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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

- Máquina de costura e o enxoval


Dotes para as moças blumenauenses se habilitarem a casar no século passado".
Introdução: José Geraldo Reis Pfau e Adalberto Day
O hábito de formar a filha para o casamento. O principal dote das moças era o de ao casar ter e saber usar a máquina de costura. A realização dos pais além de encaminhar a filha para o casamento com um rapaz de tradição, trabalhador, com isso organizar o enxoval, incluía a aquisição da máquina de costura. Acreditamos que todas as casas da classe considerada operária naquela época tinham uma máquina de costura. Como também uma ou mais bicicletas. Este patrimônio iria garantir emprego no mínimo como costureira na indústria e de certa maneira se dava o primeiro passo de uma atividade profissional de costureira. Até para uso doméstico na produção da roupa da futura família. Houve época que a melhor perspectiva para uma mulher era casar e ter filhos. Talvez a única. Quando a jovem fazia a primeira comunhão, era costume já ganhar alguma coisa que servisse para construir o seu enxoval, e assim dar inicio a todo um processo cultural. As peças eram depositadas em caixas de madeira – baús – para proteger e separar as peças destinadas para este fim. Até quase fins do século XX ouvia-se muito a jovem dizer “Todo o meu dinheirinho ia para construir meus castelos de moça casadoira nessas peças, objetos, destinados ao enxoval”. Como o fiar, coser em máquinas manuais foi prática de quase toda moça prendada. A máquina de costura fazia parte do enxoval da maioria das noivas, que a exibiam com orgulho. Enquanto o namoro e noivado transcorria, a jovem apresenta a lista do enxoval ao seu futuro esposo, papo de sala de encontros. Até era preparado alguma coisa para a chegada do futuro “herdeiro”. As lojas tradicionais de departamentos mantinham “vendedor pracista” que executavam vendas externas ás lojas visitando os clientes nas suas residências. Grande parte desta importante fatia de venda era para o enxoval. As empresas mantinham caminhões fechados de entrega de mercadorias no interior dos municípios com todos os itens de uma casa, com um completo enxoval de filhos de agricultores. Móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. Os pais adquiriam toda a nova casa na loja através deste vendedor. E se já não possuía, incluía o item máquina de costura. Muitas dessas mulheres ainda tem em casa toalhas e utensílios, eram provenientes de seu enxoval das décadas de 40, 50, 60, e que não concretizaram seus casamentos. Uma delas afirma que “a gente era muito reprimida naquela época, não podia fazer nada. Hoje em dia uma moça é independente até para casar, mudou muito, a mulher se sente mais valorizada”. Realmente muita coisa mudou e para melhor, hoje a jovem se prepara, constrói para si uma carreira profissional, faz universidade, para ter sua própria autonomia financeira. E então, ela admite a vida a dois. Os costumes mudaram, a sociedade mudou, pelo menos na maioria dos casos principalmente em uma cidade politizada (com cultura e tradição. muito marcante e organizada ) como a nossa Blumenau. Nosso reconhecimento a essas belas e guerreiras, parabéns pela luta e dedicação.
História:
“A história de uma tradição das moças casamenteira da Blumenau colônia "
O trabalho da mulher era imprescindível no desenvolvimento da Colônia, esse era o entendimento do Colonizador, que não gostava de ceder terras aos solteiros porque sozinhos não progrediam visto que não tinham quem cuidasse da casa, horta, roupas e quem lhes confortasse nos momentos difíceis, situação confirmada pelos imigrantes, conforme constatamos nos relatórios do Dr. Blumenau e em correspondências dos colonos aos parentes.
Em carta ao superintendente Baumgarten, na Alemanha, em dezembro de 1853, o colonizador ressaltou a importância da mulher para o imigrante e a dificuldade daqueles que permaneciam solteiros: Cada vez me convenço mais que o imigrante que trabalha na terra, necessita do auxílio de uma mulher e boa dona de casa. No meu relatório anual, eu frisei isto (...) e fui criticado, (...) um impressor riu muito sobre isto nos primeiros 8 dias, (...) depois de 8 semanas (...) concordou comigo, (...) dizendo que uma esposa aqui é tão necessária como o pão-de-cada-dia. (...) O melhor conselho (...) a jovens imigrantes (...): procurem trazer uma esposa com prendas domésticas e que não esteja muito habituada à cidades grandes. (...) Os solteiros aqui, para mim são uma verdadeira praga e eu gostaria de ver, principalmente os mais velhos, (...) já casados. Enquanto isto não acontece, não existe uma verdadeira solidez e somente um provisório em tudo que fazem. (BLUMENAU, 1853 (1986): 240/241).
“Há falta de empregadas domésticas e de mulheres para o manejo do leite, pois as mesmas são tão requisitadas nas cidades e no campo, quanto o trabalhador do sexo masculino, recebendo em média de 6.000 a 10.000 réis mensais” (BLUMENAU, 1851, (1999): 193). Em algumas situações o trabalho da mulher tinha por finalidade pagar as despesas de viagem da Alemanha para o Brasil, custeadas pelo empregador, conforme entendimento de Julius Baumgarten com o pai, em carta a este dirigida em 28 de julho de 1853, quando pediu que lhe enviasse pessoas para trabalhar:
Em outro trecho da mesma carta Julius incentivou o amigo (que passado pouco mais de ano morre em acidente na serraria) a trazer uma esposa, “uma moça de nosso meio (...) precisa apenas assumir as atividades domésticas principais. Não precisa ordenhar vacas, nem alimentar porcos, só se quiser (...) deve cozinhar e cuidar da roupa. (...) uma propriedade sem mulher é coisa insustentável”. (BAUMGARTEN, 1853, (1986): 326).
A importância da mulher foi também ressaltada por Julius em seus apontamentos:
(...) quero ainda salientar uma importante circunstância que diz respeito aos solteiros. (...) É melhor trazer um pouco menos de dinheiro e uma mulher, do que o contrário, porque meter-se na agricultura sem mulher é o mesmo que trabalhar inutilmente. O que ele arruma no solo com suor e sacrifícios, desperdiçará facilmente em casa. Uma mulher dedicada é o melhor capital e quem não quiser seguir este conselho certamente falirá, como aconteceu com muitos jovens (...) (BAUMGARTEN, 1854, (1961): 126).
A empregada doméstica além de cozinhar, cuidar da casa e das roupas ajudava na plantação e deveria de preferência ser bonita e educada, informação extraída novamente da correspondência de Julius, agora em carta para a mãe em 02 de abril de 1854:

