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terça-feira, 15 de setembro de 2015

- A Luz elétrica em Blumenau


A LUZ ELÉTRICA EM BLUMENAU
Por Carlos Braga Mueller/Jornalista e escritor em Blumenau

Quando criou a Terra, Deus disse: “Faça-se a Luz ! “
E a luz foi feita.
Durante séculos a humanidade habituou-se à luz natural. A luz de Deus.
É bem verdade que, à noite, acendiam-se tochas, archotes, velas, lamparinas a gás.. e a luz assim produzida, embora  bruxuleante, ajudava as pessoas a enxergar também nas trevas.
Até que um dia o homem inventou a luz elétrica!
E foi assim, extasiados, que os blumenauenses viram, no começo do século XX, as casas e as ruas de Blumenau sendo iluminadas  pelo processo de energia elétrica, novidade que ainda engatinhava no Brasil.
A USINA DE GASPARINHO
Coube ao empresário Frederico Guilherme Busch Sênior (foto) dotar Blumenau de iluminação particular e pública a eletricidade.
No dia 19 de fevereiro de 1908 brilharam 116 lâmpadas nas ruas da cidade, alimentadas por uma usina geradora construída por ele em 1906 na localidade de Gasparinho.
Com a existência dessa usina no Distrito de Gaspar, o Superintendente do Município de Blumenau, Alwin Schrader, firmou com Busch um contrato concedendo-lhe o privilégio de fornecer força e luz elétrica no perímetro urbano de Blumenau pelo prazo de até 25 anos.
Além de fornecer a luz elétrica para as residências de Blumenau, Busch obrigou-se a colocar cem lâmpadas de 25 velas cada nas ruas, e por isto recebia um pagamento, feito pelo Município, no valor de R$ 5.500$000 anuais. Esta iluminação funcionava durante seis horas por noite. Logo lhe foi concedido o direito de uma extensão até a Itoupava Seca. Então, já eram 215 lâmpadas de 25 velas, que ficavam acesas 12 horas por noite. No contrato, Schrader exigia duas lâmpadas de 100 velas cada uma para iluminar o Porto e mais 12 lâmpadas de 25 velas para iluminar o Paço Municipal.
E.I. Garcia 1912
A linha de transmissão vinha de Gasparinho pelo Garcia, por onde hoje se situa a Rua Brusque. Quem primeiro recebia a energia era a Empresa Industrial Garcia, que ficava ali perto e da qual Busch era um dos diretores.
A Superintendência Municipal exigia que, tão logo os motores da usina produzissem mais de 50 cavalos, o empresário ficava obrigado a fornecer força dia e noite, menos do meio dia até a uma hora da tarde. E para se evitar qualquer interrupção do serviço, foi acertado que Busch montasse uma segunda turbina até 1º de julho de 1911.
O Superintendente Schrader planejava tracionar por eletricidade duas balsas: a do centro, que ligava o Porto à Prainha da Ponta Aguda, e a balsa da Itoupava Norte.
Este projeto não foi adiante.
Na época, outra usina, localizada em Brusque, de propriedade de João Bauer, passava por dificuldades financeiras.  

