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domingo, 27 de fevereiro de 2011

- Dona Muchi

Em histórias de nosso cotidiano, apresentamos hoje uma crônica de Arlete Felsky Filander falando sobre sua querida mãe Dona Erica (Dona Muchi) .

 Dona Muchi como era conhecida, era muito querida por toda a comunidade, inclusive por minha mãe Augusta. Foi escrito por Arlete no dia do falecimento de sua mãe.
Erica Felsky nascida Dietrich em  27/02/1929 e falecida em: 08/11/2007
Local de Nascimento: Blumenau



Por Arlete Felsky

MINHA MÃE

“A Embaixadora do bem-querer”
A verdadeira Guerreira do Bem

Neste momento, em que Rose e Rogério estão te levando, mais uma vez, ao Hospital Santa Catarina, para tentar suavizar as tuas dores, vejo o filme, onde todos nós teus filhos, netos, parentes e amigos festejavam alegremente os 50 anos de casados – AS BODAS DE OURO.

Sr. Milico e Sra. Muchi
Estou tocada de forte emoção ao “sentir” o quão maravilhosa é a NOSSA FAMÌLIA.
E, graças a Ti, MINHA MÃE, “Célula Mater” de tanto amor a nós dedicado por toda a Tua vida.
Tu és verdadeiramente a “Guerreira do Bem”.

Durante todo o tempo de convivência contigo apreendemos o que é disciplina, o saber cuidar, o sabor do trabalho, como lutar e, sobretudo, o querer bem a todos não importando de que cor, credo ou meio de onde vinham.
Tu sempre buscavas a ajudar e a amparar a todos que adentravam à nossa casa, e que, com certeza, foram muitos.
Sempre estavas disposta a arrumar a mesa impecavelmente linda e farta, graças a Deus. Fazias o café e servis os doces e pães, que com tanta maestria SÓ TU SABIAS FAZER TÃO BEM!

Que saudades da tua “comidinha”.
Ela tinha sempre o sabor do TEU AMOR, da TUA DEDICAÇÂO incansável por todos nós teus filhos.
Fizeste tudo de melhor, a qualquer hora do dia ou da noite, por cada um de nós.
A tua dedicação permanente é o Porto Seguro para todos nós (teus filhos). Por isso, somos filhos felizes e seguros.
Desde que te conheço, nunca fugiste da LUTA e do TRABALHO.
Acho mesmo, que a tua bandeira predileta se chama: Trabalho.
E, através dele, aprendi ao longo de minha vida que só o TRABALHO, evita o tédio, o vício e a pobreza.

Agradeço a Deus pela MÂE GUERREIRA que Ele colocou no meu caminho.
Contigo aprendi como lutar em todos os momentos, com fé, por mais sofridos que fossem e, muitas vezes, intransponíveis.
Mas, sem o AMOR nada disso valeria.
Pelo teu exemplo, aprendemos que a luta e o trabalho só são válidos quando colocamos uma dose elevada de amor em tudo que fazemos.

E hoje, estamos todos aqui, teus filhos, netos, parentes, amigos e conhecidos, aos quais sempre acolheste com o teu jeito generoso de receber e acolher a cada um de nós.
Que Deus te acolha no céu e que sejas amorosamente recebida pelo nosso saudoso Pai que permanece a tua espera.
Acesse também :
http://adalbertoday.blogspot.com/2010/12/o-senhor-milico.html
sobre a postagem do senhor Milico pai da Arlete.
Arquivo de Arlete Felski Filander

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

- A Estátua peregrina de Dr. Blumenau

Mais uma colaboração exclusiva e especial do renomado escritor, jornalista e colunista, Carlos Braga Mueller, que hoje nos relata sobre a estátua peregrina de Dr. Blumenau



Por Carlos Braga Mueller
BLUMENAU, CIDADE QUE EU AMO

A ESTÁTUA PEREGRINA


Não é o que você possa estar imaginando: não vamos falar daquela imagem religiosa peregrina, percorrendo as casas do bairro, levando bênçãos e sendo reverenciada pela religiosidade do povo brasileiro.
Imagem: Fernando Pasold
A nossa imagem hoje é uma estátua, um monumento histórico do município, a que reproduz, em bronze e de corpo inteiro, o fundador Hermann Bruno Otto Blumenau, atualmente situada em frente ao "Mausoléu", ao lado da Fundação Cultural de Blumenau, no nosso Centro Histórico.