“As mulheres e moças encontram ocupação na cozinha, no serviço leiteiro e no jardim; além disso, aos domingos, podem costurar e obter um ganho extra”. (BLUMENAU, 1851, (1999):193). Sem dúvida o colonizador entendia que a mulher deveria trabalhar em tempo integral, de domingo a domingo.
Encontramos mulher trabalhando no comércio e como parteiras, conforme relatado por Max Brueckheimer em suas memórias: A mulher ficava responsável pela família e até pela matança de animais na ausência do marido que estava ocupado na roça, em derrubadas de mato ou qualquer outro trabalho, como o pai do Max, que era agrimensor. Ordenha era trabalho de mulher, é o que se deduz de diálogo entre uma jovem e seu pretendente, relatado por Max: a moça pergunta se ele sabe ordenhar e ele responde: - “Isso é coisa que todo colono tem que saber, pois, que será do colono se a mulher um dia ficar doente e ele não souber nem mesmo como se tira leite de uma vaca?” (BRUECKHEIMER, s.d., (1969):186).
As famílias eram numerosas, às vezes com doze a dezesseis filhos e as mães trabalhavam na lavoura e no serviço doméstico. Os filhos supriam a falta de mão-de-obra ajudando os pais, muitas vezes assumiam as plantações com as mães, visto que os pais trabalhavam no mato. A importância da mulher na vida do imigrante fazia com que se apressassem a casar para não perder a pretendente para outro interessado, é o que aconteceu com Julius Baumgarten, que relatou aos pais em carta do dia 10 de fevereiro de 1855, a razão do acelerado noivado:
No dia 04 de fevereiro noivei com uma jovem muito simpática de nome Gretchen Wagner. A vida de solteiro aqui é horrível (...) Refleti muito (...) não foi um passo impensado. Eu não quis sacrificar minha liberdade jovem, mas não foi possível e peço aqui sua bênção. Não pude mais esperar com meu pedido, pois do contrário ela teria se tornado noiva de outro e já havia 3 ou 4 pretendentes à espera. (...) como ainda é muito jovem posso educá-la. (...) Está na companhia dos pais e irmãos e educada desde pequena para o trabalho, já dirige agora a casa de seus pais já que a mãe é doente (BAUMGARTEN, 1855, (1986): 329.)[27]

