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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

- As duas Roseiras de Dr. Blumenau

HISTÓRIA ROMANCEADA DE BLUMENAU E DO SEU FUNDADOR

NEMÉSIO HEUSI

{....} O Dr. Blumenau chegou à colônia ao amanhecer. E nas mãos, as duas roseiras. Estava ansioso por ver Hackradt, que tomava café num rancho, na companhia de um casal de pretos velhos. Eram as três almas que habitavam a colônia.
Hackradt, barbado e com roupas mal tratadas, era, em verdade, a imagem de um fracassado.
Depois de cumprimentá-lo, o Dr. Blumenau indagou:
- Hackradt! Onde estão os demais trabalhadores? Quando daqui sai, eram 9 ao todo e só vejo, agora, este casal de pretos velhos!
- Dr. Blumenau, dos nove trabalhadores, só sobrou este casal! Uns fugiram, outros foram embora para Itajaí, um levado por um vizinho e um outro morre, atingido por uma caneleira.
- Bem desagradável, Hackradt! Infelizmente, não consegui os 250 imigrantes alemães que se haviam comprometido comigo, o que te comuniquei por carta. Simplesmente, desistiram sem me darem maiores satisfações. Só mantiveram a palavra empenhada 16, que com um sobrinho meu, somam 17. Estes os colonos que deverão chegar até fins deste mês de agosto ou começo de setembro.
Hackradt esboçou um sorriso irônico, ma nada disse. Continuou calado, enquanto Dr. Blumenau prosseguiu:
- E a serraria, já está pronta?
- Pronta está, mas, trabalhando, não, por falta de braços.
- Você me escreve, dizendo que ela esteve ameaçada de ser levada por uma enchente! Houve enchente na minha ausência.
- Não, apenas chuvas fortes, elevando o nível do rio. O bastante, porém, para ameaçar a serraria!
- Mas, então não a construíram no local combinado, Hackradt? Depois de examinar o local, o Dr. Blumenau ponderou:
- Não foi este o lugar escolhido à beira do ribeirão, e, sim, ali naquela saliência e naquele platô, livre de enchentes.
- É fácil! Facílimo, dizer-se ali. Mas difícil de fazer, quando não se tem braços para se atingir terreno elevado com material pesado, como só ser o de uma serraria. Daí a escolha de outro local mais acessível. Lamento muito, Dr. Blumenau, mas foi o que se pode fazer! Aliás, meu amigo, eu não continuo mais aqui de forma alguma. Eu não devia nem ter voltado para aqui. E muito menos ter assinado aquele contrato de constituição de uma firma, quando lá no Desterro. Mas o Senhor Insistiu tanto que me convenceu. De modo que acabei voltando para este inferno.
- Sinto muito, Hackradt.
- Eu é que sinto ter de lhe dizer isto e mais alguma coisa!
- Desabafe Hackradt! Diga tudo o que tem para me dizer.
- Dr. Blumenau! Veja bem! Analise bem o seu comportamento vacilante. Eram 250 colonos que deveriam vir. Vêm apenas 17! E será que estes vêm mesmo?
- Hackradt, dou-lhe o direito ao desabafo, porém, não o de duvidar da minha palavra!
- Mas como, Dr. Blumenau, que o Sr. Não quer que eu duvide da sua palavra, se agora mesmo, o Sr. Está demonstrando apenas incertezas e dúvidas? O Sr. ao invés de chegar com os seus colonos, que de 250 que deveriam, ser, conforme me escreveu, ficaram reduzidos a 17, chega-me aqui com duas roseiras nas mãos. E ainda quer que eu acredite em suas promessas?
- Hackradt! Você é realmente a figura do derrotado! Barbado! Mal vestido! Relaxado! Deixou-se dominar, completamente, pelo desânimo. E quando se perde a fé, meu amigo, nada mais resta senão derrotismo, descrença e fracasso.
- Quero que saiba e aprenda. Se houver fracasso este foi o seu. Nunca o meu! Não quero, de forma alguma, que continue comigo, com este estado de ânimo. Você poderá se retirar de nossa firma. Mas, terá de esperar até resolvermos certas pendências, o que espero se dê no mês que vem, ou em meados de outubro.
Estamos no fim de agosto. Os meus colonos virão ainda neste mês, ou o mais tardar em começo de setembro. Terei de assisti-los durante um mês, para as primeiras adaptações. Só depois é que poderei tratar da nossa dissolução contratual, quando ajustaremos as nossas contas.
Não quero, de forma alguma, brigar com você, meu amigo e companheiro das primeiras horas!
- Mas, Dr. Blumenau, eu sempre lhe disse que era apenas um mero comerciante.
- E não um colonizador! Não era isto, Hackradt, que você ia me dizer?
- Exatamente, Dr. Blumenau.
- pois bem, meu amigo, eu sempre o quis como comerciante e vou lhe explicar por que!
- Não quer que eu segure as roseiras e as ponha em lugar seguro?
- Não, obrigado. Quero tê-las nas mãos porque ainda vou falar sobre elas. Vamos nos sentar, para podermos conversar mais à vontade.
- Hackradt, vou voltar ao passado, para poder melhor te mostrar a formação da minha personalidade.
O meu velho pai era engenheiro-mor das florestas ducais, no distrito de Helmstadt, em Mariental. E ali, na escola local, aprendi os primeiros rudimentos para a minha formação, até os dez anos de idade.
Com o meu pai muito aprendi sobre a Natureza e o seu mundo vegetal, que era o seu trabalho profissional.
E assim, passei a minha infância entre árvores e flores!
Depois, fui para a casa do Pastor alemão J.l.Gotting, onde preparei-me para o ginásio.
Foi o melhor tempo da minha juventude. Com ele aprendi toda beleza do incomensurável mundo espiritual. E me imbui da força do amor que tudo constrói.
Depois, na universidade, formei-me em filosofia, que é o conjunto de concepções práticas e teóricas, acerca do ego e dos seres em geral, bem como sobre o papel do homem no universo em que vive.
Finalmente, a parte farmacêutica, sobre há qual pouco me interessei.
Resumindo, Hackradt: Com o meu pai, conheci o mundo material das plantas e as belezas extraordinárias da natureza. Que passei a amar com muita intensidade; e com o Pastor Gotting, toda a grandeza do mundo espiritual, onde adquiri esta fé inquebrantável em Deus.