Se hoje a estátua está ali, firme e rígida, sempre é bom lembrar que este é o quarto lugar que ela ocupa em logradouros blumenauenses.

Vejamos:
Por volta de 1939, quando era prefeito o historiador José Ferreira da Silva, ela foi encomendada ao escultor Francisco de Andrade, da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, que fez um trabalho primoroso.
ONDE A ESTÁTUA FICOU NOS ÚLTIMOS 70 ANOS
A primeira localização da estátua do Dr. Blumenau foi no começo da Alameda Rio Branco. Desde a inauguração, em 21 de abril de 1940, até 1950, ela permaneceu neste local. Ficava bem no meio da rua, sem causar grandes transtornos pois na época o movimento de veículos na cidade ainda era modesto.
Quando foi formada a Comissão dos Festejos do Centenário de Blumenau, em 1950, houve a idéia de se mudar a estátua para um local mais apropriado, tirá-la do meio da rua.
Havia sido reformado, e reforçado, o canal do Bom Retiro e sobre ele estava firmemente assentada a Rua Nereu Ramos e parte da uma nova praça, batizada de Dr. Blumenau. Para ali foi removida a estátua em 1950, como parte das comemorações dos 100 anos de Blumenau.
Permaneceu neste local até 1967, quando alguém achou que seria mais interessante que o Dr. Blumenau ficasse no comecinho da Rua das Palmeiras. Afinal, a "alameda das palmeiras" havia sido idealizada por ele. E as primeiras árvores haviam sido plantadas também por ele no início da colonização. Consta que até a Câmara Municipal aprovou a mudança: "Os que estiverem a favor permaneçam como estão, Aprovado".

Em outubro de 1999, para marcar o centenário da morte do Dr. Blumenau, nova remoção da estátua. Obs: Na noite de 10/8/1998 a escultura foi removida para o interior do Mausoléu Dr. Blumenau, então fechado ao público, objetivando sua limpeza e conservação, para posteriormente ser assentada no pátio defronte ao referido Mausoléu.
  A partir de então, o Dr. Blumenau tomou conta do espaço em frente ao "Mausoléu", onde repousam seus restos mortais e os de sua família.
Em 70 anos de existência, a estátua do fundador de Blumenau percorreu quatro lugares.
Será que agora fica onde está ?
Será que ao completar 200 anos, Blumenau não "inovará", dando-lhe novo lugar de destaque ?
Com a palavra nossos filhos e netos ! Gente que estará comandando então esta Blumenau, cidade que eu tanto amo !
E SE A ESTÁTUA PUDESSE FALAR ... OU: DEPOIMENTOS DO DR. BLUMENAU !

