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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

- Revolução de 1930 em Blumenau

Revolução de 1930 em Blumenau através de imagens
Texto enviado por Rafael José Nogueira

A fotografia tem sempre sido deixada em segundo plano na historiografia. Ainda que a noção de documento tenha se ampliado no século XX, os documentos escritos continuaram predominando na reconstrução dos fatos históricos. As imagens são sempre os “anexos” isto é, a parte decorativa, muito pouco problematizados. A imagem é vista em muitos estudos como apenas arte. Visão essa errada. A imagem também é um texto que deve ser lida. A imagem é o texto e o texto é a imagem. Como documento histórico as imagens merecem ter o mesmo tratamento que as fontes escritas. A Revolução de 1930 foi amplamente fotografado em todo o Brasil. Em Santa Catarina não foi diferente. Maria Luiza Tucci Carneiro aponta alguns pontos a serem analisados quando olhamos as fotos do movimento:
    a)     A geografia do movimento (seus avanços e recuos);
         b)     A atitude da massa e dos indivíduos diante da ideia de revolução;
         c)     A construção dos novos mitos e a destruição de antigos valores;
        d)     O papel sócio-político da mulher;
        e)     O jogo de compromissos morais e políticos;
        f)      O poder em cena;
       g)     O papel da igreja e do Exército;
       h)     A construção do cenário político. (CARNEIRO, 1988, p. 266)
              Propomos fazer uma pequena análise de três fotografias tendo como local a cidade de Blumenau durante o evento da Revolução de 1930. Vamos a elas.
            A primeira imagem é famosa, retrata a estação ferroviária ao fundo e podemos ver muitos soldados revolucionários e alguns populares. Não temos a data exata. Pela descrição na foto “Tropa gaúcha” na foto e cruzando com outras imagens e fontes podemos afirmar que ela foi tirada em Outubro ou Novembro de 1930 durante a revolução e mostra soldados aliancistas. A foto pode ter sido tirada entre o dia 10 de Outubro e a primeira quinzena de Novembro quando ocorreram muitas movimentações de tropas conforme Emembergo Pellizzetti [1] relata em seu diário. Uma estação ferroviária é sempre um lugar de passagem de histórias, sonhos, ideias e projetos. Muitos daqueles soldados possivelmente vislumbravam um Brasil novo, bem diferente do atual oligárquico e sob o comando dos coronéis contribuindo para a manutenção da miséria e da desigualdade na jovem república. Há um soldado na parte direita mais abaixo olhando parece-me para o trem que possivelmente iria partir logo. Que pensamentos este soldado tinha neste momento? Será que ele tinha medo ou animação por estar participando daquele movimento? Vemos ainda um senhor com uma criança ao seu lado como já observado é possível ver “A atitude da massa e dos indivíduos” mediante as tropas ali estacionadas. Demonstra apatia e não muita curiosidade. Este senhor teria noção do que estava acontecendo? E a criança que imaginário ele deve ter criado em sua mente sobre aquilo?
Perguntas que ficam para serem respondidas em futuras pesquisas.



[1] O pesquisador que deseja pesquisar sobre a participação de Blumenau na Revolução de 1930 deve consultar o diário apresentado por sua filha Beatriz Pellizzetti Lolla: PELLIZZETTI, Beatriz. Memórias de um Italiano na Revolução de Trinta em Santa Catarina. Editora da FURB. Blumenau, 1997.
  
 IMAGEM A: Forças revolucionárias gaúchas passando por Blumenau - Ao fundo o prédio
 da Estação Ferroviária, construída com a técnica construtiva enxaimel.