Além do trabalho doméstico cuidando dos filhos, casa, roupas e comida, as mulheres trabalhavam na roça, eram responsável pela horta, pelos animais domésticos e ainda costuravam, faziam tricô e crochê; para que a esposa se aperfeiçoasse nestas artes de agulha é que Julius entre outros motivos agilizou o casamento, visto que em casa a noiva não tinha tempo. (BAUMGARTEN, 1855, (1988): 24). ......à época e de esposa e companheira; ainda sobrava tempo para cuidar do jardim, aos sábados faziam quitutes para reunir a família para o lanche de domingo e quando não tinham nada para fazer, bordavam e costuravam; sem dúvida, é forçoso concordar com o Dr. Blumenau, a mulher realmente era imprescindível para o progresso do imigrante. A indústria têxtil garantia trabalho às mulheres, diretamente na fábrica ou em casa, conforme relata Johanna Baier Muller, (apud RENAUX, 1995: 161) ela e familiares costuravam para a firma Hering em casa, trabalhavam desde a manhã até as vinte e duas horas, cada uma fazia uma parte da peça: “Para a fábrica eu costurei alguns anos, minha avó, eu e a Tante Delminda. Hermann Muller-Hering nos trazia a costura cada segunda-feira ao mesmo tempo em que levava a que já ficara pronta.
Hering - portaria e jovens em frente a Artex
As mulheres constituíam a maioria das operárias na indústria têxtil, os homens dedicavam-se à agricultura, pecuária, comércio e transporte.
Para saber mais=
Maria de Lourdes Leiria
Colaboração: José Geraldo Reis Pfau- Publicitário/Arquivo Adalberto Day

7 comentários:

ANGEL Tostes disse...

Esse blog é sempre muito interessante, sou do Estado do RIo mas aprecio a valorização da cultura e a preservação da memória de um povo.

Tere disse...

Beto, muito linda essa matéria. Eu fui uma dessas moças que teve que aprender a costurar, só não ganhei a máquina dos pais, mas logo que me casei, comprei uma pra mim, era mais moderna pra época, fazia zigue-zague, uma maravilha, tenho até hoje a máquina. Minha mãe também ainda possue a dela, daquelas Elgin bem antigas, parecida com uma dessas na foto que você mostra na matéria. Um abraço. Tere.

Valter Hiebert disse...

Parabéns Adalberto, por mais essa viagem no tempo.
Minha mãe, Anna Hiebert (esposa do Russo), era costureira, na rua 12 de Outubro. Foi professora de muitas moças. Me recordo de duas delas, a Ilse Machado e a Irone Pera. Foram alunas em 1954, ano que nasceu meu irmão Adolfo, tendo a Ilse vencido a aposta com a Irone sobre o sexo do neném que viria. O premio foi ser madrinha do meu irmão. hiebert.valter@gmail.com

Marilia Carqueja disse...

Se eu fosse de Blumenau teria ficado solteirona. Como dizem no Rio, penteando Santa Catarina.
Não sei costurar, nem me dou com a máquina de costura!!!!

Marilia Carqueja
mariliacarqueja@uol.com.br

urda disse...

Legal esses resgates históricos do cotidiano, Adalberto! Sou uma semi-testemunha do que acabo de ler - pois quando estava acabando de crescer começava a acontecer no mundo o movimento hippie, e vivi outras realidades - mas quantas moças vi preparando seus enxovais bem como está no artigo!Parabéns!
Urda Alice Klueger - Blumenau/SC

riffel news disse...

é sempre muito interessante acompanhar teu blog. sempre traz assuntos interessantes e que me remetem novamente ao interior de SC, as lindas terras de Blumenau e regiao, que inclui tb Pomerode claro Hehehehe . Sabe, qto a historia de formar a filha por casamento, penso que tb nao eram tempos ruins, ... cada coisa no seu lugar nao eh mesmo? Naquele tempo era assim que funcionava. CAda epoca com tuas tradicoes e suas raizes. Relembrar eh sempre uma coisa boa, pra aprendermos ou ate mesmo, recordarmos nossas proprias vivencias. No meu tempo ja nao se ganhava mais pra confirmacao artigos de enxoval, mas isso foi em 1994. Ou estava escrito na minha testa que isso nao era pra mim, (naquela epoca) ou entao, ja nao se fazia mais. Nao sei Hehehehe. Sei que cada epoca tem suas belezas e magias, e cada uma delas,...deve ser recordada e respeitada.... :-) Sejamos da opiniao ou nao. Enfim, parabens pelo teus comentarios no blog hoje e sempre. Parabens ! Abracos com carinho de Bonn, Bettina Riffel

André disse...

Andre Carvalho No relato de uma de suas funcionarias, a proprietária do restaurante Gruta Azul, , D.Bertha, tinha a mesma preocupação com o enxoval, que era composto por uma maquina de costura, um faqueiro e o vestido de noiva. Era uma bela casamenteira, pois todas as suas funcionarias casaram com todos os seus funcionários !

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