E desta formação, Hackradt nasceu o meu espírito idealista que tão bem se adapta ao de colonizador. Que requer uma dose muito grande de abnegação, sacrifício, tenacidade e perseverança!
Você deve ter notado, Hackradt, que devido a minha formação cultural, os números sempre me estiveram ausentes. Daí não saber tão bem manejá-los como sabem os comerciantes, face aos seus negócios e seus lucros.
Quando você me apareceu, como comerciante, unindo o útil ao agradável, fiz-lhe o meu convite. E o que neste momento, estou justificando. Hackradt a tudo ouviu calado e sensibilizado, e perguntou:
- Não vai plantar as suas roseiras, Dr. Blumenau?
- Não, Hackradt. As plantarei no dia em que os meus 17 colonos chegarem, juntamente com as várias mudas de árvores frutíferas e flores, que eles trarão. Eles se mostravam bastante animados e esperançosos quando ainda estávamos em Hamburgo.
- É incrível, Dr. Blumenau, o contraste que existe entre nós dois. Para mim, estas terras só me trouxeram até agora, dor e sofrimento. E deles nasceu o meu desânimo.
Dor, quando vi morrer debaixo da caneleira um pobre homem e excelente trabalhador; e quando uma traiçoeira jararaca mordeu e matou o nosso cozinheiro.
Sofrimento, porque tudo aqui é agressivo: a mata, as feras, as cobras e os índios; desânimo, portanto, porque não acredito que com tantas adversidades, Dr. Blumenau, consigo fazer nascer a sua colônia. E, confesso, como eu, o Senhor Também, mas tarde ou mais cedo, desistirá!

O Dr. Blumenau (Foto) sorriu e disse-lhe, convicto:
- “Não, Hackradt” Desistir é um verbo que não aprendi a conjugar. Neste chão, que tanto agrides, eu, no dia em que os meus colonos chegarem, com eles plantaremos flores e árvores frutíferas, para agradecer à natureza e a Deus, por ter nos dado esta terra dadivosa à qual transformaremos numa das mais extraordinárias colônias do Império Brasileiro.
Minhas roseiras, Harkradt, simbolizam a alegria e a dor! Porque as rosas servem para festejar os nossos dias de alegria e também de dor e sofrimento. Que o teu sentimento mercantilista, infelizmente, não compreende.
Se elas enfeitam os nossos lares e os nossos túmulos, não significa que devemos odiá-las porque têm duplo sentido: sorriso e lágrimas. Não, Hackradt, porque pra os fortes, viver é sorrir e também chorar.

