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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

- No tempo da ditadura

A escritora e Colunista Urda Alice Klueger, nos apresenta uma crônica sobre a tal época da ditadura, o golpe de 1964, em que seu amigo Ivo Hadlich e tantos outros foram para a segunda opção de partido que era o MDB, sem saber na verdade o que significava. O governo que inicialmente teve a frente o General Humberto de Alencar Castelo Branco (que visitou Blumenau e Artex em 1965), instituiu dois partidos, ARENA x MDB. A maioria absoluta foi para o lado da ARENA, e praticamente não houve oposição. E sem oposição não dava, e nunca dará certo. Até instituições religiosas apoiavam o regime implantado pelos militares (sei disso pois acompanhei de perto mesmo sendo criança). Ulysses Guimarães liderou o MDB nacional e foi a cata de adeptos.
Aqui em Blumenau, lembro de algumas pessoas que foram presas, na Rua Amazonas e Glória. Eu conheci alguns, mas confesso que até hoje não sei direito porque foram presos. Nas empresas principais de nossa cidade, se falasse de MDB eram repreendidos, agora se votassem para o partido eram demitidos. Havia uma caça a essas pessoas, e por isso aos poucos o partido dominou e reinou em Blumenau por alguns anos. Já com 15 anos, fui trabalhar na Empresa Garcia, Artex e pude presenciar esses momentos infelizes. Mal sabiam os patrões que dessa forma, trabalhavam contra si próprio, o efeito era contrário. Até perceber que não deveriam interferir, já era tarde demais. Isso ocorreu de 1964 até o final dos anos 80, sei disso pois trabalhava em Recursos Humanos da Garcia e Artex.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da História.
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Por Urda Alice Klueger
Um amigo, faz uns tempos, emprestou-me um livro onde um jornalista entrevistava oficiais do exército brasileiro que deram “sustança” ao golpe de 1964, que apoiaram os generais para que tudo desse certo. Eu fiquei boba quando li aquilo: os caras não tinham o mínimo preparo para o que estavam fazendo, foram, mesmo, “na onda”, acreditaram em tudo o que lhe disseram e se deixaram guiar direitinho por um tal de Estados Unidos, que naquele momento desejava governos militares para o resto do continente americano. Na ocasião, fiquei de queixo caído, mas mais de queixo caído fiquei, mesmo, foi na semana passada, quando, conversando com meu amigo Ivo Hadlich, muitas vezes vereador em Blumenau pelo PMDB, soube de umas coisinhas mais.
Na foto : Presidente Castelo Branco, Ingo Hering (Hering) Jorge Buechler (Garcia) , Carlos Curt Zadrozny (Artex)
Presidente da República - Humberto de Alencar Castelo Branco em visita a  empresa Artex S/A em maio 1965 - atrás a (E) Carlos Curt Zadrozny (D) Governador Celso Ramos
No final da conversa eu perguntei ao Ivo: “Vem cá, tu tinhas alguma formação política? Tu eras marxista, ou alguma coisa assim, por exemplo? O que te levou a querer participar de um MDB que estava nascendo?” (Para os mais jovens: MDB foi o antepassado do PMDB, a única opção que havia para os corajosos serem contra o governo da Ditadura.).
O Ivo me disse que não. Contou-me que era extremamente jovem, então, e que, como tal, gostava de rebelar-se contra o estabelecido. Foi isto que o levou ao MDB, sem a menor formação política, e contra a vontade da família. É muito engraçado o jeito como ele conta que sua mãe tinha tanto medo de vê-lo na oposição, que pedia para que ele se escondesse no mato.
Assim, tínhamos um jovem politicamente despreparado para lutar contra a Ditadura, e num instante ele foi preso, levado para o Quartel do Exército, onde amargou horas e horas esperando para saber o que iria acontecer. Finalmente, falaram com ele, e ele foi acusado de ser comunista. COMUNISTA? O que era aquilo? Gente, ele me garantiu que não sabia – foi depois daquela prisão que ele acabou indo se informar, entender o que era aquela palavra.
Bem, mesmo não sabendo o que era, o Ivo Hadlich, devidamente taxado de comunista, fazia seu papel no MDB. E como haveria eleições municipais, ele e um amigo saíram a ajudar o partido. O que levavam? Cartazes para colar nos postes, um balde de cola de trigo, e uma escada de carpinteiro. Onde é que carregavam tudo isso? Sobre uma minúscula lambreta, com suas rodinhas de nada – um dirigia e o outro ia no banco de trás, e os dois se equilibravam, principalmente na coisa de carregar uma comprida escada. Fica implícito que paravam a cada poste, encostavam a escada, subiam, e colavam lá em cima o retrato do seu candidato.

