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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

- Jorge Amado

Mais uma colaboração exclusiva do jornalista e escritor Carlos Braga Mueller
Por Carlos Braga Mueller
BLUMENAU SOB A ÓTICA DE JORGE AMADO
Jorge Amado foi um dos mais prolíficos escritores brasileiros.
Autor de 49 livros, entre os quais muitos romances, alguns de crônicas, contos e memórias, teve suas obras traduzidas em 80 países.
Amado, cujo nome completo era Jorge Leal Amado de Faria,
começou sua carreira de escritor em 1931 com o romance O País do Carnaval.
Nasceu em Itabuna, na Bahia, em 10 de agosto de 1912 e morreu no dia 6 de agosto de 2001, em Salvador.
Zélia Gattai, também escritora, foi a companheira que o incentivou, secretariou, e que sempre esteve ao seu lado, nas boas e nas más horas.

FARDA FARDÃO CAMISOLA DE DORMIR
Em 1979 publicou  Farda Fardão Camisola de Dormir (assim mesmo, sem virgulas ) um romance, ou “fábula para acender uma esperança”, como ele sub intitula a obra.
Uma história pictórica, em que Jorge Amado toma a liberdade de cometer algumas indiscrições contra uma vetusta Academia de Letras. Vale lembrar que ele próprio era membro da Academia Brasileira de Letras.
Farda, porque Amado conta a estóica batalha de um coronel, em busca de uma cadeira na Academia, aberta como sempre pela morte de um dos seus membros.
Fardão, porque os imortais da Academia tem que trajá-lo ( e não custa pouco) desde o ingresso até que se despedem, morrem, mas permanecem “imortais”.
Camisola de Dormir porque um dos personagens assim classifica a nudez de uma de suas mais ardentes e inesquecíveis amantes.
Construído esse cenário, Jorge Amado começa a narrar como funcionam os bastidores onde circulam os literatos, aos quais caberá indicar e votar em um novo acadêmico. E entram aí, digladiando entre si, os mais antigos e respeitados dos membros da Academia,  povoando o universo acadêmico com firulas e fofocas.

E O QUE  BLUMENAU TEM COM TUDO ISSO ?
Interessante é citar que Blumenau ocupa um pequeno, mas significativo, espaço na história, mais especificamente no capítulo ”Os acontecimentos de Santa Catarina”.
Antes de transcrever parte deste capítulo, vale fazer algumas considerações sobre o enredo de Farda Fardão Camisola de Dormir.
O Coronel Agnaldo Sampaio Pereira (nome fictício) se considerava um literato digno de ingressar na Academia.  Mas alguns acadêmicos queriam ver o diabo, não queriam vê-lo lá. Isto porque Sampaio Pereira, integrante do Exército durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, era considerado um adepto da filosofia nazista, em uma época em que o governo brasileiro parecia manifestar simpatia pelas ações do nazismo de Hitler e pelo fascismo de Mussolini. O Planeta caminhava, célere, para um conflito que ficaria registrado nos anais como a Segunda Guerra Mundial.

Para melar a candidatura de Sampaio Pereira, alguns acadêmicos descobriram outro escritor tão militar quanto ele, ou talvez até melhor, porque General, de patente superior, apto a concorrer com o Coronel, embora seus escritos não fossem lá essas coisas: tratava-se do General Waldomiro  Moreira, respeitado muito mais que o oponente.

OS ACONTECIMENTOS DE SANTA CATARINA
No livro, em determinado momento, para abafar as manifestações nazistas, pró Alemanha, que ocorriam em Santa Catarina, foi designado para salvaguardar a lei e a ordem em território catarinense o capitão Joaquim Gravatá, oficial educado no amor à Pátria e que, chegando ao destino, seria um ferrenho cumpridor da lei. Gravatá não desconfiava, porém, que movimentos pró Hitler poderiam ter simpatizantes entre os integrantes do Estado Novo, a ditadura implantada por Getúlio em 1937.

