A foto em preto e branco no meio dos cartazes, é do antigo Cine Garcia, na Rua Amazonas bairro Garcia em Blumenau.
Introdução
Mais uma participação exclusiva do renomado escritor e jornalista Carlos Braga Mueller, que hoje nos presenteia com texto sobre Cinema – O Cine Garcia (1941 oficialmente novembro de 1944-1974), até então eram exibidos semanalmente por amadores.
“As pessoas se olhavam numa paquera quase envergonhada, em um momento sutil e mágico”. Existia até mesmo uma suposta premiação para quem encontrasse uma pulga carimbada e a entregasse ao proprietário. Nunca soube de alguém que a tivesse encontrado, mas é o comentário que se ouve até os dias de hoje. Ainda no aspecto pitoresco, havia as ocasiões em que a platéia batia os pés, assobiava e gritava para incentivar o mocinho. Naquele instante, o lanterninha interrompia bruscamente a exibição para chamar a atenção dos mais exaltados "baderneiros" e ameaçava não continuar o espetáculo. Sem falar das vaias quando as enormes fitas se rompiam, ou acabavam, e precisavam ser emendadas ou trocadas. Os freqüentadores iam a pé ou de bicicleta. As laterais do prédio ficavam lotadas de bicicletas, empilhadas umas sobre as outras. Depois do gongo, ecoava a música Django Era o maior entretenimento dos moradores do Garcia, que assistiam, principalmente nas tardes de domingo, aos maiores clássicos e seriados do cinema.
Cine Garcia
Recordar é Viver
Por Carlos Braga Mueller
O bairro do Garcia é o mais antigo de Blumenau.
Quando o Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau aqui chegou, nos idos de 1848,
para fazer uma vistoria do local onde implantaria sua Colônia, já encontrou moradores no Garcia. Eram portugueses que teriam vindo das bandas do Rio Garcia, hoje Rio Camboriú, em busca de terras mais férteis para suas lavouras.
Em 1900, quando Blumenau estava completando 50 anos de existência, foi realizada a primeira sessão de um “cinematógrapho” na cidade, ou seja, uma apresentação da novidade que seria conhecida logo como “cinema”.
No centro de Blumenau, as sessões esporádicas dos ambulantes continuaram por alguns anos, até que o empresário Frederico Busch Sênior fundou o Cine Busch por volta de 1904, usando instalações do Salão Holetz, que ficava nos fundos do Hotel do mesmo nome. Este foi o primeiro cinema fixo do sul do país.
Mas quem morava mais afastado tinha que sujeitar-se a ir até o centro para ver o cinema, em uma época em que só cavalo, carroça ou charrete eram utilizados como condução.
Aproveitando esta situação, os ambulantes faziam sua ronda pelos vários salões de baile da região, exibindo os filmes que ainda eram mudos, e com isso desempenharam um papel muito importante na difusão cultural através das imagens animadas em Blumenau.
O Garcia tinha um salão de festas muito conhecido. Era o Salão Hinkeldey, fundado por
Hermann Hinkeldey (foto) no início do século XX, que promovia memoráveis festas e eventos.
A família Hinkeldey antecipou-se no tempo e acabou instalando na principal rua do bairro, hoje Rua Amazonas, um grande centro comercial quando ainda nem se pensava nisso. O prédio, que funcionou por mais de setenta anos, abrigou uma casa comercial que vendia de tudo, desde alimentos e bebidas até material de construção.
Ali também funcionaram um hotel, bar, padaria, restaurante e o famoso salão de festas.
Mas não era só isto. Do outro lado da rua os Hinkeldey montaram um jardim com churrascaria, que ia até o Ribeirão Garcia.
E como não poderia deixar de ser, os ambulantes que exibiam filmes chegavam constantemente e alugavam o salão para exibir ali os “sucessos do cinema”.
Mas o bairro sentia a necessidade de um cinema fixo, que fosse ponto de encontro, referência para ver os cartazes dos filmes que iam ser exibidos, onde fosse possível acompanhar todas as semanas os famosos seriados.