Se a estátua do Dr. Blumenau pudesse falar, percorrendo os cenários que ele vislumbrava em cada novo logradouro no qual ia sendo colocada, poderíamos ter relatos mais ou menos assim:
Foto: Willy Sievert
 1º LOCAL:
Na Alameda Rio Branco (permanência de 10 anos - 1940 a 1950):
Estou bem situado, no meio de uma rua muito larga, a antiga Kaiserstrasse, hoje Alameda Rio Branco, e por isto acho que não atrapalho o trânsito. Vejo em frente a Rua 15 de Novembro. Não consigo enxergar o Rio Itajaí Açu porque algumas casas ficam impedindo a visão.
Mas do meu lado direito está situado, na esquina da Rua 15 de Novembro com a Alameda Rio Branco, o belíssimo prédio do Hotel Holetz, um estilo arquitetônico que os nossos blumenauenses certamente irão preservar para mostrar aos seus filhos e netos. Mais adiante, aqui atrás do meu ombro direito, fica o novo prédio do Cine Busch, inaugurado no mesmo ano em que me colocaram aqui: 1940.
Foto: Willy Sievert
No lado esquerdo, na outra esquina, posso ver uma construção muito antiga, onde funcionava a casa comercial Katz e agora abriga a Casa Kieckbusch, de secos e molhados. E atrás do meu ombro esquerdo situa-se um dos casarões mais bonitos de Blumenau, de dois andares, onde funcionam no andar térreo os Correios e Telégrafos. Na parte de cima mora o gerente da agência.
Na frente deste casarão existe um "ponto" de carro de mola. O pessoal gosta de passear de carro de mola, principalmente nos domingos. Acaba de passar na Rua 15 de Novembro, em direção ao cemitério evangélico,um féretro com uma caleça toda preta, puxada por uma parelha de cavalos ornamentados com mantas também pretas, enfeitados com penachos da mesma cor sobre suas cabeças. O boleeiro veste terno escuro, usa gravata e bate suavemente com o chicote nos animais, seguindo em passo de trote.
Atrás, caminhando, vêm os parentes do morto e logo depois três carros de mola levam os mais velhos, os que não conseguem caminhar. 
Autor desconhecido. Foto década de 1950 - Praça Dr. Blumenau, aos fundos porto e Ponta Aguda.
2º LOCAL:
Na Praça Dr. Blumenau (permanência de 17 anos: de 1950 a 1967):
A Comissão de Festejos do Centenário de Blumenau, que será comemorado neste dia 2 de setembro de 1950, resolveu me transferir para a nova praça da cidade: a Praça Dr. Blumenau, que homenageia, vejam só, a minha pessoa.
Acabaram de retificar o Ribeirão Bom Retiro e agora o leito da Rua Nereu Ramos, e a base desta praça, estão mais seguros.
O Rio Itajaí Açu corre por trás da minha estátua e quem olhar bem vai ver como lá nos fundos a prainha está bonita, com uma faixa de areia onde os blumenauenses vem tomar sol e banhar-se nas águas claras do rio. Lá, mais ao fundo, pode-se ver também o Morro do Aipim, onde ficam terras de propriedade da minha família, doadas ao Município para abrigar um museu. Também dá para ver o Centro de Saúde.
Ao meu redor a praça ostenta uma bonita vegetação e aqui na frente está a Rua 15 de Novembro.
À minha esquerda ficam algumas construções e em uma delas está localizada a tradicional Confeitaria Socher.
Em frente, ainda à esquerda e no outro lado da rua, ergue-se um prédio de dois andares na esquina, que a família Cardoso de Florianópolis construiu para abrigar, no térreo, as lojas "A Capital", de sua propriedade. No segundo andar está funcionando agora a PRC-4 Rádio Clube de Blumenau, cujo palco tem um auditório de 80 lugares, onde acontecem programas com cantores locais. Em frente ainda, agora à minha direita, está localizado um posto de combustível que ostenta a marca Texaco. Os carros de mola são cada vez mais escassos. Agora são os automóveis de praça que fazem o transporte das pessoas, além dos ônibus da Empresa Kuhm, que serve a Itoupava Seca; a Wolfram com seus