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segunda-feira, 10 de março de 2014

- Paralelepípedos e Reminiscências da rua XV

Foto reprodução
Em 16 de julho de 1999 o artista plástico César Otacílio publicou no Jornal Santa Catarina texto com o titulo “A vida imita a arte”.
A divulgação do inicio das obras de reurbanização da Rua XV de Novembro, com alguns paralelepípedos da famosa via indo parar no museu como símbolo da história e modernização da cidade, lembrou-me um trabalho numa exposição coletiva de arte, da qual participei.
                   
Esta pedra está em meu acervo. Ganhei da Silvana Moretti.
Ao ver a imagem do Prefeito Décio Lima levantando uma pedra (a primeira retirada da rua) ocorreu-me a ligação e parentesco com uma obra acontecida em 1991, onde outro paralelepípedo foi destaque e centro de atenções. Na Galeria Açú Açú acontecia à exposição Blumenau – Retratos Falados, comemorativa a 141 anos de fundação da cidade. Entre os expositores (13 ao todo) estava Tadeu Bittencourt, que apresentava uma instalação envolvendo um paralelepípedo. Explicava que se inspirou numa faixa afixada no (antigo) Bar Kriado (da Rua Alvin Schrader) que dizia. “Blumenau tem mais de um milhão de paralelepípedos”. Tadeu usava a pedra adornada com fone de ouvidos e óculos de grau de miopia. O paralelepípedo incomodava, pois ninguém queria ser um. Já é conhecida a característica de Bittencourt de provocar a reação das pessoas. Capaz de grandes e empolgados debates chegando mesmo a ser um pouco polemico. Atualmente, defende, de forma acirrada, a valorização do artista plástico. Nas mostras, garante, deveria o autor receber cachê ou a garantia de uma obra vendida. Do seu paralelepípedo poucos se lembram (mesmo porque poucos tem o costume de visitar exposições). Uma obra efêmera refletindo a sua maneira de sentir. A reurbanização que se inicia só tornou-se concreta devido a humildade do prefeito em visitar pessoalmente os comerciantes, convencendo-os finalmente da importância da mudança. Poderíamos até dizer: desnudou a pedra-Bittencourt... aquele paralelepípedo de óculos e com fone de ouvidos.... Talvez no futuro, quando visitarmos o museu onde ficarão as primeiras pedras da Rua XV com os resíduos de história, lembraremos de uma fase da cidade. Seria interessante que junto aos paralelepípedos históricos estivesse o paralelepípedo-Bittencourt, registrando dois momentos da “cidade com mais de um milhão de paralelepípedos”.
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Em 18 de agosto de 1973 o artista plástico Roy Kellermann publicou no Santa em Casos de amor a Blumenau o texto titulo
Reminiscências da Rua XV
A localização exata da cidade de Blumenau é; Latitude 26 graus, 55 minutos e 10 segundos, longitude 49 graus, 3 minutos e 58 segundos, ou seja, entre o Morro do Stitzkopf e o Morro do Baú. Nasci nesta cidade, na maternidade que ficava na esquina da Alameda Rio Branco com a Rua Sete de Setembro, onde depois funcionaram o Restaurante Cavalinho Branco e a Agencia de Turismo Holzmann. Cresci e morei muitos anos no prédio que os meus pais construíram na década de 30. Meu pai tinha sua alfaiataria no numero 681 na Rua XV de Novembro e minha mãe era modista no numero 683, no primeiro andar. Nestas atividades que meus pais exerciam existia sempre a necessidade de se comprar em lojas da Rua XV determinados artigos e esta tarefa era feita por mim. Daí eu conhecer tão bem a rua. Em 1950, no Centenário de Blumenau, eu só tinha 7 anos e me diverti muito no parque de diversões que instalaram nos fundos do Teatro Carlos Gomes. Lembro-me bem do trem fantasma, dos carros elétricos que se esbarravam, da roda gigante, da montanha russa e da Casa dos espelhos. Meus pais iniciavam diariamente no trabalho muito cedo e só o encerravam as 22 horas, quando saíamos para tomar canja de galinha com pão e manteiga e tomar cervejas no Restaurante, Bar e Café Expresso. Meu pai, minha mãe, meu irmão e eu íamos muito ao Bar Polar também para tomar cerveja (e deliciosos sorvetes). Havia ainda um Bar chamado Sans Souci, onde volta-e-meia havia um mágico atuando. Enquanto não começa a projeção de pequenos filmes e desenhos animados, ficávamos sentados à mesa do Bar e Sorveteria Polar. E quando se ouvia a musica de abertura da projeção de filmes durante o footing (trecho de ruas Nereu Ramos e a Floriano Peixoto era fechado para automóveis no calçadão), corria-se para vê-los. Era o nosso cinema Paradiso. Munidos de pipoca e amendoim torradinho, olhávamos os filmes projetados em uma parede da Rua XV de Novembro. Ria-se muito... Andar de carro-de-mola puxado por cavalos, passear de canoa, pescar, nadar eram também emocionantes atividades. No primeiro andar do nosso prédio recebíamos semanais visitas de fornecedores de alimentos como galinha viva, manteiga, nata, queijo branco e morangos. Naquele tempo, os ônibus trafegavam pela Rua XV e bem defronte à nossa casa havia um ponto-de-parada. Muitas pessoas vinham justamente tomar um “früstück” e ficavam fazendo hora em nossa casa (sempre aberta a todos) até o momento de pegar seus ônibus. Quando uma eventual enchente do rio inundava a Rua XV, gente divertida utilizava os inúmeros troncos de bananeiras que vinham boiando rio abaixo; eram utilizados como boias ou jangadas. Mas o que sempre me encantou nesta querida cidade foram os castelos e os prédios, que gosto de retratar como patrimônio Histórico. 
Textos: artista plástico César Otacílio/ Roy Kellermann
Colaboração José Geraldo Reis Pfau
Arquivo: Adalberto Day 

