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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

- Vivências e narrativas

Vivências e narrativas de um blumenauense 
Dia 30 de setembro de 2013 recebi a visita do Presidente da Fundação Cultural de Blumenau,  Sr. Sylvio Zimmermann Neto. Veio me presentear com um importante livro (autografado) que relata o início da Colônia Blumenau.
Este livro estará junto ao meu acervo composto por mais de 1000 exemplares. Neste espaço reproduzirei um pequeno histórico do autor Karl Kleine e o texto páginas 83,84,85,86,87.
Após ler o livro, aprendi um pouco mais sobre nossa rica história de nossa querida Blumenau. As dificuldades que cada um que aqui aportaram tiveram que enfrentar, para construir esta rica e pujante cidade, os esforços, amargos dissabores foram muitos.
Agradeço ao Sylvio este privilegio. Conclamo aos blumenauenses adquirir um exemplar para desfrutar dessa genial obra, já que são 342 páginas  seria impossível transcrevê-la toda. 
“Ao amigo Adalberto Day  Na certeza de uma ótima leitura sobre a história de Blumenau”.
Sylvio Zimmermann Neto

Karl Kleine (1849-1922)
Theodor Karl Nikolaus Kleine, conhecido como Karl Kleine, nasceu na Província de Posen, atualmente Poznan – Polônia, em 2 de fevereiro de 1849 e faleceu em 11 de março de 1922. 
Emigrou para o Brasil acompanhado pelos pais e irmãos em 1856 e, após longa viagem, a família chegou à foz do Rio Itajaí, com destino a Blumenau. 
Ainda muito jovem, exerceu a função de emissário do correio, entre Blumenau e Itajaí; aprendiz de jardinagem, em Florianópolis e ajudante na demarcação de terras, no Vale do Itajaí.
Também atuou como trabalhador nas estradas do Paraná, na demarcação de terras no planalto catarinense e exerceu a função de agricultor e professor em Blumenau.
Vivências e Narrativas de um blumenauense

A chegada em Blumenau
Foto: Carl Heinz Rothbarth
{...} Finalmente! Finalmente, aportamos pela última vez! Nossos barcos aportaram próximo à foz do Ribeirão Garcia e o patrão disse:
- Não iremos adiante! Aqui é Blumenau.
A nossa chegada foi muito triste; ninguém nos recepcionou; ninguém apareceu; ninguém se preocupou conosco e, apesar de saberem sobre a nossa chegada, que deveria ser importante para eles, ninguém veio nos cumprimentar. Certamente, um procedimento estranho e incompreensível que abateu nossos ânimos. 
Não havia nada à nossa frente, além de um pedaço de terra desmatado e coberto de capoeira. Subimos pela margem do rio a procura da cidade de Blumenau. Bom Deus! Onde estaria exatamente a cidade? Não esperávamos encontrar uma cidade grande, mas, pelo menos, uma cidadezinha ou uma aldeia. Porém, nada disso! Ali se encontrava uma casa grande e larga, de um andar e meio, com uma sacada na parte frontal e paredes enxaimel preenchidas com barro. A casa, aliás, estava inacabada. Em toda a construção, via-se apenas uma janela de vidro, e, por trás da mesma, encontrava-se o gabinete do diretor. As demais janelas eram de madeira. Essa única casa seria Blumenau? – Oh não! Ali havia mais uma casa, lá outra e, mais adiante, via-se uma fileira de casebres, contudo, nenhuma dessas construções fazia jus à denominação de “casa”, pois eram apenas casebres, ou melhor, barracas construídas de acordo com o costume brasileiro e, em parte, inacabadas.
Esse era o Stadtplatz (centro) de Blumenau, como ainda hoje é denominado pelos colonos, embora tenha sido elevado à categoria de Vila.
Assim, os recém-chegados avistaram Blumenau pela primeira vez. Um olhava para o outro e ninguém ousava perguntar: por acaso isso é Blumenau?

