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terça-feira, 3 de março de 2009

- O Cinema em Blumenau – Parte VIII

A foto em preto e branco no meio dos cartazes, é do antigo Cine Garcia, na Rua Amazonas bairro Garcia em Blumenau.
Introdução
Mais uma participação exclusiva do renomado escritor e jornalista Carlos Braga Mueller, que hoje nos presenteia com texto sobre Cinema – O Cine Garcia (1941 oficialmente novembro de 1944-1974), até então eram exibidos semanalmente por amadores. 
As pessoas se olhavam numa paquera quase envergonhada, em um momento sutil e mágico”. Existia até mesmo uma suposta premiação para quem encontrasse uma pulga carimbada e a entregasse ao proprietário. Nunca soube de alguém que a tivesse encontrado, mas é o comentário que se ouve até os dias de hoje. Ainda no aspecto pitoresco, havia as ocasiões em que a platéia batia os pés, assobiava e gritava para incentivar o mocinho. Naquele instante, o lanterninha interrompia bruscamente a exibição para chamar a atenção dos mais exaltados "baderneiros" e ameaçava não continuar o espetáculo. Sem falar das vaias quando as enormes fitas se rompiam, ou acabavam, e precisavam ser emendadas ou trocadas. Os freqüentadores iam a pé ou de bicicleta. As laterais do prédio ficavam lotadas de bicicletas, empilhadas umas sobre as outras. Depois do gongo, ecoava a música Django Era o maior entretenimento dos moradores do Garcia, que assistiam, principalmente nas tardes de domingo, aos maiores clássicos e seriados do cinema.
Cine Garcia
Recordar é Viver

Por Carlos Braga Mueller

O bairro do Garcia é o mais antigo de Blumenau.
Quando o Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau aqui chegou, nos idos de 1848,
para fazer uma vistoria do local onde implantaria sua Colônia, já encontrou moradores no Garcia. Eram portugueses que teriam vindo das bandas do Rio Garcia, hoje Rio Camboriú, em busca de terras mais férteis para suas lavouras.
Em 1900, quando Blumenau estava completando 50 anos de existência, foi realizada a primeira sessão de um “cinematógrapho” na cidade, ou seja, uma apresentação da novidade que seria conhecida logo como “cinema”.
No centro de Blumenau, as sessões esporádicas dos ambulantes continuaram por alguns anos, até que o empresário Frederico Busch Sênior fundou o Cine Busch por volta de 1904, usando instalações do Salão Holetz, que ficava nos fundos do Hotel do mesmo nome. Este foi o primeiro cinema fixo do sul do país.
Mas quem morava mais afastado tinha que sujeitar-se a ir até o centro para ver o cinema, em uma época em que só cavalo, carroça ou charrete eram utilizados como condução.
Aproveitando esta situação, os ambulantes faziam sua ronda pelos vários salões de baile da região, exibindo os filmes que ainda eram mudos, e com isso desempenharam um papel muito importante na difusão cultural através das imagens animadas em Blumenau.

O Garcia tinha um salão de festas muito conhecido. Era o Salão Hinkeldey, fundado por Hermann Hinkeldey(foto) no início do século XX, que promovia memoráveis festas e eventos.
A família Hinkeldey antecipou-se no tempo e acabou instalando na principal rua do bairro, hoje Rua Amazonas, um grande centro comercial quando ainda nem se pensava nisso. O prédio, que funcionou por mais de setenta anos, abrigou uma casa comercial que vendia de tudo, desde alimentos e bebidas até material de construção.
Ali também funcionaram um hotel, bar, padaria, restaurante e o famoso salão de festas.
Mas não era só isto. Do outro lado da rua os Hinkeldey montaram um jardim com churrascaria, que ia até o Ribeirão Garcia.
E como não poderia deixar de ser, os ambulantes que exibiam filmes chegavam constantemente e alugavam o salão para exibir ali os “sucessos do cinema”. Mas o bairro sentia a necessidade de um cinema fixo, que fosse ponto de encontro, referência para ver os cartazes dos filmes que iam ser exibidos, onde fosse possível acompanhar todas as semanas os famosos seriados.
Quando a comunidade do Garcia comprou um terreno onde hoje se ergue a Escola de Educação Básica Governador Celso Ramos, alguém sugeriu que ali se construísse um hotel e um cinema (depoimento do Sr. Nicolau Schatz/2002, citado no blog de Adalberto Day).