Lamento profundamente que o pessimismo tenha transformado a tua atitude inicial e te levado à desistência de continuar ao meu lado, como nas primeiras horas. Se não queres comigo plantar a roseira, para amanhã colhermos as suas rosas, e com elas festejar as nossas conquistas e sucessos, peço-te que não nos abandones de vez e voltes sempre aqui, para sentires ao menos, o perfume das rosas, porque a nossa amizade não terá apenas a efêmera vida das rosas, mas sim, a da roseira que, para cada rosa que morre terá sempre um novo botão a florir.

- Foi por isso, Hackradt (Foto), que o meu velho pai pediu-me que nunca deixasse esta roseira morrer. Porque ela simboliza a sua saudade. E hoje, meu bom amigo, ela tem mais um símbolo, que também nunca morrerá; a nossa amizade!
Obs.: Memorialista Niels Deeke: FERDINAND ERNST FRIEDRICH HACKRADT, nascido em 20/12/1817 em Gramzow, próximo à Perleberg - Prignitz Ocidental - distrito de Postdam - ALEMANHA.
Imigrou no Brasil em fins de 1846.
Faleceu em Desterro SC, em 22/02/1887 às 3 horas da tarde, e dado à sepultura em 23/02/1887 às 8 horas da manhã, no cemitério protestante de Desterro SC Posteriormente seus ossos foram trasladados ao cemitério em Itacorubi - Desterro SC atual Florianópolis.
*************************************
- A gratidão, Hackradt, é a moeda com que nós, espiritualistas, pagamos as nossas dividas morais!
Em outubro, Hackradt voltou a Colônia para rescindir o seu contrato. As plantas verdes e viçosas. Era a resposta do solo que pagava, com o mesmo amor, o que dele fora pedido.
Hackradt resolveu esperar pela chegada dos primeiros 17 colonos. Não queria que o Dr. Blumenau ficasse só, com o casal de pretos, velhos. E como até fins de agosto, os colonos ainda não tivessem chegado. Hackradt, numa balsa, tendo como remadores Ângelo e Silvério, dia 2 de setembro deixaram a colônia e foram até Itajaí esperá-los. A sorte lhes foi favorável. Encontraram os colonos, que vinham num lanchão do Major Agostinho, em Belchior. Assim. Com a respectiva bagagem, foram baldeados para a balsa, e á tardinha do mesmo dia, chegavam à Colônia.

