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segunda-feira, 18 de abril de 2011

- Uma noite incomum em Blumenau

Em histórias de nosso cotidiano, uma crônica de Dalva Day

Bairro da Velha
Era 1º de maio/2003, 20h e todos os convidados já estavam ao redor de duas grandes fogueiras que reluziam charme e sensualidade no quintal da Bruxa Alicia - (Alicia: nome fictício), uma mulher de 30 anos, cabelos loiros cacheados até o ombro, que reside desde criança no bairro da Velha, em Blumenau.
Sua casa é cheia de vida, há gatos, cachorros e passarinhos que fazem a festa em sua casa, vivendo em perfeita harmonia... "Até parece que sabem o que estamos fazendo aqui", comentou uma das convidadas que olhava com desconfiança para o gatinho alaranjado que espiava pela janela da sala, confesso que até eu estava um pouco aflita. Não gosto de gatos, pois sempre os associo com algo sinistro, o que aos poucos fui compreendendo que não passava de mero pré-conceito que adquiri ao longo da vida.
Estávamos em 13 pessoas, homens e mulheres das mais variadas idades e profissões. Haviam advogados, dentistas, donas-de-casa, estudantes e professores... enfim pessoas comuns que estavam ali por um único objetivo: celebrar o Beltane em comemoração a Rainha de Maio.
Alicia não é uma bruxa comum, com sua delicadeza de princesa, estava mais para bruxa dos tempos modernos. Durante a celebração do Beltane vestia um vestido branco e longo para simbolizar a pureza, e alguns adornos pelo pescoço que segundo ela “se sentia mais feminina para a ocasião”, nada parecida com aquelas bruxas das historias em quadrinho que aparecem sempre vestidas de preto, com um chapéu enorme e um narigão horroroso que assustava quem chegasse perto. Nós que não estávamos nem um pouco acostumadas com comemorações como estas, estávamos trajadas normalmente sem nenhum capricho em particular, apenas levávamos algumas raízes (batatas e cenouras) e um copo de vinho para comemorar a data. Mas como em todas as regras há exceções, uma das adolescentes que estava conosco para participar da celebração, veio vestida de chapéu e capa preta, que segundo ela "não deixaria por nada nesse mundo de participar de uma festa de bruxas sem estar a rigor". Todos achamos graça da jovem adolescente, mas concordamos num fato: ela leva jeito para bruxa!
Todos os convidados, inclusive eu, estavam ansiosos para a grande noite. Não era uma data comum, pois estaríamos festejando o Beltane, que segundo os celtas (Alicia se encarregou de explicar tudinho antes de começar o ritual) "é a mais alegre e festiva comemoração celta é uma data profundamente sensual”.
Aos poucos, antes de dar inicio a celebração, íamos nos familiarizando com o significado do Beltane, de acordo com a lenda representa a entrada do jovem Deus para a idade adulta, que se da inicio pelas energias da Natureza, pela força das sementes e flores que desabrocham, onde a Deusa e o Deus se apaixonam. E por isso o dia 1º de maio para os celtas é marcado pela celebração de rituais de fertilidade e imensas fogueiras são acesas em todas as partes do mundo. Elas simbolizam o calor da paixão e a intensidade da interação entre a Deusa e o Deus, e a crescente fecundidade da terra.
Era evidente que estávamos nervosos, pois estávamos entrando em um mundo totalmente diferente do que aquele que estávamos acostumados. Para nos, falar de bruxaria é imaginar atrocidade cometida com animais ou alguma magia negra para afugentar pessoas indesejáveis em nossas vidas. Quem poderia nos garantir que no meio daquela fogueira não poderia brotar um "demônio" ou algum "anjo mal" para correr com todos nós dali? Estávamos com medo, mas o pavor e a ansiedade foi tomado aos poucos pela curiosidade e a grande sensação de paz que em doses homeopáticas foi tomando conta do ambiente.
Chega o momento esperado, ficamos de mãos dadas e em circulo ao redor das fogueiras. Alicia, adoravelmente misteriosa recita alguns versos celtas, e nos pedia que repetíssemos dando inicio a celebração de fertilidade.
De acordo com Alicia, as duas fogueiras acesas no centro do quintal, representavam um costume celta que significava livrar-se de todas as doenças e energias negativas e purificar o ambiente. A bruxa nos explicou que nos tempos antigos, costumava-se passar o gado e os animais domésticos entre as fogueiras com a mesma finalidade. Assim com o passar dos anos, veio o costume de "pular a fogueira", que é realizada nas festas juninas, que simboliza exatamente isso: a purificação.
Achamos super interessante a explicação e continuamos cantando e dançando ao redor das fogueiras. A sensação era indescritível... Talvez o vinho tenha contribuído para que nos sentirmos mais soltos e purificados, mas a verdade era que sentíamos a energia da terra subindo pelas nossas pernas e por incrível que pareça a natureza se fazia mais presente naquele instante: uma forte sensação de paixão e esperança fazia parte de todos nos naquele momento. Será magia? Ou será que simplesmente o amor do Deus e da Deusa de Maio que estavam transbordando de paixão em nossos corações?
Depois de celebrarmos em conjunto ao redor das fogueiras, Alicia nos convidou gentilmente para participar de outra tradição celtas: o Maipole - Maiopole: ou simplesmente "Mastro de Fitas", onde cada um de nós escolhe uma das fitas coloridas que fica em volta do mastro e assim todos vão girando e trançando as fitas, como se estivéssemos tecendo o próprio destino e o colocando sob proteção dos deuses. Foi um momento muito divertido, e a essa altura todos nós já estávamos completamente enturmados e contagiados com o a paixão de Beltane. Alicia se encarregou de explicar que esta tradição do Mastro de Fitas também foi incorporada às festas juninas.
Os gatos, cachorros e passarinhos de Alicia não faziam mais diferença para nos. Muito pelo contrário, já faziam parte de nossas vidas. Percebemos ao final da celebração que a magia daquela noite havia contagiado ate mesmo os animais, pois passaram todo aquele tempo em volta de nós, como se participassem e entendesse todos os nossos movimentos. Creio que naquela noite deixei a antipatia pelos gatos e agora já sinto que posso conviver com eles, pois todos nós fazemos parte de uma mesma natureza, racional que precisa ser celebrada e honrada todos os dias.
Depois dos rituais, já passava da meia-noite, ajeitamos tudo e ajudamos a bruxa a organizar tudo em seus devidos lugares (os gatos pareciam fiscais pois nos seguiam aonde íamos) e partimos para nossas casas. Cada um de nós levou um pouquinho daquela noite dentro do coração. A experiência foi única e provavelmente diferente para cada um de nos que participou da celebração.
Muitas vezes deixamos de conhecer novas experiências, por puro preconceito ou medo de conhecer o que se passa depois da nossa porta. Cada um tem uma historia para contar, e a maior gratificação da vida é conhecer e buscar momentos novos para fazerem parte de nossas vidas. Deixamos de viver por medo, por arrogância, por despeito. Mas a vida e muito mais do que aquilo que conhecemos é uma janela que deve estar aberta todos os dias, a espera de experiências novas e o toque dos raios solares que ultrapassam esses limites serve para dar vida à nossa alma. Conhecer um pouquinho das tradições celtas, através da bruxaria, foi apenas uma das infinitas experiências que podemos passar, e oxalá que possamos conhecer o mundo através dos nossos sonhos que num toque de mágica podem se tornar realidade?