A historiadora Edith Kormann, no seu livro “Blumenau – arte, cultura e as histórias de sua gente” Volume IV, relata a história do Cine Garcia, que começou com as exibições dos ambulantes no Salão Hinkeldey:
“As sessões cinematográficas, que eram mudas e animadas pelo bandônion de Arnold Gauche, inicialmente eram realizadas uma vez por semana pelos irmãos Holzwarth e também por Julianelli (José)”.
Os cinegrafistas ambulantes, que de quando em vez apareciam no bairro do Garcia com o seu cinematógrafo e filmes, e também a grande afluência do público para as sessões, fizeram com que Carlos Zuege e Arthur Lohse instalassem, em novembro de 1944, um cinema permanente que ficou conhecido como Cine Garcia. Desde 1941 já eram passados filmes, até a fundação em 1944.
Arthur Lohse e Carlos Zuege trabalharam juntos até 1948, quando a sociedade foi desfeita e Carlos Zuege continuou até 1958 sozinho.
Em 1958 Reynaldo Olegário (foto) comprou o Cine Garcia. Segundo Olegário, que trabalhou no Cine Garcia quase 30 anos, pois começou ainda garoto, eram muito solicitados os filmes de capa e espada e os românticos. Dos nacionais, os que mais levavam público ao cinema eram os filmes de Mazzaropi.
Em 1972, quando o Cine Garcia foi vendido para a Empresa Meridional de Cinemas, Reynaldo Olegário foi convidado para trabalhar como fiscal, porém não aceitou, pois não pretendia deslocar-se para o Paraná, já que o cinema para ele era mais um “hobby”.
“Os filmes exibidos na época eram da Fama Filmes, de Curitiba, importadores e distribuidores para quase todo o Estado de Santa Catarina, exceto Lages e adjacências, que os recebiam de Porto Alegre.” O Cine Garcia funcionou até 1974, quando cessou definitivamente as suas atividades. Foi comprado pela comunidade católica que o transformou em igreja até 1978. Em 1979 ele foi demolido e seu espaço ocupado como pátio para a nova igreja da Paróquia Santo Antônio, então recém inaugurada.
As lendas e histórias que se contam a respeito do Cine Garcia nos seus 30 anos de vida são muitas.
Uma delas é a de que os padres do Garcia estavam constantemente contrariados com Olegário, porque ele exibia filmes pornográficos. E só ficaram sossegados quando conseguiram comprar o salão.
Arthur Lohse, quando abandonou a sociedade que tinha com Carlos Zuege no Cine Garcia, mudou-se para Tijucas, onde fundou o Cine Lohse. O prédio está lá até hoje, à beira do Rio Tijucas e era (ou ainda é) ocupado por uma igreja pentecostal.
Em criança eu estudava no Pedro II na mesma classe do Coracy Zuegue, filho do proprietário do cinema. Por isso fui lá algumas vezes, onde conheci o funcionário Reynaldo Olegário, ficando amigo desse abnegado exibidor durante muitos anos, até que a morte o levou.
Um fato curioso é que todas as semanas o Cine Garcia promovia uma sessão especial para os soldados do 23º Batalhão de Caçadores, depois 23º Regimento de Infantaria, hoje 23 BI, com os ingressos ao mesmo preço da meia-entrada. Só que a bagunça imperava no cinema. Olegário quase morria do coração, porque era muito difícil manter a ordem no recinto nestas ocasiões, principalmente se o filme tivesse cenas fortes de romance ou fosse um bang-bang com muitos tiros, o que os soldados adoravam...
Muitos lembram com saudades da pipoca que era vendida ao lado da bilheteria e dos sorvetes do bar do senhor Schoenfelder, que ficava bem perto do cinema.
Enfim, cinema sempre foi encantamento e emoção. E no Cine Garcia não foi diferente. Por isso ficaram tantas saudades!..
Arquivo e Introdução Adalberto Day/participação especial do Escritor e Jornalista Carlos Braga Mueller

10 comentários:

Urda disse...

