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terça-feira, 12 de julho de 2011

- Bom de bola e de texto

Por Gervásio Tessaleno Luz/professor escritor.
Esporte e  Lazer
           Era um craque em dois campos: o do futebol e o da crônica esportiva. Aurélio Sada, o Sadinha, que nos deixou dias atrás, jogou pelo Palmeiras e escrevia no diário A Nação.
           Mesmo os não-fanático pelo esporte bretão, liam, com prazer, sua coluna. Levou o humorismo ao terreno árido do comentário pebolístico. Lembrava, pela fina ironia, Stanislaw Ponte Preta, de quem era fã.
           Seus trocadilhos (era mestre!) deixam saudades. Conversávamos numa esquina quando surgiu Alcides Machado, o alfaiate elegante. Para provocá-lo, disparei:
           - Alcides faz ternos a machado.
           Contestou:
           - Absolutamente. Não vês o nome da alfaiataria dele? Capri. É que ele faz caprichosamente as confecções.
           Observador atento, passou-me estes episódios:
           - Antigo comentarista de uma rádio blumenauense, depois dedicado à política, registrou o nascimento de outra filha de um amigo, mui estimado, terminando  por dizer: “ Ao fulano de tal, nossos cumprimentos pelo nascimento de sua terceira rebenta”.
           Essa ficou famosa aqui na praça. Há muitos anos, jogavam duas equipes da 2 Divisão da Liga Blumenauense de Futebol naquela beleza de praça de esporte que era da extinta Empresa Industrial Garcia (foto). Em dado momento da partida, a bola saiu do campo, quando o narrador da mais antiga emissora da cidade falou: “ A bola se perde pelo lado das gerais. Aliás, os dois lados aqui são laterais, porque o estádio não tem arquibancada”.
           Durante certo tempo, andei à cata de súmulas de jogos arquivadas na LBF para ver o que declaravam os juízes representantes da entidade no preenchimento das mesas. Numa dessas súmulas, no espaço destinado às declarações do árbitro, que dirigia uma pelada sem qualquer incidente, estava escrito: “Não houve nada de normal".
            - Este jogo teve até bola quadrada, como diria o meu amigo Mano Jango (João Vieira).
 Palmeiras Esporte Clube -Da (E) para a (D) em pé: Adalberto-Augusto-Osni-Nelsinho-Antoninho e Ludin. Agachados Jonas-Nadinho-Teixeirinha-Sadinha e Marzinho.
 “ Matando saudades”
Aurélio Sada
Esporte &  Lazer
           Extraída da edição de 10 de janeiro de 1950 do jornal A Nação, merece constar de “Blumenau em Cadernos”, pelo aspecto interessante do relato, a seguinte matéria de autoria de Heitor Ferraz sobre um dos muitos clássicos do futebol do passado de que participou com a camisa do Brasil, lá por 1930, quando tinha cerca de uma década a rivalidade entre os clubes mais populares da cidade: “ Ano de 1930, jogo do Blumenauense x Brasil. O campo está cheio, não sei se é na Sociedade de Ginástica ou na Rua das Palmeiras, tem tanta gente que eu não posso ver. Os segundos quadros terminaram de jogar, e agora Vêm eles, os bichões dos primeiros.
É agora. Lá vêm Weege I, Weege II, Emílio, Heitor, Natal, Marquardt, Mário, André, Aristeu, Probst, Patesko. Brasil! Brasil!
Lá vêm Koenig, Schadrack, Kilwagem, Wehmuth, Menny e Werner;Mayer, Meisner, Guido, Pedrinho, Kapp. Blumenauense! Blumenauense! Uma nuvem apaga o campo, de repente.
Bate-bola. O juiz chama e os vinte e dois se alinham. Aristeu dá o pontapé que põe tudo em movimento. Meny pula em cima da bola. Começa a disparada, arremessos, recuos, esbarrões.
André chuta alto, Mário recolhe e atira, mas Koening salta e abraça. Blumenauense, Blumenauense, Blumenauense! Meisner serve Kapp e este procura a área, mas Weege alivia. Natal atrapalha, Patesko raspa, Pedrinho entra, manda rasteiro e Weege engole a bola.
Blumenauense 1 x Brasil 0.
A bola vai ao centro, Blumenauense, Blumenauense!
O barulho é tão grande que ninguém escuta. O jogo continua quente.
Palmas, com as mãos e os sapatos, brados, guinchos, assovios, delírios. Os corações estão todos off-side. Intervalo.
