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segunda-feira, 11 de abril de 2011

- A descoberta do SPITZKOPF


“ A DESCOBERTA DO SPITZKOPF ”
( Die Entdeckung des Spitzkopfes ) 

CONTO DO FOLCLORE COLONIAL BLUMENAUENSE
Autor José Deeke,
Tradução Niels Deeke, neto de José Deeke
Excerto da obra “ AM  LAGERFEUER “ – Primeira Parte - Capítulo 2
Introdução Expositiva, por Niels Deeke, pertinente a compreensão do conto :
- José Deeke, na sua historieta adiante desenvolvida, reporta a forma chistosa como os blumenauenses de antanho – anos 1872 a 1895 e ainda após, referiam a conquista do cume do Spitzkopf, pelo Comandante da Guarda de Bugres, o seu pai Frederico Deeke, no fim do ano de 1872.
Realmente, como relata, antes a mando do dr. Blumenau, tentaram abrir uma picada até o topo, porém não encontraram o terreno com aclividade apropriada para implantá-la. Deeke jamais foi agricultor, sendo, porém, intrépido sertanista, topógrafo e mineralogista - que já em 1880 servia-se do magnetômetro de Gaus – além de experimentado caçador, porquanto em sua casa, construída onde atualmente está edificado o Teatro Carlos Gomes, o longo cata fumaça do fumeiro defumador esteve sempre repleto de carnes de caça abatida nas suas explorações venatórias. Nos ganchos do fumeiro predominavam os retalhos de porcos selvagens e os de antas, sendo, à distâncias, perceptível o odor característico dos chouriços e fiambres lá perfumados pela fumaça e, como os transeuntes que ali passavam, sentissem, a fome apertar-lhes os estômagos, logo passaram a fantasiar quixotescamente os audaciosos feitos daquele que foi o encarregado, do dr. Blumenau, para localizar os sítios melhor apropriados a cada especialização do imigrante recém ingresso, visando o seu assentamento em local conveniente na Colônia Blumenau, então abrangendo 10.610 km2.
Nomeado pelo governo da Província, Frederico Deeke, naquele ano de 1872, Comandante da Guarda de Bugres para a Colônia Blumenau ( Composta de 20 guardas pedestres ) logo tratou de estabelecer postos de observação à movimentação dos silvícolas em locais elevados de onde pudessem - os seus comandados - divisar os indicativos sinais de fumaça, previamente acordados entre os membros da guarda e os colonos assentados na hinterlândia. Para dar cumprimento ao seu ofício resolveu abrir a picada ao topo de Spitzkopf e igualmente ao cume do Morro do Cachorro, este do qual foi responsável o guarda Heinrich Pasold – nascido em 1849 e falecido em 1942 – que integrou o corpo de pedestres como membro da “Guarda de Batedores do Mato” sob a chefia do Comandante Frederico Deeke, e o acompanhou nas caçadas de “antas” e “queixadas”, ocasiões em que deixaram, na densa floresta, presentes variados para os “bugres” a fim de tentar o contato amistoso.
Caçar anta, queixada ou tateto era nada fácil, contudo era essa a sua especialidade, mantendo, para tal, aprestada matilha de cães treinados. Certamente sua particular atividade, que supria a própria família de farto alimento, causava alguma inveja aos seus conterrâneos no Stadplatz, onde também ele residia, porém como Deeke apesar de austero e severo era, ao mesmo tempo, bonachão e generoso, conquanto costumava agraciar toda sua vizinhança provendo-a de cortes defumados e, observe-se, sempre gratuitamente, vez que proibiu, terminantemente, sua mulher de vender até mesmo ovos de galinhas de sua exclusiva criação.

Destarte ao saberem que Deeke havia aberto a ¨ Spitzkopf Picade ¨ , logo passaram a comentar o feito mediante ¨gozação¨, associando escalada às suas caçadas à Antas e demais façanhas.
Por ter sido, então, notório o modo como Frederico Deeke referia-se a carne de Anta, aqui faço constar a maneira como a apreciava e a qualificava.
Dizia ele quando indagado como encontrara o rumo para o topo do morro : “ Fui atrás do costado de um anta, porque anta picho pon , come xente ,come cachorra”. (sic). O real significado era: “fui perseguindo visualmente o costado de uma anta, (e não montado nela) porque a carne da anta tanto é boa para a gente como para os cachorros “ ¨.
Contudo a fantasia, em parte, tinha explicação pela compreensão truncada dos ouvintes, como no português arrevesado e enxacoco com que Deeke relatava o caso, quando daquela forma se exprimia.

A Descoberta do Spitzkopf é portanto, relatada adiante sob a forma do conto de uma patranha -um chiste. José Deeke refere-se à lendária história de seu pai, o Capitão-Comandante das Guardas de Batedores do Mato - Frederico Deeke, que, em 1872, em uma de sua reais caçadas à antas, as perseguiu com sua matilha de cães até as poças do alto ribeirão Garcia, próximo ao sopé do Spitzkopf. Lá matou algumas que pôs para moquear (A), deixando-as em fumeiro alto, a salvo dos cachorros, quando, de inopino, um dos tapires seguiu, perseguido pelos cães, em carreira pelo riacho Ouro, sito a sudeste do pé do morro, contrariando a lógica que seria tomar o curso do riacho Caeté, este uma bifurcação em sentido noroeste, que geralmente os caçadores percorriam em demanda do vale do Encano. A perseguição à anta pelo riacho do Ouro resolveu o problema da escalada pois seu curso d’água atinge 85% da altura a vencer. Alcançado o cume, Deeke elaborou dois desenhos, representando os perfis panorâmicos das montanhas que podia divisar, os quais, em razão de seu ofício remunerado através da Presidência da Província de Sta.Catarina, foram entregues ao diretor Dr. Blumenau, e perdidos no incêndio do paço municipal de 08/11/1958. Daí a perseguição à anta, riacho do Ouro acima, tê-lo levado a encontrar o melhor caminho para escalar o Spitzkopf, do qual foi o primeiro conquistador, naquele final do ano de 1872.
Niels Deeke, setembro 1985