Adalberto:
Meu pai era sobrinho do senhor Hinkeldey (casado com uma Klueger) e como eu conheci o Olegário e frequentei o Cine Garcia! Teu trabalho é magnífico!]
Urda Alice Klueger

Júlio disse...

Adalberto

Acabei de fazer uma viagem através de seu site... e te garanto que recordar é viver..

Abcs, com carinho Julio José Robrigues

Valter Hiebert disse...

Prezado Adalberto,
um personagem que também faz parte da história do Cine Gacia é o Ezidio de Souza, que por longos anos foi o bilheteiro e operador da máquina que passava os filmes. Ele deve ter fatos pitorescos sobre o Cine Garcia para relatar.
Lembro-me também das cadeiras disponíveis, metade de palha, interligadas por sarafos que formavam as fileiras, e a outra metade com cadeiras de madeira, um pouco mais confortáveis e as mais disputadas.
Segundo meu irmão Carlos, quando o Olegário inaugurou o "cinemascope", esse fez um discurso e agradecu o Sr. Luiz Machado, primeiro fotografo do bairro, por ser o incentivador da implantação daquela melhoria.
Merece registro um fato cômico promovido pelo Olegário. Ele anunciou uma sessão exclusiva para homens, numa segunda feira, em horário adicional, após as 22 horas. Eu era adolecente e consegui entrar. Todos esperavam uma coisa mais o filme era simplesmente um documentário sobre as diversas formas de parto realizadas em vários regiões do mundo. Foi frustante, pois todos esperavam outra coisa. Os mais revoltados com a "pegadinha" do Olegário eram aqueles que iriam acordar cedo para iniciar o trabalho às 5 horas na EIG e Artex.
Outra lembrança daquele tempo era a troca de gibis e revistinha infantis entes das matinês dominicais. Um campeão nessa modaliade de operação era o Luiz Carlos Lapolli, amigo do Ademar Amaral, outro trocador de revistinhas.
De fato fazia parte do programa comprar um sorvete no bar ao lado ou, quando a grana permitia, tomar uma "vaca preta" (sorvete com coca cola).
Muitos namoros começaram alí, parte dos quais resultaram em casamentos.
Muita gente só existe hoje porque algum dia existiu o Cine Garcia.
Um grande abraço para a turma daquele tempo.
hiebert.valter@gmail.com

Valdir Appel disse...

Beto,
Obrigado por mais este presente.
Já arquivei. Quando é que vira livro?

Valdir Appel disse...

Beto,
Eu sou um apaixonado pelo cinema e na semana passada mostrei para o meu editor a pasta onde arquivo os capítulos Cinema do teu blog. Comentei com ele o belíssimo trabalho.
Hoje estarei encaminhado projeto do meu novo livro para Floripa, tentando ser beneficiado com a lei de incentivo a cultura.
Se eu tiver sucesso, a resposta é rápida e vou poder lançar em breve.
Caso contrário vou colocar o boneco debaixo do braço e sair pedindo patrocínio. Como eu fiz com o Na Boca do Gol.
O titulo é surpresa. Você vai gostar, tenho certeza.
Quem sabe eu, você e o meu editor possamos viabilizar o projeto Cinema em Blumenau e adjacências?
Abraço,
Valdir Appel (Chiquinho) ex goleiro do Vasco e autor do livro Na Boca do Gol - Brusque SC

Valter Hiebert disse...

Beto
Uma coisa curiosa ligada ao Ezidro era a bicicleta que ele tinha. Era a única do bairro que tinha um cilindro de freio na roda dianteira.
Um dia, ao sair do trabalho no Cine Garcia, (seu trabalho principal era na EIG), referia roda tinha sido roubada. Quem roubou não pode utilizá-la no bairro, pois seria facilmente identificada. Nunca mais ele soube do paradeiro da roda dianteira de sua bicicleta, que foi substituída por uma roda comum.
A bicicleta não foi levada, pois na roda traseira tinha uma tranca.

Lembro-me bem dessa bicicleta pois era com ela que o Izidro ia namorar a Ilse Machado, filha do Alfredo Machado, que residia também na nossa extinta rua 12 de outubro.

Quando eles casaram também aconteceu um fato inesquecível.