Daí, chegaram a uma região de Blumenau chamada Itoupava Central, onde funcionava a falecida Cia. Jensen, que muita manteiga e muita lingüiça produziu para todo o Brasil, no passado. Os nossos perigosos “ comunistas” também deram sua paradinha lá, para colar cartazes nos postes. E o que aconteceu? O guarda da Cia. Jensen, sem a menor cerimônia, foi lá e prendeu tudo: a lambreta, a escada, o balde de cola, os cartazes, mesmo estando eles em via pública e o guarda ser segurança de uma empresa particular.
E então, e então, o que aconteceu? Claro que o Ivo Hadlich e seu companheiro, jovens como eram, espernearam e reclamaram, até que o dono da empresa (o mesmo que mandara prender as coisas), acabou liberando tudo de novo. Já era noite, no entanto, e os nossos heróis receberam sua lambreta ... com o tanque cheio de areia! Que lhes restava fazer naqueles tempos difíceis, onde quase não havia condução? Um deles empurrou a lambreta, enquanto o outro carregava a escada e o balde, e pela rua escura e sem calçamento, andaram os doze quilômetros que faltavam para chegarem em casa. Ainda bem que eram jovens!
Pois é, este tipo de coisa era comum na Ditadura. Arbitrariedades aconteciam a toda hora. Quem não viveu aquele tempo, nem faz idéia. É por isso que gosto de contar um pouquinho, de vez em quando.
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Blumenau, 11 de Abril de 2003.

Urda Alice Klueger escritora
Arquivo de Adalberto Day

5 comentários:

Cao Zone disse...

Bravíssina Urda, muito bom resgatar essas histórias de nosso passado político recente, agora visto daqui, aquela ferrenha ditadura de outrora, parece que se transforma apenas numa ditabranda. Também foi muito bom rever o caminhão da Frigor, saudades daqueles potes de vidro que vinha o leite. Serviam para qualquer líquido na geladeira, principalmente quando tampados com um sabugo da espiga do milho.

Prof. Wieland Lickfeld disse...

