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sexta-feira, 25 de maio de 2012

- Dirigível Zeppelin

Bartolomeu de Gusmão - O Padre Voador


            Ainda hoje, são impressionantes as belas imagens fotográficas dos dirigíveis alemães, sobrevoando os céus brasileiros e de nosso Estado. Principalmente, pelo grande tamanho dos popularmente chamados Zeppelins (o Hindenburg media 245 metros) e pelo formato exterior da enorme aeronave desprovida de asas, que parecia uma gigantesca baleia voadora, deslizando no ar sobre terras, mares e oceanos.
O que muita gente não sabe é que o padre Bartolomeu de Gusmão, brasileiro nascido em Santos, em 1685, bem que deveria ser considerado o “Pai dos Dirigíveis”. Reconheço que, assim como ocorre com Santos Dumont - quando queremos que seja ele o “progenitor” do avião – pode parecer um pouco de exagero. Mas, a verdade é que a história reconhece Bartolomeu de Gusmão como um “precursor da aeronáutica”. Foi um dos primeiros a provar a possibilidade de se criar engenhos com capacidade para voar. Daí seu cognome de “Padre Voador”.
Depois de sua ordenação em terras brasileiras, foi estudar em Coimbra. Estudioso da Física estava convencido de que era possível construir um aparelho ou um veículo que se elevasse do chão e se deslocasse no espaço aéreo. Seguro de sua experiência, não se furtou em mandar petição ao rei D. João V, dizendo que tinha descoberto "um instrumento para se andar pelo ar da mesma sorte que pela terra e pelo mar".

A primeira experiência foi um fracasso. O balão incendiou-se sem sair do chão. Nosso Padre Voador, no entanto, não desistiu. No dia 8 de Agosto de 1709, na sala dos embaixadores da Casa da Índia, Bartolomeu de Gusmão fez sua “passarola” elevar-se a uns 4 metros de altura. Era um pequeno balão de papel pardo grosso, cheio de ar quente, produzido pelo "fogo material contido numa tigela de barro incrustada na base de um tabuleiro de madeira encerada". O balão foi logo destruído para evitar um possível incêndio da majestosa sala e a experiência foi considerado um enorme sucesso.
Depois do singelo, mas heróico feito, vieram as lendas. Uma delas conta que Bartolomeu de Gusmão teria realizado um vôo entre o Castelo de S. Jorge e o Terreiro do Paço. Esta estória contada pelos lisboetas foi recolhida por José Saramago e inserida em sua obra Memorial do Convento. Ali, na pena brilhante da narrativa histórica e, ao mesmo tempo, fantástica do grande escritor português, nosso Padre Voador conta com o trabalho amigo, desinteressado e sigiloso de Baltasar Sete-Sóis e de Blimunda Sete-Luas – personagens principais do romance - para construir sua Passarola. Terminada a obra, saem os três num vôo fantástico, embevecidos com a paisagem das terras e cidades portuguesas, como nunca até então, vistas das alturas dos céus lusitanos.
Eram os tempos ainda de Inquisição em Portugal. E, de cientista, nosso Padre Voador foi transformado em impostor, acusado de bruxaria e perseguido pela intolerância de uma Igreja contrária às novas verdades da ciência. Certamente, Bartolomeu de Gusmão não conseguiu voar em sua Passarola, quando de sua fuga para Toledo, cidade espanhola em que se refugiou para morrer, em 1824. Mas, seu nome está definitivamente inserido na história mundial da aeronáutica.
Zeppelin em Brusque
Gosto de contemplar fotos antigas de Brusque e de nossa gente.  Aquela do dirigível Hindenburg, sobrevoando casarão do cônsul Carlos Renaux - hoje praça Barão de Schnéeburg – é uma das que mais me impressiona, pela feliz oportunidade do flagrante. O episódio ficou gravado na memória brusquense como “a passagem do Zeppelin”, nome do primeiro dirigível e que popularizou esse tipo de aeronave.
O flagrante fotográfico da “majestosa aeronave” foi colhido por volta das cinco horas, do dia 1º de dezembro de 1936. Conforme registro do jornal O Rebate, aquela histórica manhã começava cheia de luz, quando do quadrante norte surgiu um ponto luminoso e, “suavemente, como que deslizando no ar, soberbo, magnífico, o Hindenburg voava sobre nossa cidade.”
Em seu entusiástico editorial do dia cinco, o semanário traduz toda a emoção que tomou conta dos brusquenses: “Braços se erguem numa saudação, lenços se agitam, vozes se erguem, numa homenagem à vitória do gênio criador da mais bela concepção aeronáutica de nossa época”.
1936 - em Blumenau