Como o Salto do Gasparinho,  onde Busch  havia instalado sua usina,  tem um potencial relativamente pequeno, por volta de 1918 o empresário foi obrigado a vender a concessão de 25 anos, firmada com  o Município,  para a firma Bromberg, Hacker & Companhia, proprietária da Usina do Salto.
Segundo testemunhas, ainda hoje é possível  ver, escondidos pelo mato,  vestígios do que sobrou da primeira usina de eletricidade de Blumenau. 
Usina do Salto (Clic RBS)
USINA DO SALTO
Por volta de 1913 foi lançado em Blumenau um projeto de energia elétrica mais  arrojado: a construção de uma usina bem maior, aproveitando as corredeiras do Rio Itajaí Açú na localidade de Salto Weissbach, que viria a ser a Usina do Salto.
Fritz Mailer, que trabalhou na Usina do Salto de 1948 a 1984, relata que o que mais intrigava os blumenauenses  era como os antigos trabalhadores efetuaram esta obra com os precários apetrechos e maquinários existentes na época, movimentando as enormes peças dos geradores e as turbinas das primeiras máquinas,  fundidas em aço.
Na Usina operavam dois transformadores elevadores de 1750 KVA cada, refrigerados a água.
Mailer  conta que em dezembro de 1989, ao completar 75 anos de operação, a Máquina I da Usina, apesar da idade, ainda tinha o mesmo fator de carga, mesmo com a transformação de ciclagem, de 50 Hz para 60 Hz, atendendo ao padrão nacional.
Segundo Mailer,  em artigo que escreveu para a revista Blumenau em Cadernos, a Máquina I da Usina do Salto iniciou suas operações no dia 23 de dezembro de 1914.
 A Máquina II começou a operar no dia 12 de maio de 1915.
Para  atender  linhas de regiões mais distantes,  Itajaí, Brusque, Ibirama, Rio do Sul, Jaraguá do Sul e outras localidades, em abril de 1929 entrou em operação a máquina III, e no dia 26 de fevereiro de 1930 foi ligada pela primeira vez a linha interligando Salto-Jaraguá-Joinville.
No dia 1º de abril de 1939 teve início a geração da Máquina IV, com o dobro de potência das demais.
OS  DESAFIOS  PARA  MANTER  A  USINA  OPERANDO
Como vimos antes, em 1914, para comprar o maquinário para a Usina foi necessário um empréstimo hipotecário.