Caros Adalberto e Urda, é curioso observar as sensações que a lembrança do período 1964-1985 evoca nas pessoas a partir da sua experiência pessoal, que as credencia a uma manifestação genuína sobre o tema. Não me refiro ao conhecimento adquirido a posteriori, pois este, apesar de ter valor, não credencia a falar de uma experiência pessoal. Eu tinha 1 ano e meio de vida quando os militares tomaram o poder e talvez por isso não guardo qualquer recordação negativa do período da ditadura. Tinha toda a liberdade que queria e, haja vista a pouca idade, como qualquer criança, acreditava viver num mundo perfeito. Creio que a geração dos nascidos naquela época em famílias com o mesmo perfil da minha deve ter sido considerada "ideal" pelo regime em vigor. Não tendo vivenciado os primórdios da nova situação, ao atingirmos idade escolar, considerávamos tudo "normal" e tínhamos respeito pelo então Presidente Emílio Garrastazú Médici. Talvez o fato deste se apresentar na maioria das vezes em trajes civis fizesse parte de uma estratégia para parecer mais simpático aos olhos da população, mais "presidente" do que "general". Tudo, é claro, ao som de "Eu te amo, meu Brasil" e "Este é um país que vai pra frente", canções alegremente entoadas pelos Incríveis e amplamente tocadas pelas rádios. Pode parecer chocante para quem sentiu a perseguição na própria pele, mas arrisco uma explicação. Minha família, luterana e de ascendência alemã, muito dada ao trabalho, pouco politizada e de parcos recursos, "era da ARENA". E tinha que ser, acreditava-se, por uma questão de respeito às autoridades, por entender que a nova ordem havia sido instaurada para garantir a segurança e o progresso do país. Meu pai tinha 10 anos de idade quando sua escola foi alvo da Campanha de Nacionalização e isso teve reflexos que o marcaram para sempre. Deu-lhe um sentimento de civismo incondicional, fazendo com que tivesse um profundo respeito às autoridades e aos símbolos nacionais. Para muitos que viveram nesse contexto, "ser do MDB" não era considerado bom, pois, segundo se dizia, estes eram comunistas e ateus, e iriam proibir as igrejas como aconteceu na URSS. Convém lembrar que a Guerra Fria estava no auge, que ainda não estavam esquecidas as lembranças do dilema de Kennedy no episódio da Baía dos Porcos, que a Guerra do Vietnã estava em curso. É compreensível que muitos de nossa geração encarassem com naturalidade os presidentes seguintes, Ernesto Geisel e João Baptista de Oliveira Figueiredo. O ano de 1985 marcou o fim do processo de abertura política demandado pela oposição ao regime, paulatinamente reconhecido e apoiado pelos militares no poder. Minha geração viu também esta transição de forma tranquila, pois foi politizada num momento em que os ânimos já não estavam tão acirrados, quando o processo de redemocratização já dava sinais de que, a seu tempo, seria bem sucedido, ou seja, minha geração atingiu sua maturidade justamente quando a ditadura chegava ao fim. É curioso, mas, com todo respeito às pessoas que sofreram perseguições, para nós fica quase a impressão de que a ditadura, no viés tenebroso como quase exclusivamente é lembrada em nossos dias, sequer existiu. É como se tivéssemos vivido protegidos, num mundo paralelo, e hoje nos é permitido ter ciência da realidade dos fatos, mas sem cobranças, sem que tenhamos que carregar um peso na consciência por conta disso, pois não fomos covardes nem omissos, talvez apenas "privilegiados" pelo calendário. Um grande abraço aos dois!

Paulo Roberto Bornhofen disse...

Adalberto

Este tipo de resgate é importante, principalmente sendo um depoimento de quem viveu os fatos.
Eu estou na mesma situação do Prof. Wieland (sou um pouco mais velho, nasci em 64, mas não em 31 de março, rsss).
Quando abracei a minha profissão procurei ler muito sobre aquele período e procura livros que relatavam o lado da chamada esquerda. Com o tempo os livros começaram a se repetir. Praticamente mudava o título e o autor, mas o conteúdo era uma repetição de outros livros.

Parabéns por manter e atualizar constantemente este blog.

Parabéns, também, ao Prof. Wieland por seu depoimento. A nossa geração não têm manifestado sobre este período.

Abraços,

Paulo R. Bornhofen

Professor Josimar disse...

É muito prazerozo aprender acerca de um fato histórico com alguém que é testemunha ocular dele. A ditadura teve seu lado sombrio, mas certamente trouxe grandes avanços para o Brasil. No entanto, nada melhor do que poder exercer a cidadania e ser livre para expressar sentimentos e opiniões sobre a política e os políticos. Abraço.

Anônimo disse...

Curiso que passado essa fase do Regime Militar, os partidos de esquerda, no poder na eleição de 31 de outubro de 2010, apelaram para o mesmo gesto (com discrição), forçando a classe trabalhadora votar no PRI "peteismo", pois do governo atual receberam e ainda recebem, os incentivos para atuarem na China. Dai a aliança perigosa que nasceu entre empresários e o atual governo. Para o trabalhador, qual será o destino da "mexicanização" do Brasil? A Alemanha nazista, também prometia dias de glória para a classe trabalhadora. O resultado da alienação dos alemães, não é preciso narrar, pois é de conhecimento da civilização moderna. O moderno do Brasil será repetir grosseiramente, o erros do europeus? O Brasil precisa da foice, do martelo e da cor vermelha?

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