O segundo tempo muda o jogo, mas os gestos e as palavras são os mesmos, e o resultado é outro. Brasil, Brasil, Brasil!
O resultado foi de 2 x 1.Os nomes dos clubes e dos jogadores esparramam-se ao ar, como confétis sincronizados. O onze vencedor sai arfando, capengando, suando e sorrindo. Um apanha a bola esquecida no chão e leva-a debaixo do braço. Ninguém se importa com a bola. “Entretanto, se não fosse à bola, não haveria futebol”.
- Friedenreich em Blumenau
(1941) Aurélio Sada/Ex craque do Palmeiras e foi um dos colaboradores da revista.
           A edição de Cidade de Blumenau de 24 de maio de 1941, quando tinha Antônio M. Bertoli e João Vieira a dirigir a seção de esportes, trouxe em uma de suas (poucas) páginas, escrito de Luiz Reis intitulado Conversando com “El Tigre”, numa ocasião em que o paulista Arthur Friedenreich, de todos o maior atacante do futebol brasileiro do passado, visitava Blumenau, além de outras cidades do  Estado, desfazendo aqui, ele próprio, a persistente “verdade” de que era filho de Santa Catarina.
           Nome de larga projeção no futebol mundial, como um de seus mais habilidosos e terríveis goleadores de todos os tempos, entre outros detalhes, citou Fried um fato verdadeiramente impressionante, ocorrido no único jogo perdido pelo extinto Paulistano, ao efetuar longo giro pelos gramados da Europa, onde perdeu só uma vez (0 x 1), na França: somente na primeira fase foram marcados 35 escanteios contra o time local da Sete, número jamais registrado em futebol. E nada de bola entrar, para pelo menos igualar a contagem e manter a invencibilidade paulista no Velho Mundo.
Pelé e Friedenreich
           Se Friedenreich, convidado pelo presidente da Liga Blumenauense de Desportos, apitou mesmo a partida entre Brasil e Amazonas, valendo para o turno do 1º campeonato organizado pela entidade dirigida por Alfredo Campos, nada se soube pela imprensa, recebendo o antigo e famoso dianteiro inúmeras demonstrações de apreço e admiração durante sua permanência na cidade, onde esteve para tomar conhecimento de outros detalhes de suas raízes familiares.
           Há pouco menos de 64 anos daquele momento históricos para Blumenau esportiva, vale transcrever a matéria redigida pelo saudoso Luiz Reis sobre revelações feitas por Fried, quando o Café Pinguim era o ponto de convergência de torcedores apaixonados pelo futebol, dados a fococas ou coisas sérias.
           35 ESCANTEIOS
           “Com grande contentamento, fomos encontrar Arthur Friedenreich no Café Pingüim, tarde de 4 feira, cercado de uma roda de desportista locais que, por  vez, trocavam uma extensa rodada de “duplos” deliciosos da Antárctica Paulista (não é reclame). Depois de um pequeno reconhecimento de terreno, avançamos e tomamos parte ativa na “blitzkrieg” Antarctica, ao mesmo tempo que assestávamos as nossas baterias auditivas em direção ao rei do futebol,que, com sua jovialidade e simpatia, era, naturalmente, o centro de atração daquele círculo.
           Fried, amavelmente, respondia perguntas incessantes que de todos os lados lhe endereçavam, já a serviço profissional, em Blumenau, a qual a primeira vez visita. Falou de família, de seus parentes aqui, os quais tinha vontade de conhecer pessoalmente, e os catarinenses ficaram um tanto desconsolados em saber que contrariamente ao que se propala, “El Tigre” não é barriga-verde, mas sim paulista. Seu avô, porém, foi um dos fundadores da comunidade blumenauense e seu pai é nosso conterrâneo. Depois, chegou a vez dele falar alguma coisa da sua extraordinária e inigualável carreira futebolística.
           Modestamente, Friedenreich falou como ocorreu o lance que deu a vitória aos brasileiros, no célebre campeonato sul-americano de 1921. Atribuiu ao não menos famoso Neco o mérito desse grandioso feito, explicando: Neco, de posse do couro, no campo uruguaio, driblou dois adversários e atirou em gol. A bola bateu na trave, voltou ao gramado e Varela, o grande beque uruguaio, cabeceou, mas Fried investe e impedindo a ação daquele zagueiro, coloca a pelota no canto esquerdo da meta dos nossos terríveis competidores, conquistando assim o único tento daquele memorável match. Fried diz que, depois de Scarone, Neco foi o melhor atacante que conheceu.