A) MOQUER. Moquear: verbo de étimo tupi, não existindo na língua portuguesa outro que o substitua - consistindo a moqueação no método de preparar conservas de carne, peixe e frutas que os indígenas e os mateiros utilizavam submetendo-as a lento calor, porque não se moqueia bem uma carne sem o espaço de três dias, pois outro processo não havia para sua preservação que não fosse mediante uso intenso do sal - in opus de José Vieira Couto de Magalhães ( 01/11/1837-14/9/1898) - “O Selvagem”- 1876 Verbete: moquear V. t. d. Bras., N. Secar {a carne ou o peixe} no moquém, para conservá-los. Bras., S. Assar « a carne » em moquém. Niels Deeke, ao elaborar estes apontamentos recordou-se da expressão inglesa “Smoked” bem como da alemã “Schmok” e percebeu que existe certa semelhança sonora entre “Smoked”, “Schmok” e “Moquém”,” todas para configurar “esfumaçado” ou “defumado”. Seria esta mais uma dentre as tantas palavras de sons e significados idênticos existentes nas línguas ameríndias e indo- européias ?
-----------------------------------N.D.----------------------------------
O CONTO :
Eu viajava sentado na seção da primeira classe em um vagão de passageiros da “Estrada de Ferro Santa Catarina” e, enquanto o trem prosseguia para Hansa (1), comecei a meditar sobre as diferenças entre a realidade e a fantasia. Fazia poucos dias que eu tinha chegado ao país e conforme também deve acontecer com os outros, imaginava que aqui fosse tudo bem diferente. Fiquei bastante desiludido com a “Estrada de Ferro Santa Catarina”, pois pouco antes de deixar a Alemanha, li uma reportagem - certamente deveria ser matéria utópica - referente a um trem, super rápido, que percorria o trajeto entre Blumenau e Assunción. No entanto, defrontava-me com a crua realidade dessa verdadeira lingüiça, cheia de curvas, com seus míseros 70 Km! Era de pasmar a enormidade do contraste entre a fantasia e a realidade.
Encontrava-me assim absorto quando, vindo da vizinha unidade da 2a. classe, entrou no meu vagão e sentou-se à minha frente, um homem idoso que, pela aparência, deveria ser colono. Logo a seguir ouviu-se gargalhadas e um grande alvoroço que provinha do vagão donde o homem saíra, e percebi que o meu novo companheiro já havia bebido um pouco e, como sempre detestei o cheiro da cerveja e cachaça dos bêbedos, fingi ignorá-lo passando a olhar através da janela, dando a entender que estivesse entretido com a paisagem da natureza.

