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domingo, 19 de outubro de 2008

- A última horta do Centro de Blumenau

Emaranhada entre os fios da modernidade, cercada pela selva de pedra e ladeada pelos transeuntes apressados, lá está a velha casa de Arno Zendron, que guardava uma preciosidade entre os verdes espaços do terreno gigante na esquina da Cel. Vidal Ramos com a Alameda (Reprodução)
Outra belíssima crônica da escritora Urda Alice Klueger, sobre o tema ‘A última horta do centro de Blumenau”.
Disseram-me que ele morreu com 88 anos – deve fazer, portanto uns 60 ou 70 anos que aquela horta existe, bem na esquina da Alameda com a Rua Coronel Vidal Ramos, que antigamente se chamava rua Paraná. Faz duas semanas que ele morreu (abril 2002) – chamava-se Arno Zendron, e eu o conhecia de vista desde criança. Pertencia a uma família longeva – é de estranhar que não tenha completado o século, como outros dos seus irmãos, mas há que se convir que 88 anos também é uma idade respeitável.

Seu Arno Zendron morou quase naquela esquina que citei acima por toda a sua vida – disse quase, porque ele morava um tanto fora da esquina – quem morava na esquina era a sua horta.
Faz uns 30 anos que comecei a prestar atenção naquela horta. Trinta anos atrás Blumenau crescia, sumiam as vacas de atrás das casas, novas gentes, novas caras e novos costumes vinham fazer ninho na nossa cidade. Apareceram os supermercados, com vidros resplandecentes e espelhos nos seus setores de horti-fruti-granjeiros; apareceram os frangos congelados e resfriados nos longos balcões de vidro, apareceu o leite “de pacote”. Paulatinamente, as hortas de Blumenau foram abandonadas; já não se criavam mais galinhas atrás das casas, venderam-se as vacas.
Saíra sete cores e Gaturamo
Foto: Rubens Heusi
O símbolo da resistência dos tempos antigos, em Blumenau, era a horta do seu Arno Zendron: no centro da cidade, em área nobre, que ia, aos poucos, sendo rodeado por edifícios de apartamentos, ela resistia, e tinha de tudo: a cebolinha, a salsa, as cenouras, a couve-flor, a alface, o aipim. Agora de cabeça não lembro bem das árvores, mas acho que há algumas bananeiras, um pé de pêssego, ralas árvores que não deveriam tirar o sol das hortaliças. Galinhas também andavam por lá; eram poucas, mas de vez em quando as havia, bem como se o tempo não tivesse passado, bem como se ainda se vivesse nos tempos da colonização, antes que o mundo tomasse o ímpeto de transformação que acabou tomando. Eu prestava a maior atenção naquela horta; sabia o tempo todo, o que ela representava, e que ela era a última.
Faz poucos dias que soube que o seu Arno Zendron tinha viajado para outras plagas. Fui lá olhar a horta, então. Ela já está um pouco descuidada, com capim crescendo nos canteiros, bem como fica uma horta antes do seu último suspiro. Enquanto o seu Arno esteve doente, ela começou sua despedida. Penso que ninguém irá ressuscitá-la, que está irremediavelmente condenada à extinção, para dar lugar, daqui à pouco, a um outro qualquer edifício de apartamentos. Chegou ao fim à última horta do centro de Blumenau.
É como se tivesse acabado uma antiga resistência. É muito triste.
Blumenau, 30 de Abril de 2002.
Urda Alice Klueger/escritora
Arquivo de Adalberto Day

2 comentários:

Jean disse...

Adalberto,

Meus parabéns pelo seu trabalho, é muito bom saber que existem pessoas como você que ajudam a manter viva a história da nossa querida Blumenau.

Um grande abraço,

Jean Kuhlmann
Deputado Estadual

Clarice Zendron Dias Tanaka disse...

Somente hoje li seu artigo. Fiquei muito emocionada, pois sou neta de Arno Zendron. Poderíamos ressucitar a horta, como homenagem aos meus avós e a memória da cidade de Blumenau.
Clarice

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