ônibus amarelos que trafegam entre o centro e o bairro da Velha, e a empresa Ulrich, que atende os moradores do Garcia, e que está sendo vendida para a família Sackl. Muita gente não anda mais de ônibus porque estão comprando carros próprios. A Rua 15 de Novembro está com bastante movimento e por isso existe agora uma Guarda de Trânsito Municipal composta de 15 integrantes. Foi daqui que eu pude assistir a muitos comícios de candidatos a presidência da República. Naquela sacada do primeiro andar das lojas "Capital" estiveram fazendo comícios o Jânio Quadros, o Ademar de Barros, o Marechal Teixeira Lott, o Juarez Távora. Até o Juscelino Kubitscheck apresentou-se no palco da Rádio Clube.
3º LOCAL:
Na Alameda Duque de Caxias (permanência de 32 anos - de 1967 a 1999):
Agora estou na minha querida "Stadtplatz", onde dei início à colonização desta cidade. Plantei as primeiras palmeiras desta avenida que agora está às minhas costas. Elas envelheceram, tiveram que ser derrubadas e foram plantadas novas, que estão crescendo bem.
Logo em frente fica o Clube Náutico América, uma das glórias do remo catarinense. Mas demoliram a antiga construção e no seu lugar  começaram a erguer um prédio moderno, de concreto, que chamam de "espigão", que logo foi embargado. A obra parou, e parada continua.
À minha direita, na esquina da Rua 15 de Novembro com a Alameda Duque de Caxias, ergue-se um prédio de 3 andares, onde funcionou muitos anos o Supermercado Carlos Koffke.
Olhando à esquerda posso ver a Praça Hercílio Luz e o monumento que homenageia os "Voluntários da Pátria" blumenauenses, que lutaram na Guerra do Paraguai. Atrás de mim, à direita, onde ficava o antigo Salão e Teatro Frohsinn, hoje está localizada a Celesc, sucessora da antiga Empresa Força e Luz Santa Catharina. Mais ao fundo, permanece de pé uma antiga construção que abrigava uma pensão. Depois, situa-se o Estádio de Futebol do Palmeiras E.C., batizado de Aderbal Ramos da Silva em homenagem a este governador, que doou ao clube a área de terras para a finalidade específica de ali se praticar este esporte.
Em julho de 1980, acompanhei a mudança de nome do Palmeiras, para Blumenau Esporte Clube, o BEC, mas as seguidas crises do "Palmeirinha", depois BEC, acabaram por determinar a falência do clube.
À minha esquerda situam-se a Biblioteca Pública Municipal "Fritz Müller" e também algumas casas coloniais, sendo que uma delas destaca-se porque ali mora a veneranda senhora Edith Gaertner, que mantém um belo horto florestal nos fundos da propriedade e é conhecida por criar muitos gatos e possuir um cemitério onde enterra os bichinhos quando morrem. Edith foi atriz e atuou cerca de 20 anos nos palcos alemães, sendo muito aplaudida. Mas um dia desistiu da carreira e voltou para a sua querida Blumenau.
Logo depois da casa da Edith, ficava minha residência,que a enchente de 1880 arrastou.
Ah, quando Edith morreu seu patrimônio passou ao Município e abriga hoje o Museu da Família Colonial, o Horto Florestal nos fundos, e tem como atração o "cemitério dos gatos".
4º LOCAL:
Na frente do Mausoléu Dr. Blumenau (permanência: desde 1999 até os dias atuais):
Por que estou aqui agora, ao lado do Mausoléu onde repousam meus restos mortais e os de meus familiares, trazidos da Alemanha ?
Morri na Alemanha no dia 30 de outubro de 1899. Para marcar o centenário da minha morte, resolveram que o melhor lugar para a estátua ficar seria exatamente na frente do "Mausoléu".
Fui então transladado para este logradouro.
O que vejo em frente, ao lado, aos fundos ?
Não preciso contar. Basta que você, blumenauense ou turista, venha até aqui, fique postado ao lado da minha estátua e depois conte o que viu.
O futuro ? O futuro vocês irão vivenciar e registrar !