Inicialmente meu vizinho nem se importou comigo. Encheu seu cachimbo, sempre resmungando, “bando de vagabundos - sujeitos miseráveis” e outros vitupéros. Estes resmungos certamente destinavam-se aos passageiros do vizinho compartimento de segunda classe, os quais teriam lhe aborrecido. A sucção no cachimbo fez com que o velho parasse com suas xingações e, quando o fumo estava aceso, pareceu esquecer a grosseria da qual teria sido vítima. Já então sentava-se tranqüilo - e quando eu, surpreso com seu silêncio, virei os olhos, percebi que o bêbedo rabugento se transformara num cidadão sociável.
Quando o homem percebeu que contrariamente à minha disposição anterior - agora lhe dava atenção, não perdeu tempo e passou logo ao ataque. Identificou-me como alemão novo, reconhecendo-me pelas polainas novas em folha e através de meu chapéu verde de caçador, pois perguntou se eu viera com o recente transporte de imigrantes ou se, porventura, já passara algum tempo numa colônia do governo. Respondi que havia recém chegado e não tinha, em hipótese alguma, o propósito de tornar-me colono. Desejava, principalmente, conhecer a terra e as pessoas, antes de decidir-me em definitivo.
Meu companheiro de viagem apressou-se em contar que bem jovem aportara neste país e o quanto, naquele tempo, era complicado e penoso estabelecer-se como colono e que, atualmente, era bem mais fácil , etc., esclarecendo-me todas as circunstâncias da evolução desde os primórdios da colonização.
Também informou-me de sua desinteligência quanto aos imigrantes que abandonavam a região, desistindo dos lotes coloniais onde deveriam assentarem-se, quando as atuais condições que encontravam para desenvolverem-se eram bastante favoráveis.
Eu deixava o velho dissertar, pois não podia opinar sobre tal assunto para mim ainda desconhecido e novamente passei a olhar pela janela, através da qual, ao longe, me saudava a projeção elevada do pico de uma montanha. Tive a impressão que a partir da cidade de Blumenau já a havia vislumbrado, e por isto me virei ao vizinho, a fim de perguntar-lhe a provável altitude.
“Ah, esta montanha lá atrás ? É o Spitzkopf (2)!” Disse ele. “Percebe-se que sua altitude é superior a dos demais morros ao longe e inclusive pode-se atualmente escalá-lo com relativa facilidade, pois seguindo-se pela picada, fatalmente, chega-se até ele.”
“Mas nem sempre foi assim tão simples chegar-se até lá” - continuou explicando após pequena pausa.
“Naquela época, quando cheguei a este país, o “descobrimento da montanha” não foi tarefa confortável, trazendo-me lembranças nada gratificantes, que hoje me aborrecem sempre que recordo da maneira como a descobri.”
“O descobrimento? Então o senhor descobriu o Spitzkopf ?”, exclamei surpreso e incrédulo ao mesmo tempo, pois não podia imaginar que uma montanha, visível do centro da cidade de Blumenau, mesmo que ao longe e, evidentemente, avistada pelo seu fundador bem como por todos quantos passaram pela sede da colônia, pudesse ser “descoberta” e, além de estranhar o fato, duvidei que o velho tivesse empreendido alguma expedição que o levasse ao ato do descobrimento.
Percebi que ele ficou um pouco embaraçado quando ponderou : “o senhor não deverá supor que a “descoberta” aconteceu tão literalmente quanto a definição do vocábulo dá a entender, pois a montanha podia ser vista à distância, e só assim, através do aspecto, era conhecida, contudo ninguém conseguia escalá-la - este era o problema, e aí estava o “dente do coelho”!
“O velho Dr. Blumenau, diversas vezes, enviou “batedores de mato” para lá, determinando que fizessem uma picada até o topo - mas essa gente sempre retornava sem ter concluído o trabalho, apesar de sua escalada não parecer empreitada tão difícil, quando daqui se olha para lá. Contudo chegando-se à floresta virgem, então a coisa muda de figura, porque nela só é possível estabelecer a direção correta quando se trepa até ao alto de uma das colossais árvores da selva, para, desta única maneira, poder orientar-se. Mas este recurso também se esgota a medida que se aproxime das colinas que precedem o Spitzkopf, quando então tudo fica velado, pois as montanhas e aclives circundantes ocultam o panorama à frente, e por isso se eu não tivesse, naquela oportunidade, descoberto a apropriada encosta onde fazer a picada, quem sabe lá quanto tempo decorreria até que alguém a tivesse encontrado!” Isto disse-me o homem expressando-se num tom abalizado e categórico. Como para mim as viagens de descoberta e aventura nunca deixaram de despertar enorme curiosidade, pois sempre gostei de ler, e mais ainda de ouvir contá-las, razão porque resolvi pedir ao meu colega de viagem que me confiasse a sua história do descobrimento.
O velho lançou sobre mim um olhar desconfiado, mas quando viu meu curioso e ingênuo semblante, cedeu ao meu pedido e, depois de tornar a abastecer seu cachimbo com tabaco, começou:

“Pois não, como eu ia dizendo, o caso foi o seguinte: Sempre foi possível enxergar o Spitzkopf no horizonte distante e quando aqui cheguei mostraram-mo imediatamente. Mas lá em cima, no cume, ninguém ainda estivera e também jamais sonhei que justamente seria eu o primeiro a chegar até lá. Como são, as vezes, engraçadas as ocorrências em nossa vida, não!”
“Em épocas anteriores jamais tive tempo nem mesmo para conjeturar uma expedição de descoberta ao Spitzkopf ou qualquer empreitada deste porte, pois as instalações e arranjos da minha colônia absorviam todo meu expediente, inviabilizando outras pretensões. O meu lote de terreno era um dos mais recuados nos confins do “Kannebach” (4) - esta é uma tifa à margem do grande rio e inicia a cerca de 15 Km a montante da cidade de Blumenau. Uma bonita e exuberante floresta cobria minha colônia e, no princípio, achei-a maravilhosa. Mas isto não se me afigurou desse modo por muito tempo, pois quando comecei a derrubada para fazer a roça, a floresta perdeu todo o encanto para mim. Logo construí um rancho e quando ficou pronto, admirei-me muito da minha singular arte - a obra era perfeita - ficara esplêndida. Porém tão logo desabou a primeira trovoada, percebi que havia me enganado quanto à vedação do telhado que elaborei com folhas de palmiteiro. Chovia através dele como por uma grande peneira. Afinal isto não deveria me surpreender, pois já me haviam afirmado que um telhado só poderia isolar satisfatoriamente, se executado com folhas de palmas silvestres, apropriadas para a cobertura, mas como destas não se encontrava próximas ao meu rancho, pensei que a cobertura com folhas de palmiteiro, em camada mais espessa, resolveria o caso.
Pois sim! Meu prejuízo foi certo e as gozações muitas. Mas já então isto pouco importava, precisava de folhas de palmas para aplicar no teto e por este motivo, logo no dia seguinte, me pus a caminho, à sua procura.

