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terça-feira, 23 de outubro de 2012

- O Balseiro Basílio de Negreiros

BASÍLIO CORREIA DE NEGREIROS

Mito histórico?
José E. Finardi

A um folheto que nos chegou às mãos, em copia Xerox e com a solicitação de analisá-lo, não pudemos nos furtar à obrigação de, estudiosos que somos do assunto, fazer algumas considerações, baseados nos próprios elementos em que Mestre Frei Stanislau Schaette se baseou, sobretudo contraditórios em diversos pontos fundamentais. Se não vejamos:

“O Velho Basílio Foto), por 30 anos, foi companheiro fiel do Engenheiro Odebrecht, etc.” Nada mais inconsistente. É que, pela “Fé de Ofício” que juntou ao requerimento pedindo sua aposentadoria como Engenheiro do Distrito da Repartição Geral de Telégrafo, se infere que Emílio Odebrecht, dos 35 anos de sua atividade, esteve a serviço da Colônia Blumenau, encarregado da medição de lotes coloniais, de janeiro de 1861 a setembro de 1865, seguindo-se um ano como Voluntário na Guerra do Paraguai, mais sete meses na Colônia D. Pedro e até 1877, na exploração do Alto Itajaí e com a estrada Blumenau-Curitibanos, não ultrapassando 15 anos. É de frisar que, nas três expedições empreendidas pelo Engenheiro Emilio Odebrecht, visando a exploração das cabeceiras do Rio Itajaí-Açu, no Planalto: a primeira iniciada em fevereiro de 1863, a segunda em maio de 1864 e a terceira no mesmo mês de 1867, esta com sucesso, via Curitibanos, nos apontamentos diários que esse Engenheiro fez relatando as três excursões, referiu-se às turmas que o acompanharam, sendo uma alemã e outra brasileira. Dessas turmas fizeram parte elementos de inteira confiança do explorador, por ele escolhidos, não integrando qualquer delas Basílio Correia de Negreiros que, a esse tempo (1867), ainda permanecia homisiado em Rio Morto. Aliás, já em 1865, Basílio Correia de Negreiros se homisiara em Rio Morto, então inóspito, com outras 35 famílias num total de 224 pessoas, todos brasileiros, vindos de Itajaí, Armação, Camboriú e Porto Belo, que aí se havia refugiado a fim de subtrair-se à convocação compulsória ordenada pelo Governo Imperial, visando reforçar as Forças que atuavam no Paraguai.
“No mês de maio de 1871, informa Frei Schaetter, o então vigário de Blumenau Pe. Guilherme Antonio Maria Roemer, subindo o Rio Itajaí Açu, visitou todas as famílias o Rio Itajaí-Açu, visitou todas as famílias católicas brasileiras, encontrando entre elas “Basílio Correia de Negreiro, onde o Padre costumava pousar.” E continua Frei Schaetter, “Em 1874, dias 20 a 27 de janeiro, o Padre João Maria Cybeo, missionário jesuíta de Nova Trento (substituindo o Padre Roemer que deixara a Colônia) “pregou as Santas Missões em casa do Sr. Basílio Correia de Negreiro, no Rio Morto. Por isso recebeu esta morada o nome de “Casa das Missões”.

Basílio Correia de Negreiros, depois da enchente de 1880, mudou-se para Aquidabam, entre a localidade de Morro Pelado, no local onde desemboca um ribeirão que, por esse motivo, levou o nome do primeiro morador: “Ribeirão Basílio.”.
Em 1888, dia 16 de julho, sua filha Marcolina Maria Corrêa, consorciou-se com Firmino Garcia de Almeida, ela então residente com seus pais em Aquidabam, ocorrendo o mesmo com a filha BENVINDA BASILIA, casando-se em 15 de MAIO DE 1894 com João Francisco de Carvalho, tudo conforme registro paroquial em Blumenau termo de matrimônio nº 48.
Do acima exposto se conclui que Basílio Correia de Negreiros somente depois de 1894 é que se teria mudado para o Rio do Sul, onde já havia balsa, então a cargo de Vicente Leite, no entanto.
O primeiro balseiro, no entanto, foi KARL SCHROEDER, que iniciara a passagem no Braço do Sul, no mesmo lugar onde hoje se encontra a Ponte Curt Hering. Esta primeira balsa era de construção rústica, muito primitiva e fora autorizada pelo Dr. José Bonifácio da Cunha, presidente do Conselho da primeira Intendência de Blumenau, por indicação de Gottlieb Reif, consoante se desprende da Ata da Reunião do Conselho, realizada em 3 de março de 1890, logo após os tumultuosos acontecimentos de 7 de janeiro de 1890, quando foram dissolvidas pelo Governador interino Tenente-Engenheiro Lauro Severiano Müller e, criadas em substituição, as Intendências Municipais. Desta primeira Intendência fazia parte como Conselheiro Gottieb Reif, o qual, já desde 1888, era contratante de alguns trechos do picadão para cargueiros e cavalheiros entre Rio dos Bugres (hoje Apiúna) e a Região Serrana, então denominado Blumenau-Curitibanos, inclusive primeira balsa sobre o Braço do Sul.

