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terça-feira, 16 de junho de 2015

- 1º Ginásio coberto de SC

 TURNVEREIN  BLUMENAU - ASSOCIAÇÃO GYMNASTICA BLUMENAU



Por Carlos Braga Mueller/Jornalista e escritor

Blumenau sempre deu bons exemplos, tanto na área da indústria têxtil como na produção de laticínios, produtos da lavoura, fundição de ferro e aço, instrumentos musicais, etc, ou seja uma capacidade empresarial que transformou-se em marca registrada do Município.
O que nem todos sabem é que também no universo da ginástica olímpica os frutos foram muitos, e bem plantados desde cedo. Mas não tão conhecidos como nossos artigos industriais.
Tanto que uma associação, reunindo interessados na prática da ginástica olímpica, teve duração de quase 70 anos no município de Blumenau, funcionando de 1873 a 1942.
Isto, muito antes do megalomaníaco Adolf Hitler ter nascido ou implantado na Alemanha o ideal de uma raça superior, pautada pelos exercícios da ginástica olímpica. Os blumenauenses já entendiam que “mens sana in corpore sano” ( mente sã em corpo sadio)  era muito importante.
Quem se incumbiu da difusão da ginástica olímpica, do esporte e jogos em geral, principalmente do punhobol, chamava-se Turnverein Blumenau – Associação Gymnastica Blumenau (na grafia do Século 19), fundada no dia  5 de outubro de 1873, embora seu estatuto só tenha sido registrado oficialmente em 1º de agosto de 1904.
Entre seus objetivos também estavam, além do intercâmbio esportivo, atividades sociais e culturais.

COMO FUNCIONAVA A TURNVEREIN BLUMENAU
Sociedade dos Atiradores
A vontade de praticar a ginástica olímpica e os demais esportes era grande.
Assim, as coisas foram sendo improvisadas.A ginástica era praticada no Salão da Sociedade dos Atiradores, que hoje se transformou no requintado Tabajara Tênis Clube.

A Diretoria reunia-se no antigo Hotel Gross, que não existe mais.
E as assembleias para os associados aconteciam no Teatro Frohsinn, espaço bem mais amplo.
Quem podia associar-se: cidadão ou cidadã de reputação “imaculada”, a partir dos 14 anos, embora só pudessem participar da diretoria depois de completar 21 anos.
Cobrava-se uma jóia de 5 mil réis que podia ser reduzida para até 2 mil réis.
A sociedade sobrevivia das mensalidades, festas populares, apresentações teatrais e esportivas, e bailes.
PIONEIRISMO
Coube à Associação Ginástica Blumenau algumas ações que lhe conferiram  a condição de pioneirismo.
Primeiro pioneirismo: Corpo de Bombeiros Voluntários
12 de fevereiro de 1887 – Por iniciativa do associado Franz Lungershausen coube à Associação Ginástica a formação de um Corpo de Bombeiros Voluntários em Blumenau.
A bomba extintora foi construída por Bruno Hindlmeyer, dono de uma fundição de ferro e caldeiraria de cobre.
O jornal daquela época, o “Blumenauer Zeitung”, publicou a respeito:
     “Lungershausen merece os louvores e agradecimentos da população pela iniciativa e por ter adquirido às suas expensas a bomba extintora. Queira Deus que tanto o Corpo de Bombeiros como a Bomba Extintora nunca tenham que entrar em ação em nossa cidade.”
Segundo pioneirismo: 1º time de futebol
Turnverein
Em pé: Cramer, Bruno Hindelmeyer, Fischer, Franz Blohmann, Oswaldo Hindelmeyer, Felipes Brandes. Agachados: Kugler, Alfredo Eicke e G.A. Koehler
A imagem é rara e mostra apenas nove jogadores Turnverein. Faltam na imagem dois atletas que ficaram fazendo as honras para os visitantes alemães, que realizaram a primeira partida em Blumenau  
O primeiro time de futebol de Blumenau foi fundado pela Associação Ginástica por volta de 1910, (realizavam seus primeiros jogos com jogadores empregados da Empresa Industrial Garcia – Jogadores do Garcia que depois se tornaria o Amazonas}.
O primeiro jogo em Blumenau com equipe realmente formada foi no dia 26 de março de 1911 – no pasto do hotel Holetz contra um grupo de alemães – Imperial Esquadra Alemã – (conforme registros no jornal Der Urwaldsbote da época era um domingo a tarde e o jogo foi vencido pelos alemães por 5X2.).