Texto: Carlos Braga Mueller/arquivo de Carlos Braga Mueller/John Pereira (foto do Braga) Adalberto Day
__________

ADENDO:
A matéria original fez constar como Souza o sobrenome do escultor carioca ao qual o prefeito da época, José Ferreira da Silva, encomendou a estátua.
Todavia, em face da observação feita pelo memorialista Niels Deeke, e também pelo nosso assíduo internauta Cao Zone, blumenauense que reside no Rio de Janeiro, alteramos o sobrenome para Andrade, por aceitarmos as considerações de que este seja o nome correto do escultor.
Todavia, penitenciamo-nos, pois o sobrenome Souza consta no livro "A História de Blumenau", do historiador José Ferreira da Silva. (Carlos Braga Mueller).

ADENDO 2 :
Caro Adalberto e Braga :
Assaz pertinente, além de oportuna, a matéria postada pelo laborioso Carlos Braga Mueller - a quem parabenizo pelas sempre proveitosas contribuições com que nos tem brindado - intitulada : A Estátua peregrina de Dr. Blumenau . Contudo cumpre-me registrar não ter sido o escultor referido como sendo " Francisco de Souza" o autor da estátua, porém sim "Francisco de Andrade" .

Acerca da estátua do Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau, anotei , há tempos, em meus alfarrábios, o quanto adiante se segue :
............ A Estátua do Dr. Blumenau, esteve primeiramente assentada no início da Alameda Rio Branco, local em que foi inaugurada a 21/4/1940. Trata-se de escultura elaborada pelo professor de Belas Artes do Rio de Janeiro “Francisco de Andrade”, ( Francisco de Andrade, nascido em 1893 no Rio de Janeiro) alguns autores registram erroneamente o nome do escultor como tendo sido “Francisco de Souza” !!! Foi encomendada, em 1939, ao professor e escultor, quando era prefeito José Ferreira da Silva. Em 1950, durante os festejos do Centenário de Blumenau, a estátua foi removida e assentada na “Praça Dr. Blumenau”, na foz do ribeirão Bom Retiro. Durante a 2a. Gestão Administrativa Municipal de Hercílio Deeke, 1961-1966, a estátua foi relocalizada para o início da Rua das Palmeiras, a fim de possibilitar os trabalhos de canalização da foz do Ribeirão Bom Retiro e do enrocamento da margem direita do rio Itajaí Açu, por onde transitavam os caminhões caçamba, dando início a consubstanciação do MURO DE ARRIMO, que foi executado no trajeto entre a foz do ribeirão Garcia e a rua Floriano Peixoto, isto ainda em 1965 e pouco antes, fração da via que, posteriormente, foi denominada av. Castelo Branco, ou seja a Beira-Rio. Na noite de 10/8/1998 a escultura foi removida para o interior do Mausoléu Dr. Blumenau, então fechado ao público, objetivando sua limpeza e conservação, para posteriormente ser assentada no pátio defronte ao referido Mausoléu. Vide, também, Jornal de Santa Catarina de 12/8/1998 Caderno B pág.01.
Por importante cumpre assinalar que a estátua do Dr. Blumenau, quando assentada no entroncamento da Alameda Duque de Caxias com a Rua XV de Novembro, possuía pesado plinto ( um alaque ) em granito - uma bela base quadrangular em pedra finamente lavrada, servindo de pedestal ao monumento. Supomos que seu peso fosse de 2.000 kg e sua altura fosse de um metro, e talvez com superfície de 2,00 x 2,00 metros. Contudo quando reassentaram a estátua, em 1999, defronte ao Mausoléu, simplesmente lá a colocaram desprovida do plinto quadrangular, rebaixando a altura do monumento - enfim deixando de cumprir fielmente a inteira e perfeita relocalização do monumento original - fato lamentável. Certamente algum prócer político da administração de então, apoderou-se da preciosa peça lavrada e atualmente decore seu patrimônio particular. Na ocasião Niels Deeke questionou, pessoalmente, tal incompletitude mutilante perante à administração da Fundação Cultural, cuja resposta lacônica foi a de que a colocação do plinto seria " difícil " em razão do elevado peso.......todavia observe-se que então, diversamente da época em foi assentada no local da qual a retiraram, possuíam possantes carregadeiras, das quais mesmo uma de pequeno porte, poderia, prontamente - em menos de hora - ter colocado o belo plinto defronte ao mausoléu para conter altaneira a estátua do Fundador. Enfim configurou-se outro caso de iconoclastia, agravando, a lamentável circunstância, ter sido praticada sob os auspícios da então administração da Fundação Cultural de Blumenau. Enfim cadê o PLINTO ? Com a palavra a Fundação Cultural de Blumenau.