                     A segunda imagem de 27 de Outubro de 1930 mostra soldados revolucionários e civis perfilados na frente da estação ferroviária. A foto em questão foi tirada pelo Sr. Mathias Haas que tinha comércio próximo ao local. Na foto vemos os rostos dos vencedores de quem fez a revolução. Está representado o “novo regime”. Tenta-se mostrar um novo Brasil. Para Maria Luiza Tucci Carneiro: “Impõe-se, para aqueles que estão em cena, aparecer no melhor plano possível, conduzindo a mudança ou a revolução. Nunca ser conduzido. As imagens permanecem e sobre elas, a ideologia política. “ (CARNEIRO, 1988, p. 272). Washington Luís já tinha caído assim como Fúlvio Aducci em nosso Estado era a hora da vitória. Toda vitória deve ser comemorada e registrada. Assim o novo regime memorializa o seu poder e constrói seu culto próprio. A foto ser em frente à estação ferroviária não é por acaso, tem um simbolismo por trás. É desse espaço transitório de passagem que iriam partir rumo ao Rio de Janeiro festejar o ato final com Vargas assumindo o poder. Reparemos na imagem que existem alguns civis. Uns apenas posando para foto para deixar registrado sua participação e alguns empunhadas armas. Provavelmente são voluntários do Batalhão Patriótico coronel Severiano Maia. Um dos únicos batalhões de voluntários de Santa Catarina. As massas foram anônimas, coadjuvantes em Santa Catarina. Pouco participaram do movimento, comparado ao Paraná por exemplo. Pude constatar que nestas imagens e em outras sobre Blumenau as mulheres são praticamente inexistentes. Quando muito são claramente mulheres de uma classe privilegiada. São sempre homens mostrando-se como os novos condutores do movimento que vai mudar o Brasil. Demonstram em suas poses seu poder de conduzir o novo processo político.
IMAGEM B: Forças Revolucionárias gaúchas passando por Blumenau - Estação ferroviária de Blumenau – EFSC. Fonte: Sr. Mathias Haas - Que tinha seu negócio próxima ao local.

