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terça-feira, 3 de julho de 2012

- Clube do Spitzkopf

Foto: João Carlos Day
 
CLUBE DO SPITZKOPF, OU  SPITZKOPFCLUB,  UM EXEMPLO TURISMO NO INÍCIO DO SÉCULO XX


Hoje o colunista, escritor e jornalista Carlos Braga Mueller, nos relata o envolvimento do professor Rudolf Hollenweger no Clube Spitzkopf formado em 1927.


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Rudolf Hollenweger (foto) foi uma personalidade na área da educação em Blumenau. 
Nascido na Suíça em 1880, veio para Blumenau em 1904,  estabelecendo-se no Garcia Alto. Lecionava em uma pequena escola da região, que ficou conhecida como a "escola do professor Hollenweger", como conta o pesquisador e cientista social Adalberto Day em seu blog na internet.

PAIXÃO PELA MATA ATLÂNTICA

Rudolf Hollenweger era um amante da natureza e concordava com o médico, deputado estadual e ex-Superintendente de Blumenau, José Bonifácio da Cunha, de que era preciso preservar o manancial das cabeceiras do Ribeirão Garcia, de onde Blumenau inteira poderia receber um dia a sua água encanada. Já era um sonho na primeira década do século passado !
Hollenweger, visionário, foi mais longe. Para ver de perto as maravilhas que a Mata Atlântica oferecia, foi o incentivador e um dos fundadores do Spitzkopfclub, clube que surgiu em 1927 e reunia as pessoas que queriam conhecer de perto o cume do Morro do Spitzkopf, de onde se descortinava uma vista maravilhosa: em dias de sol aberto,  via-se até o litoral.

DESCREVENDO A AVENTURA DE ESCALAR O MORRO

Em um relato publicado em 1933 no anuário "Blumenauer Volkskalender" e reproduzido em 1992 pela  revista Blumenau em Cadernos (Tomo XXXIII, nº4, com tradução de Edith Sophia Eimer), o professor relata que o Spitzkopf teria sido escalado  nos dias 19  e 20 de julho de 1892  pelo professor Fritz Alfarth, e mais Hermann Gauche Senior, Otto Wehmuth, fiscal durante muitos anos, e pelo velho caçador de bugres, Christhian Imroth.
Hollenweger teve acesso a um manuscrito que Alfarth deixou, que revelava que a rota da escalada, por falta de conhecimento, fora feita pelo lado rochoso. Mais tarde outros alpinistas tentaram a façanha, só que pelo "Goldbachtal", ou Vale do Riacho do Ouro.  Mas ainda era difícil o acesso e pessoas de mais idade não tinham condições de chegar ao topo do Spitzkopf.

ABRINDO O CAMINHO PARA O TOPO

Em 17 de julho de 1927 Hollenweger, Johann Iten, Otto Huber, Alfred Gossweiler e Paul Scheidemantel fundaram o "Clube do Spitzkopf" (Spitzkopfclub). O grupo abriu um "picadão" até o alto e durante muitos anos ele serviu para se chegar ao cume do morro.
400 metros abaixo do topo foi construído um abrigo que tinha acomodação para cerca de 50 pessoas. Ali os visitantes encontravam mesas, bancos, fogão e beliches e podiam permanecer tranquilamente no local  por alguns dias. Perto, corria uma água cristalina e pura, que jorrava de uma rocha.
E então, depois deste "descanso", os mais corajosos enfrentavam a escalada dos quatrocentos metros finais.

PROTEÇÃO DA NATUREZA

A caça já era proibida e falava-se em preservar aquela mata,  como uma futura reserva florestal.
Premonição, ou não, o professor já profetizava:
"Pois é alegria para todos ver uma vez ou outra um dos poucos animais da floresta que dentro em pouco permanecerão no passado".
Hollenweger relata também, no artigo para o " Blumenauer Volkskalender",  que "a vista é maravilhosa em todas as direções e principalmente depois das trovoadas. A olho nu se reconhece o mar, a Serra Geral, a Serra do Mar com todos os seus terminais, até o Morro do Funil."
No relatório, ele conta que de janeiro a julho de 1932, a cabana havia sido visitada por mais de 300 pessoas e que na assembléia então realizada foi decidida uma ampliação das instalações para atender melhor,  principalmente as senhoras.
Os sócios do clube estavam livres de taxas, inclusive os professores que visitassem a montanha com seus alunos. Não sócios pagavam uma taxa mínima, para manutenção da cabana.