Reprodução: Livro 150 anos de Blumenau 2000
Foram recebidos pelo Dr. Blumenau, que os aguardava no alto da barranca do rio. Visivelmente emocionado e satisfeito, ele acenava para os recém-vindos.
Foram todos provisoriamente alojados num barracão, ás margens do ribeirão da velha.
O Dr. Blumenau, ao apresentar o seu sobrinho Reinhold Gaertner, a Hackradt, disse-lhe que era ele o substituto do amigo que, por motivos particulares, deixava a Colônia.
Na manhã seguinte, Hackradt se despediu. Ângelo ficou para ajudar o Dr. Blumenau, até que Reinhold se acostumasse.
Naquele dia, embora já na companhia dos seus colonos, o Dr. Blumenau estava triste, devido à partida de Hackradt. Ele já se afeiçoara ao seu amigo e sócio.
A primeira noite dos imigrantes na Colônia foi bastante fria. O inverno daquele ano fora muito rigoroso. E o céu limpo e claro anunciava geada tardia para o dia seguinte.
O Dr. Blumenau, conversando com Reinhold, lhe disse:
- Meu sobrinho, sinto que nem todos os colonos estão satisfeitos em instalações tão precárias, principalmente a senhora Friedenreich com as crianças, que estão estranhando tanta falta de conforto. Veja as crianças não dormem e só choram! Leva mais cobertores para elas, Reinhold, quem sabe se melhor agasalhadas, elas conseguem dormir?
- Vou levar, tio. Mas, amanhã, com o sol bonito, elas estarão mais alegres.
- É, meu sobrinho, precisamos fazer funcionar a serraria o mais breve possível. Iniciar a construção de novas moradias para os colonos, embora provisoriamente, com troncos de palmeiras e cobertas com as suas folhas, até que tenhamos as tábuas para melhor construí-las.
Reinhold sentiu que o seu trabalho não seria fácil. Mas, tudo faria para ajudar o seu tio, tão sacrificado.
Ao completar o quinto dia da chegada dos seus colonos, o Dr. Blumenau lembrou-se que era o dia 7 de setembro, o dia maior do Império Brasileiro, comemorativo da sua Independência.
Acordou Reinhold bem cedo e combinou com ele fazerem uma festinha para comemorar aquele dia da independência do Brasil.
- Reinhold, hoje é o dia em que o Brasil tornou-se independente de Portugal, em 1822. Eu estou sentindo que os colonos, nestes primeiros dias, não se estão adaptando como eu esperava. Vou, pois aproveitar este dia para despertar-lhes o civismo, dizendo-lhes do nosso dever de estrangeiros e imigrantes para com o Brasil, que adotamos como a nossa segunda pátria, no dia máximo de sua História.
- Ótimo tio! Excelente idéia!
- Não vou contar-lhes a História do Brasil, Apenas fazer-lhes algumas imagens sobre a data, e sobre o nosso dever de imigrantes para com o império. Tenho comigo a bandeira do império, que me foi dada por um grande e importante amigo, o Marques de Abrantes, e um retrato do Imperador do Brasil, Dom Pedro II, de quem tenho a honra de ser amigo e profundo admirador.
- Muito bom tio, para levantar a moral dos colonos, que, realmente, não está boa.
- Reinhold, vai acordar o Ângelo e chama-o aqui. A propósito você e ele já estão se entendendo, por gestos e mímicas, não é?
- Estamos nos entendendo e bem até.
Quando Ângelo chegou, ele mandou que os dois cortassem uma palmeira e a trouxessem até a frente do barracão.
Na ponta da palmeira, foi amarrado um pedaço de corda mais grossa e nela passada uma outra cordinha, de modo que pudesse ser hasteada a bandeira.
Quando tudo já estava pronto e todos reunidos defronte ao barracão, ao nascer do sol, o Dr. Blumenau conversou com Ângelo e disse-lhe que teria que falar em alemão aos colonos, já que ninguém sabia falar o português.
- Ângelo, você é que vai hastear a bandeira.
- Mas...eu?...Dou...tor!
- Sim, você Ângelo. Por dois motivos: o primeiro, porque és brasileiro, e o segundo, é que és o único amigo que sobrou da nossa primeira viagem e a testemunha da escolha deste local para a implantação da nossa Colônia, uma vez que Hackradt nos abandonou.
- Se é assim, aceito com muita honra e grande prazer.
- Ângelo, ao hasteamento, assistiremos em silêncio, em sinal do nosso respeito para com o Brasil e o seu Imperador. Depois, então eu falarei em alemão sobre a data de hoje. Mais tarde, eu te direi o que falei aos colonos.
- Muito obrigado, Dr. Blumenau! Pode deixar que eu farei tudo direitinho. Posso lhe fazer um pedido, Dr.?
- Faça Ângelo!
- Depois, o Dr. Não vai oferecer uma pinguinha pra esquentar o corpo?
O frio está de cortar!
- Claro, Ângelo, depois festejaremos!
Ainda não eram sete horas da manhã e já estavam todos defronte do barracão, Reinhold ao lado do mastro improvisado, mostrava o retrato do Imperador Dom Pedro II, para todos o verem e Ângelo, vagarosamente, hasteava a bandeira, olhando firme, para o alto do mastro!
O Dr. Blumenau pediu para que todos assistissem ao hasteamento de cabeça descoberta e em profundo silêncio, em respeito à data ao Brasil e ao seu Imperador.
Terminada a cerimônia, o Dr. Blumenau disse pausadamente:
- Reuni os senhores aqui, nesta manhã ensolarada, para hastear a Bandeira ao império Brasileiro e mostrar-lhes o retrato do seu Imperador, dom Pedro II, para que todos vocês o fiquem conhecendo. Ele traz a sua assinatura, de seu próprio punho, o que fez na minha presença, e em reconhecimento ao que sua majestade espera de mim, em prol da colonização alemã no Brasil.
- Hoje, 7 de setembro, é um dia todo especial para o Brasil, porque faz 38 anos da sua Independência, pois no dia de hoje, em 1822, o pai do nosso atual Imperador, Dom Pedro I, às margens do rio Ipiranga, em São Paulo, deu o grito de Independência ou Morte!
- Com essas palavras ele quis dizer que se Portugal reagisse, ele, à frente do povo brasileiro, lutaria até a morte, pela Independência do Brasil!
- Nós, alemães, e imigrantes que somos, temos deveres para com o Brasil, pois ao emigrarmos para cá, adotamos o Brasil como nossa segunda pátria. Por isso, devemos amá-lo e respeitá-lo, como hoje o fazemos na sua maior data nacional, hasteando a sua bandeira e festejando o seu dia maior!
Isto, porém não quer dizer que a nossa Colônia não seja uma “pequena Alemanha” dentro do Brasil, isto é, poderemos construir as nossas casas iguais as que construímos lá na Alemanha, vestir os nossos trajes típicos e usá-los permanentemente, bem como manter os nossos costumes e a religião de cada um, falar o nosso idioma, até que o governo nos forneça escolas para os nossos filhos. Eu, porém, semanalmente darei aulas a quem quiser aprender o português. E quem quiser se naturalizar brasileiro, poderá fazê-lo.
Os filhos de vocês que aqui nascerem, serão, automaticamente considerado brasileiro.
Uma coisa, porém, fica bem claro: enquanto eu tiver voz de comando nesta Colônia, a escravatura jamais será praticada. O nosso trabalho será feito por homens livres sem distinção de cor.
Vivemos num Império que é um verdadeiro continente, dada a sua extensão territorial. E com o trabalho honesto, muita fé e força de vontade, construiremos uma colônia que será, através dos tempos, um orgulho para nós e nossos descendentes. E este deve ser o nosso lema: fé, amor e perseverança!
E assim vou terminar esta minha palestra, que repetirei sempre nesta data, como um compromisso do Imigrante e meu dever de colonizar, para que todos os colonos que aqui chegarem mantenham sempre bem vivas as suas obrigações para com a sua nova pátria!
Quando o sol começou a se esconder por trás da floresta virgem, naquele dia festivo da independência do Brasil, Ângelo Dias, cabeça descoberta diante de todos os colonos, novamente reunidos e do Dr. Blumenau, todos em profundo silêncio, descia, lentamente a bandeira do império Brasileiro, ouvindo-se ao mesmo tempo um canto agudo e forte. Era a graúna que anunciava para toda mata a chegada, da noite, como o fazia ao raiar de cada dia.
Capa – Irmã Aluisianis e o médico Oswaldo Hoess
(Obs. Memorialista Niels Deeke:  trata-se do Dr. Alfred Hoess nascido na Áustria, Mergenhofen em 29/04/1892 e falecido em Blumenau em 04/10/1965 e não Oswaldo Hoess)