Os marinheiros vieram a Blumenau onde encontraram pessoas que falavam sua língua, o que lhes deixou bastante a vontade. O time de fora jogou com apenas 10 jogadores, pois um permanecera no navio. Mesmo assim, Blumenau perdeu.  Os jogos eram realizados nos finais de semana, próximo ao hotel Holetz, atual Grande Hotel (nos fundos do Hotel onde hoje é a casa do Comércio).
Terceiro pioneirismo: Primeiro ginásio coberto de Santa Catarina
Em 3 de agosto de 1924 foi inaugurado com festa popular o prédio sede da Associação Ginástica de Blumenau na rua que seria batizada de Pandiá Calógeras. À noite houve baile no imenso salão que servia para a prática de ginástica, teatro e dança.
(o prédio ainda está lá, mas sendo deteriorado pelo tempo e pela falta de manutenção, conforme denúncia publicada no Jornal de Santa Catarina do dia 9 de junho de 2015.)
FATOS MARCANTES NA TRAJETÓRIA  DA ASSOCIAÇÃO GINÁSTICA BLUMENAU
Em quase 70 anos de existência, os fatos que marcaram a existência da sociedade foram centenas, talvez milhares. Vamos relacionar alguns, que ficaram marcados profundamente na sua história.
17/05/1901 – Acontece um protesto de alguns associados, contrários a uma apresentação para o Governador Felipe Schmidt, que visitava Blumenau (vá se entender de política do início do Século XX...)
03/10/1908 – 24 atletas escalam o Morro do Spitzkopf. À noite houve queima de fogos de bengala de luz vermelha e verde que foram vistos na cidade, confirmando assim que os alpinistas haviam chegado bem ao topo mais alto de Blumenau, onde pernoitaram.
1910 – É formado o primeiro time de futebol de Blumenau.
Gestão de G. Arthur Koehler – como presidente a partir de 1896, ministrou aulas de ginástica. E mesmo sem saber nadar, deu aulas de natação! Exerceu o cargo por várias gestões. Durante seu mandato por duas vezes uma delegação de ginastas blumenauenses esteve na Alemanha participando de competições de atletismo.
Uma significativa homenagem a Blumenau: a Bandeira da Associação Ginástica desfilou em Leipzig em outubro de 1913, nas comemorações do centenário da “Batalha dos Povos” (quando os exércitos europeus venceram as tropas de Napoleão em 1813). Pela participação, a Bandeira foi agraciada com uma plaqueta de prata.
1915 – Primeira grande competição esportiva com a participação de outros municípios, como Brusque, São Francisco do Sul e Joinville.
1917 – A Sociedade adquire da Escola Nova (depois Pedro II) uma área com 11.383 m2. Em 1924 adquire mais 840 m2, destinados á construção da sede.
Outubro de 1921 – É realizada grande festa popular para obter fundos para a construção da sede própria. A festa rendeu 1.500$000.
Maio de 1922 – A Diretoria apresenta o projeto e as plantas da sede.
15/10/1922 - É lançada a pedra fundamental do prédio que servirá de sede.
03/08/1924 – É inaugurado o prédio, de grandes proporções. Festa popular, ginástica em barras e  cavalo e ginástica rítmica, além de baile marcam o evento. É o primeiro ginásio coberto do Estado.
Foto: Acervo de Eduardo Fortunato Machado
Acervo Dieter Altemburg
1930 – A Associação atinge o número de 300 associados.
28 e 29 de outubro de 1933 – Acontecem os festejos dos 60 anos com apresentações de ginástica, teatro e baile.
1938 – Getúlio Vargas implanta o Estado Novo e com ele se segue a “nacionalização” das regiões colonizadas por alemães e italianos em Santa Catarina.
1939 - Uma forma de afastar professores que ministravam aulas de ginástica em alemão foi arrendar o prédio para abrigar o 32º Batalhão de Caçadores (depois 23º RI, hoje 23º BI), que acabava de chegar a Blumenau. Embora os soldados tenham permanecido no local apenas 3 meses, de abril a julho de 1939, a Associação sedimentou fortes laços de amizade com os militares, homenageando-os em várias competições que se seguiram.
11/05/1942 – A Sociedade Ginástica Turn Verein é fechada por ordem de Nereu Ramos, Interventor Federal em Santa Catarina.
Em 28 de janeiro de 1942 o Brasil havia rompido relações diplomáticas com a Alemanha, Itália e Japão. Submarinos alemães começaram a afundar navios mercantes brasileiros. A declaração de guerra estava por um fio, o que aconteceu em agosto de 1942, quando o Brasil declarou guerra às nações do Eixo.
Habitantes de Santa Catarina, de origem alemã, especialmente os de Blumenau e do Vale do Itajaí, eram confundidos com espiões alemães.
Perseguições foram feitas aos habitantes de nosso Município, muitos apenas descendentes de alemães, ou seja, já nascidos no Brasil.
Igrejas e escolas evangélicas foram fechadas, associações esportivas e culturais cerraram as portas, nomes alemães foram banidos da denominação das entidades e associações. Com o Turnverein  Blumenau não foi diferente, foi até pior porque deixou de existir.
Imagem MRoeck Rock - Antigamente em Blumenau
Imagem Dieter Altemburg
O prédio sede e a grande área que lhe pertenciam foram incorporados à Escola Pedro II, a qual, por assembleia realizada no dia 8 de junho de 1942, foi doada ao Governo do Estado, passando a integrar a rede estadual como Grupo Escolar Modelo Pedro II.