terça-feira, 4 de março de 2014

- Companhia Fábrica de Papel Itajaí

No dia 14/02/2014 o Adalberto publicou em seu blog o interessante ensaio biográfico de Victor Felix Deeke, elaborado por seu filho, o Sr. Gunter Deeke (falecido em 18 08 2021). Ao ler o rico texto (foto Wieland Lckfeld), lembrei-me do material referente à fábrica de papel da qual Victor Felix Deeke foi Diretor Geral, que garimpei em São Paulo em 2010, ao realizar pesquisas no Instituto Martius Staden. Trata-se de uma breve história da Companhia Fábrica de Papel Itajaí, publicada na Revista Paulista de Indústria na década de 1950.
Reproduzo a matéria a seguir, lembrando que o leitor deve sempre considerar o seguinte: a) quando aparecer a palavra ‘atualmente’, recordar que estamos em 1955; b) o texto enaltece, de forma especial, no contexto da empresa, membros da família Hering, mas há uma explicação para isso: a tônica da publicação trata dos 75 anos de fundação da Companhia Hering e a fábrica de papel foi citada na revista pelo fato de ter sido este mais um empreendimento no qual a família Hering teve participação.
O texto não pretende, portanto, diminuir o papel de Victor Felix Deeke. Pelo contrário, deixa claro que o período áureo da mesma se deu quando este era seu Diretor Geral. Por ser sucinto, apenas não revela os preciosos detalhes fornecidos pelo Sr. Gunter Deeke. Neste sentido, devemos entender que se trata de textos complementares, e não excludentes.