           Jornada gloriosa do Paulistano, na Europa. Vitórias consecutivas. A única derrota, frente ao Sete, o grande craque acentua que não costuma apresentar desculpas para os insucessos dos jogos em que atuou, mas, a uma pergunta curiosa, responde que como é freqüente em futebol, a célebre vitória do clube francês foi, a seu ver, uma dessas fatalidades da sorte. Adversário inferior, mas entusiasta. Campo diminuto e coberto de neve, que abundantemente caía na ocasião. Logo de início, os franceses atacam e a pelota, interceptada por Barthô, “espirra” no pé deste e vai aninhar-se na rede, desarmando Nestor. Depois desse feito, os europeus colocam-se inteiramente na defesa, anulando todos os ataques dos brasileiros.
           Trinta e cinco escanteios, só no primeiro tempo (coisa nunca vista em futebol) foram consignados contra o Sete, nesse jogo. Mas o Paulistano caiu vencido pela contagem mínima.
           Falou-se na decadência do nosso Futebol. Arthur Friedenreich, como pudemos observar, não se sente bem em tocar neste assunto. Revela que foi um dos fundadores da liga de profissionais em São Paulo, mas visava uma outra finalidade que não a do simples mercantilismo.
           A preciosa palestra ainda continua, cheia de evocações dos áureos tempos em que Fried e seus comandados faziam todas as nações do mundo curvarem-se ante o Brasil, nos campos de futebol, tornando a nossa terra melhor conhecida  lá fora.
           Por último, deu a todos nós uma boa notícia: a pedido, apitará a próxima partida do campeonato, Amazonas x Brasil, no primeiro domingo de junho.
           Com esse feliz remate, terminou a nossa tão desejada conversa com o soberano, ainda não destronado, do futebol mundial.”
           Gols, pênaltis perdidos e o fim.        
   Há quem diga que Arthur Friedenreich tem reconhecido e registrado, na Fifa, o exagerado número de 1329 gols em 1239 jogos, números apurados, não se sabe por quem, a um tempo em que os jogadores atuavam bem menos que a atividade de Pelé, mas é preciso assinalar que Fried cumpriu carreira bem mais longa que o Rei.          
Aqui no Brasil, já houve quem somasse partidas (oficiais) e tentos anotados pelo inesquecível artilheiro em 561 e 554, respectivamente, no período de 1909 a 1935, portanto, numa carreira em torno de 26 anos.
           Por outro lado, a tão explorada lenda de que Friedenreich nunca desperdiçara um dos diversos pênaltis que chutou, carece de verdade. Vários deles não chegaram a ser convertidos pelo craque que ficou na história.
           O dianteiro do pé esquerdo tão temido por goleiros do país e fora dele, nasceu em São Paulo no dia 18 de julho de 1892, morrendo lá mesmo a 6 de setembro de 1969, não sem passar pelos dissabores de uma velhice em que viu apagar-se, pouco a pouco, seu extraordinário nível de popularidade, tornando-se esquecido por gerações que foram se sucedendo e dele apenas ouviram falar.
           Na lei natural das coisas, deu em acusar problemas de saúde de todo inevitáveis, transformado-se em vítima – mais uma – do ostracismo a que são atirados, sejam quais forem, os predestinados ao sucesso e à fama de suas habilidades pessoais.
           Arthur Friedenreich não foi exceção no acaso da vida, desaparecendo em meio à presença e abraços confortantes de amigos e admiradores (poucos) que deixou, curvando-se à ação do tempo, inimigo infalível e implacável do papel que nos é ditado para curtirmos nossas passagens pela vida afora.
Revista Blumenau em Cadernos - Fundação Cultural de Blumenau/TOMO XLVI Julho/agosto 2005 número 7/8
Arquivo de Adalberto Day
 Arquivo - 08/09/1969 ESPORTE JT - FUTEBOL FRIEDENREICH ARTHUR
Pelé e Friedenreich - Produção Foto PB
Revista Blumenau em Cadernos - Fundação Cultural de Blumenau/TOMO XLVI Julho/agosto 2005 número 7/8