        A terceira imagem também conhecida e parecida com a primeira foto apresentada mostra militares e milicianos rebeldes passando por Blumenau. Muitas dessas fotos acabaram tornando-se cartões postais do movimento de 1930. Neto nos informa que o cartão postal em questão foi enviado de um parente a outro: “Cartão postal enviado por Mario Reu à sua prima, Veronica Reu” (NETO, 2012). Podemos afirmar que pela descrição do pesquisador Neto sobre a imagem “durante o final de outubro de 1930” (NETO, 2012) em cruzamento com outras fontes que a foto foi tirando entre 11 de Outubro e a primeira quinzena de Novembro. Emembergo Pellizzetti registrou em seu diário no dia 15 de Novembro sobre o fim das movimentações: “Agora que não se falla mais de passagem de tropas e que está formado um Governo Nacional provisório [...]” (PELLIZZETTI, 1988, p. 199). Apenas Florianópolis continuou ocupada por ter sido um foco de resistência. Na primeira imagem que é bem semelhante já fizemos a análise iconográfica. Vamos por isso agora nos concentrar em outras questões para não se tornar repetitivo a análise.
            O primeiro ponto é considerar o número de repetições da foto em espaços de comunicação diversos, tanto de admoestações para a parte iconográfica como as proposições sobre a produção e a temática. Essa tarefa em relação ao cartão postal como é o caso da nossa fonte pode apresentar obstáculos nessa avaliação por isso nos leva ao segundo aspecto a ser considerado: os textos e inscrições. Na imagem na parte superior mais ou menos no meio temos a seguinte descrição: “Blumenau – Revolução 1930”. O uso da palavra “revolução” demonstra uma tentativa de valorizar e evidenciar o evento ao enviar o cartão postal a um parente. A discussão se o que aconteceu em 1930 foi de fato uma revolução ou apenas um movimento armado sem causar transformações no tecido social a ponto de chamarmos de revolução é enorme e tem gerado debates entre os historiadores quase 90 anos após o acontecimento.
            Um terceiro apontamento sobre cartões postais é a repetição do tema e de organização em séries de documentos. Não tive acesso a essas informações com mais aprofundamento. No pouco apurado fica a impressão que o tema é recorrente em alguns veículos de divulgação quando série de imagens de 1930.
            O quarto e último ponto é sobre os modelos visuais que saem das recorrências entendidas como construções de práticas sociais e edificação de sentidos. Para Carvalho e Lima: “Um bom exemplo dessa eficácia é aquele em que imagens são reapropriadas em esferas de circulação distintas daquelas para as quais foram produzidas. ” (CARVALHO; LIMA, 2008, p. 47). Esses tipos de reapropriações podem ser estudadas por pesquisadores em outros trabalhos. Quanto aos sentidos já delineados aqui, temos o espaço da estação ferroviária lugar de passagem, sendo uma área de carga simbólica na cidade neste momento: centro de mobilidade vital na passagem das tropas até o Rio de Janeiro e o mais importante qual a importância dessa designação de símbolos e sentidos para os habitantes anônimos que observavam todo esse movimento? A estação ferroviária como sinônimo de agente de transitoriedade pode ser confirmada nas recorrências de fotografias tendo a estação ferroviária ao fundo compondo a paisagem. Houve também uma migração do cartão postal fabricado originalmente para ser um elemento de memória para um documento histórico, sem perder no entanto o valor memorialístico e de lembrança.
            Se o cartão círculos entre familiares seria uma pratica cultural do retratar-se? Caso o pesquisador adote essa abordagem precisara compreender que em primeiro lugar deve levar-se em conta o seu caráter simbólico, bem como a influência da escolha do ângulo, espaço, momento e etc. Além de ter em mente as expectativas e ideologias individuais e sociais, isto é, o olhar do espectador para quem se dirige a foto. Estudar partindo dessa noção teórica é descobrir recorrências sintomáticas.   
IMAGEM C: Cartão postal sobre os eventos de Outubro de 1930 em Blumenau. Fonte: Blog do Wilson Oliveira Neto.
Entretanto por que a apatia dos catarinenses em relação ao movimento? Por que apenas um papel secundário num fato de tamanha magnitude? O próprio Emembergo Pellizzetti registra em seu diário sobre a questão no dia 27 de Outubro: “Lembro-me agora que nem um só indivíduo dessa localidade teve a coragem de espontaneamente juntar-se nos primeiros dias às tropas revolucionárias, acho isso pouco edificante” (LOLLA, 1997, p. 176). O Major Plinio Tourinho ao pos-fasciar o livro de Beatriz Pellizzetti apresenta alguns aspectos das terras catarinenses que podem talvez responder: fraca repercussão da administração estadual isolada em Florianópolis, o transporte ferroviário mais desenvolvido no Paraná numa época de estradas com péssima qualidade, o isolamentos dos imigrantes não ocasionando miscigenação como no território paranaense, logo a identificação dos imigrantes catarinenses era muito mais com líderes de seus países do que com políticos brasileiros, o governo eleito de Santa Catarina Fúlvio Aducci em 1930 tinha uma aceitação boa entre os catarinenses, já Afonso Camargo eleito em 1928 era um desastre na gestão do Paraná o exemplo foi os 10 meses de atraso de salários dos funcionários público sendo a faísca para explodir o movimento em Ponta Grossa e Curitiba no dia 5 de Outubro, e a localização das tropas federais, com Santa Catarina tendo apenas dois batalhões de Caçadores e duas baterias de artilharia com número muito abaixo do ideal de soldados, e finalmente a natureza dos oficiais e sua característica revolucionária herdada dos anos 20 entre as tropas paranaenses que alinhavam população civil e militares sob a égide de Plinio Tourinho, bem diferente de Santa Catarina sem essa relação mais próxima entre exército e civis, a prova disso foi que os movimentos revolucionários voluntários foram pontuais e pouco expressivos.
            É clássica a afirmação de José Sarney quando diz que a revolução atrasou em trinta anos o movimento sindical no Brasil. O movimento revolucionário atingiu o cidadão catarinense de surpresa, foi um choque grande. “É a revolução gaúcha” diziam alguns.
            Os personagens principais do movimento em Santa Catarina sabiam que no fundo a motivação da aceitação de Santa Catarina ao movimento era muito mais uma disputa entre os coronéis do planalto e os oligarcas do litoral. De um lado o partido republicano catarinense dividido entre “hercilistas” e “Lauristas” contra os aliancistas. Importante ainda dizer que é engano pensar que a revolução de 1930 começou no dia 3 de outubro. Ela iniciou em 1922 com o primeiro levante tenentista. O acontecimento de 1930 foi o ato final.