De lá para cá, cabe ao Governo do Estado a manutenção.
Tombado pelo Patrimônio Histórico, o prédio foi reformado pela última vez em 1985.
Atualmente (junho de 2015) está interditado pelo Corpo de Bombeiros em virtude da precariedade do telhado e instalações.
Com isto deteriora-se não só um prédio histórico, mas também um pouco da historia de Blumenau.
Grande parte das informações contidas neste artigo foram obtidas pesquisando a obra  “Blumenau – Arte, Cultura e as Histórias da sua Gente”, editada em 4 volumes pela saudosa historiadora Edith Kormann (Carlos Braga Mueller).
Primeira fila da (E) para a (D): Eleonere Schloesser, Gisela Walthers, Erica Martins, Frieda Martins, Gisela Schutt, Claudia Deschamps, Elisabeth Rabel, Augusta Koelbel, Charlotte Stoeckel, e bem a direita um pouco afastada, Matilde Frischknecht. Na fila do meio: Ilka Gropp, Irmgard Wilheim, Renate Stamm, Ethel Blank, Lisolette Schossland, Eleonore Müller, Margot Blank, Brigitte Schmidt, Ursula Kubitzki, e A. Albrecht, - na terceira fila : Jutta Pape, Hertha Huscher, Soleica Kretzschmar, Margit Doering, Alice Bartsch, Gerda Pape, Ursula Doering, Ilka Stein, Ilse Weber, C. Roedel, Gerda Huscher, Edith Leder, Erna Brueckheimer, e Hulda Koelbel.

1941 - Último grupo de ginastas da Associação Ginástica Blumenau, que em 1942 foi fechada pelo governo.
(foto Revista Blumenau em Cadernos, Tomo 21, nº 7) – Julho de 1980.

