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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

- Na Vila

Mais uma bela crônica da historiadora/doutora em Geografia, escritora Urda Alice Klueger nascida no Garcia como eu,  mas além de garcienses somos  blumenauenses. 
                                   (Para S. R. V. S.)

A VILA
Por Urda Alice Klueger                                  
A Vila estava ali – foi-se desenvolvendo ao longo do tempo, uma casa hoje, outra ano que vem, pastos com vacas, carreiros para carroças, morros com velhos brabos, a pedreira do seu Thomé (A pedreira do seu Thomé ficava na hoje Escola Agrícola) de onde se tiraram os paralelepípedos para a Rua XV, menino brincando com caminhões de madeira, a casa de comércio, sonhos e energias que circulavam, sílfides e outras crianças que nasciam... A Vila crescia, se esparramava, mandava energias para o entorno, trocava as carroças por automóveis antigos, trocava velhos acordeons por músicas de Roberto Carlos, a descendência do homem da pedreira crescia e se multiplicava como em alguns episódios bíblicos, na casa de comércio se tomava Laranjinha com pão e linguiça nas tardes de preguiça, quando meninas douradas ajudavam a arrumar as prateleiras...

                                   A partir de certo momento, estrangeira que era, vi-me tão envolvida com a Vila como se tivesse sido presa lá por cadeados de tão resistente aço que nunca mais se abriram. Disse: era estrangeira, nunca poderia fazer parte da Vila. Então havia que estar lá do jeito que dava: no silêncio das noites, parada, silenciosa, nos aceiros que ligavam as roças simples aos jardins que tinham as mais magníficas flores, tentando aspirar, na aragem, alguma molécula de perfume que as flores espalhavam sem saber, ou simplesmente sentindo o vibrar da Vila, quieta, imóvel dentro da velha carruagem puxada à lua, sentindo a intensidade daquele lugar que tanto podia, que tudo podia na minha emoção, sentindo o vibrar das energias da Vila, energias que pulsavam na mesma velocidade do meu coração que amava àquela Vila porque lá era o lugar sagrado onde, na caverna sagrada, sílfides de luz existiam e davam sentido ao fato de eu existir.
                                   
Vila rua da Glória
Também havia outro jeito de estar lá, e era quando dormia e saía vagando dentro dos sonhos. Os sonhos eram mais complexos – na verdade, eram atrozes, porque neles a minha nacionalidade estrangeira não importava, e eu andava pela Vila toda procurando, procurando, porque houvera alguém dentro do meu sono que dissera que o tesouro maior estava lá e eu poderia acha-lo. Noites terríveis eram aquelas, tantas vezes repetidas – afundei os caminhos da Vila com meus pés descalços de sonâmbula, e de todas elas despertei em profundo pranto, por causa da realidade da ausência – a Vila continuava sendo um mistério e um escrínio pejado de coisas maravilhosas, e nada daquilo estava ao meu alcance.
Igreja Nossa Senhora da Glória
                                             Penso, agora, como pude suportar a alegria do outro dia, tão imensa e maravilhosa era! Até agora custo a entender que aquilo aconteceu mesmo! De repente, eu estava na Vila, no Templo da Vila, lugar sagrado, impunemente sentada ali ao lado de uma das sílfides, e havia um halo dourado contornando tudo e ninguém parecia se importar com a minha condição de estrangeira nem que estivesse sendo recebida por um daqueles seres mágicos que exalavam aromas, como as flores. Mantive-me atenta ao que dizia o sacerdote, mas dentro de mim era tão imensa e intensa a alegria que, repito, não sei como podia suportar! Aquele era um templo de milagres e a magia andava solta, em girândolas coloridas por todos os lados – eu havia chegado à Vila! Dentre outras coisas, a água que se bebia lá era translúcida e brilhante, capaz de matar todas as sedes!
                                            Nossa, que caminhada longa que fora, e talvez nunca mais tenha outra oportunidade como aquela! Mas como valeu a pena!

                                            Blumenau, 06 de Março de 2016.

                                            Urda Alice Klueger
                                            Escritora, historiadora e doutora em Geografia.

Arquivo de Adalberto Day/Cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

9 comentários:

Osmar Hinkeldey disse...

Bom dia Adalberto

Sempre interessantes as suas postagens sobre a nossa querida cidade.
Esta da Urda com o título "Na Vila", tem um fato interessante que eu desconhecia,
qual seja, que a pedreira do seu Thomé forneceu os paralelepípedos para a Rua XV de novembro.

Abraço

José disse...

Que bela foto de Blumenau, em 1869!!!!
Aqui em Lajeado, a primeira construção na cidade foi iniciada em 1862.
Ab.
José Alfredo Schierholt

Nillton Sergio Zuqui disse...

Meu caro Adalberto,
Que da nossa vila saiam as pedras para calçamentos das ruas de nossa cidade eu não sábia. Porém é sempre muito bom ler ,e rever a nossa querida e inesquecível vila, que saudades. Parabéns pelo texto,otimo como sempre.

Marilene disse...

Bem interessantes e diversificadas, de mesmo teor atraente, Na Vila, mais uma ótima postagem em seu Blog, que transportou-me para a vila onde nasci (Se me permite ==> goo.gl/AXslMN e goo.gl/gczl27). Identifiquei-me com a forma redacional da autora.
Ótimo dia!


Adalberto Day disse...

A Vila. Sempre nos remete a infância, tínhamos algumas aqui em Blumenau. Onde morava no Bairro Glória, existiam três e todas em muita harmonia, quase todos trabalhavam na mesma empresa Garcia ou Artex e moravam em mais de 240 casas idênticas produzidas pelos funcionários da EI Garcia. Era uma verdadeira aldeia. Todos amigos, água encanada, coleta de lixo, saneamento básico ... quase todos iam na mesma igreja NSG, na Mesma escola, São José ou Santos Dumont, no mesmo cinema o Cine Garcia, no mesmo estádio do Amazonas, na mesma padaria, na mesma sorveteria e assim vai. Eram tempos de outrora tempo bom, tempo de recordar décadas de 1950/1970 ... quanta saudade dessa Vila e a convivência.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história.

valeria fernandes disse...

Parabéns! A autora Ursa,E Adalberto por nós presentear por esse teor..que nos faz viajar no tempo...Principalmente. quando podíamos andar livres sem violência. Gosto muito de relembrar épocas que ja vivo,com tanta intensidade.Ainda bem que as histórias ficam e nos permitem..voltar ao passado ainda que seja apenas..na lembrança. Gostei desse texto tão singelo e gostoso de ler.De uma coisa TEMOS certeza..."A SAUDADE É A ÚNICA COMPANHIA...QUE NUNCA VAI NOS DEIXAR ". ABRAÇO URDA & ADALBERTO.

valeria fernandes disse...

Correção : Erro de digitação o nome da autora.URDA

Mauro disse...

Fantástico! Isso é Blumenau. Isso é história!

Parabéns, meu amigo e Urda.

Mauro Bremer - Quatro Estações Rio Grande do Sul

Henrique Sebastião disse...

Ufa! Que texto belíssimo, poético! Sim, Mauro, isto é Blumenau, terra mágica, cujos fluidos, aromas e cores nos elevam a essas alturas da alma! Quanta sensibilidade, Sra. Urda!

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