Finalmente, vieram ao nosso encontro, o cônsul Gärtner e seu tio, o diretor, Dr. Blumenau, que trajava apenas camisa e calça, tendo na cabeça um chapéu de palha bem simples, denominado “chapéu de negro”. Calçava tamancos e, trazia pendurado no cinto, um facão.
Nesse “traje regional”, que no inverno era complementado por um jaquetão e um par de sapatos ou botas, vimos Dr. Blumenau andando por lá, durante muitos anos. Ele era alto e magro, e por trás de seus óculos, cintilavam olhos inteligentes Cumprimentou os imigrantes de forma rápida, porém cordial, deixando-os aos cuidados do Consul e de um companheiro de viagem, que havia chegado a Blumenau em companhia do Consul, visto que sua irmã casada vivia aqui há mais tempo.
- Se precisarem de alguma coisa, dirijam-se ao meu sobrinho ou ao Schröder.
Eles já estão a par de tudo. Hoje estou sem tempo, voltarei amanhã – disse o diretor, com seu modo pausado de falar, afastando-se, a seguir com um amável acesso.
- Venham, eu quero lhes mostrar os quartos – comunicou Schröder.
Bem, então havia quartos, algo bastante promissor. Ele nos levou em direção ao Garcia, onde realmente se encontrava o “hotel” com os nossos “quartos”! Que aspecto maravilhoso e promissor: uma edificação longa e estreita com muitas repartições, cujas paredes externas estavam tão lavadas pelas chuvas e danificadas pelas enchentes, que apenas o enxaimel permanecia em pé, e todo o barro de reboco se encontrava no solo, formando uma papa em tempo chuvoso. As paredes internas dessas repartições eram apenas ripas rachadas  de um tipo especial de palmeira, aqui denominada “palmito”, amarradas com cipó (raiz de parasita) em travessões. As ripas estavam jogadas desordenadamente e, em algumas partes, faltavam completamente.
Provavelmente, foram utilizadas como lenha e, ao que tudo indica, as camas do alojamento tiveram o mesmo fim, pois eram feitas do mesmo material. O chão não era assoalhado, nem aplainado. Podia-se contemplar o céu através do telhado, o que todos achavam muito prático, especialmente na época de chuva. Juntando-se a tudo isso ao estrume de alguns bois, que circulavam livremente por ali, podia-se obter uma imagem do rancho de imigrantes, ou como dizia Schröder: “a casa de recepção”. Finalmente, Schröder nos comunicou:
- Pois bem, aqui vocês terão que se acomodar da melhor maneira possível.
Após ter apresentado essa maravilha toda aos recém – chegados, despediu-se e seguiu seu caminho. Os pobres imigrantes realmente não sabiam se deviam rir ou chorar.
Porém, logo se concluiu que não restava alternativa, se não pôr mãos à obra e, vejam, foi mais fácil do que se imaginava! Alguns moradores dos arredores propuseram-se a nos ajudar e, antes de anoitecer, tudo estava acomodado. Naturalmente, faltava muito para que pudéssemos nos instalar confortavelmente, contudo, precisávamos nos conformar com aquilo durante os dias seguintes.
A noite, depois do jantar, todos estavam sentados ao ar livre e um sentimento estranho invadiu cada um – era a primeira noite na nova pátria, era noite de Natal! – Todos recordavam os natais na antiga pátria e, de repente, fez-se um silêncio estranho. De vez em quando se ouvia um som que parecia um soluço.
- Oh pátria! Oh, terra natal! Quão distante estás, e , ao mesmo tempo, tão próxima!
A principio, baixinho e timidamente, a seguir, cada vez mais alto e forte, ouvia-se a canção “Noite Feliz”, que se misturava com canto estridente das cigarras. Ninguém sabia quem havia iniciado, mas todos acompanhavam a pequena canção de rico conteúdo, cujos acordes ecoavam pelo céu estrelado. Era como se um anjo estivesse descido para acalentar todos os corações.
Nessa noite, mais do que durante a viagem inteira, todos se sentiram muito próximos uns dos outros. Ninguém percebeu que já era meia-noite! Passaram-se mais algumas horas entre conversas ora sérias, ora descontraídas, quando meu pai falou:
- Logo devem ser dez horas.
Aproximando o relógio à claridade da fogueira, Goldener respondeu sorrindo:
- Passaram-se quatro horas das dez, e agora são duas horas da madrugada!
Todos se levantaram admirados, apressando-se para chegar aos seus leitos. Será que adormeceram imediatamente? É difícil de responder! O pequeno coração humano é algo estranho, em determinadas ocasiões é difícil consolá-lo.
O primeiro dia na nova pátria.
          Na manhã seguinte, o Sol apareceu no horizonte com uma grande bola de fogo. Iluminando o novo dia, um feriado.
Com o Sol também veio o diretor, sozinho, passando por todos os alojamentos, dirigindo palavras cordiais aos presentes. Ele estava novamente com pressa, dando apenas respostas breves. Como não havia cozinha os imigrantes pediram lenha.
          - Cozinha? Bem, vocês devem construí-la sozinhos, porque as velhas caíram aos pedaços – respondeu sorrindo e, fazendo um movimento circular com a mão, explicou – Aí, ao redor, há mato suficiente, retirem o material que quiserem.  Apanhem a lenha onde possa ser encontrada.
          - Sim, sim, tudo isso pode ser muito bom, mas se os índios, ou as onças nos comerem? – murmurou, em dialeto, um segeiro.
          O diretor riu mais ainda.    - Nesses arredores não há, onças nem índios – explicou ele aos novatos assustados – Vocês devem se cuidar apenas para não se perder nas mata.
          Ainda havia muito para ser esclarecido, porém, o diretor cortou a conversa com as palavras:
          - Hoje, não! Hoje, não! Fica tudo para depois de amanhã.
Hoje, não tenho tempo! Desejo a todos um Feliz Natal – retirou-se às pressas.
          - Sujeito esquisito – comentou Goldenercom meu pai – Ele deve ter certas manias.
          - Deixa estar – retrucou meu pai – Nós precisamos conhecê-lo melhor.
          Enquanto meu pai e Goldener conversavam, alguns colonos da redondeza começaram  a chegar e , aos poucos, vieram mais e mais pessoas que ficaram sabendo de nossa chegada.
{...}