A portadora destas folhas, uma palmeira mirim (5), só raramente é encontrada na planície inferior do vale - pois prefere as montanhas. Com o objetivo de colhê-las, dirigi-me a uma elevação montanhosa, dentro da floresta, onde esperava encontrá-las.
Atualmente não se vê mais um único imigrante que não esteja armado com uma espingarda do tipo que se abastece com carga pela culatra, revólveres, pistolas e semelhantes armas requintadas; mas naquele tempo era muitíssimo diferente, podia-se dar por satisfeito em ter um machado, foice, facão e enxada - só com o tempo se ganhava dinheiro para comprar uma “pica-pau”(6). Portanto não pude levar uma arma de fogo na busca da folhagem, pois não a possuía, mas mesmo assim estava armado com facão e machado - duas armas que jamais falham.
A selva era muito cerrada, além de emaranhada com lianas e cipós, precisei usar o facão para abrir caminho. Como não estava acostumado à tal árduo trabalho, cedo cansei e fiquei muito feliz quando, na caminhada, deparei com um pequeno riacho arenoso, que fluía justamente vindo da direção para onde eu pretendia seguir. A partir daí não foi mais necessário abrir trilha alguma. Pulei para o leito do ribeirão e segui correnteza acima, olhando as margens a fim de descobrir o vegetal requestado.
O silêncio da mata só era quebrado por raros pios e cantos de aves e como qualquer bom mateiro sabe, geralmente ouve-se o barulho provocado pelos entes da floresta muito antes que se possa enxergá-los, e como meu interesse era localizar a determinada planta, minha atenção estava toda concentrada na procura visual.
Entrementes eu prosseguia com esse objetivo quando, destacando-se dentre os demais sons, ouvi, adiante, um ruído estranho. Inicialmente pensei que fosse o borbulhar de água que às vezes provoca diferentes sons, mas aproximando-me bem devagar, tive a intuição de que o rumor extravagante só poderia ser provocado por uma fera selvagem.

Instintivamente fui tomado de grande pavor, pois me encontrava só e desamparado, completamente isolado numa mata impérvia, densamente fechada, e sabia lá Deus perante que espécie de fera! Mas o velho Bismarck (7) já dissera há muitos anos: “Nós alemães só respeitamos a Deus e nada mais tememos no mundo”. E como esta máxima sempre foi o meu lema, não seria nessa ocasião que ficaria com medo de qualquer réptil da selva.
ortanto, resoluto peguei meu machado com a mão esquerda - e com a direita o facão, pronto para brandir e malhar e, com extrema cautela, mansamente avancei pelo mato em direção à origem do esquisito ruído. Não tardei a deparar-me com a solução do enigma. Não era nem tigre ou outra fera carnívora devoradora de humanos que ali rosnava, mas sim - para meu espanto - lá estava deitada uma enorme anta que, ressonando, descansava da carreira que, por certo, empreendeu durante a noite.
A carne de anta, depois de salgada e seca não se diferencia, quanto ao sabor, daquela que tem outro animal, quando submetida ao mesmo processo de conservação. Por isso pode-se imaginar quão exultante fiquei, pois não era pouca a minha satisfação, quando vi o “assado” estirado bem a minha frente. Se eu conseguisse matar a anta, teria, por bastante tempo, as panelas cheias, ou se desejasse poderia vender a carne. Era preciso agir rápido, não poderia esperar muito, senão o animal despertaria e fugiria. Mas como proceder? Sem dúvida não seria tarefa fácil, defrontar-me com um animal de porte tão avantajado, estava além das minhas expectativas. Num primeiro impulso pensei em usar o facão para matar o animal, porém, depois de testar seu gume, resolvi desistir de usá-lo, pois caso eu decidisse abatê-lo com esse instrumento de matança, seria necessário que o animal dormisse em sono muito profundo, o que poderia não ser o caso. Uma certeira machadada na cabeça resolveria o problema e não possibilitaria que acordasse, pelo menos assim eu supunha.
Mas, em virtude da minha posição e da maneira que a anta estava deitada, seria muito difícil vibrar uma pancada que, alcançando sucesso, fosse fatal ; a não ser que eu conseguisse ficar com as pernas abertas sobre o animal adormecido e então pudesse desferir o golpe com o machado.
Aproximei-me, cautelosamente, e passei a perna esquerda sobre o corpo do animal, enquanto me apoiava no cabo do machado. Tudo decorria a contento e conforme o previsto, mas quando quis firmar-me na posição para armar o golpe, levantando o machado ao alto, meu pé ficou preso numas raízes, fazendo-me perder o equilíbrio e, antes que eu pudesse dar-me conta do que estava acontecendo, escorreguei e me vi praticamente sentado no lombo da anta. Nisso o bicho acordou e erguendo-se de chofre com um salto, conforme acontece nestas situações a animais desta espécie, arremeteu com suas patas, pisoteando tudo o que havia pela frente.
Não querendo me expor ao risco de ser calcado pelas afiadas patas da anta, permaneci sentado em seu lombo, na posição de cavaleiro. Atirei para longe o machado e com ambas as mãos me agarrei na sua longa crina. Não pude enganchar minhas pernas, pressionando o seu ventre, pois a anta, irada, procurava de todas as maneiras me morder, tentando me desalojar da insólita posição em que me encontrava e à qual fui guindado, passo a passo, conforme minuciosamente expliquei, postura que estava forçado a manter a qualquer custo, sob risco de ser inexoravelmente despedaçado por sua fúria, e por isso, piorando ainda mais meu desconforto, tive que encolher minhas pernas, o quanto fosse possível.
Depois que, contorcendo-se, o raivoso mamífero rodopiou em círculos, quase me provocando enjôo, repentinamente disparou, galopando para frente em desabalada carreira, comigo na garupa.
Inicialmente arrojou-se ultrapassando um extenso e espesso bambuzal - meu Deus! Foi incrível! Os estalos das taquaras rachando pela quebradeira das fortes varas. Já então havia me recuperado um pouco da tontura que o corrupio me causou e comecei a arquitetar um meio de apear do lombo da anta com segurança. Nem mais pensava em matá-la, mas certifiquei-me de que ainda portava o facão na cintura.
Quando supus chegada a hora de pular, livrando-me do bicho, deparei-me, frente a frente, com uma enorme jararaca que assustando-se com o barulhão dos estalos pela maceração das taquaras, deu um bote na minha direção, impedindo-me de saltar. E assim tive de permanecer na montaria percorrendo mais um trecho da mata.