Referências:
CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. A Imagem da Revolução de 30. Perspectivas metodológicas do ensino de história, v. 1, p. 266-280, 1988.
CARVALHO, Vânia Carneiro de; LIMA, Solange Ferraz de. Fotografias: usos sociais e historiográficos. In: LUCA, Tânia Regina de; PINSKY, Carla Bassenezi. (Org.). O historiador e suas fontes. São Paulo: Editora Contexto, 2009.
NETO, Wilson Oliveira. Guerras e Revoluções Brasileiras: Revolução de 1930. Disponível em: http://meuscartoeseselospostais.blogspot.com.br/2012/05/guerras-e-revolucoes-brasileiras.html. Acesso em: 8 Jan. 2017. 
NOGUEIRA, Rafael José. A Revolução de 1930 em Joinville. Revista História Catarina, v. 10, p. 34-43, 2016.
PELLIZZETTI, Beatriz. Memórias de um Italiano na Revolução de Trinta em Santa Catarina. Editora da FURB. Blumenau, 1997.
Arquivo José Ferreira da Silva.
Acervo Família Hass. Disponível em: https://angelinawittmann.blogspot.com.br.  Acesso em: 2 Jan. 2017.

5 comentários:

Rafael José Nogueira disse...

Muito obrigado pelo espaço Adalberto! Abraços.

Nillton Sergio Zuqui disse...

Meu caro Adalberto,
Também não sabia desta revolução, pois desta feita já poderíamos pensar em uma nova revolução. Quando falo de uma nova me refiro aos ideais,forma correta de elegermos nosso gestores públicos. Veja vc, se prevalecer somente atitudes favoráveis para a classe política (é o que vemos hoje) certamente chegaremos a uma nova revolução, porém nos dias de hoje já cabe nos revulucinarmos em pro de um único objetivo (o bem estar em geral), na época se fazia revolução com guerra, foi o que interpretei lendo o texto. É inevitável lermos um texto destes é não relacionarmos com os dias de hoje, de qualquer jeito mais uma bela história.

Marilene disse...

Que excelente texto iniciado com uma belíssima crônica!
Muito dissertativo!

sergio luiz buchmann disse...

Bom dia Professor Adalberto. Quando eu comecei a ler o texto,e ao ver (A fotografia tem sempre sido deixada em segundo plano na historiografia.)Pensei um texto onde se pode ter uma ideia do que se passou na época, nada melhor do que as fotos pra imaginar o que se passou, e o que passaram essas pessoas.Na 1º foto o que se pode imaginar que todas essas pessoas tinham ,única e exclusivamente a Estação Ferroviária,como ponto de chegada e partida,e esperançosos por respostas e resultados do acontecia. E posteriormente voltarem a seus locais de origem e voltarem a suas normais.Na 2º foto se soldados com toda pompa e orgulho de estarem contribuindo de uma for ou de outra com a Revolução de 1930.Na 3º foto se um povo heroico vivendo em um ano, uma época de incertezas,heróis anônimos,talvez lembrados por seus familiares,e os que tem seus nomes citados,e deram sua grande contribuição a Revolução de 1930 em Blumenau.Um texto maravilhoso,e com a grande contribuição das fotos. as vezes as pessoas só olham as fotos e não leem o conteúdo de uma bela historia. Parabéns a todos e a vc Professor Adalberto, brilhante como sempre!Abração!!!

Filipe Rosenbrock disse...

Muito boa sua publicação caro Adalberto. Outro artigo que recomendo sobre o tema é este: http://www.farolblumenau.com/2013/11/o-nazismo-em-terras-catarinenses/

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