Cordiais Saudações
Niels Deeke, em Bl'au -SC

sábado, 19 de fevereiro de 2011

- “A CRIATURA”

Histórias de nosso cotidiano
«-Recordações de Niels Deeke-»
Excerto da obra inédita : “ Águas Passadas, Algumas Límpidas, Outras Nem Tanto....”
Familie Wappen
DEEKE “Nec Plus Ultra”


“ Natura non facit Saltum ”
NIELS DEEKE
Fazenda Deeke
EPISÓDIOS REAIS

Singular experiência vivida por Niels Deeke.

Decorria o mês de agosto ano de 1959, período em que eu morava numa casa junto ao mar, sita à rua Santa Luzia, no extremo norte da “Ponta do Leal”, praia do “Balneário”, limite dos bairros Estreito e Barreiros em Florianópolis, não muito distante da “Escola de Aprendizes de Marinheiros”, uma unidade do Ministério da Marinha. Adquiri a moradia do Dr. Abelardo Gomes, Procurador da República em Santa Catarina, que então tinha seu escritório no 5º andar do edifício “Ipase” em F’polis e era também catedrático da Faculdade de Direito de Santa Catarina , numa Cadeira do 5º ano do curso, e que por sua vez adquiriu o imóvel de seu parente, o Dr. Aderbal Ramos da Silva.
Na época, na periferia, muito poucos vizinhos havia e depois de reformá-la, construí  um prédio menor para abrigar o meu Jeep e conter meu  equipamento de pesca. A fim de construir a garagem, adquiri  o terreno contíguo, ao norte, do Sr. Roberto Müller, proprietário da “Joalheira Müller”, cuja parente  Dª Natércia Müller, então funcionária da Prefeitura de Florianópolis, deu-me uma  providencial “mão” na regularização de registros, cadastros e impostos que estavam há longa data vencidos, e ainda depois de avançar com o terreno sobre o mar, mediante a construção de um muro com ciclópicas pedras de granito assentadas sobre a estreita faixa de praia, aterrando todo o vão, no qual deixei uma rampa em concreto para  tracionar  embarcação, em cuja abertura fixei um portão,  mudei-me  para aquele ermo, lá residindo solitário, até casar-me em novembro de 1959.
O avanço, de cerca de doze  metros mar adentro, por outros setenta de extensão, que procedi sobre as “terras da marinha”, interrompendo a livre passagem do público pela praia durante as marés média e alta, causou-me bastante aborrecimento. Denunciaram-me, justificadamente, ao “Serviço do Patrimônio da União” e Prefeitura Municipal e, muito não faltou para que determinassem a sua demolição, não fosse a amizade e benevolência do  então Diretor do “SPU” em Florianópolis, o Dr. Gilberto Fontoura Rey, que chamando-me para explicações, resolveu “fechar os olhos”, quando me garantiu que, no mínimo, durante a sua gestão a questão permaneceria pendente, pois apesar da ilegalidade da  obra, compreendia sua utilidade e beleza arquitetônica e  como houvesse certo respaldo pelo pagamento que efetuei em “laudêmios” e “foros”,  sem bem que não obtivesse o “aforamento definitivo”, enfim fui constituído “enfiteuta”. Visitando aquelas paragens em 1993, constatei que o  muro ainda  lá estava, tão firme quanto o construí.
Pois bem, num dia do mês de agosto, estando meu tio Raul Deeke em Florianópolis para tratar da regularização das terras cuja aquisição intentava no Alto Palmeiras- mais tarde “Fazenda Marily”, pediu-me Hercílio Deeke, meu pai, que preparasse para a noite uma churrascada ao estilo bivaque - só carne, pão e farinha, para três pessoas : ele próprio, meu tio Raul e Japy Fernandes ( nascido 29/9/1907), amigo de meu pai e decano dos representantes comerciais da Capital.