Finalmente, quando terminou o bambuzal, chegamos a um lance da floresta com vegetação mais espaçada. Resolvi que na próxima oportunidade segurar-me-ia no primeiro galho de alguma árvore resistente que aparecesse no trajeto, para assim safar-me da involuntária cavalgada.
Sem demora avistei o galho, e já ia aliviar minhas mãos soltando a crina da anta, quando de súbito, despontaram em nosso caminho os olhos cheios de cobiça de uma onça. O felino estava à espreita, empoleirado exatamente no galho que eu pretendia agarrar. Outra vez fui compelido a continuar encarrapitado no costado da anta, que a essas alturas, já penetrara no interior da selva. E como eu era ainda “alemão novo”, receei não mais encontrar a saída e além disso, essa cavalgada estava começando a me divertir, portanto decidi permanecer a cavaleiro, seguindo para tão longe quanto o quadrúpede me conduzisse, mesmo porque, naquelas circunstâncias seria uma temeridade tentar a desmontagem com bom sucesso.
E assim sucedeu que logo após a emboscada da onça, topamos com uma grande vara de porcos selvagens que, grunhindo ferozmente, estalavam e rangiam seus dentes aguçados e pareceu-me que essas feras bravias estivessem antecipadamente se deleitando com o apetitoso petisco que lhes representavam as carnes de minhas pernas, pois a tendência sanguinolenta dos “queixada (8) ” era evidente.
Depois de transpor um extenso trecho cujo chão estava enegrecido por infindável quantidade de formigas andarilhas em plena migração, tive a impressão que a brincadeira começava a cansar a anta. Ela, num rompante, mudou o curso de sua rota, dirigindo-se para um grande poço do ribeirão, onde impetuosamente jogou-se n’água.
O banho foi até agradável, pois era pleno verão. Mas a minha montaria não se satisfez com um simples banho, procurou ainda especial diversão subaquática, mergulhando todo seu corpanzil. Sempre fui ótimo em natação, tanto de superfície como de mergulho, mas competir com os bofes da anta, exigiu redobrados esforços dos meus pulmões.
Era a oportunidade de desvencilhar-me e, quando quis largá-la para flutuar na água, pois não tinha mais condições de suportar a incomoda postura, eis que surge, emergindo, a descomunal cabeça de um jacaré (8) e conseqüentemente preferi continuar no cocuruto da peluda anta. O senhor deve saber que essa ocorrência com o crocodilo não é invenção, pois ainda atualmente fazem um tremendo espalhafato quando, por aqui, capturam um destes animais, medindo dois ou três metros. Esses répteis, com seu crescimento lento, levam centenas de anos para atingir a plenitude de seu tamanho, e os enormes espécimes que aqui existiam em grande quantidade, tinham até cinco metros, porém agora estão extintos.
Jacaré ( Crocodilo brasileiro)
Desenho a tinta nanquim. Elaborado por JOSÉ DEEKE.
Acima: Estampa constante do original datilografado pelo autor, supostamente no ano de 1925, para ilustrar a página 15 do primeiro volume de sua obra "AM LAGERFEUER", junto ao capítulo ¨A descoberta do Spitzkopf”
Nisso minha anta-montaria resolveu deixar o poço e continuamos o galope quando, de repente, o mato terminou e demos numa clareira, livre de vegetação, que estendia-se a nossa frente no exato trajeto em que o tapir corria. A anta e eu, mal nos recuperamos da surpresa de nos encontrarmos sob céu aberto, quando para nosso redobrado assombro percebemos que descambáramos bem no meio de um acampamento de índios. É quase inacreditável, nisso eu concordo, mas foi assim mesmo que aconteceu.
( Desenho à tinta nanquim , executado por José Deeke, para ilustrar o seu conto) 
Para minha anta, esta nova situação nada agradava, muito menos a mim, quando, de improviso, os bugres, em grande número, ergueram-se aos gritos e saltaram nos cercando. Mas então ela - a anta - se recompôs do choque que a imobilizara estática, empinou para diante e reiniciou uma “dança em círculos”, igual àquela que executou de manhã cedo, quando a montei.
Não tardei a notar que a gritaria dos índios não era de contentamento, muito menos uma manifestação de triunfo por nos terem, virtualmente, cativos. Sim, os bons irmãos pele vermelha gritavam de medo, pois viam em mim o próprio satanás encarnado. Minha inusitada aparição, irrompendo da floresta sobre o pêlo dessa bizarra montaria selvagem, deve tê-los aterrorizado profundamente .