Karl Kleine

O livro é uma transcrição  do manuscrito original de Theo Kleine. Tradução Annemarie Fouquet Shünke. Organização Cristina Ferreira; Editora Cultura em Movimento, Blumenau 2011. Titulo original “Blumenau Einst.Erlebnisse und Erinnerungen”.
Livro com 342 páginas.
Arquivo família Kleine/Sérgio da Silva/Adalberto Day/Arquivo HJFS

7 comentários:

VÂNGELA =) disse...

Cada história passadas que você expõe pra gente,que a vontade que dar é de ler o livro todo. Lembrei da minha vinda pra Blumenau. As pessoas foram pouco receptivas, diferente das pessoas do norte. Que não te conhece, mas fala com você, como se conhecesse a muito tempo. Abraço Beto

Oscar disse...

Olá senhor Adalberto!

Aqui é o Oscar, filho da Geonilda, neto do mais conhecido como Antonio Candinho!
Vi este livro que o senhor ganhou, sabe se tem para vender??
Outro livro que talvez o senhor pudesse me ajudar a achar é: Pedro Wagner: o pioneiro, pois este Pedro Wagner era meu antepassado tb!!


Abraços e parabéns pelos belos trabalhos históricos!!
OSCAR EWALD

Djalma( Anapolis) disse...

Interessante ler estas historias. Nunca sabemos ao certo as dificuldades que estas pessoas passaram. Trazendo para o futuro, hoje ocorre a mesma coisa. Não é por naquela época se viver no meio de muita falta de esclarecimento não. É porque hoje a ignorância impera, e impera muito entre nós.

Bráulia disse...

Adalberto
Olá amigo parabéns, pois você merece este importante presente.
desculpe assim que tiver um tempinho assisto este encontro.
abraços Bráulia e Joaquín

Antonio Aires disse...

Prezado amigo e irmão...
Beto,realmente dá vontade de ter esse livro em mãos,para debruçar e reviver o passado,sinto-me filho desse rincão, amo essa cidade e admiro seu povo...
Baitabraço do irmão e amigo Antonio Aires - Santos SP

Braga disse...

Beto,
Parabenizo o amigo pela relevante posição conquistada no âmbito cultural do Município e região.
A ida do Presidente da Fundação Cultural ao teu museu (casa), para entregar-lhe pessoalmente um exemplar do livro "Vivências e Narrativas de um Blumenauense", é a prova concreta da respeitabilidade que todos têm para com você e teu blog.
Que continue assim são os meus votos.
Abraços

Carlos Braga Mueller
Jornalista e escritor

Wieland Lickfeld disse...

Caro Adalberto, este é sem dúvida um interessantíssimo relato sobre os primórdios de Blumenau. Foi publicado em alemão há vários anos com o título 'Blumenau einst' e nos últimos anos, em capítulos, na revista Blumenau em Cadernos. Grande abraço!

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