VISITA AO SPITZKOPF SIGNIFICAVA DIAS  DE ALEGRIA
 O Clube Spitzkopf
Passeio morro do Spitzkopf 1935. Descanso para lanche

A historiadora Edith Kormann, na sua obra  "Blumenau, Arte, Cultura e as Histórias da sua Gente", descreve que era muito gratificante pertencer a este clube, tanto que à noite, os que chegavam lá em cima faziam sinais com fogos de artifício para avisar que tinham chegado bem.  
E do centro de Blumenau, outros fogos eram atirados, respondendo que a mensagem havia sido bem recebida !
As crônicas daquela época dão conta da alegria que reinava nos dias que antecediam a jornada para subir o morro.
Cada senhora preparava os lanches com carinho e dedicação. Aos homens cabia levar o material mais pesado, colchas e cobertores principalmente.
No trajeto, a bordo de carroças e carros de mola, os turistas entoavam alegres canções alemãs, interrompidas de vez em quando por um brasileiro mais afoito, que cantava "Luar do Sertão", inspirado pelas noites de lua cheia que enfeitavam o céu.

Mas com o tempo o clube acabou desaparecendo, talvez até por falta do professor Rudolf Hollenweger, que faleceu em 2 de fevereiro de 1949. 
Cabana 17.07.1927 -Devorada pelo incêndio em 1995
Certamente a iniciativa dos passeios ao Morro do Spitzkopf foi a precursora do turismo interno em nossa região. Até hoje, Blumenau e seus arredores continuam a ser explorados turisticamente de uma forma muito tímida. A Mata Atlântica que nos cerca por quase todos os lados; a sinuosidade do Rio Itajaí Açu; os parques florestais do Garcia, a região colonial da Vila Itoupava, os clubes de Caça e Tiro, enfim, temos tudo para mostrar. Só falta trazer mais pessoas para ver !  
 23ºBI em 24/05/2010 em marcha ao topo do morro.
 Foto :Luiz Ricardo Dalmarco

ADENDO

Tendo em vista que foi levantada pelo internauta José Vitor Iten uma dúvida sobre a proibição da caça no idos de 1933,  cabem aqui alguns esclarecimentos.

No seu relato publicado no "Blumenauer Volkskalender, 1933", a páginas 66, traduzido e reproduzido na revista Blumenau em Cadernos TOMO 33, nº 4, é o próprio Professor Hollenweger que escreve:

"Toda a região (Spitzkopf) está prevista para se tornar uma "reserva florestal", e ali a caça é proibida"."

A história registra que em 1932, aos 22 anos de idade, Udo Schadrack herdou do pai, Ferdinand Schadrack  uma imensa área de terras ao sul do município de Blumenau. Ali,  estavam situadas as matas da quase totalidade da vertente norte do Morro do Spitzkopf.
A partir daquele ano, cessou toda a exploração de madeira no local.
Tendo participado de caçadas quando jovem, prática comum na época, Udo Schadrack impressionou-se ao perceber, ano após ano, a rápida diminuição da fauna. Lauro Bacca, reportando-se a Udo Schadrack neste blog (1º/10/2010), conta que a situação fez Udo tornar-se um dos mais ferrenhos defensores da preservação da fauna, tarefa que executou com extrema dedicação e sem esmorecer,  até sua morte, apesar de ter sofrido inúmeras decepções e dissabores de toda ordem.
Chamava os caçadores de "exterminadores da nossa fauna, os quais escolhem o meio mais fácil de matar a caça que estou criando e protegendo no meu Parque de Criação, com sacrifícios que poucos conhecem."
Sómente em 1952 Udo Schadrack conseguiu transformar a área em Parque de Criação e Refúgio de Animais Silvestres, com registro no Ministério da Agricultura.

Esta obsessão de proibir a caça em suas terras deve ter começado tão logo herdou as terras, porque um ano depois, em 1933, Hollenweger já confirmava esta proibição.
No Brasil inteiro se caçava sem limites; no Spitzkofk, seu proprietário já proibia a atividade !
No final dos anos 50, para melhorar a fiscalização à caça, Udo encabeçou um abaixo assinado, endereçado ao Governo do Estado.

Ainda em relação ao nosso internauta, cabe esclarecer também que o nome correto do professor era Rudolf Hollenweger, que no português ficou sendo Rodolfo. O sobrenome é exatamente assim: HOLLENWEGER. Se em alguma placa indicativa consta diferente, cabe ser corrigido. (Carlos Braga Mueller)
 ____________

Para saber mais acesse :

 Texto Carlos Braga Mueller/jornalista e escritor.
Arquivo de Adalberto Day  

11 comentários:

Paulo Roberto Bornhofen disse...

Bom dia Adalberto,

Espero que o amigo esteja bem. Muito bom este texto. Tomei a liberdade de indicá-lo ao grupo "Antigamente em Blumenau", no Facebook.

Melhoras,

Paulo R. Bornhofen

Wieland Lickfeld disse...