Ao final da tarde comprei, no Estreito, junto aos açougues “Koerich”, na época com sede em Santo Amaro da Imperatriz, empresa que havia recentemente estabelecido diversos “picadores” na “Grande Florianópolis”, carne de carneiro, muito apreciada por Raul, e filés de gado. Preparei os espetos e a improvisada churrasqueira, mesa, cadeiras e banqueta com bebidas, debaixo do imenso “Flamboyant” que sombreava grande parte do pátio no jardim. Meu jardim, à beira mar, no Estreito, cujo gramado foi plantado com “leivas” trazidas de Blumenau, foi o último que o Sr. Geraldo Lübcke executou antes de abandonar a profissão de “jardineiro”, para iniciar atividades têxteis, criando, em Blumenau, a “Malharia Juriti”.

Pelas dezenove horas chegaram os três comensais, vindos da Ilha-Capital, com meu pai ao volante do Ford- fairlane ano 1955- placa oficial em bronze, SF1. Ele próprio raramente dirigia o carro oficial, pois hospedava-se no “Lux Hotel”, distante uma quadra de seu gabinete da Secretaria da Fazenda do Estado. O carro permanecia no pátio do Palácio do Governo, e além dele somente lá ficava o carro do Governador Heriberto Hülse, ( nascido 30/4/1902-conferir e falecido em 11/11/1972 – esposa de Heriberto Hülse : Lucy Corrêa Hülse ) que igualmente pouco uso fazia do carro do Estado. Obs. O Vice Governador eleito na Chapa em que era titular Jorge Lacerda, foi o Sr. Heriberto Hülse. Sua posse como Vice- Governador deu-se entretanto somente em 31/8/1956, ( agosto- Sexta-feira) em sessão solene na assembléia Legislativa. Já a posse do titular, Jorge Lacerda, na Governadoria do Estado deu-se em 31/01/1956. A disparidade das datas foi devida a recursos judiciais interpostos pelos partidos que perderam as eleições realizadas em 1955, o que demandou tempo para julgamento.

Era inverno e como a temperatura daquele ambiente no jardim estivesse relativamente baixa, Raul preparou as “bitrucas” à base de Conhaque “Macieira”, sua marca preferida, e “Fernet”. Depois de muito fazermos uso da goela, tanto para comer, beber, como também para contar “causos”, no que Raul Deeke e Japy Fernandes eram impagáveis, lá pelas 23 horas foram-se os convidados de volta para a Ilha. Como de costume sobrou carne à beça, e estando eu cansado, evidentemente só e sem empregados, arrumei tudo muito rapidamente, deixando espetos, grelha e demais apetrechos a recender o cheiro de churrasco por todo o pátio e, sem mais, me recolhi para dormir.

A casa tinha um vasto varandão aberto que dava para o mar, separado da sala de visitas por comprida porta de seis folhas de veneziana, com outras tantas, pelo lado interno, envidraçadas. O vento nordeste batendo naquele conjunto de sanfonas à guisa de portas, provocava ruídos aos quais minha sensibilidade não se acostumava. Entretanto naquela noite, logo que deitei, além dos usuais, ouvi estranhos e inusitados ruídos vindos da varanda.