Esta balsa, devido às suas condições precárias, era utilizada para a passagem das mercadorias e arreios das alimárias e estas o faziam a nado. Quando o nível do rio permitia, a travessia era feita um pouco acima, à vau e no raso que viria mais tarde a ser conhecido como o raso da Xarqueada.

KARL SCHOEDER, vindo de Aquidabam, no entanto, apenas serviu durante sete meses, vitima que foi de uma emboscada dos índios, obrigando-o e a seu filho de 10 anos, a refugiar-se no pouso da Pastagem (atual Agronômica), de onde regressaram encontrando seu barraco destruído e seus pertences roubados, inclusive 3 porcos e 3 cachorros. Abandonou, então, as lavouras que fizera, regressando a Apiúna e a travessia ficou sem balseiro até que mais tarde foi assumida por Vicente Leite.

Basílio Correia de Negreiro era filho de FIRMINO CORREIA e ROSA LAMIN. Consoante o livro Nº 1, de Batizados da Paróquia de Blumenau, termo nº 24, lavrado em latim, pelo Pe.Carlos Borgershausen, vigário de Joinville e que em 1874, atendia a Capela abandonada de Blumenau, consta que “BASIL” (sic) nascido em 14-9-1873 foi batizado em 24 de janeiro de 1874, filho esse que em 14-3-1914 casou com Maria Caetana Maurício, na paróquia de Rodeio, matrimônio realizado pelo então jesuíta de nova Trento Pe. Cybeo.
O mesmo consta no batismo de João Basílio Correia, termo nº 111, nascido em 25-6-1877 e que em 25-8-1903 casou com Paulina Leite, de 19 anos, residente em Trombudo, sendo avós paternos FIRMINO CORREIA e ROSA LAMIN. Esta filiação de Basílio Correia de Negreiros consta nos demais oito filhos do casal, a saber:
FRANCISCO, nascido em 24-7-1876, batizado na Capela de Rio Morto; JOSÉ, nascido em 1879 e que em 10-11-1900 casou com Antonia Maria do Rossio, de 18 anos, natural de Blumenau, termo nº 59; CARLOS BASÍLIO, nascido em 4-11-1879 (fal. Em 15-9-1963) e que em 31-12-1900, em Barra Velha casou com Engrácia Maria do Rosário, nascida em 18-1-1892 e falecida em 4-1-1972; MARCOLINA MARIA, nascida em 1870 e que em 16-7-1888, com 18 anos, natural de Itajaí, casou com Firmino Garcia de Almeida, com 24 anos e natural de Curitibanos; BENVINDA BASILIO, nascida em 4-3-1875 e que em 15-5-1894 com 19 anos, casou com João Francisco de Carvalho, natural de porto Belo; Manoel, nascido em 31-8-1901 e falecido em 4-7-1955 e ainda MARIA e BENTO.