Naquela noite, quando todos já dormiam, o Dr, Blumenau entrou no barracão. Quando se aproximou da cama de Ângelo, este jazia com as mãos pendentes da cama. E no chão de terra batida, a garrafa de pinga tombada e vazia. O Dr. Blumenau sorriu, apagou a lamparina e se deitou, contente do dia bonito que tivera.{...}
Blumenau em Cadernos – TOMO XXII – Nº 4 Abril de 1981

Uma injustiça a reparar
Nemésio Heusi/Fevereiro 1982
Não basta escrever sobre história, pesquisar fatos, buscar origem, é preciso quando neste mister encontrarmos por acaso alguma distorção histórica, ou mesmo lamentável omissão, como no caso de Ferdinando Hackradt, companheiro do Dr. Blumenau desde as primeiras horas na província de Santa Catarina com ele fazendo a primeira viagem rio acima em companhia de Ângelo Dias até os últimos momentos no Brasil, isto é, quase 36 anos depois quando se retirou, definitivamente, para a Alemanha, nenhuma homenagem foi prestada a ele pela cidade que ele junto com tantos outros ajudou a fundar nos idos anos de 1850. Mas, por quê? Talvez porque José Ferreira da Silva respeitável jornalista e melhor historiador disse num de seus muitos artigos: “Hackradt a quem ele deixara na Velha, entregando-lhe regular soma de dinheiro para o trabalho indispensável à recepção dos primeiros colonos, não havia correspondido à confiança que Blumenau nele depositará...etc...etc...”.
“No entanto, em seu estudo maravilhoso sobre “A Vida e Obra do Doutor Blumenau, ensaio Biográfico” do Dr. Carlos Fouquet, diz textualmente:” A empresa “Blumenau & Hackradt” foi dissolvida em 15 de outubro de 1850, e em Dezembro o Dr. Blumenau pagou ao seu ex-sócio o capital inicial de 2.800 tálers e a título de compensação pela direção dos trabalhos preliminares. Segundo outras fontes ter-se-ia tratado de 2 contos de réis e mais 800 mil réis, fora os juros sobre o capital.”
De fato houve um incidente entre Dr. Blumenau e seu ex-sócio quando Dr. Blumenau voltou da Alemanha para esperar na colônia os 17 primeiros colonos, mas logo depois, quando Dr. Blumenau examinou todas as prestações de contas de Hackradt, verificou que seu ex-sócio agora com toda honestidade, já que todas as despesas estavam, devidamente, comprovadas com os respectivos recibos em perfeita ordem, foi desfeito o mal entendido e os dois voltaram às boas tanto que, Hackradt, ainda recebeu o que lhe era devido por contrato e ambos continuaram amigos. O erro inicial desse mal entendido partiu do Dr. Blumenau que, teimou em transformar um comerciante, num colono, quando Hackradt sempre lhe dizia...”Dr. Blumenau eu sou tão somente um comerciante, e não um construtor de ranchos e engenhos”. Bem mais tarde Hackradt, voltou para Desterro e alguns anos depois com seu sobrinho Carlos Hoepcke fundou um império comercial que é, ainda hoje, a centenária Carl Hoepcke S.A. de nossos dias.