10 comentários:

Belmiro disse...

belmiroavanciniBelmiroavancini
@adalbertoday . Muito legal. Gostei mesmo. Inclusive recomendei a leitura do seu blog agora há pouco aqui na @MeninaFM ... Um abraço...

Emerson Luis disse...

eme_luisEmerson Luis@
@adalbertoday Gostei,muito interessante. Bom dia pra vc também professor.

Bueno disse...

LPCBuenoBueno @adalbertoday Muito boa a crônica esportiva, professor. Parabéns!

Jonas disse...

JonasmikdundeeJonas
@adalbertoday ótimo texto,pra mim que nasci em 92,é uma viagem muito interessante no tempo,e na historia do Futebol Blumenauense!

Bola disse...

Traquilo, acabo de ler o texto do Tessaleno (meu prof de português) sobre o grande e saudoso Sadinha..
abraço
Bola Teixeira

André disse...

Pelo visto, além do prof. Gervásio, tu também és craque de bola e na escrita...
Eu consigo abrir teu site normalmente.
Saudações AvAiAnAs!

Ilson disse...

Olá Adalberto

tudo bem?

São muito boas as embranças apresentadas por vc, a gente se sente no Tunel do tempo
eu consigo abrir todas até agora, somente sobre a RAPA eu não consegui abrir.

Estou com a minha dissertação quase pronta e utilizei bastante suas informações, lógico sempre colocando as fontes.

Dia 29 de julho será a presentação!

Anônimo disse...

Grande Adalberto,

Bela matéria, aliás, mais uma. Aurélio Sada foi meu comentarista na Rádio Alvorada (1972). Foi com ele que fui ao Maracanã pela primeira vez transmitir um jogo em 1972 (Flu 1 x 0 Fla, gol do blumenauense Jairzinho). Depois trabalhamos juntos na Nereu em 1991. Mesmo distantes sempre conversavamos por telefone e quando passava por Blumenau sempre o visitava. Arthur Friedenreich, dizem aquí os mais antigos, foi
um dos três melhores do mundo de todos os tempos.
Parabéns, eu como blumenauense sinto muito orgu
lho por resgatares a cidade e o esporte.

Edemar Annuseck
São Paulo - SP

Paula disse...

PaulaDecarlePaulaAngelicaDecarle@
@adalbertoday Adoroooo seu blog! Obrigada pelas informações! Um grande abraço!

Hamilton Antonio disse...

Caro Adalberto

Li o Bom de bola e de texto , vou voltar a ler e reler a matéria pois a emoção toma conta de mim nesta manha quando me fazes lembrar meu querido porque não meio pai Sadinha, com quem trabalhei no Jornal a Nação e na Rádio Blumenau, aqui na minha casa Sadinha é como se fosse da família, juntado mais o Tessaleno ex-professor da minha filha e o Alcides, todas pessoas que de uma maneira ou de outra convivi, só poderia ser motivo de emoção.
Parabéns. Show de bola como sempre o teu blog.
Uma matéria pra gente copiar e guardar.
Abraços,

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