Quando a comunidade do Garcia comprou um terreno onde hoje se ergue a Escola de Educação Básica Governador Celso Ramos, alguém sugeriu que ali se construísse um hotel e um cinema (depoimento do Sr. Nicolau Schatz/2002, citado no blog de Adalberto Day).
A historiadora Edith Kormann, no seu livro “Blumenau – arte, cultura e as histórias de sua gente” Volume IV, relata a história do Cine Garcia, que começou com as exibições dos ambulantes no Salão Hinkeldey:
“As sessões cinematográficas, que eram mudas e animadas pelo bandônion de Arnold Gauche, inicialmente eram realizadas uma vez por semana pelos irmãos Holzwarth e também por Julianelli (José)”.
Os cinegrafistas ambulantes, que de quando em vez apareciam no bairro do Garcia com o seu cinematógrafo e filmes, e também a grande afluência do público para as sessões, fizeram com que Carlos Zuege e Arthur Lohse instalassem, em novembro de 1944, um cinema permanente que ficou conhecido como Cine Garcia. Desde 1941 já eram passados filmes, até a fundação em 1944.
Arthur Lohse e Carlos Zuege trabalharam juntos até 1948, quando a sociedade foi desfeita e Carlos Zuege continuou até 1958 sozinho.
Em 1958 Reynaldo Olegário (foto) comprou o Cine Garcia. Segundo Olegário, que trabalhou no Cine Garcia quase 30 anos, pois começou ainda garoto, eram muito solicitados os filmes de capa e espada e os românticos. Dos nacionais, os que mais levavam público ao cinema eram os filmes de Mazzaropi.
Em 1972, quando o Cine Garcia foi vendido para a Empresa Meridional de Cinemas, Reynaldo Olegário foi convidado para trabalhar como fiscal, porém não aceitou, pois não pretendia deslocar-se para o Paraná, já que o cinema para ele era mais um “hobby”.
“Os filmes exibidos na época eram da Fama Filmes, de Curitiba, importadores e distribuidores para quase todo o Estado de Santa Catarina, exceto Lages e adjacências, que os recebiam de Porto Alegre.”
O Cine Garcia funcionou até 1974, quando cessou definitivamente as suas atividades. Foi comprado pela comunidade católica que o transformou em igreja até 1978. Em 1979 ele foi demolido e seu espaço ocupado como pátio para a nova igreja da Paróquia Santo Antônio, então recém inaugurada.
As lendas e histórias que se contam a respeito do Cine Garcia nos seus 30 anos de vida são muitas.
Uma delas é a de que os padres do Garcia estavam constantemente contrariados com Olegário, porque ele exibia filmes pornográficos. E só ficaram sossegados quando conseguiram comprar o salão.
Arthur Lohse, quando abandonou a sociedade que tinha com Carlos Zuege no Cine Garcia, mudou-se para Tijucas, onde fundou o Cine Lohse. O prédio está lá até hoje, à beira do Rio Tijucas e era (ou ainda é) ocupado por uma igreja pentecostal.
Em criança eu estudava no Pedro II na mesma classe do Coracy Zuegue, filho do proprietário do cinema. Por isso fui lá algumas vezes, onde conheci o funcionário Reynaldo Olegário, ficando amigo desse abnegado exibidor durante muitos anos, até que a morte o levou.
Um fato curioso é que todas as semanas o Cine Garcia promovia uma sessão especial para os soldados do 23º Batalhão de Caçadores, depois 23º Regimento de Infantaria, hoje 23 BI, com os ingressos ao mesmo preço da meia-entrada. Só que a bagunça imperava no cinema. Olegário quase morria do coração, porque era muito difícil manter a ordem no recinto nestas ocasiões, principalmente se o filme tivesse cenas fortes de romance ou fosse um bang-bang com muitos tiros, o que os soldados adoravam...
Muitos lembram com saudades da pipoca que era vendida ao lado da bilheteria e dos sorvetes do bar do senhor Schoenfelder, que ficava bem perto do cinema.
Enfim, cinema sempre foi encantamento e emoção. E no Cine Garcia não foi diferente. Por isso ficaram tantas saudades!..
Arquivo e Introdução Adalberto Day/participação especial do Escritor e Jornalista Carlos Braga Mueller