Os aborígenes terrificados permaneciam contritos, as crianças choravam e as mulheres, em lamentos, ajoelharam-se, enquanto articulavam uma língua incompreensível dirigindo suas mãos estendidas para mim. Os guerreiros atiraram suas armas ao longe. Quebrando sua altivez, dobraram os joelhos e ficaram acocorados tapando os olhos com as mãos, enquanto o cacique, estirado no chão, beijava a terra, mais parecendo um lagarto estatelado. Depois que, por algum tempo, assisti esse espetáculo enquanto a minha anta-montaria corria indômita em círculos pelo menos umas cinqüenta vezes, ela, devendo ter sentido vontade de tornar a galopar, saltou por cima de alguns índios acocorados no seu caminho e assim voltamos, em grande velocidade, para dentro da mata.
O terreno que até então fora alternadamente plano e ondulado, passou a modificar-se sensivelmente para o íngreme. As horas passavam e me admirava que ainda fosse dia claro, pois calculava que há muito já deveria ter anoitecido. Foi quando a anta mudou de rumo e depois de termos escalado uma elevação, arremeteu à direita para galgar a parte sudeste da montanha. O sol já declinava, dando lugar ao crepúsculo, por isso nesse galopeio desvairado eu mal via a sombra disforme das árvores que ultrapassávamos no percurso do carreiro do animal.
Montado sobre aquele roliço dorso não pude perceber que adiante, a dois metros de altura, encontrava-se um impedimento, na forma de um tronco atravessado bem no meio do caminho que impossibilitaria a passagem do meu corpo, o que fez com que afinal eu fosse abruptamente arriado da minha anta-montaria, permitindo que somente ela passasse, livremente, por baixo do obstáculo.
A alegria da anta liberada, por sentir-se aliviada do meu peso, foi tamanha que bufou um sonoro rosnado, cujo som estridente foi seguido por um intenso resfolegar grunhido pelas ventas de sua pequena tromba e, sem mais, em desenfreada carreira atirou-se montanha abaixo. Como eu estava diante do tronco de árvore contra o qual, de supetão, bati com a cabeça e, aparvalhado com o crânio zunindo, nem percebi, de imediato, o que me aconteceu.
Não poderia, entretanto, perder muito tempo, pois escurecia depressa e o lugar onde estava prostrado não era nada convidativo para pernoitar, assim levantei-me e me empenhei em alcançar o alto do morro, onde parecia haver ainda alguma claridade.
A medida que escalava, o morro tornava-se sempre mais escarpado e difícil de galgar, em contrapartida, a floresta rareava, permitindo enxergar melhor. Por fim só havia mesmo um matinho bem escasso, e após esforçar-me para vencer mais um lance de subida, encontrei-me na superfície plana do PICO DA MONTANHA.
Lá em cima ainda estava bem claro e no panorama que se descortinava do vale lá embaixo, pude reconhecer muitos detalhes como o “Stadtplatz Blumenau”(9). Foi então que tive a certeza de que encontrava-me no cume do SPITZKOPF.
“Muito bem...”, disse o velho tão logo chegou, com sua narração até este ponto, “aqui o senhor tem a história do descobrimento do Spitzkopf.”
“Perdoe-me”, disse eu entrando na conversa - “mas está faltando o mais importante, a descoberta do acesso para fazer a picada”.
“Ah! Sim a picada”, respondeu o velho. “Isto foi elementar. Depois de uma noite bem dormida no cume do Spitzkopf, só precisei, na manhã seguinte, avançar rumo ao centro da cidade que era possível avistar lá de cima. Dessarte após torcer meu nariz na direção correta, saquei do meu facão e abri uma picada, sempre seguindo a linha reta indicada pela ponta de minhas narinas.
Fui avançando adiante até a metade do dia, abrindo desta maneira minha trilha, quando topei com uma picada quase pronta. Certamente era trabalho dos colonos que haviam procurado o Spitzkopf, pois era muito bem elaborada, e prossegui aceleradamente sobre seu leito, de sorte que, a tarde, pelas quinze horas, cheguei ao primeiro, ou melhor, ao mais distanciado colono residente no interior do Vale do Garcia.
O gentil pessoal quando me viu tão maltrapilho, inicialmente pensou que eu fosse um bugre - pois quando saí do mato, em razão da atropelada cavalgada, muito pouco tinha sobrado de minha roupa. Entretanto depois que lhes contei a minha aventura, não cabiam em si de surpresos.
Continuei minha caminhada para a cidade, não antes de ter-me recomposto um pouco e mitigado a fome de meu estômago vazio. Cheguei à cidade à noite - e o Dr. Blumenau ficou muito satisfeito após tê-lo comunicado que, derradeiramente, o SPITZKOPF estava descoberto e conquistado.
Até esta parte o velho foi com sua história, e eu ainda desejava ouvi-lo falar mais dos “bons tempos antigos”, mas nesse momento o trem parou na estação onde meu companheiro de vagão teve que desembarcar, e isso ele fez mais que depressa.
Contudo, pelo resto da viagem, fiquei sempre recordando a curiosa cavalgada do velho colono e durante a noite sonhei, imaginando quantas das mais diversas espécies de animais selvagens, poderiam ser utilizadas como montaria.