Henrique Hacker
Em 1920, Henrique Hacker conseguiu sensibilizar alguns empresários paulistas, inclusive o então Presidente (Governador) de São Paulo, Altino Arantes, a investirem no negócio.
 Capa do Relatório do prefeito Curt Hering de 1925, que fala sobre a Força e Luz;
Foi fundada então, em maio de 1920,  a Empreza Força e Luz Santa Catharina S/A.
Nas suas memórias, Henrique Hacker lamenta não ter recebido, na ocasião, apoio dos blumenauenses; por isso buscou ajuda e recursos com seus amigos paulistas.
Em 12 de agosto de 1922, a Usina Hidroelétrica de João Bauer, localizada em Brusque,  foi vendida  à Empreza Força e Luz Santa Catharina de Blumenau , cuja sede ficava em São Paulo, obrigando-se os compradores a respeitar o contrato celebrado por João Bauer com a Superintendência  brusquense em 1912, ou seja, garantir o fornecimento de energia elétrica a Brusque.
Em março de 1924, em razão do grupo paulista não se interessar muito em melhorar e aumentar as instalações da Usina do Salto, algumas empresas e empresários de Blumenau e Brusque  adquiriram as ações da Empreza Força e Luz, entre eles o então Superintendente (Prefeito) de Blumenau, Curt Hering,
Foi transferida então, de São Paulo para Blumenau,  a Administração da Empreza Força e Luz Santa Catharina S/A.
No  Relatório  da Gestão dos Negócios do Município de Blumenau do ano de 1925, apresentado ao Conselho Municipal pelo Superintendente Curt Hering, existe um tópico que trata da luz elétrica no Município..
Mantendo a ortografia da época, o documento diz o seguinte:
“FORÇA  E  LUZ
A Empreza Força e Luz Santa Catharina  no anno de 1925 desenvolveu-se regularmente. Foram ligadas as linhas novas entre a Usina e a Povoação  de Jaraguá, com 53 km, e entre Indayal e Warnow com 8,4 km. Foram construídas mais 16  subestações novas e foi encommendada a terceira turbina com potência de 2000 HP que será fornecida  ao fim do anno de 1926.
No anno  de 1925 a Usina produziu 5.300.000 kilowathoras.
O consumo de força e luz dava uma receita de Rs. 484.444$490 sendo 47,5% de consumo de força e 52,5% de consumo de luz. Foi pago um dividendo de 7% sobre o capital em acções.
Estão projectadas novas ligações de grande importância, as quaes darão  a possibilidade de approveitar  a força do rio Itajahy além dos Municipios e Districtos até hoje ligados.
Provou-se que a acquisição das acções da Empreza pelos capitalistas e industriaes deste Estado e a transferência da administração de São Paulo para Blumenau foi de grande  valor para os consumidores e a Empreza. Não pode restar dúvida que a Empreza vai progredir  constantemente, desenvolver e animar a vida industrial e econômica em zona relativamente extensa.”
SURGEM  NOVAS  USINAS  E A  FORÇA E LUZ É INTEGRADA  À CELESC
Até 1949 a Usina do Salto (que alguns tratam apenas como Usina Salto), atendia toda a demanda do Vale do Itajaí: 6.800 Kw, segundo Mailer.
 Para aumentar a capacidade de fornecimento de energia elétrica à região foram construídas mais duas Usinas no Vale:  a Cedros , que entrou no Sistema do Salto em março de 1949, e posteriormente a Usina Palmeiras, ambas no Município de Rio dos Cedros, constituindo-se esta última na terceira usina da Empresa Força e Luz.
Mesmo assim, nos anos 50,  Blumenau e os Municípios do Vale enfrentaram duro racionamento de energia elétrica.
A oferta de energia não acompanhava o crescimento empresarial das nossas cidades, afugentando a criação de novas e grandes indústrias. Houve época em  o consumidor recebia apenas seis horas de energia por dia.
As Usinas Cedros e  Palmeiras amenizaram o problema,  mas ele só foi resolvido, paulatinamente,  com a integração da Empresa Força e Luz à Celesc – Centrais Elétricas de Santa Catarina, o que só ocorreu em 27 de dezembro de 1963, quando foi autorizada pelos acionistas da Empresa Força e Luz a encampação  da empresa blumenauense pela Celesc.
A Celesc  havia sido  criada em 9 de dezembro de 1955, através do Decreto Estadual  nº 22 , do então Governador Irineu Bornhausen, tendo sido instalada oficialmente em Assembleia Geral realizada no dia 4 de agosto de 1956.
Udo Deeke, ilustre blumenauense que ocupara o cargo de Diretor Gerente da Empresa Força e Luz no período de 1947 a 1964, pela sua experiência no setor, foi convidado  a exercer as funções de Administrador Regional da Celesc em Blumenau,, o que fez até aposentar-se, em 1978.
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Fontes:
História de Blumenau -  José Ferreira da Silva - Editora Edeme, 1972.
Blumenau – Arte,  Cultura e as Histórias de sua Gente - Edith Kormann, - Paralelo 27 Editora, 1994.
Relatório de 1925 do Município de Blumenau apresentado pelo Superintendente Curt Hering – Typ. Baumgarten - 1926
Blumenau  em  Cadernos:
Tomos  I  (1957), III (1960), IV (1961), VIII (1967), XIV (1973),
 XXVII (1986) e XXX (1989).  
Revista “O Vale do Itajaí” nº 64 – Edição Especial Centenário de Blumenau – 02/09/1950.
Texto Carlos Braga Mueller/ Fotos Adalberto Day/Clic RBS/Carlos Braga Mueller.

12 comentários:

Rudolf disse...

Adalberto Day
Muito interessante Rudolf ‏Polzer

Cris disse...

Adalberto e Braga Muito interessante mesmo! A cultura tem que ser levada adiante sempre com certeza! Grande abraço
Cris

Nillton Sergio Zuqui disse...

Meu caro Adalberto,
Me lembro bem da expressão " Força e Luz" ,hoje chamamos de Celesc .
É claro que quando ainda muito jovem já tínhamos energia elétrica em casa,mas daí a saber que nossa cidade era privilegiada com a Força e Luz,antes mesmo de algumas outras ,é mais uma história que não sabia,muito boa história como sempre.

Maestri disse...

Bom dia Beto
Muito interessante
Não sabia que a primeira usina de bnu veio de gaspar
abraço boa semana
Att:
Maestri / LC

Jochen disse...