Estou certo que essa omissão histórica será reparada ainda na atual administração municipal, isto porque, está à frente da Prefeitura de Blumenau Dr. Renato Vianna jovem advogado e um administrador considerado capaz, honesto e extremamente humano, e na Presidência da Câmara Municipal, um brilhante jornalista defensor intransigente das justas causas de sua cidade, Carlos Braga Mueller que ao tomar conhecimento deste artigo tomará as providencias para reparar tão lamentável omissão histórica, prestando uma justa e merecida homenagem a Ferdinand Hackradt, companheiro de Ângelo Dias, já devidamente homenageado com o seu nome em uma das ruas de Blumenau, e eu felicíssimo, porque tenho certeza absoluta que serão convidados para as homenagens, Cel. Júlio Werner Hackradt e seu filho, nascido em Blumenau no ano do seu Centenário, afinal são: Bisneto e Tataraneto de Ferdinando Hackradt que se sentirão felizes e orgulhosos porque foi reparada uma lamentável INJUSTIÇA HISTÓRICA.

Em meu livro, Ferdinando Hackradt  e Dr. Blumenau (foto) continuaram amigos, embora tenha havido o incidente, nele mencionado e dialogado, até os últimos dias de Dr. Blumenau no Brasil, isso porque, nas minhas pesquisas nada encontrei que me autorizasse ao contrário, e só fui conhecer o Cel. Júlio Werner Hackradt, quinze dias antes do lançamento de meu livro, já que me telefonou dizendo que fazia questão de estar presente ao lançamento, como de fato esteve, e para ele autografei dez livros para ele distribuí-los entre seus amigos. Foi então quando me contou que na ocasião do Centenário de Blumenau quando foi apresentado à filha de Dr. Blumenau e essa lhe confessara que Hackradt e seu pai mantiveram correspondência até os últimos dias de Dr. Blumenau, dizendo, textualmente: “Foi seu bisavô Sr. Hackradt, um dos melhores amigos de papai e seu leal companheiro de todos os momentos no Brasil. Papai gostava muito do Sr. Ferdinando Hackradt”.
Aí está a verdade histórica, e o meu acerto em mantê-los como dois bons amigos em meu romance. Resta, porém que está omissão histórica seja desfeita e a justa e merecida homenagem a Hackradt feita, para reparação de uma injustiça histórica.

Blumenau em Cadernos – TOMO XXIII – Nº 2 Fevereiro de 1982
Arquivo – AHJFS/ Sávio Abi-Zaid/Dalva e Adalberto Day

3 comentários:

Anônimo disse...

A HISTÓRIA É FASCINANTE.
MAS O QUE MAIS ME IMPRESSIONOU FOI O GRANDE RESPEITO QUE ELES TIVERAM PELA PATRIA QUE OS ACOLHEU.
E QUE A VERDADE PODE ATÉ TER DEMORADO MAS PASSOU A SER CONHECIDA.
PARABÉNS MAIS UMA VEZ.
ABRAÇOS GASPARENSES

Valdir Salvador disse...

~Caro amigo Adalberto pouco resta a falar de quem não o conhecemos, mas eu sinceramente nunca fui fã de Dr~~Blumenau seria se ele não tivese desvatado tanto nosso municipio, com as vendas das madeiras de qualidades, ao inves de fazer para nossos colonos casas de ripas de palmito, gosto mais de pessoas que lutaram pelo progresso e morreram em nosso municipio, abraços Valdir ~salvador.

Alexandre disse...

Boa noite Mestre Adalberto Day, acabei de ler o excelente texto postado em vosso blog, "As das roseiras do Dr. Blumenau". Bela história.
Alexandre Farias

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