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sexta-feira, 11 de julho de 2014

- No tempo das “Caleças” Fúnebres

NO TEMPO DAS "CALEÇAS" FÚNEBRES

Por Carlos Braga Mueller/Jornalista e escritor em Blumenau

Houve um tempo em que os mortos em Blumenau eram conduzidos para sepultamento em caleças¹ fúnebres, ornamentadas com cortinados e puxadas a cavalo.
Guardando a cor preta, estas caleças eram conduzidas por um boleeiro que ostentava sempre um terno escuro. A parelha de cavalos era preta e os cavalos ornamentados com penachos pretos.

No teto da caleça, na parte central, despontava uma cruz.
Esta simbologia, criada para levar aos cemitérios os entes queridos, não era exclusividade de Blumenau onde, em nossa infância, assistíamos com certo medo a passagem dos cortejos fúnebres.
Outras cidades, como São Bento do Sul e Pomerode, possuíam também suas caleças no mesmo estilo, que presume-se tenham tido inspiração europeia.
Na maioria dos municípios, onde predominava a área rural, a denominação desse transporte era "carroça fúnebre"; em Blumenau ficou conhecido como "caleça".
Nos velórios, era comum alguém indagar:
- A que horas chega a caleça?
Estas conduções cumpriram com suas finalidades até por volta de 1960, em alguns lugares até os anos 19(70), quando foram substituídas por veículos a motor, as camionetes funerárias muito menos pomposas, geralmente na cor cinza, ou preta, ostentando uma simples cruz nas portas do veículo para indicar sua missão.
Como os cavalos conduziam a caleça em passo de trote, ficava fácil aos parentes e amigos da pessoa falecida acompanhar a pé o cortejo. Logo depois da caleça vinham os familiares, vestidos de preto. Em seguida algumas carpideiras² davam o toque de choro ao adeus. E finalmente o povo vinha atrás. Eram raros os veículos particulares que acompanhavam os féretros.
A caleça seguia silenciosamente e ao seu redor eram penduradas as coroas fúnebres, homenagens ao falecido.
Vez por outra, se o falecido fosse importante, um ônibus acompanhava o cortejo levando quem não conseguia locomover-se com as próprias pernas até o cemitério.
Quando o cortejo fúnebre passava, as lojas cerravam as portas e logo depois reabriam. Sinal de respeito ao cidadão (ã) que partia.

PERSONALIDADES

Velório do Dr. Amadeu da Luz
Amadeu Luz, ilustre blumenauense, filho de Hercílio Luz, foi levado até a sepultura em caleça puxada a cavalo.
Seu sepultamento ocorreu no dia 2 de setembro de 1934 (dia do aniversário do município).
Foi velado na Prefeitura de Blumenau (prédio onde hoje funciona a Fundação Cultural de Blumenau). O féretro seguiu pela Rua 15 de Novembro em direção ao cemitério da Rua São José.

Além do acompanhamento tradicional, houve presença de um pelotão formado por integrantes do Partido Integralista Brasileiro (foto), que desfilou com suas camisas verdes em homenagem ao falecido.
Outro ilustre blumenauense que teve seu corpo trasladado por caleça foi Armando Silva, proprietário do Café Urú, como relembra Adalberto Day.
Foto do Artur Moser, publicada no Jornal de  Santa Catariba, mostrando uma caleça que está no Museu Pomerano.
Em Pomerode, Egon Tiedt, colecionador de peças e documentos antigos, fez questão de dizer que queria ser transportado, quando morresse, na caleça que era propriedade da família. Foi atendido.
Esta caleça (foto) encontra-se exposta atualmente no Museu Pomerano, mantido pela Prefeitura do Município, sucedâneo do Pommersches Museum, de Tiedt, que transferiu quase todo seu acervo particular  ao poder público municipal de Pomerode.
A caleça, ou carroça fúnebre, começou a ser utilizada naquele município em 1954 e durante 20 anos serviu à comunidade. Depois de aposentada, a caleça só foi ativada em fevereiro de 2008, para levar Tiedt até sua última morada. Recuperada, está no Museu.
Em São Bento do Sul, uma  caleça fúnebre construída em 1934 encontra-se atualmente exposta ao público em um abrigo de alvenaria que a prefeitura construiu na entrada do cemitério municipal daquele município.
Ela foi encomendada a alguns artesãos e profissionais são-bentenses pelo sapateiro Frederico Fendrich, que foi a Joinville, onde fotografou a carroça fúnebre da Funerária Stoll para servir de modelo ao seu projeto. 
Lenda Urbana ou fato real? 
Conta-se que em Blumenau, durante um cortejo fúnebre puxado a caleça, que se dirigia ao cemitério evangélico, houve um fato inusitado.
Quando descia a Alameda das Palmeiras, em direção ao cemitério evangélico, alguém soltou um foguete por perto.
Assustados, os cavalos empinaram e só não dispararam pela perícia do boleeiro condutor.
Todavia, o caixão caiu da caleça, sua tampa soltou-se e o morto foi jogado ao chão.
Constrangimento total!
Piedosos, os acompanhantes recolocaram o cadáver no lugar e o cortejo seguiu em frente.
Contavam os mais antigos que esta  história aconteceu nos anos 20 ou 30 do século passado na então pacata Blumenau.