Parabéns!
Muito legal. Não tenho o email do Carlos, apenas o facebook dele. Gostaria de dar os parabéns pessoalmente.

Abraços,
Jochen

Luis disse...

Grato pela lembrança.
O avó de minha esposa trabalhou por muitos anos na Cia. Força e Luz.
Morava perto da usina Salto e após anos nesta unidade foi para a construção da usina em Rio dos Cedros.

Luis Saablu

Valdir Salvador disse...

Ãlo meus amigos ca estou de novo, procurem me entender por favo grato, Deus disse fasace a luz e a luz foi feita assim esta escrito pois não? Eu diria na época façace a claridade e a claridade foi feita . Depois veio o grande Tomas Edson e fez a luz? ( Desculpe), Ari Toledo dizia que ele estava no palco do teatro faltou a luz e ele disse Fasace a luz e a luz foi ligada, ( Piada) ha ha ha ,Mas agora na minha ignorancia eu pergunto se a usina da ponte do salto esta desprezada por que não aproveitar as aguas do Rio Itajai para ele se desculpar com nos por outras épocas que ele não tem culpa dos emigrantes terem começado a Cidade no buraco, usem aquela usina que em 1949 podia produzir 6800 kw imaginem hoje quanto podemos esplorar que usem so para a Prefeitua e seus consumos proprio. eu goastaria de entender mais.......

Rubens disse...

Adalberto, sempre achei que a primeira usina fosse a do Salto. Bom conhecer a história real! Abraço!
Rubens F H Sombrio

Barreira disse...

Caro amigo Adalberto Day, bom dia.
Iniciar uma matéria trazendo como foco principal Gênese onde Deus priorizou a criação de tudo, é muito bom!
Deus disse: "Faça-se a luz!" e a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas, Deus chamou á luz de Dia, e as trevas de Noite.
Partindo desta premissa o ser humano com sua inteligência desenvolveu a luz eletricidade, e hoje em dia não conseguimos sobreviver sem esta criação.
Os anais da história de Blumenau não poderia ser diferente, onde pessoas com objetivos claros e determinantes, conseguiram iluminar nossa cidade, deixando um legado que se estende até os dias de hoje.
Parabéns pela matéria.
Um abraço.
Lourival Barreira.

Santos disse...

Oi amigo Beto. Bom dia. Gostei muito do histórico da EFLSC. Pois quando cheguei em Blumenau era a Empresa que estava alimentando a cidade com energia elétrica. Cheguei a fazer amizade com o engenheiro da mesma, Paulo Melro. Era uma empresa sólida. Eram muito atenciosos em atender às reivindicações dos consumidores. por mais essa meu grande amigo.
E.A.Santos

Pancho disse...

O que já foi motivo de orgulho dos blumenauenses, o antigo patrimônio da Empresa Força e Luz Santa Catarina, repassado à CELESC: Usinas do Salto, Cedros e Palmeiras, não vale mais nada... a própria Celesc não sabe se vai se interessar em mantê-las sob seu controle.
Em nota publicada na sua coluna do Jornal de Santa Catarina nesta data (28 de setembro de 2015), Francisco Fresard, o Pancho, esclarece:

"A Usina do Salto, em Blumenau, e as de Palmeiras e Cedros, em Rio dos Cedros, vão a leilão em novembro.
São pequenas hidrelétricas antigas da Celesc que voltaram para a União depois de expirado o prazo de concessão.
Outras 26 usinas de outras empresas também vão a leilão no mesmo dia.
Segundo o gerente regional da Celesc em Blumenau, Claudio Varella, a estatal catarinense criou um grupo de trabalho para verificar se vale ou não a pena participar do leilão."

Interessante: há uns 4 anos a própria Celesc havia anunciado (pelo menos saiu na imprensa) que a Usina do Salto teria sua capacidade aumentada. O projeto minguou, esfumou ....
Francisco Fresard
Pancho

ARLETE TRENTINI DOS SANTOS disse...

Gostei do post, abraços.

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