"A Educação é a base de tudo, e a Cultura é a base da Educação"

Seja Bem-Vindo e faça uma boa pesquisa!

quinta-feira, 31 de março de 2011

- Palestra no Colégio Excelsior

Convidado pela professora Silvana Grimes, fomos proferir uma palestra no Colégio Excelsior, no dia 28/março/2011.
Sobre o Colégio
 Nossa missão:
"Nosso maior objetivo é oportunizar a criança a desenvolver seu conhecimento de forma compreensiva, partindo de sua vivência social, visando suas necessidades e interesses, proporcionando sempre a busca de novos desafios."
Endereço: Rua 11 de Junho, 158 - Itoupava Norte - Blumenau/SC
O nome “Itoupava” é de origem Guarani (Itupaba), dialeto Tupi moderno que significa “pequeno salto”, “corredeira”.
Diretora: Fritlinde Metzner e sócia proprietária
Administardor: Acyr  Metzner e sócio proprietário
Coordenadora Pedagógica Educação Infantil : Maitê Mette
Coordenadora Pedagógica Ensino Fundamental : Roberta Nascimento
Silvana foi minha aluna na E.E.B. Pedro II no Progresso - Canto do Rio.
Aluna dedicada, estudiosa, me confidenciou que um dia em sala de aula disse a ela que possuía todas as qualidades para ser uma professora.
Segundo me relatou por telefone, a professora Silvana, havia solicitado aos seus alunos que fizessem uma pesquisa sobre as enchentes em Blumenau.
Para sua surpresa, os alunos em sua maioria, trouxeram como fonte meu nome "Adalberto Day/cientista social e pesquisador da história". Silvana disse aos alunos que fui professor dela. Os alunos surpresos com a coincidência, se posicionaram dizendo que gostariam de me conhecer.
A professora disse que iria ver a possibilidade e me contatou.
Me posicionei favorável desde que houvesse agendamento.
Fiquei lisonjeado com o convite, principalmente por partir de ex aluna, fato que me orgulha muito.
Quando lá chegamos, fomos muito bem recepcionados pela direção e professores de todo colégio, onde encontrei para minha satisfação mais uma ex aluna a Alessandra. Todas as dependências foram apresentadas a nós, inclusive as reformas e ampliações deste belo educandário.
Dedicatória que faz parte do livro que recebi. Alunos e a professora Silvana, ao meu lado.
Com a ajuda de minha esposa Dalva, mostramos fotos em data-show , onde pude explicar desde a fundação da cidade de Blumenau e suas enchentes,até os dias correntes.
Presentes que recebi de alunos e professores. Livro " O código da Inteligência" Augusto Cury - que recebi da professora Silvana - Buquê de flores da escola e caneca do aluno João Alberto.
O carinho que recebemos da direção e de todo o corpo docente, foi maravilhoso. Contudo aquele gratificante mesmo, são os dos alunos que antes, depois da palestra, na hora da saída, vieram em nossa direção nos abraçar...pequenos gestos que valem muito.

Histórico
No mês de janeiro 1990, a senhora Fritlinde Metzner, atual sócia-proprietária do Colégio Excelsior e conhecida comoTia Frida”, foi solicitada a cuidar de duas crianças cujos pais trabalhavam numa das indústrias do bairro Itoupava Norte.
A partir de então, como a procura por creches era muito grande na região, surgiu a oportunidade de no ano seguinte (1991), transformar a estrutura em creche domiciliar, atendendo cerca de 35 crianças. A creche domiciliar mantinha parceria com a Prefeitura Municipal de Blumenau, recebendo auxílio nos recursos de alimentação e nos recursos didático-pedagógicos.
Desta forma, a creche domiciliar funcionou durante alguns anos, com o nome Kinderhaus.
Como seu crescimento foi visível, no início do ano de dois mil e um, a creche domiciliar Kinderhaus, tornou-se escola infantil, assim, o casal Acyr e Fritilinde Metzner, fundaram a Escola Casinha Infantil, devidamente legalizada e vinculada aos órgãos competentes. A partir de então, a escola começou a manter-se com recursos próprios, através das mensalidades dos escolares, atendendo crianças de 0 a 6 anos de idade.
A escola mudou de endereço, ocupando um espaço maior, totalmente reformado e adequado para mantê-la até hoje em pleno funcionamento.
Em 2007, a Escola Casinha Infantil cresceu, e percebendo grande necessidade, aprimorou sua estrutura física e pedagógica, e assim surgiu o COLÉGIO EXCELSIOR, atendendo desde o Berçário até as Séries Iniciais do Ensino Fundamental de 9 anos (1º ao 5º ano).
Para saber mais sobre o Colégio Excelsior, acesse:
http://www.colegioexcelsior.com.br/component/option,com_eventlist/id,1/limitstart,15/view,venueevents
Para saber mais sobre o Bairro Itoupava Norte, acesse:
http://adalbertoday.blogspot.com/2008/04/bairro-itoupava-norte.html
Arquivo de Adalberto Day/Cientista social e pesquisador da história

segunda-feira, 28 de março de 2011

- O Assassinato do comandante do Vapor Blumenau


Participação do Jornalista/escritor e colunista  o renomado Carlos Braga Mueller.

Por Carlos Braga Mueller
COMO TUDO ACONTECEU
Hoje vamos reproduzir um relato feito pelo Sr. Frederico Guilherme Busch Jr., ex-prefeito de Blumenau, publicado na revista "Blumenau em Cadernos" na edição nº 9, Tomo IX, de setembro de 1968. Busch também era proprietário do cinema do mesmo nome, que fôra fundado pelo seu pai em 1904.
Busch escreveu o seguinte:
"Antigamente, quando o comércio de Blumenau necessitava de mercadorias com uma certa urgência, tinha que adquirir as mesmas em Itajaí, nas firmas Asseburg ou Malburg.
E o intermediário nas compras era sempre o comandante do vapor Blumenau", Krubeck. Quando um negociante qualquer necessitava de dois sacos de açúcar, de um saco de farinha, de uma outra mercadoria, era só falar com o comandante Krubeck e já no dia seguinte a encomenda vinha pelo "Blumenau".
E não eram só mercadorias. Também recados, bilhetes, cartas, embrulhos.
Tudo, o infatigável capitão transportava com o maior prazer, sempre atencioso, sempre alegre. Era um homem bom, prestativo. Não era pois de estranhar que todo mundo gostasse do comandante Krubeck. Todos o estimavam, recebiam-no prazerosamente em suas casas, cumulavam-no de obséquios.

Mas, como todo quê tem seu "mas", o comandante Krubeck gostava de uma pinga. E quando esta lhe subia à cachola ele virava valentão. E então tornava-se insuportável.

Certa noite estava ele no bar do Hotel Holetz (foto) bebericando em companhia do Oficial de Justiça Panoch.
Em uma mesa próxima estava sentado, tomando sua cerveja, um polaco de nome Miguel Nita, deixando ver à cintura uma pistola.
Lá pelas tantas, Panoch, que vinha observando o homem armado, disse ao Comandante Krubeck, que já andava com a pressão bem alta:
- Você sempre diz que é muito homem. Pois quero ver você tirar a arma daquele polaco e mostrar-lhe como se cumpre a lei que proíbe andar armado.
O comandante não contou tempo. Aproximou-se de Nita e o intimou a entregar-lhe a arma.

O polaco, sem perder a calma, fez ver que o comandante não era da polícia e, consequentemente, não tinha autoridade alguma para tirar-lhe a pistola. E pagando a sua conta foi saindo porta afora, para não criar maiores complicações.
O capitão Krubeck, decepcionado, não se deu por vencido.
Saiu atrás de Nita e falando-lhe e ameaçando-o, acompanhou-o até a altura da atual Casa Coelho (*), onde então morava a família Kiesel.
Ali, continuando Nita a negar-se em entregar-lhe a arma, o comandante agarrou-o por trás, procurando desarmá-lo à força.
Foi quando Nita, puxando da arma, desfechou vários tiros contra Krubeck, que caiu mortalmente ferido, morrendo logo depois. Enquanto o atingido era socorrido pelas pessoas vizinhas, Nita pôs-se em fuga."
Na sua narrativa, Busch continua:
"Toda esta cena foi assistida pelo meu pai que, vindo do cinema, acompanhava a uma distância de uns cinco metros os dois que brigavam.
Foi, assim, a única testemunha de vista.
Ao tomar conhecimento do ocorrido, a cidade inteira alvoroçou-se. A grande estima que Krubeck desfrutava era razão suficiente para que não se indagasse quem era o culpado. E mal surgira a manhã seguinte, organizaram-se grupos de populares para perseguir e prender o criminoso, enquanto o comandante assassinado era velado na Casa Kersanach, onde hoje são a Casa Flamingo e Casa Lorgus (**), até que seu corpo foi transportado para Itajaí, onde foi dado á sepultura.
Miguel Nita, acossado pelos grupos, foi preso. Submetido por duas vezes a julgamento, acabou fugindo da prisão.
Na manhã seguinte ao crime, meu pai procurou o Promotor Público, Sr. Manoel Barreto, a quem contou todo o fato, tal como havia acontecido realmente, mas pediu-lhe que não o arrolasse na denúncia para que não tivesse que enfrentar a opinião pública, franca e parcialmente favorável ao morto."