Como vimos, Basílio Correia de Negreiro não foi o primeiro balseiro. É que, com a não efetivação por parte de José Beje de Siqueira e seus genros José Antônio da Cruz e Antônio Bernardo, contratados pelo Dr. Blumenau, em fins de 1879, para o estabelecimento de uma balsa sobre o então denominado Braço do Sul, onde o mesmo intencionava fundar um povoado que antecipara com o nome de HUMAITÁ, só em 1890, já em pleno regime republicano é que KARL SCHROEDER, conforme relatamos, serviu de primeiro balseiro, atendia esta balsa, em virtude do seu malogro, por VICENTE LEITE, seguindo-se então Basílio Correia de Negreiro, como terceiro balseiro.
BASÍLIO CORREIA DE NEGREIROS também não foi o primeiro morador do rio do Sul. Conforme, a seguir, relataremos coube esta primazia a AUGUSTO ZIRBEL e JACOB HEUSER e logo depois VICENTE LEITE e seus filhos.
Conforme já salientamos o assento de matrimônio nº 48, da filha Benvinda Basília, casando em 15 de maio de 1894 dá Basílio Correia de Negreiro, nesse ano, como residente em Aquidabam, atual Apiúna.

Ademais, em “Relíquias Históricas” o dedicado historiador Riosulense VICTOR LUCAS dá especial ênfase a um documentário de “Francisco Frankenberger – 1891 – abrangendo anotações que se referem desse ano até dezembro de 1900”.
Este documentário, destaca o competente pesquisador, abrange dez anos de vivência no sertão do Alto vale do Itajaí, atual Município do Rio do Sul, lugar onde se abriu no ano de 1892, a primeira brecha numa espessa floresta que cobria toda esta vasta região, apenas cortada por um estreito picadão, aberto, no ano de 1867, pelo agrimensor
Imagem - Sônia Baier Gauche

Emílio Odebrecht (Foto), ligando Blumenau ao Campo. Esta brecha marcou o início da colonização do atual Município do rio do Sul, e teve como colono pioneiro AUGUSTO ZIRBEL, que se fixou naquele ano, às margens do braço do Sul, nas imediações da atual Albertina. É, portanto, uma data histórica, hoje plenamente documentada por Francisco Frankenberger que veio, com o seu diário, confirmar por Francisco Heuser, filho de Jacob Heuser, o segundo pioneiro a fixar-se ao lado de Augusto Zirbel, no ano de 1893, verbalmente me legara”.

“Todas as notícias deste relatório foram tiradas dos Livros Oficiais da Paróquia de Rodeio”.

Possuímos cópia Xerox de TODO o arquivo d Paróquia de Rodeio, desde a data em que aí se fixaram os Franciscanos, sucessores do Pe. José Maria Jacobs, inclusive os escritos deste último e mais as extensas crônicas “In Domine” em língua latina, que traduzimos e a em idioma alemão, que mandamos traduzir, o que de quase tudo fiz entrega ao Arquivo Histórico da “Casa Dr. Blumenau”.
Desse arquivo não constam os informes tais quais Frei Stanislau Schaette os consigna, a maioria ocorridos há mais de 50 anos atrás, possibilitando, assim, as distorções muito compreensíveis dadas à distância do tempo decorrido.
BASÍLIO CORREIA DE NEGREIROS era homem austero, muito piedoso, extremamente devotado á religião católica e pode, com justiça, ser tido como o iniciador do catolicismo na antiga Colônia Blumenau, exceção de Gaspar, onde havia capela independente, construindo a primeira Capela católica em Rio Morto, onde, no seu retiro forçado, dirigiu, conjuntamente com Manoel Salvador Henrique do Nascimento, mais conhecido por Maneca Salvador, como líder católico, as 35 famílias ali refugiadas até 1871, quando Dr. Blumenau as encontrou e lhes respeitou a posse, medindo e doando um lote para cada uma e nomeando o respectivo Inspetor de Quarteirão, na pessoa de Laurentino José de Andrade que, além de manter a ordem era encarregado de declarar os nascimentos e óbitos nos registros da Colônia.
O jornal “NOVIDADES” de Itajaí, nº 255, de 18 de abril de 1909, noticiou o falecimento do venerado ancião, ocorrido no dia 4 de abril, com 85 anos de idade e seu sepultamento se deu no dia seguinte, com missa exequial de corpo presente, celebrada por Frei Stanislau Schaette, e com grande afluência de pessoas da localidade, que o tinham como seu líder religioso.

Adendo: Rolf e Renate S. Odebrecht, Blumenau.