Grato, Adalberto e Carlos Braga Müller, pela referência ao Spitzkopf-Klub. Conversando há alguns anos com o Sr. Hans Schadrack, proprietário do parque que abriga o Spitzkopf, este me disse que o Klub, quando criado, foi registrado em cartório, e que nunca foi oficialmente extinto. Ou seja, em tese, ainda existe. Interessante o envolvimento do Prof. Hollenweger. Outro professor amante contumaz do Spitzkopf foi o Prof. Max Humpl, um dos professores dos primórdios do Machado de Assis. Não só fazia excursões regulares ao Spitzkopf, como chegou a construir uma casinha lá. A montanha de fato atrai. Meu pai foi lá quando jovem e mais tarde eu também. Fiz a subida algumas vezes e sempre foi uma experiência enriquecedora. Grande abraço!

Luiz disse...

Olá

Gostei muito da reportagem sobre o Spitzkopf

Segue anexo foto do 23ºBI em 24/05/2010 em marcha ao topo do morro.

Vou aprofundar o estudo

Muito obrigado

Luiz Ricardo Dalmarco

José Victor Iten disse...

Olá Adalberto e Carlos

O meu avô Joahnn Iten foi um dos fundadores do Clube, muito bem lembrado.

Quero fazer 2 considerações:

A 1º é quanto ao nome do Rudolf:
Tanto a Rua quanto a esoola Rudolf Hollenwerger, possuim entre o W e o G um R, contrariando o texto, qual o correto?

A segunda é que o autor diz que a caça Já era proibida. Não!! Na época não havia a proibição.

Att

José Victor Iten

Valdir Salvador. disse...

Amigo Adalberto como esta tudo bem? otimo, amigo Carlos tudo legal, parabens pela reportagem , mas o que mais chama atenção é porque embora esteja tão bem administrado com todo carinho a visita ao morro não evolui, porque sera devia ser muito mais comentado eu visitei o morro, e porque sera que naquela epoca ja era proibida a caça e não era proibido matar bugre pelos contratados bugreiros? muito bem vamos aguardar novas e bonitas historias como esta abraços Valdir Salvador.

Osmar Hinkeldey disse...

Boa tarde Adalberto

Interessante a matéria postada.
Posso dizer que estive 3 vezes no topo do Spitzkopf, isto no tempo em que freqüentava o grupo da juventude da Paróquia Bom Pastor e sempre admirando a beleza que a visão podia alcançar.
Bom, quanto ao professor Hollenweger acho que encontrei agora bastante subsídios para revisar o histórico da Paróquia Bom Pastor do Garcia.
Abraço

Dimas F. Carvalho disse...

Boa tarde Prof. Adalberto.

Primeiramente obrigado por manter um blog tão importante como o seu, sempre com histórias de grande interesses para nós blumenauenses , nascidos ou não nesta terra.

Eu sou um jornalista recém formado (IBES-Sociesc), e estou com um projeto direcionado ao esporte de nossa cidade.
Minha meta é divulgar e estimular as conquistas da nossa cidade e cidadãos. Bem como valorizar o que acontece na nossa cidade.
Tendo você como referência de grande historiador de nossa cidade, vim lhe incomodar.
Seria possível, me indicar algumas direções para continuar melhorar e completar a minha pesquisa sobre a história do esporte em nossa cidade?
E até mesmo, se não for pedir muito, pudesse me conceder uma entrevista, uma conversa sobre o assunto.

Agradeço desde já.

Rubens Heusi disse...

Creio que poucos,muito poucos blumenauenses não estiveram por lá!É mais ou menso com ir à Roma e não ver o Papa.

Christian Pohl disse...

Prezado Adalberto Day,

Sou o Dr. Christian Pohl de Santiago de Chile, e estou procurando o livro "Manual das escolas primárias de Blumenau" de Rudolf Hollenweger.


O livro contem uma lista de imigrantes á Blumenau do ano 1856 onde aparece me bisavô Emil Pohle chegado solteiro ao Brasil nesse mesmo ano.

O senhor sabe onde eu poderia encontrar o livro?, para mim é muito importante sua informação.

Muito obrigado.
Atenciosamente,

Silvio Kohler disse...

Belíssimo trabalho de pesquisa e de valorização de nossa história.
Um abraço do amigo Silvio.

JOSUA disse...

GOSTEI MUITO EM SABER QUE MEU AVO ERA E FOI QUERIDO DOS BLUMENAUENSES. QUANDO TINHA 6 ANOS EU TOMAVA BANHO NOS FUNDOS DA CASA DO MEU AVO NOS ANOS DE 1949 E 1950.ERA UMA BELEZA A GARCIA. JOSUE DA SILVA.

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