O periódico concorrente - O Progresso - também se revelou entusiasmado com o prodígio tecnológico germânico. Não devemos esquecer que Hitler havia chegado ao poder em 1933 e, em nossa região, havia muitos simpatizantes do regime nazista e de suas idéias expansionistas. Ideologias à parte, a verdade é que o jornal começou seu editorial dizendo que “Brusque assistiu, na manhã de 1º de dezembro o (sic) deslumbrante espetáculo da visita do soberbo dirigível Hindenburg”.
O texto não difere muito daquele publicado pelo O Rebate, na descrição do grande acontecimento, que emocionou a população brusquense, desde a véspera, avisada sobre a passagem do “Zeppelin”. Confirmando o horário das cinco horas da manhã, O Progresso assim registrou o histórico sobrevôo: “Sereno, como que deslizando suavemente, aparece logo depois, a todos os olhares, o gigantesco dirigível, que honra o gênio inventivo do povo alemão. Lenços se agitam, palmas reboam, frases de entusiasmo se ouvem sobre a cidade”.  
Com seus 248 metros de comprimento, 41 de largura e capacidade para 97 pessoas, entre tripulantes e passageiros, o Hindenburg era considerado um colosso da indústria aeronáutica alemã. Por isso, era utilizado como um instrumento da propaganda nazista para demonstrar o avanço tecnológico do III Reich e a superioridade da raça ariana. Assim, não foi por mera coincidência que O Progresso tenha anotado que, quando o imenso dirigível sobrevoou o centro da cidade, ostentando a cruz suástica em sua parte traseira, centenas de braços se ergueram “numa saudação expressiva”.
O editorial não é explícito, mas é fácil deduzir que a “saudação expressiva”, significava braços direitos levantados numa inclinação de 45°, mãos abertas e possíveis gritos fanáticos de “Heil Hitler”.
Apesar de toda a propaganda nazista, o dirigível Hindenburg foi tomado pelo fogo, no ano seguinte. Naquele momento, talvez poucos tenham percebido. Mas, o fantástico incêndio do Hindenburg, em Nova Iorque, com passageiros e tripulantes lançando-se ao solo como se fossem tochas humanas, já deveria ser visto como o prenúncio da maior tragédia sofrida pela Humanidade. Ao final da II Guerra Mundial, a Alemanha nazista terminava seus dias completamente arrasada e com suas principais cidades em chamas.
Zeppelin em Tijucas- Lendas e Mitos
Dois anos antes do Hindenburg, o Graf Zeppelin sobrevoou algumas cidades do litoral e do Vale do Itajaí, inclusive Brusque. Em sua passagem, em primeiro de julho de 1934, deixou milhares de pessoas emocionadas e um rastro de lendas e anedotas. Pois, o Zeppelin também fez um emocionante vôo sobre minha terra natal. Àquela época, por sua importância econômica e política, Tijucas não poderia ficar fora da rota do fantástico dirigível, prodígio da engenharia alemã.
Quando guri, ouvi algumas anedotas sobre a passagem do enorme dirigível nos céus tijucanos. Diziam que o prefeito, logo que soube do possível vôo sobre a cidade, teria mandado um telegrama ao comandante Ernst Lehmann, com um pedido: que não passasse nas primeiras horas da manhã, muito menos de madrugada. Da forma mais diplomática possível, explicava ao piloto alemão que os tijucanos não estavam acostumados a levantar cedo. Aconselhava o alcaide, que as primeiras horas da manhã fossem aproveitadas para o voo sobre Brusque, Blumenau ou Joinville. Os alemães é que gostavam de acordar cedo para trabalhar que nem escravos.
O telegrama continha, ainda, um P. S., pedindo encarecidamente ao comandante que, depois do meio dia, evitasse o horário das quatro. Era a hora sagrada do café da tarde, durante a qual, dificilmente, os tijucanos deixariam a costumeira refeição vespertina, sempre reforçada com banana frita e bolinhos de frigideira.
Até hoje, ninguém sabe se o lendário telegrama chegou ao seu destinatário. Mas, o fato é que, quando o Lindenburg cruzou os céus tijucanos, o sol já ia alto naquela manhã invernal. O sobrevôo teria começado pelo bairro da Joaia, onde residiam os caçadores mais inveterados, de uma cidade onde a caça era praticada pela grande maioria da população - masculina é claro! - porque as mulheres eram educadas para cumprirem a missão de serem eternas prendas domésticas.
Blumenau - 1936
Um verdadeiro exército se formou em poucos minutos. Armados de espingardas, fundas e bodoques, os improvisados soldados da Joaia tentaram derrubar o grande pássaro que voava - na verdade parecia deslizar - sobre a planície tijucana. Mas, por cautela, o experiente comandante pilotava a majestosa nave fora do alcance da artilharia joiaense. Em seguida, o que se viu foi uma chuva de pelotas e chumbos dos cartuchos detonados, retornando à terra e caindo sobre a cabeça daquela aguerrida e curiosa comunidade.
Também contavam que, quando o Lindenburg passou sobre o bairro da praça, a comunidade de pescadores ali residente lançou suas redes - numa cena de explícito realismo fantástico – a fim de pescar a gigantesca baleia dos ares. Outros teriam pensado em chamar os melhores cavaleiros da farra do boi para laçar a enorme fera sem aspas. Num ou noutro caso, seria um feito que botaria Tijucas no noticiário mundial daquela época. Mas tudo em vão. O Zeppelin continuou deslizando e sumiu do olhar dos extasiados tijucanos.
No domingo seguinte, o Padre Jacó Slater - holandês com título de doutor - aproveitou a missa das 9,30h para repreender seus fieis paroquianos pelo “papelão”, diante da extraordinária máquina voadora, glória da indústria aeronáutica germânica. Das alturas do púlpito da igreja matriz, num sermão futurístico e já se antecipando à causa ambiental dos nossos tempos, bradou o padre Jacó: “vocês não se conduziram como bons cristãos. Pois, fiquem sabendo que o tempo virá em que a caça às aves e às baleias será considerada uma prática criminosa contra a natureza e os seus autores lançados na profundeza das prisões”.
Para saber mais acesse:
João José Leal – jjoseleal@gmail.com
Arquivo Adalberto Day
         