FIM
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NOTAS de FIM – por Niels Deeke
1) Hansa-Hammonia, atual município de Ibirama. Sua colonização teve início nos últimos anos do século XIX. Em 30 de março de 1897 foi, em Hamburgo, organizada a “Companhia Colonizadora Hanseática”, que tinha por finalidade povoar os Vales dos rios Hercílio e Itapocu e para tanto obteve concessão do Governo (Estadual de Santa Catarina). A 07 de novembro de 1897 o Eng.º Odebrecht, junto com seis trabalhadores brasileiros e um cozinheiro alemão e, no exato local onde, em 1996, encontrava-se edificado o “Forum de Ibirama”, acamparam e passaram a noite de 08 para 09 de novembro de 1897, quando Sellin registrou no seu diário que o sítio era muito propício para a instalação de um núcleo colonial. Exploraram detidamente a região denominando-a Hammonia. O perímetro geral foi levantado pelo Engº Odebrecht que conteve uma área de 126.332,70 hectares à qual , depois de agregada às terras do rio do Cocho, formou um complexo de 127.318,047 hectares. Providenciaram a construção de um grande galpão para abrigo provisório dos primeiros colonos que procedentes da Alemanha, que começaram a chegar em 1899. Compunham a primeira leva de imigrantes as famílias de Karl Engelhardt, Lüdau, Kitzinger, Ochmann e Conrado Wagner, este solteiro. Mais tarde para lá também afluiriam alguns elementos de ascendência italiana. A Resolução nº 60 de 13/3/1912, do Conselho Municipal de Blumenau, assinada por Paul Gerhardt Hering, criou o Distrito de Paz de Hammonia. O progresso foi incrementado a partir de 1909, sob a administração de José Deeke, e já em 1912 deu-se a criação do Distrito de Hammonia, integrado a Blumenau. Pelo Decreto nº 498 de 17/02/1934 foi criado o Município com o nome de Dalbérgia, com sede no lugar de igual nome, em terras desmembradas de Blumenau. Município de Hammonia, criado pelo Decreto 498 de 17/02/1934 e instalado em 11 de março de 1934, entretanto o nome de Dalbérgia, só foi alterado novamente para Hammonia um ano após sua instalação . Menos de dois anos após, o município retornava ao nome primitivo “Hammonia”, passando a sede para o lugar de igual nome. Em 1943, por Decreto, foi alterada a denominação que de Hammonia, passou para “Ibirama”, nome dito tupi, que segundo alguns intérpretes significaria “terra da fartura” ou “terra da promissão”, ou ainda “ pátria verdadeira”.
Alemão Novo : alemão recém imigrado. (Fritz-neuer)
2) Morro Spitzkopf: Montanha no município de Blumenau, com aproximadamente 920 metros de altura (a altura do morro oficial pelo IBGE é de 913,98 metros - 914 metros arredondados)
3) Batedores do Mato : O grupo de “Batedores do Mato”, citado por José Deeke na obra “Am Lagerfeuer”, era constituído, na Colônia Blumenau por intrépidos colonos, geralmente em número de vinte indivíduos, escolhidos por um “Comandante” cuja pessoa era diretamente remunerada através o erário público da Província de Santa Catarina. Este era pelo menos o caso que se observava quanto à “Guarda de Batedores do Mato” comandada oficialmente por Frederico Deeke desde 1872 até 1879. A Guarda chefiada por Frederico Deeke foi suprimida por Aviso Ministerial expedido em 23 agosto de 1879.
4) Kannebach : Ribeirão Encano , sito no atual município de Indaial. Afluente da margem direita do Itajaí Açu, na foz do qual situa-se a “Fecularia Lorenz” junto a um represamento das águas do ribeirão. Possui, na distância de 10 Km da foz, um afluente à margem direita, o ribeirão Espinho, que o ribeirão mencionado como ¨ riacho arenoso¨, que fluía vindo da direção do Spitzkopf. Trata-se, o ribeirão do Espinho, do pequeno afluente da margem direita do ribeirão Encano, cuja confluência acontece a, aproximadamente, 10 km para montante, a partir da foz no Rio Itajaí Açu.
5) Pica Pau : Espingarda. Arma de fogo com recarga pela boca do cano.
6) Palmeira mirim : Guaricana ou guaricanga, possui folha de sapê - usada para cobertura de ranchos. Também conhecida como Uricana ou Uacanga- sendo estes dois últimos vocábulos corrupções de “guacanga” ou “aguacanga”.
7) Bismarck: Carlos Otto Eduardo Leopoldo Bismarck, 1815-1898. Primeiro chanceler do império alemão, então por ele unificado unindo a Prússia aos demais Estados Germânicos. Criador do 1º Código Trabalhista Alemão. Otto von Bismarck-Schönhausen. Político alemão responsável pela unificação de seu país, em 1871, e chanceler do governo imperial.
8) Queixada : Porco do mato que por ter cerdas negras e beiços brancos, é conhecido também por “Queixo Branco”- Javali brasileiro, em tupi : Taja, Tajaçu, Tayaçu. O Porco do Mato menor é o Taititu ou Tateto
8) Jacaré. Na região do baixo rio Itajaí Açu. Nos primórdios, dentre as seis espécies de jacarés existentes do Brasil, realmente, haviam consideráveis quantidades de jacarés-de-papo-amarelo (Caiman latirostris) desde Ilhota até a foz do rio Itajaí Mirim, bem como no próprio Itajaí Mirim. Ainda na década de cinqüenta (1950-60) na região da Canhanduva, em Itajaí, nos brejos e alagados do Rio Pequeno e margens do Itajaí Mirim podia-se apreciá-los, estirados ao sol do meio dia, nos meses de janeiro e fevereiro. Consta da revista “Bl’au em Cadernos”- Tomo II nº 06 p. 114- título “Notícias de Brusque e Nova Trento de D. Arcângelo Ganarini que “antes de 1880 um “jacaré” foi capturado em Nova Trento e os brasileiros o comeram qual um manjar”. Também havia muitos espécimens na região da foz do rio Luís Alves, margem esquerda do Itajaí Açu, na “Fazenda Fruteira”, que por volta de 1950 era propriedade de Ralf Bruno Gross, falecido em 09/5/1963, industrial da firma “Mafisa”, de Blumenau.
9) Stadtplatz Blumenau. centro da cidade de Blumenau - literalmente “espaço da cidade”, logo centro da cidade.
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2 comentários:

Prof. Wieland Lickfeld disse...

Caro Adalberto, eu já havia lido a respeito do conto "Am Lagerfeuer", e me foi um prazer muito grande poder lê-lo, na íntegra, em seu blog. Meus agradecimentos ao Dr. Niels Deeke pela sua generosa colaboração, tanto ao traduzir o texto para o português, facilitando, assim, o acesso de mais pessoas a este conhecimento, quanto ao prover o texto de importantes esclarecimentos. O Spitzkopf é, sem dúvida, um símbolo blumenauense. Quem já esteve em seu cume, jamais deixa de ser lembrado desta experiência inesquecível toda vez que, trafegando pela cidade ou região, observa-o, ao longe, altivo, como se sentinela do vale fosse, qual rei governando, soberanamente, a paisagem que o cerca. Conhecer os primórdios de sua primeira subida até o cume é enriquecedor para todos nós que temos interesse na história de Blumenau. Muito interessante também a discursão a respeito do moquém, termo pouco utilizado em nossos dias, talvez até pouco conhecido. Recomendo a leitura da interessantíssima obra "Viagem à terra do Brasil", na qual o teólogo calvinista francês Jean de Léry (1534-1611) relata sua experiência no Brasil no contexto da malograda tentativa colonizadora de Villegagnon: a França Antártica. Discussões de cunho religioso fizeram com que este protestante, minoria entre católicos, acabasse exilado em terra firme e tendo um longo convívio com os tupinambás, silvícolas canibais cujos costumes ele descreveu com riqueza de detalhes. Referindo-se às raízes 'aypi' e 'maniot' (nossos velhos conhecidos 'aipim' e 'mandioca'), e de como eram preparados pelas mulheres, escreve: "(...) secam-nas ao fogo no 'bucan' (...). Mais adiante, ao descrever o preparo da carne de animais (o mesmo tratamento era dado à carne de inimigos sacrificados), de Léry relata: "(...) os selvagens a preparam à sua moda, moqueando-a. (...) enterram profundamente no chão quatro forquilhas de pau, enquadradas à distância de três pés e à altura de dois pés e meio; sobre eles assentam varas com uma polegada ou dois dedos de distância uma da outra, formando uma grelha de madeira a que chamam 'boucan'. Têm-no todos em suas casas e nêle colocam a carne cortada em pedaços, acendendo um fogo lento por baixo, com lenha sêca que não faça muita fumaça, voltando a carne e revirando de quarto em quarto de hora até que esteja bem assada. Como não salgam suas viandas (carnes) para guardá-las, como nós fazemos, êsse é o único meio de conservá-las. (...) Em suma, estem 'moquem' lhes servem de salgadeira, aparador e guarda-comida; (...) Eis o que tinha a dizer acêrca do moquém e da moqueação (...)". O substantivo tupi 'bucan' (ou 'boucan', na tradução latina) tem origem no verbo 'mbokaê, 'mokaê', tornar seco, enxuto, etc., cf Plinio Ayrosa em "Têrmos tupis, no português do Brasil", de 1937. Como já explicou o Dr. Niels Deeke, deste verbo surgiram os vocábulos portugueses 'moquém', 'moquear',
'moqueação, etc. A partir dele, os franceses criaram 'boucan', 'boucannerie',
'boucanage', entre outros. Os ingleses dele tiraram 'bucaneer', 'bucaneering', etc. Não deixa de ser curioso que dali surgiu o termo haitiano 'barbacoa', que deu origem ao inglês barbecue, utilizado, em ambos os casos, para fazer churrasco, assar carne na brasa. Inclusive o termo bucaneiro, para designar piratas, teve origem neste termo tupi, numa das muitas facetas do processo que dá origem às palavras. Esclareço que, ao transcrever partes do texto original, mantive-o fiel à grafia original, cf a ortografia vigente no Brasil em 1961, ano da publicação da obra pela Biblioteca do Exército Editora. Grande abraço!

Prof. Wieland Lickfeld disse...

Prezado Adalberto, o relato do jacaré me fez recordar um evento da minha infância, na segunda metade da década de 1960: ao cruzar, com meu falecido pai, a ponte sobre o Ribeirão Garcia existente à Rua Sete de Setembro, este me chamou a atenção para algo que se parecia, à primeira vista, um pequeno tronco de madeira. Tenho a viva lembrança de que se tratava de um pequeno jacaré. Aliás, quando moramos, por breve período, à Avenida Brasil, junto à ponte Aldo Pereira de Andrade, numa casa com terreno cujo fundo dava para o rio, meus pais sempre ordenavam que se deixasse o portão dos fundos fechado, pois poderia haver jacarés ali. Talvez apenas queriam nos assustar, manter-nos longe da tentação de ir até próximo ao rio, pelo risco que isso podia representar para nós, mas a origem do temor poderia ser de lembranças ainda recentes. Certo é, pois ainda me recordo deste passeio num domingo de manhã, que havia um senhor residente junto à Ponte dos Arcos, que mantinha em cativeiro alguns pequenos jacarés. Donde teriam vindo? Do Itajaí-Açu ou de algum de seus afluentes? No tocante ao queixada, o Dr. Niels cita o taititu ou tateto. Outras formas de nominá-los que se popularizaram são caititu ou cateto. Grande abraço!

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