Nota Final
Esta matéria nasceu de uma sugestão do nosso internauta e amigo Ivo Hadlich.
Adalberto Day também tinha intenção de reportar-se ao assunto.
O mesmo acontecia comigo, até pelas lembranças daqueles cortejos que eu via passar pela Rua 15 de Novembro quando era criança e que tanto nos assustava.
Resolvi, então, contar alguns fatos e assim surgiu esta postagem.
(Carlos Braga Mueller) jornalista e escritor. 
¹Caleça : Carruagem de tração animal (cavalo) montada sobre quatro rodas, tendo à frente um assento de encosto móvel e atrás uma capota conversível; caleche.
²Carpideira é uma profissional feminina cuja função consiste em chorar para um defunto alheio. 

7 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom o registro da história deste meio de transporte com tração animal que fez parte da nossa tradição. Como a casa de meus pais era na rua do cemitério (Rua São José) em Blumenau, foi sempre uma atração ver passar os cortejos fúnebres pela rua.
José Geraldo Reis Pfau
Publicitário.

Fernando Pasold disse...

Olá, belo registro. Segue mais uma foto de Calessa (com 2 esses ou com cedilha?) em Indaial.

http://www.indaial.com.br/saudosa-indaial/2013/4/23/1944-calessa-carro-funebre

Antunes Severo disse...

Que pompa e circunstância, meninos.
Se o Caymi tivesse nascido por aqui ele teria feito sua canção com a seguinte letra: "Como é solene morrer em Blumenau".
Abraço de boa semana.

AS

arletesan disse...

ACHEI MUITO BOM ESTE ARTIGO.NÃO VI NENHUM CORTEJO FUNEBRE ASSIM,SÓ EM FILMES.O QUE LEMBRO É QUE POR ONDE PASSAVA O CORTEJO O COMERCIO FECHAVA AS PORTAS EM RESPEITO.
PARABÉNS MAIS UMA VEZ.
ABRAÇOS GASPARENSES

Nilton Sergio Zuqui disse...

Meu caro Adalberto,
Já devo estar tornando-me muito repetitivo em meus comentários, mais não tem outro jeito.
É sempre muito bom conhecer um pouco da nossa historia, pois além do fato inusitado de cair o caixão , e consequentemente o falecido ficar ao solo, para a época deveria ser realmente muito constrangedor, todavia, nos dias de hoje rendia muita piada sobre o assunto sem duvidas. Caleça, eu lembro dos automóveis (veraneio)deste tipo que esta ilustrando o texto, sem duvidas é notável, parabéns pelo texto.

Anônimo disse...

OI Beto tudo legal, pois é nos eramos do tempo da calece, que praticamente era para os mais bem posissonadospois eu se não me engano acompanhavamos o morto levando o caixão não era? quando passava todos tiravam o chapéu com respeito e o comercio fachava sua portas depois de ouvir as batidas do cino da Igreja que dava o sinalde saida, quando eu vim morar no bairro da ponta aguda eu lembre de uma cerimonia funeral que era do pai da dona Muche, as duas irmãs, que eram donas do Bar e Café Florida o cortejo funeral ia em sua frente ema banda de Musica com ritimo funeral,era triste mas éra lindo de ver pois nossa ida final não deve ser de tristeza nos temos que ser lembrado sempre com a alegria que tinhamos quando em vida, abraços Valdir Salvador Em Tempo Feliz Dias dos Pais a Todos.

Santos disse...


Quanta coisa curiosa e interessante se assistia há anos atras. Essa caleças eram realmente muito comuns em Blumenau, e, realmente, quando passavam pelo centro da cidade chamavam a atenção do povo. Perguntava-se, de quem é o enterro hoje? Hoje acontece o falecimento, muitas vezes de um amigo ou conhecido e só se vai saber mais tarde. É a vida...
Eutraclinio A dos Santos

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