REPERCUSSÃO NA IMPRENSA
No seu número de 9 de abril de 1910 o jornal "Blumenauer Zeitung" publicava a seguinte notícia na Seção Local:
"O assassino do capitão Krubeck, Miguel Nita, que fôra julgado duas vezes pelo Tribunal do Júri local, e condenado, da primeira, a 17 anos, e da segunda a 13 anos de prisão, e que havia apelado da segunda sentença, fugiu da cadeia na noite de sexta-feira para sábado da semana passada. O criminoso serrara um dos varões de ferro da janela, bem rente à parede, fugindo pela abertura. Parece que Nita tramou o escape com a família, a qual se retirara desta cidade dois dias antes da fuga, tendo antes visitado o prisioneiro. Em Itajaí, a família do assassino comprou passagem no "Mayrink", com destino ao Rio. Também Nita não estava sem dinheiro, pois há pouco tempo chegara-lhe uma forte soma de dinheiro. Sua mulher não quis recebê-la, alegando não conhecer o dinheiro brasileiro. Por isso aquela soma foi entregue a Nita, diante de sua esposa. Do fugitivo não se tem até agora a menor pista e nem se sabe que direção ele tomou ou se ainda anda escondido por aqui. A polícia logo tomou as providências necessárias e estabeleceu uma gratificação de 100$000 a quem o capturasse, ou informasse o seu paradeiro."
E assim ficou sem solução mais este caso policial, na Blumenau de 100 anos atrás.
Observações:
(*) Casa Coelho, e (**) Casa Flamingo e Lorgus, eram casas comerciais existentes na época em que Frederico Busch Jr. escreveu a narrativa, não a época do crime (1910).
Para saber mais sobre o Vapor Blumenau acesse:
http://adalbertoday.blogspot.com/2009/08/vapor-blumenau-um-marco-da-historia-que.html
______________________
Texto Carlos Braga Mueller
Arquivo Adalberto Day
Publicado Fev/2011 No jornal Correio Comunitário/Repórter da História.

quinta-feira, 24 de março de 2011

- A enchente de 1880 de Blumenau

A ENCHENTE DE 1880

[...] A palavra “enchente” é - e foi, principalmente nos primórdios - , em Blumenau, uma expressão que nunca apavorou, porque se estava habituado com a factualidade de as águas, durante cada ano,por duas ou até três vezes, ultrapassarem as margens do rio e invadirem as casas construídas em locais mais baixos. Também aconteceram enchentes mais danosas, como a de 17 e 20 de novembro de 1855, cujas águas subiram 50 palmos (11,11 m) acima do nível normal, causando grandes prejuízo a, vindo, a seguir, as de 1862 e 1868.
A imagem mostra a Casa que morou Dr. Blumenau. Esta casa foi completamente destruída pela enchente de 1880.

Porém igual à de 1880, jamais houvera. Para comprovar a afirmação, adiante segue o relatório extraído do “Kolonie Zeitung”, de 9 de outubro de 1880:

“Muitas vezes os leitores deploraram que este jornal divulgava, muito raramente, notícias da Colônia Blumenau. Agora chegam noticias, muito tristes, de acontecimentos trágicos! A Colônia Blumenau foi atingida por uma grande desgraça. Depois de vários dias de chuva, imprevista e inesperadamente, na madrugada de 22 para 23 de setembro, sobreveio um verdadeiro dilúvio, desabando com tal intensidade, que o Itajaí subiu de forma tão assustadora e com tamanha rapidez jamais vista, atingindo uma altura de 14,6 (quatorze metros e seis decímetros) acima do nível normal, em conseqüência, um grande numero de pessoas conseguiu salvar somente a própria vida.
Como poderíamos descrever a tragédia, por onde começar com o relatório deste horrível acontecimento? É difícil, porque as plangentes noticias, desde o dia do desastre, continuam chegando procedentes das localidades mais afastadas da Colônia! A seca que reina em várias regiões, e sobre a qual nenhum jornal europeu até hoje divulgou, repercutiu aqui, provocando efeitos diametralmente opostos. Nenhum dos episódios, descritos nos relatórios publicados, deixou de comover profundamente todos quantos deles tomaram conhecimentos e estamos testemunhando toda a tragédia.
Vidas humanas, perdidas de maneira dramáticas, faziam com que, tanto as pessoas que sempre se relacionaram amigavelmente, bem como as que eternamente divergiram e se hostilizavam, se solidarizassem ante o desespero de assistirem à destruição de seus lares e das plantações arrancadas. Muitas casas, moinhos e outras instalações foram totalmente arrastadas pelas águas. Ainda não é possível determinar o número de mortos e a grande quantidade de animais domésticos perdidos, bem como cabeças de gado. As principais regiões atingidas e com maiores prejuízos foram as de Rio do Testo e Itoupava, mas o centro da cidade também foi duramente afetado e suas casas comerciais sofreram grandes danos.
De madrugada, por volta de uma e meia, começou repentinamente o perigo na cidade, quando no inicio da noite, só se receava uma cheia, enchente moderada, como já aconteceu diversas vezes, em outras ocasiões, sem risco de alcançar as casas. Ma, a partir daquela hora, as águas não só subiam, mas rolavam em fantásticas avalanches. Os gritos de pedidos de socorro de pessoas em perigo e dos animais vivos, sendo arrastados pelo turbilhão das águas, ecoavam pela noite. E a escuridão tornava a tragédia ainda mais horrível. Com ansiedade era esperado o amanhecer por todos quantos conseguiam manter-se a salvo. Mesmo assim, o novo dia apenas traria um enorme trabalho de resgate, exigindo de todos tudo quanto a força humana pudesse alcançar. Queremos aqui fazer referência especial, manifestando o reconhecimento de todos quantos foram auxiliados, ao capitão e à tripulação do pequeno Vapor “Progresso” que, incansáveis e destemidos, socorreram aos que solicitavam, tanto na cidade como no distante Garcia, aonde iam buscar pessoas ilhadas e socorrendo-as, levavam-nas sãs e salvas até à Igreja protestante. A eles, principalmente, se deve o fato de não se haverem perdido vidas humanas no centro da cidade ou nas proximidades imediatas. Em direção das duas Igrejas, que foram erigidas em morros, dirigia-se, de toda parte, o cortejo dos que eram salvos e dos que conseguiam escapar da tragédia.
O Vapor “Progresso” transportava para esses locais as pessoas resgatadas e, com o clarear do dia, todas as canoas, embarcações diversas e inimagináveis, assim como cochos, tinas, etc., improvisados em embarcações, convergiam para aqueles locais de abrigo, onde encontravam proteção e asilo.
O Padre Jacobs, auxiliado pelo Professor Pies, envidou todos os esforços possíveis, alimentando e cuidando daquelas pessoas enrregeladas, tanto adultos como crianças, confortando-os e fortalecendo-os.
Por sua vez, o Pastor Sandreczki, mesmo sendo também um flagelado das águas, com sua casa paroquial submersa e ainda pouco conhecido em Blumenau, além de estar com sua esposa doente, auxiliava onde podia.
Desde bem cedo, ao amanhecer do dia 23, começou a romaria das pessoas flageladas às igrejas – cerca de duzentas para cada uma delas. As noites lá passadas são indescritíveis. O quadro pungente das crianças, todas bem juntinhas, não suficientemente protegidas contra o frio no chão de pedra, atingia profundamente o coração de todos e em especial das mães. Algumas famílias salvaram alguns pertences, enquanto outras ficaram completamente desprovidas.
Numa confusão terrível, estava amontoado naquele refúgio tudo quanto conseguiam juntar na ultima hora, ao sair de casa, perseguidos pela avalanche de água. Como lhes exigir calma? Apesar das dificuldades, finalmente os flagelados conseguiam improvisar uma espécie de cozinha de campanha na Igreja Protestante, enquanto os jovens “pescavam” lenha na água barrenta, e então foi possível preparar uma sopa de farinha (pirão) e mais tarde preparar um café e, em seguida, o cozimento de arroz e uma canja de galinha. Toda a região de Blumenau era um imenso mar de água, com fortes correntezas.