Fotos identificadas na legenda.   
Adalberto Day/Cientista social e pesquisador da história/Colaboração especial do Jornalista e Escritor Carlos Braga Mueller. 

9 comentários:

James disse...


Incrível- O Ginásio Coberto da Pandiá Calógeras que aparece na foto manchete deste artigo, eu cheguei a frequentar com meu PAI Hugo e fazíamos um programa de exercícios para adultos, sob orientação do Professor EDGAR ARRUDA SALOMÉ. Naquela época já pertencia ao Colégio D. Pedro II e em frente ficava o Campo de Futebol onde joguei varias vezes. Isto deve ter sido no período 1955/58.Este prédio ainda existe e me disseram que está sendo restaurado.
James Locatelli

Eugênio disse...

Adalberto Day Maravilhoso texto,incrível a rica história de nossa linda cidade.Perdemos uma grande entidade para a guerra.Triste.
Eugênio Brueckheimer

Anônimo disse...


uma vergonha, uma cidade como Blumenau, não conseguir conservar nem ose próprio patrimônio.

Então: dizem, isto agora é o estado que tem que cuidar. Então o diretor da instituição diz perante o inspetor (para não perder a teta) está tudo bem, tudo em ordem senhor inspetor, (que de escola, só leu uma vês em uma revista quando foi no banheiro lá na roça, para não usar sabugo, porque nem sabe o que está fazendo no cargo).

Depois lemos nos noticiários, ginástico da Escola Pedro ll está interditado.

Uma verdadeira vergonha para nós Blumenauenses.
Como tantas outras coisas que já se perdeu pelos anos.
Uma pena.
Henry Georg Spring

Flávio disse...

Olá, Amigo Adalberto!
Ótima postagem e mais uma vez o seu blog presta inestimáveis serviços à memória de Blumenau e sua Gente.
Fiquei preocupado com o Amigo, pois fiz um comentário sobre a postagem do BEC e não ví publicada. Espero não haver ofendido o Amigo como também o cronista.
Aliás, redigi um artigo/crônica sobre o tema das bicicletas e os roubos que acontecem por aqui, no qual faço menção às bicicletas/ciclistas de SC, especialmente de Blumenau.
Se o Amigo quiser, posso enviá-la para avaliação.
Forte abraço,
Flávio Monteiro de Mattos

Nilton Sérgio Zuqui disse...

Meu caro Adalberto,
Claro que muito pouco ou nada conheço desta historia, toda via é lamentável quando um povo não mantem seus patrimônios históricos, este é só mais um exemplo do nosso conhecimento.
Pois um povo sem historias é um povo sem cultura, parabéns pelo texto, e que se perpetue este seu trabalho juntamente com outros colegas seu.

Marcelo disse...

Adalberto sempre que passo pelo ginásio imagino a construção de um museu dedicado ao esporte de Blumenau e SC. Precisamos fazer algo pela recuperação desse patrimônio do esporte de Santa Catarina e que por felicidade é em Blumenau
Marcelo Greuel

Zeca Pires disse...

Adalberto e Braga Mueller, parabéns pelo texto. Interessante para quem gosta de história e cultura vejo que aí em Blumenau bem como lá no Vale dos Sinos onde me criei os alemães deram contribuição cultural e étnica interessantíssima. Com certeza a prosperidade tem haver
Zeca Pires

Barreira disse...

Caro amigo Adalberto.

Mais uma vez voce nos traz conhecimentos da história de nossa querida Blumenau. Pena que na contramão do progresso a guerra impede que a cultura, desenvolvimento e a história de nossas gerações se perpetuem.
Parabéns pela matéria.
Abraços

Lourival Barreira.

Luis C. H. disse...

Feliz demais por descobrir seu blog, excelente resgate historico de nossa cidade. Parabens pelo trabalho desenvolvido!

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