A festa foi num puxado coberto por uma lona ao lado da casa, como todos faziam naquele tempo.
Quando chegou um tio da Ilse Machado, visivelmente embriagado, sem cerimonia, encostou uma mão no bolo da noiva e com a outra mão raspou o coco ralado que enfeitava o bolo.
Meteu a mãozada na boca e foi aquele lambança.
A revolta da família foi geral, a noiva chorou e o bêbado sumiu da festa.

Eles hoje residem perto da cooperativa. Depois que acabou o Cine Garcia o Izidro passou a ser também jardineiro, pois na EIG era Urdidor (?).

São muitos os nossos contemporâneos que tem belas e curiosas histórias para serem relembradas.

Um grande abraço

Valter

Tere disse...

Beto, quantas recordações lindas você nos proporciona. Conheci tudo isso que foi comentado nessa reportagem. Ainda lembrei-me de um dia, quando eu e minhas duas irmãs saimos do cinema, fomos comprar o tal sorvete ao lado do cine. Isso quando meus pais tinham o dinheiro para nos dar, não era sempre. Então naquele dia, durante a exibição do filme, eu só pensava no tal sorvete. E tal minha decepção então, quando eu estava saindo do bar deixei cair a bola do sorvete no chão......fiquei naquele dia só na vontade, lembro que quase chorei de tristeza. Obrigada Beto, e um grande abraço para a turma dessa época.

OSMAR HINKELDEY disse...

ADALBERTO
BELA REPORTAGEM. TAMBÉM FREQÜENTEI O CINE GARCIA. ALI ASSISTI A FILMES QUE HOJE AINDA GUARDO NA MEMÓRIA.
E QUE MEU AVÔ FOI O PIONEIRO ABRINDO POSSIBILIDADES PARA QUE ISTO SE TORNASSE REALIDADE. LEGAL. GOSTEI.
ABRAÇO

Carlos A.Salles de Oliveira disse...

Adalberto e Carlos Braga Mueller

Muito agradável de ler, muito bem montadas, ricas nos detalhes e com classe de um bom escritor. Assim vejo nas crônicas e reportagens do Jornalista e Escritor Carlos Braga Mueller, regularmente publicado na imprensa da nossa Blumenau e que venho acompanhando a mais de 30 anos. Seu trabalho frente aos meios de comunicação é fantástico, tanto nos jornais, rádios, televisão e também agora, nos meios de comunicação digital via internet. Sua obra é vultosa, rica e marcante, sempre transmitindo uma personalidade respeitosa, inteligente e de profundo conhecimento.
Atualmente venho acompanhando assiduamente as matérias direcionadas a reportar sobre história da nossa cidade, que estão sendo postadas e, enriquecendo o Blog do nosso “Guardião da História”, Adalberto Day e, desde a matéria “O Garcia Há 50 Anos” de dezembro de 2007, até esta atual, “Cinema em Blumenau – Parte VIII, sobre o nosso saudoso “Cine Garcia” – de tantos gibis, de tantos namoros e de tantas emoções – todas excelentes, trazendo gostosas informações e belas recordações”.
Aproveito para parabenizar, como também desejar vida longa a este grande profissional pelo seu grato trabalho e, também igualmente, louvar o Adalberto pela perfeita escolha e excelente parceria.
Para finalizar eu diria que o Sr. Carlos Braga Mueller, que contém um enorme acervo memorial histórico vivo em sua mente é, indiscutivelmente, um valioso patrimônio da história de toda a grande região de Blumenau.

CarlosA.SallesOliveira.

Santos disse...

Amigo Beto. Lembro-me bem, no meu tempo de juventuden andei muito de "bike" lá pelo Garcia, conheci o Cine Garcia e aquela região. Eu, em companhia de colegas iamos até bem longe no bairro para comprar tangerinas. Era o que mais havia plantado por lá. Lembro-me tbm que numa certa ocasião, com mais dois colegas batemos palmas para chamar a atenção de uma senhora que possuia em seu quintal uma plantação dessass frutas,muito cobiçadas, e, para me comunicar em alemão com a senhora, tive que arrancar meus primordios conhecimentos de alemão. Disse algumas besteiras mas conseguimos trazer tangerinas.Bons tempos. E como passa rápido...
E.A.Santos

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