No centro da cidade, as águas quebravam e erguiam portas e janelas, tracionando moveis e objetos que eram levados em todas direções e, quando chegavam à calha de escoamento do Rio Itajaí, eram sugados por suas ondas revoltas e carregados com velocidade incrível em direção ao mar. Estes objetos tragados pela correnteza do rio, quando não chegavam ao mar,eram quebrados ao ir de encontro a uma ilha qualquer ou iam parar nas margens. São perceptíveis alguns lugares onde se acumularam muitos móveis e outros objetos mais leves, que em seguida eram carregados novamente pela correnteza. Ocorreu também que mãos alheias quebravam caixas e armários, apoderando-se de seu conteúdo, em vez de devolvê-los aos seus legítimos donos.
Muitos moradores das margens do rio ainda conseguiram recolher, das águas, casas quase inteiras que serviram para consertar as suas próprias, semidestruidas pela enchente. O Vapor navegava sobre cercas e casas. Nossa rua das Palmeiras tornou-se uma via navegável para o referido barco, e as copas das palmeiras balizavam o rumo a seguir. Só no dia 26 de setembro é que as casas ficaram livres da água. Mas a lama e sujeira ainda hoje não foram eliminadas.
A nossa alegre Colônia está irreconhecível: Pastos e plantações estão cobertos por grossa camada de destroços de lama, e muitos lugares nada mais apresentam que um caos de destroços das edificações que ruíram, assim como utensílios domésticos, árvores arrancadas pelas raízes e uma massa enorme de detritos acumulados. Em verdade, já muitas mãos prestativas estão em ação para que tudo seja reordenado, porém, para que isso aconteça e se efetive, e afinal seja alcançada a completa normalização da vida na Colônia, muito tempo ainda transcorrerá.
Estradas e pontes estão quase todas destruídas. Espera-se que o governo se sensibilize com esta situação e providencie o restabelecimento dos bens públicos, pois se depender unicamente do próprio esforço da comunidade, não será possível à Colônia, sem comunicação através de estradas, redimir-se desta grande ruína. Todo o esforço despendido para o progresso da região, bem no meio da trajetória da sua edificação, com esta desgraça teve, como resultado, a destruição. Tornou-se tudo inútil. A ação conjunta de todos os setores vitais da cidade é das mais delicadas. Mas, todos os cidadãos acham-se por demais sobrecarregados com problemas não só comunitários, mas também com o seus próprios. Quantas serrarias e moinhos foram destruídos é quase impossível avaliar, por ser até mesmo difícil achar-se o lugar onde se encontravam instalados. Entre estas oficinas, existiam as que recentemente iniciaram suas atividades e, com o trabalho dinâmico e com muita luta, seus proprietários conseguiram usufruir um melhor padrão de vida. Agora, as instalações são apenas um monte de tábuas e as esperanças de seus proprietários transformaram-se em desespero.
Os operários perderam suas casas e todos os instrumentos de trabalho. Quantos não salvaram apenas a vida, ao refugiarem-se no sótão de suas casas com seus pertences! Aconteceram particularidades que comovem o coração. É o caso de uma mãe com cinco filhos que se refugiou numa colina nas proximidades de sua casa. A colina ruiu soterrando-os, quando já se sentiam seguros. O pai da família, que trabalhava longe, no campo, ao regressar para casa, só o que ainda pôde fazer foi preparar a sepultura para a esposa e seus cinco filhos.
Outra mulher, ainda jovem, era arrastada pelo turbilhão das águas, sob as vistas do marido. Adiante um homem, sem esperanças, não conseguia alcançar as mãos que lhe eram estendidas e tragicamente desapareceu tragado pela correnteza do rio. Uma família teve que fugir às pressas, sem poder levar consigo uma só peça de roupa para agasalhar uma idosa avó e também a jovem mulher, por todos responsável, que dava à luz a oitava criança, nestas circunstancias de extrema penúria. Outra perdeu tudo,só lhe restando a casa vazia. O rebanho e os porcos foram perdidos, pois não havia nenhuma elevação onde pudessem se refugiar. Assim, ficou ativo e esforçado trabalhador, com toda a sua plantação destruída com a perda de vinte anos de trabalho, retrocedendo quase até às condições de quando começou.
Não se encontraria espaço suficiente para descrever tamanha miséria que atingiu tantas famílias. Grandes reservas de açúcar, farinha, araruta, milho, etc, perderam-se – perdas ocorridas em todos os lugares – mas honra o ânimo e a esperança de alcançar novos triunfos com redobrado trabalho - mesmo sabendo que, em primeiro lugar, é necessário atender ao estado precário de viúvas e órfãos que ficaram sozinhos, perdendo tudo quanto possuíam, até seus entes mais queridos e chefes de famílias. A estas criaturas urge, em primeiro lugar, que se lhes estendam as mãos. Para tanto,foi constituída uma comissão que iniciou trabalhos de assistência, bem como, sem demora, receberam as primeiras manifestações de solidariedade procedente da Colônia Dona Francisca e de Desterro.”
Estes são os principais detalhes do relatório publicado na imprensa joinvilense, cujos informes ainda se estendem em pormenores e observações gerais.
Dentre outros relatórios, que em geral afirmam quase sempre o mesmo, encontra-se um comentário redigido sob o ponto de vista “filosófico”, acerca das causas mais interessantes da inundação, que diz o seguinte:

“ As opiniões sobre as causas de nossa desgraça são contraditórias. Aqueles que a atribuem ao violento vento sudoeste são contestados pelos fatos de que o Itajaí, na Barra, penetrou no mar com a mesma violenta correnteza, não tendo a vazão das águas sido impedida nem pelo vento nem pela maré alta. O volume de chuva, de acordo com moradores experientes e antigos, não foi tão significativo para elevar o rio ao nível que alcançou e transformá-lo numa torrente tão violenta. Será que devemos atribuir à catástrofe, origem causal por abalos tectônicos de caráter netúnicos?
No Rio do Testo e em muitos lugares pelas margens do rio acima, asseveram várias pessoas ter percebido movimento vibratório, um tremor em suas casas, bem como detonações com o rugir da tempestade. Em vários locais relativamente altos, cobertos por 2 a 4 metros de água, percebiam-se as bolhas de ar que a pressão da afloração d`àgua provocava, provindo de profundidade de dois até quadro palmos, com outro tanto de largura e ouvia-se o barulho de águas borbulhantes como se fosse um poço artesiano. E isto onde não era concebível supor-se existirem olhos d`água que pudessem surgir com tal força, como estava acontecendo. Nós ainda nem podemos imaginar que possíveis fenômenos possam ter acontecido na superfície da nossa desconhecida terra e, certamente, também será difícil encontrar-se explicações para tal. Estas anotações só têm por objetivo registrar que os fenômenos ocorreram, para talvez poderem-se tirar conclusões técnicas e servirem para uma ou outra opinião por parte de pessoas entendidas no assunto".

Cumpre ainda anotar o seguinte:
A correnteza no meio do rio não era tão violenta, porém a pressão da água nas margens era tão forte, que fazia com que provocasse grandes ondas que, vistas do alto de uma colina, davam a impressão de elevarem-se acima das casas localizadas nas proximidades...”
Enchente de 1911
Quando as águas alcançaram o mesmo nível, no ano de 1911, ou seja, 31 anos mais tarde, nada se observou com relação aos fenômenos retrodescritos e, por isso, supõe-se que a enchente de 1880 foi provocada igualmente pela grande quantidade de chuva, pois nesta região nunca se observavam abalos sísmicos ou outros fenômenos meteorológicos incomuns.
Naturalmente nunca faltaram suposições neste sentido, pois haviam descoberto, em janeiro de 1884, um “vulcão” em Warnow. Mas depois, chegou-se à conclusão de que se tratava de um simples morro, no qual o musgo e troncos secos se incendiaram por autocombustão, produzindo espessas nuvens de fumaça, afinal inofensivas. No ano de 1875, caiu um grande meteoro, irradiando uma luminosidade muito intensa nas imediações de Blumenau, em direção ao sul. O fato provocou um grande abalo, e esse bólido visto pela população assustada deu motivo a muitas especulações sobre as conseqüências que a queda provocaria na natureza, porém nada ocorreu.

Quanto à enchente de 1880, cumpre mencionar que o fenômeno da chuva atingiu quase toda a Província. O presidente, que, tão logo após as águas baixarem, veio a Blumenau distribuir alimentos aos mais necessitados, consignou, em seu relatório, a estatística das perdas humanas de acordo com a relação que segue:
No Município de Tubarão ............   4 mortos
No Município de Tijucas...............   1 morto
Na Colônia Blumenau .................. 11 mortos
Na Colônia Luiz Alves ................. 25 mortos
Total ............................................  41 mortos
[...]

Dados extraídos do livro O município de Blumenau e a história de seu desenvolvimento. Escrito em 1917 por José Deeke/reeditado -Blumenau Nova Letra,1995 e revisado pelo Dr. Niels Deeke, neto de José.

Ficha Catalográfica elaborada pela Fundação "Casa Dr. Blumenau" - Blumenau - SC

Título original "Das Munizip Blumenau und seine Entwickelungsgeschichte", José Deeke, 1917.

Arquivo de Adalberto Day

segunda-feira, 21 de março de 2011

- Rural "Bombeiros Artex"