Jorge Amado é quem conta em sua ficção, que beira a realidade:
“Vindo diretamente do meio dos caboclos ribeirinhos para comandar a Companhia sediada em Blumenau, cidade de colonização alemã, o Capitão Gravatá pensou ter desembarcado em terras estrangeiras. Menos pela brancura da gente ariana, os cabelos loiros, os olhos azuis, a inconfortável predominância do idioma alemão sobre o português, mas sobretudo por constatar completo desprezo e freqüente desobediência às leis ditadas pelo Governo – mau ou bom, tratava-se do Governo do Brasil, país independente, situado na América do Sul.
Até bem poucos anos brasileira e pacífica, durante a guerra Blumenau parecia belicosa colônia germânica. Sergipano, favorável à miscigenação, exigente no respeito à soberania nacional, o Capitão aborreceu-se com o que ali viu e constatou. Realizavam-se constantes manifestações políticas, públicas e ruidosas, em clubes, escolas, templos, ruas e praças. Passeatas percorriam a cidade, comemorando vitórias dos exércitos nazistas, conduzindo bandeiras e emblemas, a suástica e retratos do Führer. Desfiles paramilitares, os jovens fardados com uniformes dos SS e dos SA, camisas pardas e camisas negras, marchando a passo de ganso, os braços levantados em saudação aos Chefes, os gritos de Heil Hitler! “Nos palanques dos jardins e parques, pronunciavam discursos exaltados e agressivos- em dialeto bávaro soavam ainda mais insolentes.”
A narrativa de Jorge Amado prossegue contando o que o Capitão
Gravatá fez para instaurar a ordem em Blumenau:
“Ora, as manifestações políticas em recinto fechado ou em praça pública, estavam todas elas proibidas. Também o funcionamento dos partidos, sem exceção. Todavia, o Partido Nacional-Socialista Alemão, cujos órgãos supremos sediavam em Berlim, agia abertamente naquela cidade que, na opinião do Capitão Joaquim Gravatá e da tropa sob seu comando, devia permanecer brasileira.
Disposto a fazer respeitar a lei, o oficial procurou o Prefeito para uma ação conjunta. O antigo Prefeito fora substituído no começo da guerra e o novo acumulava o cargo de chefe da secção local do Partido. Sorriu da ingenuidade do molesto e mestiço Capitão – os decretos sobre concentrações políticas não se referiam às manifestações de júbilo com que a comunidade germânica comemorava as vitórias da Wehrmacht e, quanto ao partido, escapava, por alemão e nazi, das injunções da lei brasileira.
Sorriu de novo, dando o assunto por encerrado. O Capitão não gostou das explicações nem do sorriso e agiu. Apreendeu bandeiras, cruzes suásticas, emblemas diversos, ampla literatura em língua alemã, cartazes com palavras de ordem, inúmeros retratos do Führer e boa quantidade de armas. Fechou a sede do Partido, guardou a chave. O Prefeito revidou com uma passeata, o Capitão a dissolveu, trancafiando no xadrez alguns dos manifestantes mais exaltados.”

Jorge Amado narra que foi então que aconteceu a precipitada viagem do Coronel Agnaldo Sampaio Pereira a Santa Catarina e a Blumenau. Pereira, contrariado, deixou de lado no Rio de Janeiro a campanha para sua eleição à Academia de Letras, e veio resolver a situação criada pelo Capitão Gravatá.
Trazendo instruções dos superiores, não fez por menos: providenciou a imediata remoção do Capitão, contra o qual foi instaurado inquérito militar.
Houve então a reintegração da suástica ao som das fanfarras, os braços para o alto, os discursos e os rugidos de Heil Hitler !
SEM MÁGOAS, FICA O REGISTRO
Esta é a ficção que Jorge Amado colocou  nas páginas 78, 79 e 80 da 3ª. edição de Farda Fardão Camisola de Dormir, lançada pela Editora Record em 1980.
 
Integralistas em Blumenau

Muito do que o livro conta realmente aconteceu, mas ao utilizar  nomes fictícios e fatos ocorridos em ordem não cronológica, Jorge Amado apenas corroborou posições de outros literatos brasileiros, entre os quais Rachel de Queiróz, que no final dos anos 50 escreveu uma crônica na revista “O Cruzeiro”, na época a de maior circulação nacional, criticando os olhos azuis dos blumenauenses e o falar arrastado e germânico da nossa gente.

Jorge Amado, na introdução da obra, esclarece que “Toda e qualquer semelhança com tipos, organizações, academias, classes e castas, figuras e sucessos da vida real será pura e simples coincidência ...”

Não nos move a intenção de tecer aqui críticas ao que se escreveu, em qualquer tempo, a respeito da identidade cultural de Blumenau, seja ela realidade ou ficção; apenas rememoramos Jorge Amado e este seu romance no sentido de agregar ao acervo histórico da nossa terra as manifestações que importantes mestres um dia fizeram sobre nossa cidade.

Mas afinal, como termina a história de Farda Fardão Camisola de Dormir? O Coronel conseguirá eleger-se membro da Academia de Letras ?
Recomendo a leitura do livro, uma gostosa incursão nos bastidores da Academia e nos circunlóquios dos seus ilustres “imortais”.
(Carlos Braga Mueller) Arquivo Adalberto Day e fotos divulgação.
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Já que estamos falando de escritores, aproveito a oportunidade para anunciar o livro do amigo Flávio Monteiro de Mattos  é carioca de nascimento e blumenauense por opção. e de coração, também colunista deste espaço. Sugiro adquirir o exemplar.
e-mail para contato e adquirir o livro:

3 comentários:

Nillton Sergio Zuqui disse...

Meu caro Adalberto,
Quão rico é este texto ,veja vc que naqueles tempos já existia ciúmes de homens, conforme o início do texto. Porém sabendo que nossa cidade de alguma forma já foi falada,ou até mesmo visitada por tal escritor famoso, sem dúvidas é motivo de orgulho para todos nós, Parabéns pelo texto.

Marilene disse...

Ricas informações.
Estou recolhendo informações isoladas sobre o período.
Obrigada, este veio de presente para mim.

Cao Zone disse...

Prezado Beto, esse são Jorge tem muitas... Uma delas é aquela:
Seo Jorge, na casa da praia de Maria Farinha, estava no quintal carpindo o tomateiro. Quando passou um vizinho e disse:
- Aí seo Jorge trabalhando???
No que o escritor responde:
- Não meu filho... Descansando!!!
De tarde, na rede da varanda, tomando uma pinga. Passa o mesmo vizinho e diz:
-Aí seo Jorge descansando???
E o escriba responde:
-Não meu filho... Trabalhando!!!
Abraços. Cao

Fotos do Rio de Janeiro? Acesse o link abaixo:
http://caozonemais.wixsite.com/caolinks

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