“Cia. Fábrica de Papel Itajaí
            Gottlieb Reif, falecido pioneiro de iniciativas industriais no Vale do Itajaí, planejou a construção de uma fábrica de papel, junto à barra do rio Itajaí-Mirim e interessou, em seu projeto, ao saudoso industrial Curt Hering. Este conseguiu o apoio dos componentes de sua família nas pessoas dos senhores Hermann, Bruno, Max e Mueller Hering, e dos industriais senhores Carl Rischbieter, Fides e José Deeke, com a participação dos quais, fundou-se, em 1911, a fábrica de papel de Itajaí, sob a razão social de: “HERING, REIF & CIA. LTDA”. Sua primeira diretoria ficou a cargo dos senhores: Carl Rischbieter – Presidente; Curt e Max Hering – Diretores Executivos.
Vista geral da fábrica em Itajaí
            Dez anos mais tarde, a firma transformou-se em sociedade na anônima, passando a denominar-se “Companhia Fábrica de Papel Itajaí”, com a seguinte diretoria: Curt Hering – Presidente; Fides Deeke – Vice-Presidente; Alfredo Eicke Senior – Diretor Comercial, e Victor Kleine – Diretor Técnico. Com ligeiras alterações, entre as quais a substituição na vice-presidência, por motivo de falecimento, pelos senhores José Deeke e Max Hering, esta diretoria geriu os negócios até 1941. Durante sua gestão, a capacidade de produção da fábrica foi ampliada, com a instalação de uma segunda máquina, em 1937.
            Em 1941, influenciada pelas condições de guerra, processou-se completa alteração na administração da Companhia, que passou a constituir-se de uma Diretoria Executiva e de um Conselho Diretor. Foram eleitos, então, os atuais diretores executivos: Victor Deeke – Diretor Geral; Abdon Schmidt – Diretor Gerente; Alfredo Eicke Jr. – Diretor Tesoureiro. O Conselho Diretor sempre se compõe de elementos da família Hering e acha-se, hoje, enriquecido com a eficiente colaboração do dinâmico industrial Sr. Irineu Bornhausen, atual governador do Estado de Santa Catarina.
Fábrica de Bocaina do Sul
Indústria de base
            A atual administração tem desenvolvido, desde 1941, um vastíssimo plano de ampliação, atendendo às contingências do mercado nacional de papel. É o papel um dos produtos básicos para a economia de um país e o Brasil possui condições especiais para ser um grande produtor. Depende, no entanto, em grande parte, da importação. Enquanto se verifica um aumento continuado na produção, com novas fábricas, o consumo cresce na ordem de 50.000 toneladas por ano e tende a subir com mais intensidade, pois o índice “per capita” não atinge a 9 quilogramas, o que é muito baixo. Por outro lado, a fabricação do papel se processa com preponderância de matéria prima – celulose – importada, sobrecarregando nossa balança de pagamentos e pondo-nos sob controle de suprimento estrangeiro, sem meios para lutar contra a alta de preços da celulose e fixação de quotas impostas pelo estrangeiro, nos períodos de carência.
Fábrica de Ituporanga
            Buscando auto-suficiência, a atual diretoria, contando com o apoio de seus acionistas, levou a efeito uma série de arrojados investimentos para a produção das matérias primas básicas da indústria do papel, que exigem vultosas inversões. Assim, adquiriu enormes reservas de florestas e criou hortos de reflorestamento com o que abastece e garante matéria prima às máquinas das indústrias que implantou em Santa Catarina. Na sua fábrica de Itajaí, instalou equipamentos para celulose e pasta mecânica, enquanto duplicou as instalações para o fabrico do papel. Produz, atualmente, pasta mecânica, celulose, papel e cartolina. Junto às reservas construiu três fábricas novas, a saber: a fábrica de celulose de Bocaina do Sul; a fábrica de papelão e cartão de Ituporanga, e a fábrica de papelão de Perimbó. Atualmente, está empenhada na construção e instalação completa de fabricação de soda e cloro e duas seções, uma de pasta e outra de celulose, trabalhando em processo absolutamente contínuo, para abastecimento da moderníssima máquina de papel ali instalada e que produzirá papéis finos e especiais.
Fábrica de Perimbó – vista parcial das obras hidráulicas: tudo de pressão apoiado em ponte de cimento armado sobre a divisionária do perau.
            Com um capital de Cr$ 66.000.000,00, e contando entre seus maiores acionistas os componentes da família “Hering”, a Fábrica de Papel Itajaí, é uma das mais completas e modernas empresas do ramo no Brasil, praticamente auto-suficiente em matérias primas e com uma linha de produção que abrange toda a variedade de papelão, cartão, cartolina e papel, desde os mais grosseiros aos mais finos e especiais.           
Igaras – vista das obras da fábrica
É uma das principais organizações industriais do Estado de Santa Catarina, e uma das indústrias de base de relevante importância para a economia brasileira.”
Fonte: Revista Paulista de Indústria – No. 34 – maio de 1955 – Ano V – p. 140 a 143.
Recomenda-se ler, em caráter complementar, também o ensaio biográfico de Victor Felix Deeke mencionado no início deste post, pois o mesmo enriquece de forma exponencial esta breve história da Companhia Fábrica de Papel Itajaí. Observei que no site da Prefeitura Municipal de Bocaina do Sul as ruínas da antiga fábrica existentes na cidade são arroladas como atrativo turístico da cidade.
Colaboração Wieland Lickfeld
Para saber mais sobre Victor Felix Deeke acesse:

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