Histórias de nosso cotidiano
Texto e fotos enviado por Luciano Luís Gall, que trabalha no grupo Bunge por mais de 20 anos, desde a época da Ceval. Apaixonado pelo veiculo que adquiriu. Luciano me procurou através de vários amigos , entre eles Mauro Ritschel.
 Antes da restauração
Jeep Station Wagon
Por alguns anos este Jeep foi o veículo oficial da guarnição de corpo de bombeiros da Artex em Blumenau.
Lançada em 1946, nos EUA, sob o nome de Jeep Station Wagon, o 4x4 ganhou fama por reunir virtudes como resistência de jipe e conforto de carro de passeio. No Brasil, conhecida sob o nome de Rural começou a ser fabricada, pela Willys Overland, e já sob a responsabilidade da Ford deixou de ser produzida na década de 1970.
Logotipo  da  brigada de incêndio  antes da restauração
O veículo em destaque trata-se de um Willys Overland 1959 que possui uma característica única pelo fato de ser conversível. Utilizada na industria têxtil catarinense, especificamente aqui no vale do Itajai pela empresa Artex, era um dos veículos que compunham a brigada de incêndio da empresa, durante vários anos.
Atualmente o veículo é de propriedade de Luciano Luís Gall, sócio e ex-presidente do Jeep Clube do Balneário Camboriú, amante de veículos 4x4 e um apaixonado em especial pela Rural. A Rural passou por uma restauração total a 8 anos atrás, mantendo as cores da brigada de incêndio. O veículo atualmente é utilizado em momentos de laser pela família e eventualmente é exposto em eventos relacionados a veículos antigos ou viaturas.
Primeira foto após a restauração 
 A Rural  exposta no Shopping Atlântico  (BC)  em  exposição de viaturas
Observações:
A Rural foi adquirida por Luciano Luís Gall, de Sérgio Luiz Simão em 2002, que por sua vez tinha adquirido de Carlos José Lindner em 2001.
Passeio  familiar   na versão  "verão"  - sem a capota - A Rural exposta no Itajaí Shopping (2011) em exposição de viaturas. 
A historia da aquisição do veículo relatada por Luciano.
[...] Em 2001 avistei de longe este veículo circulando pela cidade de Gaspar, e logo fiquei apaixonado. Qual seria o modelo pelo fato de ser conversível.
Durante algumas vezes no trajeto para o trabalho, via o veículo algumas vezes na rodovia Jorge Lacerda.
Certa vez ficou retida na Policia Rodoviária Estadual em Gaspar pelo fato de estar com problemas com a documentação.
Neste momento descobri o nome do proprietário, fiz contato para a compra, porém o mesmo recusou-se a vendê-lo. Passados alguns meses me deparei com o veículo estacionado em Ilhota. Parei para observá-lo e ali desisti de qualquer intenção, pois como o proprietário trabalhava com jardinagem ela estava carregada de esterco. Neste momento minha paixão ficou abalada: "isso não tem mais recuperação".
Decorridos mais algum tempo, o então proprietário me procurou para vendê-la. Como eu tinha recém adquirido outro veiculo não tinha condições de comprá-la, acabei trocando por um Jeep Willys que eu tinha na época e era adorado por minha esposa. Para tentar amenizar o impacto em casa, antes de levar a Rural para casa mandei lavá-la e encerá-la por duas vezes seguidas, porém o aspecto do veiculo não mudou muito.
Ao chegar em casa, o comentário foi "Não acredito que você trocou nosso jeep nesta coisa". Depois dando "tempo ao tempo" com mais alguns ajustes e posteriormente a restauração a ruralzinha passou de "ovelha negra" para o xodó da família.
Da história realatda, passado algum tempo fizemos uma "história em quadrinhos" para alegrar ainda mais o ambiente familiar e rodar em DVD junto com as fotos [...].
Luciano
História:
Por Adalberto Day
- A Empresa Industrial Garcia mantinha uma equipe de bombeiros considerada uma das melhores de Blumenau, que prestaram relevantes serviços à comunidade não só do Grande Garcia, mas de toda Blumenau. Essa equipe de corpo de bombeiros era formada por funcionários da empresa, e que também residiam próximo as casas da própria empresa. O bombeiro era avisado pela sirene que tocava várias vezes e bem forte e, como moravam próximo a empresa, conseguiam ouvir até uma distância de 3 Km. O período de atuação dessa guarnição de bombeiros da Empresa Industrial Garcia, foi anterior a implantação da corporação de bombeiros de Blumenau, que iniciou suas atividades a partir de 13 de agosto de 1958.
Muito organizada, a corporação de Bombeiros da E.I. Garcia atuou de 1930 a 1974, quando da incorporação pela Artex S/A , sendo esta a mais antiga organização de corpo de bombeiros de Blumenau, e não como consta no Livro “ACIB 100 anos construindo Blumenau” ao dar referencias a antiga Fábrica de Gaitas Alfredo Hering como sendo a pioneira. Eu tinha muito orgulho de ter o meu pai, Nicolao Day ( em pé entre FORD 1929 e a Bomba, de braços junto aos quadris), como um dos bombeiros da empresa, profissão muito brilhante e importante para a sociedade.

Para saber mais acesse:
Arquivo: Luciano Luís Gall/Adalberto Day

sexta-feira, 18 de março de 2011

- A primeira Miss de Blumenau

Foto: Mario Barbeta
Blumenau é tradição com várias Miss Santa Catarina e Brasil.
Vera Fischer em 1969 foi a primeira blumenauense e catarinense a se tornar Miss Brasil. Depois vieram outras beldades que nos representaram, Ingrid Budag, em 1974 - Isabel Cristina Beduschi, em 1988.   - Michelly Bohnen Miss SC em 2011.

Michelly Bohnen  Miss Blumenau e SC 2011
Foto: Jaime Batista da Silva
Nosso estado já teve cinco Miss Brasil, das quais três de Blumenau.
As únicas Brasileiras que venceram o concurso MISS UNIVERSO, foram: a gaúcha IEDA VARGAS e a baiana MARTHA VASCONCELLOS, em 1963 e 1968 respectivamente.

Mas hoje quero apresentar a primeira Miss Blumenau.
FRIEDA ZIMMERMANN

Entre 96 belas senhoritas de nossa sociedade blumenauense que participaram do concurso organizado pelo jornal Brasil, Frieda Zimmermann é eleita Miss Blumenau de 1922. Essa foi a primeira vez que Blumenau faz o concurso neste gênero.

O júri foi constituído de autoridades e representantes das mais ilustres famílias blumenauenses.

Os critérios adotados na época, foram: a beleza física, simpatia e desenvoltura.Frieda a eleita, na época com 25 anos, era filha do comerciante Paulo Zimmermann e Joana Jensen.ara saber mais acesse:


Arquivo ACIB/Blumenau 90 anos de história/Adalberto Day

terça-feira, 15 de março de 2011

- Sob o domínio dos Botocudos Capitulo 3 (Final)

Contos Folclóricos Catarinenses

SOB O DOMÍNIO DOS BOTOCUDOS

JOSÉ DEEKE
Tradução de Niels Deeke, neto do autor.
Original em alemão, compilado, em 1927, por José Deeke junto sua seleta de contos folclóricos catarinenses, intitulada “Am Lagerfeuer”.

“A M   L A G E R F E U E R”

( Ao Redor da Fogueira do Acampamento)

por

J O S É  D E E K E


SOB O DOMÍNIO DOS BOTOCUDOS

O cacique mirava alternadamente para mim e para minha mãe adotiva e seu olhar estava tão severo como jamais vira antes.
“Então ele quer ser um “cocolé”? Começou dizendo, sempre a olhar com raiva para Kruro.
“Você o criou muito bem, pelo que vejo! Mais de dois verões e dois invernos esteve conosco e pensei que se tornara um dos nossos. Já divisava com orgulho que depois de receber o “botoque”, poderia tê-lo entre os guerreiros e agora acontece isto! Enganei-me acreditando na tua capacidade de educar. Em vez de nos trazeres um irmão, crias um inimigo em nossa tribo”.
Depois do discurso do cacique começou um grande tumulto. Kruro gritava alto e se jogava aos pés do seu amo pedindo perdão, enquanto o resto da tribo se atirou sobre mim e tive a certeza que pretendiam de vez acabar com a minha vida.
Mas isto não ia ao encontro dos objetivos do cacique. Não porque tivesse pena de mim ou quisesse proteger Kruro, de maneira alguma, sua intenção era bem outra. Ele necessitava de nova oportunidade para reafirmar sua posição de comando, mostrando aos seus súditos como era benevolente e agia com inteligência.
Ele precisava de um motivo, pois desde quando, no ano anterior, tomara a jovem Mendosa por esposa, havia se rendido totalmente ao seu fascínio. E como ela há pouco tempo lhe dera um belo filho homem, seu amor pela jovem não tinha mais limites. Esta era uma legítima filha de Eva - sabia aproveitar a paixão do velho cacique e fazia dele o quem bem queria. Assim não permitia mais outras mulheres ao seu lado e queria que seu rebento fosse declarado futuro cacique.
Entretanto todas estas suas pretensões conflitavam com os costumes dos botocudos e além disso os guerreiros haviam reclamado das determinações do cacique, quando tiveram de curvar-se aos caprichos de Mendosa, submetendo-se às ordens de uma chefia de mulheres, isso o botocudo jamais admitiria.
Esse fato chegou-lhe como por encomenda e na hora certa. Ordenou aos guerreiros que me soltassem e depois que olhou para Kruro e para mim, conforme tive a impressão, o fazia com uma simpatia um tanto forçada  ele emitiu seu julgamento:

“Há pouco fui muito severo, entretanto, o caso não é tão grave. A “criança achada” - assim me chamavam - “ainda não é nossa inimiga - só até agora não entendeu exatamente que pertence a nós. E isto, Kruro, é culpa sua, você não cumpriu direito os seus deveres de mãe! Por isto terás que realizar esta missão a partir de agora, dedicando-te de corpo e alma à educação do garoto. Em virtude disso te libero das obrigações de “segunda esposa” - e tu, referindo-se a mim, “sejas atento e obediente e não demores a demonstrar provas de que, efetivamente, és um dos nossos, a fim de que te tornes um bom guerreiro, pois a idéia de que poderias ser meu sucessor, como anteriormente eu pretendia, já não alimento mais, após constatar o que aconteceu hoje”.
Os companheiros do grupo se deram por satisfeitos com essa decisão, principalmente Mendosa, pois desta forma quase todos os seus desejos estavam realizados! Mas ainda existia a terceira e mais velha das esposas, todavia esta não era empecilho algum aos seus objetivos exclusivistas, porque a reduzira a condição de servente. Desse modo, com a exclusão de Kruro, passou,.Mendosa, a ser de fato a “única rainha”.
Quem mais sofria com a nova situação era minha mãe adotiva, contudo ela não me culpava por isto. Conhecia muito bem os motivos que levaram o cacique a decretar a dissolução da comunhão matrimonial, além de não achar tão grave o meu erro. E interessante, em vez de intensificar minha educação para identificar-me como um autêntico botocudo, de acordo com as instruções que o cacique ordenara, começou por vezes a dialogar comigo acerca dos brancos e pediu que eu lhe dissesse mais a respeito da vida de meus conterrâneos. Desejava saber se entre os brancos, os “cocolés”, também haviam “festas da irmanação”, como se confraternizavam e como realizavam a “reconstituição das famílias”. Porém muito eu não podia contar, pois sabia que havia grandes festas, entretanto se eram “de irmanação”, naturalmente, não poderia afirmar. Mas que entre nós todo homem só tinha uma mulher - e isto para sempre, eu sabia com certeza, e esta condição e comportamento dos meus patrícios agradou muito à Kruro.

