o óleo não entrasse em contato com a parte metálica do tambor. O exportador gastou uma nota para conseguir atender a essa exigência. Quanto aquela passagem da espingarda deixada de lado para poderem apreciar as belezas naturais, lembro-me que em outras épocas eu também andei dentro dessas matas para caçar. Imagine, CAÇAR. Só que eu acompanhava os amigos caçadores mas não levava munição para a arma. Somente o lanche. Ai, eu fazia também como você descreveu. Deixava de lado a espingarda para apreciar as belezas circunstantes. Eu adorava ver aqueles riachos de águas cristalinas e os inúmeros pássaros tomando água e cantando. Nunca tive coragem de atirar num bichinho daqueles.
Pois é Beto, lendo isso tudo, eu só faço idéia do fenomenal acervo histórico que o Dr.Niels possui de nossa região. Considero isso obras de valor inestimável. Nossa sociedade deve-se dar por feliz em possuir pessoas como Niels Deeke e Adalberto Day que vão deixando alguma coisa de precioso para a posteridade.
Parabéns a ambos.

E.A.Santos

Anônimo disse...

Postagem prazeroza neste blogue, postagens como aqui vemos destacam aos que observar neste blog :/
Entrega muito mais do teu sítio, aos teus utilizadores.

Cao Zone disse...

Prezados/as,
Nunca considerei o leão, um autêntico bonachão, o rei dos animais; para mim a onça pintada tem mais charme, mais inteligência, e charme e inteligência são coisas essenciais no reino dos humanos, quem dera no dos animais. A onça pintada é coisa fina, trepa em árvore, corre saltando, suas pintas podem camufla-la totalmente na mata fechada. Para satisfazer seu apetite não precisa de um boi inteiro, meio, um terço, um sexto de um novilhinho já basta. Eu só me intrigava era pelo motivo de Deus ter colocado tanto capricho na concepção da onça pintada, na certa a pintou num dia de extrema criação, pois são pintas realmente muito bonitas. Mas afinal para que Ele reservou tantas características numa só criatura? Passei esses anos todos intrigado com essa questão, até que lí esse texto, e tudo se encaixaram, o grande Criador do Universo, colocou toda sua fleuma na produção da onça pintada, justamente para que esses dois grandes representantes, pelo lado animal a própria onça pintada e pelo humano o dr. Niels se encontrassem, numa espécie de encontro de gigantes, lá pertinho do céu, no morro do Spitzkopf.
Abraços,
Cao

Adriana T disse...

Devo mais uma vez parabenizar o blog por dar a pessoas comuns a oportunidade de conhecer detalhes tão interessantes sobre a nossa cidade.
Esse texto foi um deleite para mim.

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