A venda dos nossos olhos não é nada senão a nossa própria ignorância para a beleza do mundo. Só quem arrisca em conhecer o belo pode se dizer conhecedor de seus limites e a vida se resume na procura da felicidade, e a felicidade está em nossos corações.

DALVA DAY/Assistente Social
2003
Para saber mais acesse: http://www.dalvaday.blogspot.com/
Arquivo de Dalva e Adalberto Day

9 comentários:

Paulo Roberto Bornhofen disse...

Excelente narrativa que serve de reflexão para os nossos preconceitos.
Confesso que fiquei com vontade de participar de uma destas celebrações. Pau de fita e pular a fogueira eu já conheço, só faltam as outras.

Abraços,

Paulo

Marilia Carqueja disse...

Adorei... Enconterei os rituais de minha infância. Minha mãe era druida. Ela nos botava para apanhar chuva no quintal ( ela dizia que a água da chuva limpava os" miasmas"(???)), abraçar as árvores, encostando o corpo no tronco, pedindo sabedoria e algo que desejássemos muito.... Recolhiamos 3 pedrinhas ao sair de casa quando estávamos com diarréia. Agradecer às flores quando recebiamos algo de bom...
Parece mentira, a história de sua esposa mexeu comigo!!! Diga isso a ela!!

Jackson Nunes disse...

Como o próprio nome diz, preconceito é um conceito (errado) formado antes de ver com os olhos, conhecer a origem, a verdade. Essa frase no final que diz que "a venda dos nossos olhos é a nossa própria ignorância" já diz tudo, com certeza.
Muito reflexivo o texto, muito bom e meu obrigado DALVA DAY por me ajudar tirar a venda...

ARLETE TRENTINI DOS SANTOS disse...

É COM ALEGRIA QUE VENHO VISITAR ESTE BLOG.E SEMPRE ME MARAVILHO COM TUDO.
ESTA CRONICA REALMENTE NOS REMETE A UMA NOITE MÁGICA.UMA LEITURA MUITO PRAZEIROSA.
PARABÉNS. ABRAÇOS GASPARENSES A FAMÍLIA DAY

Antunes Severo disse...

Grato Adalberto.
Parabéns a autora pela bela história.
Antunes Severo

Anônimo disse...

Legal quando a gente aceita entrar em contato com as forças da mãe natureza! Os celtas faziam isso muito bem - povos americanos também o faziam e ainda o fazem - é muito belo entrar em contato com a nossa Abya Yala!
Parabéns!
Urda Alice Klueger

Valdir Appel disse...

Excelente, Dalva. O texto me remeteu à infância de boas recordações, dê um tempo que não volta jamais. Abraço no Beto.

Santos disse...

Que belissima cronica Sra Dalva. Muito interessante a narrativa, que prende a atenção do leitor do começo ao fim. Adoro essas narrativas. Meu pai conhecia algumas dessas historias de tradições e costumes. Na primeira oportunidade vou mandar uma dessas. Parabens Sra. Dalva. Valeu.

André Jorge disse...

Adorei a crônica... Muito envolvente. Adoro esse tipo de história. Parabéns.

@andre_sjorge

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