Certa noite um guerreiro retardatário veio com a notícia que os “Caecés” estavam por perto. Eu não sabia o que a palavra significava, pois os bugres entre si denominavam-se “irmão” e “irmã”, todas as demais pessoas eram “cocolés”.
Dos “caecés” que quer dizer “amigos”, nunca ouvira falar, e isto me pareceu bastante estranho, pois notei que destes chamados amigos aparentavam ter muito medo e isto também se percebia na conversa dos guerreiros e pelas caras amedrontadas das mulheres.
Finalmente consegui, através do diálogo com minha mãe adotiva e pelo que ouvi das conversas dos guerreiros, ter uma visão mais ampla da “nação” dos botocudos. E relatar todo o seu histórico soará para muitos tão obscuro e lendário que dificilmente acreditarão na sua veracidade.

De acordo com o que me foi possível apurar, a tribo dos botocudos foi, há passados inúmeros anos, um grande povo, sedentário, que habitava em reduto fixo.
Porém quando os invasores brancos chegaram mais próximo, provocando a escassez da caça, tiveram que decidir-se pela sua divisão, repartindo-se em grupos. Só o rei ficou com um contingente, residindo na primitiva sede, o restante ele retalhou em várias facções, designando um cacique da casta real para cada uma das tribos, que se espalharam por todos os cantos da floresta a fim de melhor poderem prover sua subsistência, impedindo ao mesmo tempo, o avanço dos brancos.
No princípio realizavam na corte do rei a “festa da irmanação”, o que observaram por continuados períodos. No correr do tempo espaçaram a reunião para intervalos maiores e nestas ocasiões efetuavam a colocação dos “botoques”, praticando a “reconstituição das famílias” - procedendo mudanças quanto à investidura de caciques e, em virtude desse congraçamento na corte real, possuíam o mesmo idioma e idênticos costumes.

Entretanto, na sucessão dos anos, com a aproximação sempre maior dos brancos, as reuniões tornaram-se mais difíceis, além de alguns grupos terem abandonado sua fidelidade, porque não pretendiam continuar dependentes da dignidade do monarca, o cacique. Teriam surgido desavenças entre diversos ramos, tudo isto provocando na seqüência histórica, total distanciamento entre os vários segmentos tribais, a ponto de fazer com que, na atualidade, cada ramo autônomo tivesse o seu próprio cacique cujo posto respeitam como sendo o de maior proeminência.
O ramo tribal cuja aproximação acabavam de anunciar, caso não houvesse nos
últimos anos, acontecido alterações, estaria sob o comando do cacique “Pé Grande” e deveria ser muito numeroso.
O “Pé Grande” era um homem violento e cruel, que em razão dessas suas atitudes, há muitos anos passados tivera uma séria discórdia com o nosso cacique que se chamava “Água Clara”, e a desavença quase resultou numa guerra entre as duas tribos.
No momento não se sabia, com precisão, se “Pé Grande” havia esquecido a dissensão, como era o caso de nosso cacique que relevara a questão. Esperaria o outro chefe, com um grande número de guerreiros, enfrentar a nossa fraca tribo de seu dito “amigo” para dar-lhe uma lição?
Estavam cientes que “Pé Grande” trazia muita gente consigo e isto depreendia-se pela espessa nuvem de fumaça das fogueiras ao longe, enquanto a nossa tribo estava desfalcada de muitos membros que adiantaram-se à nossa frente, seguindo à caça, e agora estávamos isolados, afastados por dias, talvez semanas, do grosso de nossos guerreiros. Os problemas da presente situação eram de provocar dores de cabeça no cacique.
Seria melhor seguir em “marcha forçada” para nos reunirmos ao resto de nossa tribo antes que o “amigo” percebesse nossa presença? Deveria enviar um mensageiro aos nossos guerreiros, “irmãos” da vanguarda, para que regressassem imediatamente? Ou então, confiante, partir ao encontro dos “amigos” e cumprimentá-los?
Mas afinal tudo se resolveu diversamente, pois enquanto o cacique quebrava a
cabeça, procurando encontrar uma solução, ouviu bem perto a sonora voz de “Pé Grande” : “Irmão Água Clara” - você não me dá boas vindas?”

“Água Clara”, com um salto, levantou-se apavorado. Mas só por um instante durou o susto, depois fingiu a maior alegria e, desarmado, correu em direção ao local de onde partira a voz.
“Bem vindo, querido irmão - que alegria me trazes “Pé Grande”, visitando este meu miserável pouso!”

Os dois saíram da floresta e foram para o meio do acampamento, quando os guerreiros, da mesma forma, levantaram-se e expressando alegria cercaram os dois caciques .
Essa atitude foi acertada, pois caso demonstrassem ou cometessem um só gesto de desconfiança ou hostilidade, seria o fim de nossa tribo, porque “Pé Grande”, para sua visita, não trouxera consigo menos de quarenta guerreiros bem armados. O perigo passou.
Os “amigos” juntaram-se aos nossos guerreiros e sentados junto à fogueira, riam e conversavam. Nisso pude constatar que o idioma dos “amigos” já se diferençava muito do nosso.... Minha mãe adotiva, explicou-me que essa dessemelhança era pouca, haviam outros ramos da tribo com os quais não podiam se entender, tanto a língua modificara-se com o tempo.
Na seqüência visitamos os diversos grupos de “Pé Grande” e enviamos mensagens para chamar ao acampamento todos os grupos do nosso ramo para que, igualmente, tivessem a oportunidade de renovar o bom relacionamento com os “amigos”.
Os dois caciques se entendiam bem, porém os dois “Pataemas”, pois “Pé Grande” também trouxera o seu curandeiro, não conseguiam se entrosar. Mantinham “divergências religiosas”, entretanto não pude compreender do que se tratava. Era mesmo muito difícil entender algo sobre a crença dos bugres, mas pareceu-me, de acordo com o que Kruro me contara, não haver uma legítima crença preestabelecida, com princípios constantes. Além disso os “Pataemas” tratam dos assuntos religiosos como bem entendem e referente à “história sagrada” contam lendas sem impor fé doutrinária, nem são consideradas como dogma ou motivo de fé pelo povo, admitindo-se também incluir nos contos tradicionais qualquer outra lenda recém criada, entre as quais também existe a tradição oral do dilúvio.
No transcurso das semanas chegaram nossas tribos que reunindo-se às demais, formaram um vigoroso contigente de guerreiros, capacitando-os a começar a prática de ações mais rentáveis. Quase diariamente empreendiam, aqui ou acolá, assaltos às colônias e vivia-se na maior fartura, pois carne havia a vontade e também “cerveja” não faltava, já que a região era rica em mel e o milho traziam das plantações dos brancos mortos ou expulsos.
Os repetidos sucessos dos bugres os tornaram sempre mais audazes e ao contrário do seu costume ficaram, por semanas e até meses, no mesmo lugar resolvendo inclusive festejar, em conjunto, o próximo encontro da “irmanação” naquele local.
Contudo os vingadores dos brancos assassinados não dormiam no ponto. E quando ao alvorecer de um dia o acampamento das tribos estava despreocupado e profundamente adormecido, após uma noite de alegria, apareceu, repentinamente, um grupo de caçadores de bugres que saltaram para dentro do reduto, gritando e dando tiros por todos os lados.
Os bugres terrivelmente assustados com os tiros deflagrados para matar, levantaram-se e fugiram como loucos pelo mato adentro. Acompanhavam-nos as mulheres que não tinham filhos ou que possuíam apenas um, mas aquelas que tinham crianças pequenas e não podiam carregar todos fugindo tão rápido, jogaram-se no chão e aos pés dos brancos pediam misericórdia. Mas os vitoriosos caçadores brancos, apesar de lhes implorarem clemência, não conheciam perdão, massacraram mulheres e crianças, dizendo que era necessário exterminar até o último daquela raça de bandidos assassinos que não
merecia qualquer piedade ou compaixão.
Minha mãe adotiva também procurou fugir e a todo custo quis levar-me consigo. Eu, no entanto, achei que tinha chegado a hora de livrar-me do cativeiro indígena.
Segurei-me com força num palanque do rancho e enquanto Kruro, puxando por onde podia, tentava arrastar-me e insistia, até suplicando, que fugisse com ela. Porém, eu procurava me recordar do que ainda sabia do meu minguado português e gritava para os assaltantes brancos que também era um branco, seu conterrâneo, e que ali estava porque fora raptado pelos bugres.... e que não me matassem .....e assim por diante.
Mas da pobre Kruro, minha fiel e dedicada mãe adotiva que com tanto desvelo
cuidara de mim, dando-me todo seu amor e carinho, eu, o ingrato, na confusão daquele momento, não me lembrava.
Não posso culpar os brancos por pensarem que deviam livrar-me dela.
Mas quando ela foi atingida por uma bala no peito que lhe perfurou o coração e me lançou, sorrindo, um último olhar cheio de amor e reprovação, para em seguida cair morta no meio do acampamento, só então entendi o que eu tinha feito e soltando um grito de dor, me atirei chorando para abraçar o seu corpo sem vida.
Tudo porém estava terminado. Os brancos levaram todos os arcos, flechas e lanças que os bugres, no susto do ataque, tinham abandonado intactos, em depósito, nos cavaletes e, amarrando-os em fardos, prepararam a carga para levá-la como prova da vitória e todo o restante foi incendiado.
Os cadáveres foram abandonados no chão. Supliquei para ao menos sepultarem