Caro Adalberto Day. Parabéns por ter trazido o artigo de José Escalabrino Finardi, pesquisador que muito respeitamos, artigo este que reascende o interesse pelos primórdios de Rio do Sul. Sim, existem distorções no artigo principalmente quando se baseia em Frei Stanislau Schaette, talvez porque o Frei já fosse bastante idoso quando anotou os fatos dos quais se lembrava.  

Basílio Correia de Negreiros participou, sim, de uma das expedições do engenheiro Odebrecht, que o considerava um grande conhecedor de nossas matas, conforme registros no diário do mesmo. No livro “Cartas de Família – Ensaio Biográfico de Emil Odebrecht”, 2006, entramos em detalhes sobre essas expedições.

Neste ínterim aprofundamos nossa pesquisa sobre os três primeiros balseiros: Karl Schroeder, Vicente Leite e Basílio Correia de Negreiros e também sobre os primeiros moradores e outros assuntos. Pretendemos em breve publicar um livro com alguns capítulos da história de Rio do Sul.


Revista Blumenau em Cadernos – Tomo XXVII – Janeiro de 1986; Nº 1, págs. 19;20;2122;23.
Colaboração e arquivo: Sávio Abi-Zaid/Dalva e Adalberto Day

7 comentários:

Telmo Tomio disse...

Em 06.01.1862, foi batizado na Igreja do Santíssimo Sacramento de Itajaí, José, nascido aos 24.08.1861, filho de Basílio Correia de Negreiros e Joaquina Maria de Jesus. Avós paternos: Firmiano Correia de Negreiros e Rosa Maria Gonçalves Lamim. Avós maternos: Amaro José do Nascimento e Maria Rosa do Espírito Santo. Padrinhos: Francisco José Lamim e Silvana Maria de Jesus. Padre João Domingues Alvares Veiga, vigário encomendado.

José Alfredo disse...

Adalberto
Que resgate histórico interessantíssimo.
Valeu.
Meus cumprimentos.
Ab.
José Alfredo Schierholt

Cao Zone disse...

Prezados/as, na Bibliotéca Nacional, aqui na cidade do Rio de Janeiro, pesquisando sobre Emilio Odebrecht, descobri um mapa da região de Blumenau. Em escritos sobre esse mapa consta o nome de Basílio Corrêa de Negreiros. Muito tempo depois no site Fidelis & Soares - Genealogia online, notei uma descrição sobre as atividades do engenheiro entrelaçadas com a desse homem do mato. Abraços. Cao

Urda disse...

Adalberto
Bem interessante. Essa família Negreiros (em alguns lugares consta como Negredo) vai fincar profundas raízes na história do sul do Brasil. Um deles foi dono do terreno onde hoje é a cidade de Porto Alegre. Quando eu era muito jovem e trabalhava na Receita Federal, correu uma conversa de que a cidade de Porto Alegre iria ser devolvida aos herdeiros do Negredo. Foi uma correria dos descendentes! Fizemos cerca de 5.000 CPF novos só em Blumenau (nessa altura CPF ainda não era obrigatório), para os herdeiros que iam entrar no processo. Era impressionante a diversidade de tipos físicos dos herdeiros daquele Negredo!
Abraço,
Urda.

Osmar Hinkeldey disse...

Adalberto

matéria muito interessante relatada por este autor.
A História é sempre magnífica porque o ser humano está envolvido nela.

Abraço

LEANDRO CLAUDIR disse...

Olá Professor Adalberto Day, recebi o "Prêmio Blogger Versátil" e estou oferecendo-o a você. Sinta-se à vontade para aceitá-lo ou não.
O seu blog está entre os agraciados por oferecer aos leitores rico conteúdo educacional.

O prêmio está neste link:

http://construindohistoriahoje.blogspot.com.br/2012/10/o-construindo-historia-hoje-recebe-o.html

Abraço, Deus lhe abençoe me nome de Jesus Cristo.
Leandro Claudir

Wieland Lickfeld disse...

Muito interessante, esta pesquisa de José Finardi, e muito importante a contribuição do casal Odebrecht e dos comentaristas. A revista Blumenau em Cadernos está recheada de matérias interessantes em suas edições do passado, que praticamente ficaram esquecidas. Seu blog é uma boa forma de trazê-las ao grande público. Grande abraço!

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