6 comentários:

Leal disse...

Valeu, pela beleza e fonte histórica.
João José Leal

Rubens Heusi disse...

Eu me lembro,tinha uns quatro anos,de ver o Zepilin passar,meu pai nos chamou,eu e meus tres irmãos mais velhos para vermos o que seria um espetaculo inesquecivel.

Osmar Hinkeldey disse...

Olá Adalberto

Não cheguei a ver estes dirigiveis nos céus catarinenses.
Mas deve ter sido algo incomum para a época.
Muito boa a história em torno do assunto.
Abraço

Valdir Appel disse...

Quando eu ainda era menino, meus pais falavam do Zeppelin como algo fantastico, jamais visto. Tipo invasão dos Ets, risos. A passagem do Zepp por aqui, me marcou tanto, que às vezes eu tenho a impressão de que o vi sobrevoando a praça.
Abração

Antonio Aires disse...

Querido amigo Beto,agradeço seu belo trabalho em primeiro plano,homenageando um grande Santista.E tambem agradeço ao Supremo Arquiteto,seu restabelecimento.Que Deus em sua infinita bondade continue a abençoa-lo. Como diz o Bacca: BAITABRAÇO

Unknown disse...

Parabéns pelo seu trabalho e pelos ¨causos¨ contados, como o das recomendações sobre os horários apropriados para o Zeppelin passar por Tijucas.

Sou de Brusque, mantenho um blog também (dubiella.com.br, de forma que é gratificante ver na internet a nossa História ser difundida e relembrada.

Todo o blog está muito bem feito.

Sds

Vilmar

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