Kruro, mas os caçadores de bugres apenas riram, dizendo que para isto os “patifes vermelhos” teriam tempo de sobra.
E assim acompanhei os caçadores brancos no seu regresso, sempre perseguido pelos bugres que observavam a grande distância os nossos movimentos, pois temendo as armas de fogo, não podiam se aproximar. Estavam sem armas, nada mais poderiam fazer - e aos caçadores isto divertia e sentiam prazer quando, ao longe, ouviam os lamentos e xingações raivosas que os bugres lhes dirigiam. Contudo senti calafrios por todo o corpo quando reconheci a voz de “Água Clara” a gritar: “Menino achado, filho dos “cocolés”, inimigo e traidor que até assassinaste tua própria mãe! Volta e paga com o teu sangue todo o mal que nos fizeste.”
Não tive culpa do assalto dos brancos, sabia tanto quanto os bugres sobre o ataque, mas nisto não teriam acreditado, pois estavam convictos de que fora eu quem buscara os caçadores brancos para atacá-los. Enfim, o episódio foi mortificante e calou profundamente na minha alma.

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Bem......, isto é tudo que a história contém e aqui termina. Só posso dizer que não consigo esquecer aquele horrível assalto que me liberou e matou Kruro. Resolvi dali em diante colocar-me a serviço da catequese para ajudar a um dia talvez, levar este povo selvagem, os irmãos de minha inesquecível mãe adotiva, ao convívio pacífico com a civilização. Porém até agora foi tudo em vão, por mais que me esforçasse e gritasse para os bugres, quando próximo encontrávamos sinais de sua presença, nunca recebi uma resposta sequer.

Teriam me reconhecido? Desconfiariam das minhas boas intenções? Ou porventura tratava-se de outro ramo tribal que não entendia a língua na qual eu me expressava? Para estas indagações não tenho resposta.
Contudo não consigo esquecer o passado. Condeno os seus assaltos, desejando que chegue o dia em que lhes seja transmitido um conceito mais humano de vida e que observem a Lei de Deus: “Não matarás”. Por outro lado não posso concordar com a matança cruel dos botocudos, conforme pregam alguns, porque sempre me torna à memória, com toda nitidez, a derradeira hora que passei entre meus companheiros indígenas. Vejo minha querida Kruro dirigindo-me o seu último olhar quando já atingida mortalmente, e em meus ouvidos ainda ressoa a voz do cacique, me censurando :“Menino achado, filho dos “cocolés”, inimigo e traidor que até assassinaste tua própria mãe! Volta e paga com o teu sangue todo o mal que nos fizeste.”
Com isso João Baiano encerrou sua história.
“Agora conhecem a vida de Jeremias e deverão concordar que nada leva ao descrédi-to do seu relato. E caso um ou outro tópico lhes pareça duvidoso, peço não me responsabilizarem, pois contei precisamente como a ouvi de Jeremias.”
Mas nenhum dos ouvintes disse palavra. Todos escutaram a história com muito interesse e ainda por algum tempo ficaram a olhar pensativos para a fogueira, quando finalmente se recolheram para dormir.
No outro dia, retornaram para o Braço do Sul. Nau¹ não esqueceu, nesta ocasião, de certificar-se através da antiga planta que Rankow² lhe dera, se as últimas anotações topográficas correspondiam à realidade, comprovando o acerto das observações que este último incluíra.
No Braço do Sul, onde os homens foram pagos e despedidos, ficaram só por uma noite, seguindo, de volta, para Blumenau. Todavia fizeram várias paradas e pequenos desvios, pois Nau queria ainda conhecer a “Velha Colônia”. E assim aconteceu que neste ínterim participaram de uma “Schützenfest” o que interessou muito Nau, vindo a conhecer alguns velhos colonos que ainda passaram os primeiros tempos com o Dr. Blumenau.
Como o pessoal que festejava estivesse com espírito alegre e desinibido, logo se tornaram comunicativos e circularam anedotas dos antigos blumenauenses, como as o do “Schirmonkel” (tio dos guarda-chuvas), do “Zündhütchen” (foguetinho), do “SchwizzerBuchbinder”(encadernador suíço) do “Krischan Pipendeckel” (nome próprio, sem tradução) e outros tipos exóticos.

FIM

Nota de Fim, por Niels Deeke

Jeremias : Jeremias André Gonçalves, intérprete mestiço, que habitava em 1877 a localidade de São Lourenço - região de Ponta Grossa, no Paraná . Foi trazido à Colônia Blumenau, pelo Comandante das Guardas de Batedores do Mato - Frederico Deeke. Este, no citado ano, foi, em memorável viagem, a pé, seguindo pelo rio Preto e Mafra, até alcançar a região de Ponta Grossa no Paraná, com a finalidade de contratar o referido intérprete pelo prazo de um ano. Chegados a Blumenau acomodou, durante um ano, o caboclo Jeremias em sua própria residência que situava-se onde, atualmente, está edificado o prédio do Teatro Carlos Gomes. Partiram em diversas expedições, à selva, com o objetivo de, utilizando o linguajar, estabelecer contato verbal com os botocudos. No entanto a língua “Caingang” de Jeremias, diferia algo do dialeto próprio dos botocudos-Xocklengs, ou Aweikoma, (Caá-ubwabwa) , { aliás os membros desta tribo repudiam a denominação que lhes deram de  
“ Xockleng ” cuja tradução é “Aranha” }, da região do Alto Vale, o que só em 1914, após o aldeamento, foi constatado, resultando portanto infrutíferas as tentativas. Frederico Deeke apreendeu com Jeremias os rudimentos da língua Caingang e inteirou-se dos costumes indígenas dos Coroados-tinguis paranaenses.
Segundo transmitiu Frederico Deeke, Jeremias era pessoa tranqüila e de trato agradável, motivos que lhe valeram elogiosas referncs.
__________________

¹Nau ............... – personagem sob cujo pseudônimo, o autor refere-se, na vida real, ao Engº Karl Wettstein .......



²Emil Ramkow – personagem sob cujo pseudônimo, o autor refere-se, na vida real, a si próprio, José Deeke.

sábado, 12 de março de 2011

- Sob o domínio dos Botocudos Capítulo 2

Contos Folclóricos Catarinenses

SOB O DOMÍNIO DOS BOTOCUDOS

JOSÉ DEEKE
Tradução de Niels Deeke, neto do autor.
Original em alemão, compilado, em 1927, por José Deeke junto sua seleta de contos folclóricos catarinenses, intitulada “Am Lagerfeuer”. Apresentação será procedida em três capítulos.

“A M   L A G E R F E U E R”

( Ao Redor da Fogueira do Acampamento)
por

J O S É D E E K E

SOB  O  DOMÍNIO DOS BOTOCUDOS
Continuação
Apesar de minha pouca idade por fim percebi que nem mesmo os próprios bugres sabiam a razão do porquê estender a dita corda sobre o rio. Era apenas uma antiga tradição que talvez não abandonaram e significasse que desse modo acreditavam assegurar seu direito de posse sobre ambas as margens do rio, além de servir de corrimão para a travessia com segurança.
Destarte quando prosseguimos nossa marcha, o cabo foi estendido e o feito quase foi aproveitado, pois todos passavam a vau, pela água, e só no meio do cabo, onde chegava bem próximo ao espelho d’água, era tocado com a mão, como uma forma de apenas cumprir a tradição, sendo pegada por todos, pelo menos uma vez.
A região que deixávamos para trás, como bem podem imaginar, foi totalmente
explorada. Todas as colmeias foram esvaziadas e a caça que não puderam matar, fugiu para outras paragens. Contudo, facilmente, poderiam ter encontrado outro lugar de caça, não muito distante, no máximo um dia rio acima ou abaixo, mas tal procedimento os índios não exerceram. Tomaram a margem oposta e rumaram em ângulo reto do rio em direção à serra e logo estavam nos íngremes desfiladeiros das encostas das montanhas, onde o alimento era escasso porque a caça, nesta região, nada rendia.
Não demorei a perceber que nesta caminhada rumavam, perseguindo uma orientação especial e definida, objetivando uma finalidade importante, porque, às vezes o cacique se reunia em “conselho de guerra” com os bugres mais velhos, a fim de deliberar a maneira de alcançarem, mais facilmente, determinada região.
Também vi como, freqüentemente, examinavam os frutos e as florações de certos arbustos e árvores para determinar, pelo amadurecimento e pela florescência, a
aproximação de algum período que lhes parecia ser de relevante importância.
Inicialmente não me foi possível compreender coisa alguma disso e quando a respeito perguntava à minha mãe adotiva, ela respondia com brevidade que estava para acontecer um grande evento, enquanto seu semblante demonstrava júbilo e transmitia tanta satisfação quanto estampa um cristão piamente crente em Deus quando se reporta à festa do padroeiro de sua cidade ou aldeia.

Transcorrido algum tempo, chegamos a um território maravilhoso onde havia densa floresta de pinheiros - era este o local que, desde semanas, demandávamos.
Apesar de havermos chegado ao lugar alvo de nosso destino, os bugres aparentavam descontentamento - comunicavam-se em voz baixa e quando alguns guerreiros enviados pelo cacique em todas direções, voltaram trazendo respostas negativas, todos abaixavam as cabeças tristemente.
Um belo dia, porém, as coisas mudaram. Levantaram-se mais cedo que de costume  as festas noturnas, devido ao ambiente um tanto preocupante, há muito não aconteciam, e já se preparavam para dividir-se em grupos, a fim de executar as tarefas diárias, quando se ouviu ao longe, um prolongado grito humano.
Nisso, os membros da minha tribo modificaram sua atitude. Todos levantaram-se, ruidosamente alegres e os jovens guerreiros precipitaram-se mato adentro na direção donde partira o grito.
Era outra tribo de botocudos que se aproximava a fim de reunir-se à nossa compunha-se, mais ou menos de idêntico número de pessoas, porém aparentavam não possuir um chefe, porque desde o princípio obedeciam às ordens que o nosso cacique lhes dava.
A partir daí começou uma vida nova, muito movimentada. Fizeram um grande pouso para acampar e o cercaram com uma espécie de linha de defesa que consistia, em parte de uma série de fossos no chão com alçapões, complementada por um ripado de cerca, bem ligado e fechado.
No decorrer do dia juntaram-se a nós ainda outras tribos e com sua chegada a alegria de todos crescia sempre mais. Por fim iniciaram a fabricação de tonéis com troncos de árvores para servirem de recipientes na preparação de maior quantidade de “cerveja mastigada”, juntando ainda à bebida, mel e o milho – estas últimas, provisões trazidas por uma das tribos como produto de um assalto recente.
Antes eu disse que a primeira tribo encontrada não tinha chefe, entretanto me
exprimi erradamente, porque na realidade eles o tinham, porém sua posição hierárquica era inferior a do nosso, e sua autoridade, bem como suas ordens, só eram válidas quando estava sozinho com sua tribo, isto é, em ação fora do acampamento principal. Só com o correr do tempo e aos poucos, fui compreendendo toda essa confusa organização, apesar de não ser difícil entender, em virtude de ser tudo
bastante simples.
O nosso cacique era o chefe supremo de um grande ramo de botocudos. Mas como nem todos podiam sustentar-se num único lugar, ele os dividiu em vários grupos, dando a cada facção, um chefe, seu subalterno, sob o comando do qual o grupo repartido percorria a floresta, podendo assim viver melhor.
Todos os anos, esses diversos grupos se reuniam numa época predeterminada e em local previamente combinado para celebrar a “festa da irmanação ”[1] cuja comemoração ora se realizava.
__________________
[1]  Festa da Irmanação ou Festa da Fraternidade. Após a criação do “Dia do Índio”, na região sul do país, os “Xockleng”, celebram a “Festa do Ky-Ky” na entrada no inverno, aliás observando a mesma estação de seus ancestrais, quando reúnem-se e preparam a bebida, denominada “Ky-Ky”, em razão dos frutos fermentados em troncos escavados de árvores, aos quais adicionam o  hidromel.

Provavelmente ficarão curiosos em saber de quantas pessoas se compunha toda a nação dos botocudos, no entanto só posso, aproximadamente, calcular seu número. Estimo que, consideradas as mulheres e crianças, talvez fossem duzentos indivíduos, contudo, esta avaliação é grosseira, pois o sistema numérico e de contagem dos
botocudos é muito restrito, e eu próprio, naquela época era muito moço e não
suficientemente desenvolvido para que pudesse fazer contas.

O botocudo, como é do conhecimento geral, só conta até três, entretanto, os mais inteligentes da tribo, concebem a noção numérica até vinte. O número quatro, por exemplo é representado por “dois mais dois” e cinco por “uma mão”, e assim segue: “ uma mão e um”, “ uma mão e dois”, “uma mão e três”, “ uma mão e dois mais dois” , “ duas mãos”, até os pés, onde contam os dedos. Além de vinte, nunca vi algum que contasse, pois a partir daí, a quantidade passa a ser “ muito” , “muito-muito” e “incontável”.

Quanto à impressão que minha pessoa causou aos inúmeros índios recém chegados, não posso dizer coisa alguma, nem mesmo se me olharam com curiosidade ou se ficaram surpresos com a minha presença. Admitiam, simplesmente, como um fato, sem questionar as razões ou motivos, pois só lhes interessavam os preparativos para a “festa” tão ansiosamente aguardada como o objetivo máximo do botocudo, que para tanto havia recolhido provisões, destinadas para tal dia especial do seu calendário. Eles acumularam os produtos, estocando-os especificamente para essa finalidade, procedimento que não observam para qualquer outra ocasião, quando imediatamente consumiam tudo quanto coletavam.
E o dia da festa afinal chegou.
Começou com o cacique separando os jovens que, no decorrer do último ano, alcançaram a puberdade, reunindo-os no centro do pátio e declarando a todos os presentes que a cerimônia iria ter início e que os rapazes ingressariam na categoria de guerreiros.
Quando o cacique terminou de falar, todo o acampamento vibrou de júbilo e a festa propriamente dita teve início com a abertura das pipas de “cerveja”.
A “cerveja” que na verdade não tem gosto tão ruim quando lhe adicionam mel, adquiriu um teor alcóolico bastante elevado e a beberagem não demorou a manifestar-se nos bugres; velhos e jovens ficaram muito animados.

Aos jovens candidatos a guerreiro foi oferecida maior quantidade de bebida e quando era meio dia já estavam bastante embriagados, alcançando, alguns, o estado de inconsciência. Foi quando lhes perfuraram os lábios, a fim de introduzir no orifício o dito “botoque”, daí a razão desses índios serem chamados botocudos.
Essa operação não é tão simples, pois o lábio é cortado mediante um processo de incisão em que o instrumento usado para a referida abertura do orifício, não é afiado, porque o fazem com um “punção” de madeira, especialmente confeccionado para tal fim, que é muito rombudo e cego, vindo a produzir tamanha dor ao paciente que, embora embriagado e inconsciente, dava altos e lancinantes gritos.
Finda a operação, a euforia atingiu o clímax, bebiam e dançavam sem parar. Mas à noite todos se recolheram, relativamente cedo, e dormiram até altas horas do dia seguinte.

Na manhã do dia seguinte, após se levantarem, o ambiente era de silêncio e preocupação. Poder-se-ia pensar que o fato era conseqüência natural do álcool ingerido, e talvez fosse o caso de ressaca, porém o motivo principal da tristeza das mulheres e da preocupação dos homens era pelo que estava por acontecer  o ato principal da “festa da irmanação” - que poderia ser traduzido como sendo a “reconstituição das famílias .”
Esse ato tinha início com a separação de todos os participantes da festa pelo sexo, em dois grupos. No meio da clareira, contido num círculo maior, havia outro menor, separado do primeiro por um espaço livre. Neste círculo pequeno, postava-se o cacique e diante dele, à direita, colocou os homens e as mulheres, à esquerda.
Quando todos estavam devidamente posicionados, os jovens guerreiros que no dia anterior tiveram os lábios perfurados, foram os primeiros a receber ordens de adentrar no círculo. Seus lábios foram, novamente, examinados para constatar se os “botoques” estavam bem aplicados e seguros e, em seguida o “Pataema” marcou-lhes os rostos e queixo, riscando vários sinais com carvão, sendo-lhes designado um lugar no círculo dos guerreiros.
Tão logo os recém empossados guerreiros saíram do círculo, deixando o espaço livre, este foi ocupado pelas moças que no decorrer do último ano também atingiram a puberdade. Com elas não se fez muita cerimônia, e depois de poucas palavras do cacique, foram mandadas retornar ao grupo de mulheres.
Nisso o cacique declarou que a “reconstituição das famílias” começaria e que ele próprio a iniciaria. Feita essa comunicação a excitação atingiu o limite. Reinava um silencioso tumular, como jamais se verificara num acampamento de bugres. Kruro, minha mãe adotiva, estava muito nervosa, com todo o corpo a tremer e olhava para o cacique com os olhos marejados de lágrimas. Este tinha seus olhos voltados para as moças - examinando-as, uma a uma, e quando se decidiu pela mais bonita de nome “Mendosa”, chamou-a, passou seu braço em volta de sua cintura e declarou-a sua esposa número um.
Minha mãe adotiva mal se agüentava de pé, tamanha a fraqueza que se apossara dela. Entretanto mais ainda pareciam sofrer as outras duas mulheres mais velhas do cacique, pois sabiam que mais de três esposas o cacique não queria possuir, e caso ele resolvesse tomar todas as três do grupo de jovens ou se contentasse em tomar apenas uma “nova ”, então resultaria que pelo menos uma das antigas teria que se retirar  e para a mulher indígena, não ter um homem, é a pior e mais insustentável situação que pode ocorrer.
O cacique se contentou com somente uma nova mulher, e em segundo lugar chamou Kruro e para terceira, hesitou um pouco, parecendo que lhe era difícil a escolha entre as duas antigas, cujo medo do resultado se via estampado no rosto de ambas. Afinal teve que decidir e a mulher sobre a qual recaiu a escolha, levantou-se alegre e com um grito de alegria pulou para o seu lado.
As queixas e a tristeza da repudiada, naturalmente, foram muitas, mas sem dúvida ela era uma mulher inteligente, pois em vez de lamentar-se ou mesmo zangar-se, ela prudentemente, tomou outra atitude para escapar da “falta” que lhe faria um homem. Deu um pulo até a frente do cacique e de mãos estendidas, implorou-lhe :
“Ó grande e poderoso cacique, não me quiseste mais como tua serva e este é teu direito  mas, ó valente chefe, não me deixes sozinha sem um homem, designa-me como serva de um de teus guerreiros”.
Essa conduta impressionou o cacique e também a maioria dos guerreiros, provocando aplausos. E em resposta, o cacique falou-lhe :
“Em virtude de teres, tão resignadamente, aceito a minha decisão, não te quero ser ingrato e assim designo o jovem guerreiro “Matambá ” para ser teu homem.

A mulher podia dar-se por satisfeita, pois a troca lhe fora bastante favorável. Passou de uma posição não muito significativa, de terceira esposa do cacique, um homem já adentrado nos anos, para os braços de um jovem e fogoso guerreiro. E este também não podia se queixar, pois entre os botocudos não é permitido a um moço receber uma jovem por esposa. São os velhos e influentes guerreiros que reclamam para si estas flores desabrochando.
Os rapazes recebem mulheres velhas que os outros não querem mais  e como a mulher rejeitada pelo cacique eram bem bonita, o guerreiro e jovem marido ainda podia dar-se por muito bem aquinhoado.
Depois do cacique, chegou a vez dos demais guerreiros, primeiramente dos mais velhos e poderosos em “renovar sua família”. Entretanto o modo de agir era bem diferente e alguns não quiseram alteração alguma.
As moças eram as primeiras a ser requisitadas e assim logo “esgotaram”, pois os guerreiros mais velhos, evidentemente, trocaram-nas por suas mulheres mais velhas, ou tomavam uma jovem por segunda esposa, porém conservando a outra, pois três esposas era privilégio exclusivo do cacique.
Depois que todos os velhos guerreiros “reconstituíram suas famílias”, o restante das mulheres foi distribuído aos jovens guerreiros que tinham recebido o “botoque”, mas como cada um deles só podia ter uma mulher, acabaram sobrando três mulheres velhas.
Concluída a “renovação das famílias”, entregaram-se à animada festa que embalaram desde o anoitecer até metade da noite.
Na manhã do dia seguinte levantaram acampamento, dissolvendo-se nos diversos grupos que partiram em todas as direções dos quatro cantos do mundo.

Nisso recomeçou a atividade monótona de antes. Vagamos por meses inteiros pela floresta, sem que a rotina fosse alterada.
Certo dia cruzamos uma estrada, era um caminho para cargueiros muares que ligava o planalto à região litorânea e, provavelmente, nos encontrávamos outra vez próximos a uma colônia de brancos, pois os caçadores traziam de suas incursões balaios com espigas de milho, no início ainda verdes e posteriormente já amadurecidas. Esta circunstância era logo aproveitada para preparar a “cerveja de mastigação ”.
Mas dessa vez não acondicionaram-na em pipas, como na festa da irmanação.
Utilizaram, “tipiti ” uma espécie de cesto sem alças, firmemente trançado, que era vedado por dentro com cera de abelhas. Diversos destes foram colocados em covas especialmente adaptadas, em forma de berços para ali, em repouso, a mistura fermentar.
Dentre outras coisas, soube que neste ano não se realizaria a “festa da irmanação”, todavia não consegui descobrir o verdadeiro motivo do cancelamento. Às minhas perguntas, sempre recebia respostas evasivas, tais como “assim deveria ser” e ainda a alegação de que a “chuva branca”, ocorrida há dois anos passados e acompanhada de gélido frio que assolou o planalto, congelando as lagoas, queimara as flores dos pinheiros e portanto, no presente ano, não teríamos pinhões.
Esta fruta, em verdade, requer períodos de dois anos desde a floração até a apresentação da pinha madura e caso tivesse ocorrido intensa geada e neve, queimando sua floração, então, não poderíamos colher pinhões, conforme sempre fazíamos no final do outono, e isto para mim estava claro.
Entretanto eu não podia estabelecer relação entre os pinhões e a festa da irmanação, pois no evento do ano passado não vira fruta alguma no acampamento. Além disso, se quiséssemos fazer uma festa e nos faltasse o milho, então beberíamos cachaça. Mas, a essência do ser selvagem é duma natureza espiritual complexa - eles, no nosso entendimento, não têm noção alguma do que seja “direito” e “propriedade” e seus respectivos contrários, não sabem distinguir o “meu” do “teu”, contudo, entre si, existem princípios que observam e cumprem à risca, apesar de muitas vezes não saberem a razão nem o sentido dos procedimentos .
Estávamos nos avizinhando de uma colônia de brancos e algumas vezes, quando subi em altas árvores para tirar abelheiras, tive a oportunidade de ver, ao longe, as clareiras e nelas divisei as casas dos colonos.
Fui naquela oportunidade tomado de profunda comoção - uma saudade imensa da minha vida de civilizado, como tinha antigamente, se apossou de mim e pensei nos meus queridos pais mortos. Nisso a minha vida com os indígenas me pareceu bastante indigna, apesar de tê-la aceito e me adaptado razoavelmente bem às suas condições e inclusive tive ímpetos de voltar ao convívio dos meus.
Essa repulsa que me dominou, levando-me a auto reprovação, aumentou ainda mais quando notei que meus companheiros estavam preparando um ataque aos colonos brancos.
Mas nada podia fazer, pois não me sentia suficientemente forte e corajoso para correr em direção às casas a fim de preveni-los do perigo que corriam. Os bugres logo perceberiam a fuga, me perseguiriam e certamente me alcançariam, tornando a apoderar-se de mim. E mesmo que eu conseguisse sucesso na fuga, como seria recebido pelos brancos ?
Eu, com minha nudez e de cabeleira cortada parecia um legítimo bugre! E finalmente fiquei com pena de minha mãe adotiva, de abandoná-la desta maneira, à ela que me acolheu com tanta bondade e que me dava tanto amor e carinho.
Mas foi inevitável, certo dia aconteceu. Por várias vezes o grupo de atacantes saiu de manhã, com os balaios, entretanto não teve oportunidade de praticar um grande assalto, pois só trouxeram milho roubado e eu fazia votos que não passasse disso.
Mas como disse, acabaram conseguindo atacar.
Mataram alguns brancos e afugentaram os demais. Em seguida saquearam algumas casas, porém não lograram arrebatar muitos produtos na pilhagem, todo o butim não passava de muito poucas peças de roupa e ferramentas, donde se depreendia que as vítimas eram sem dúvida gente muito pobre.
A minha maior tristeza foi que Kruro, minha mãe adotiva, participou do assalto.
Além do mais ela estava tomada de grande alegria e, depois que o cacique fazendo valer seu direito de marido, retirou para si as melhores peças que o balaio continha, também me presenteou com alguns objetos roubados: uma faca de mesa, um lenço colorido já desbotado e um pedaço de vidro de janela, ao qual minha mãe adotiva parecia dar especial importância, pois repetidamente examinava sua consistência e transparência.
Obviamente estes objetos roubados não me deram alegria alguma, ao contrário,
voltou-me a lembrança do assalto que me trouxe à convivência com meus atuais companheiros e senti enorme amargura.
Com o passar do tempo habituei-me tanto ao modo de vida dos selvagens que a
minha ascendência branca quase desapareceu da minha memória mas, naquele
momento percebi quão profundo era o fosso que me separava desse povo.
Quando Kruro notou a minha depressão, ficou surpresa e quando lhe falei o motivo e, delicadamente, a repreendi por ter ajudado a roubar e matar meus conterrâneos, ela não atinou para o que eu lhe dizia.
Os brancos lá fora disse ela, são nada menos que “cocolés” e matá-los em nada se diferencia do ato de liquidar um animal selvagem ou outra fera qualquer.
__________________
[1] Cocolé - inimigo. ( Obs de N.D. :Cunhambira :Cunhambyra : do tupi   cunhamembyra : mulher mestiça de índio e branco. Generalizado para mestiço, filho (a) de estrangeiro, fosse branco ou índio, com mulher tupi.)

No tocante a mim, sobretudo reportando-se à razão de me haverem recolhido por ocasião do assalto, esclareceu que assim procederam porque eu não me parecia, em nada, com um “cocolé ”. Além disso eu já então pertencia inteiramente a ela, que me criara como filho, e a sua gente, sendo inadmissível criticar usos e costumes que há tempos imemoriais eram praticados por sua tribo. Eu não me deixei convencer, porém igualmente ela não cedia nem um pouco em suas opiniões. Não que odiasse os brancos, o que não era o caso, mas estava convicta de que eram nada além daquilo que nós civilizados, consideramos inerente a um animal.
Infelizmente esta nossa troca de palavras chamou a atenção dos demais e de súbito, o cacique estava diante de nós e em nossa volta postavam-se outros curiosos.
Continua no capítulo 3

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