Levantei-me e, no escuro, acendi somente a luz da varanda, acionando o interruptor pelo lado interno, na sala de visitas. De início produziu-se um soturno silêncio. Pelas frestas da porta veneziana tentei divisar quem poderia estar no abrigo, mas as estreitas gretas só permitiam ver o chão muito próximo da porta, e como a varanda fosse muito larga e ainda tendo comprimento muito além da área de visualização que as fendas permitiam observar, não foi possível ver quem lá estivesse. Nisso consegui discernir, pela sombra, uma vaga silhueta humana projetada pelo reflexo da luz, cujo vulto se erguia com dificuldade, arrastando-se, para em seguida novamente deitar-se no chão. Apaguei a luz e fiquei a matutar sobre o modo de livrar-me daquele bêbedo que certamente fora atraído pelo cheiro da bebida de nossos aperitivos durante a churrascada e agora pretendia curar sua carraspana na minha varanda, pois quando acendi a luz o homem deveria ter-se tocado, mas embriagado tornou a deitar-se.

Apanhei a lanterna de duas pilhas e, dirigindo-me para a porta dos fundos, saí para o jardim. Cautelosamente contornei a casa e, a partir do gramado, lancei o facho da lanterna sobre o varandão. Nada, não havia ninguém de pé. Como proteção havia naquele abrigo, uma mureta, de cerca de oitenta centímetros de altura, que contornando toda a varanda continha uma floreira de gerânios e para melhor observar se o bêbedo ali deixara como vestígio alguma sujeira ou, como já estava a supor, verificar se lá fizera suas necessidades fisiológicas, subi a rampa de acesso ao terraço abrigado, dirigindo o facho da lanterna para o chão.

- Desde muito jovem eu fora um sujeito metido a praticar “audácias”, se bem que fosse cauteloso, não havia o que pudesse me atemorizar com relação a quaisquer crendices - os tabus dos mistérios e do medo, desabaram aos meus sete anos de idade. O incógnito me fascinava, e como meus pais foram extremamente liberais, creio que até muito além do permissível, vivi os limites do imaginável para um rapaz do nosso grupo social. Essa condição era notória e podia ser percebida pelas proibições que os responsáveis de meus colegas faziam, principalmente impedindo que me acompanhassem, quando convidados, a participar das aventuras que consideravam impróprias para nossa idade, bem como de alto risco, mas que, na realidade, a tanto não chegavam. Permitiram-me, acompanhar, desde os 08 anos, meus tios nas grandes e memoráveis caçadas, serra acima e mata atlântica; deram-me muitas armas, espingardas, garruchas e revólveres ; aos 09, nas oficinas de Raul Deeke apreendi tudo quanto lá executavam e a lidar com diversos explosivos, além de fumar e beber aperitivos livremente junto a meus pais. Acompanhava a pesca profissional em mar alto; aos 11 deram-me uma boa motocicleta com a qual atingia todo o Vale do Itajaí, nas longas excursões a cata de orquídeas e caça ; dormia solitário na floresta e adentrava cavernas.

Possuí terras de mata virgem nos confins do “Morro Arranca Paletó”, muito além do “ribeirão Ilse”, no divisor de águas do Itajaí Açu e Mirim, entre Guabiruba e Indaial, e lá fiquei, totalmente só, longo tempo na mata, bancando o anacoreta-eremita. No “Jardim Zoológico de Pomerode” do qual meu tio Victor Weege era co-proprietário, por anos, nas férias, bem cedinho, ajudava os tratadores, fiscalizados pelo Sr. Roedel ( Johannes Roedel que era um técnico- e alemão nato), na alimentação e limpeza das jaulas de toda aquela imensa bicharada. Muito jovem participei, com Victor Weege, de caçadas exclusivas à feras no Paraná. Possuía aos 10 anos uma aprestada bateira amarrada na barranca do rio e não foram poucas as vezes que dormi à beira do Itajaí Açu. Nunca me cobraram horário para retorno e aos 10 anos, em 1947, morei, solitário, cerca de 25 dias no alto do Spitzkopf.

Enfim, depois de morar sozinho, quando ainda menor de idade, durante 04 anos, por todos os cantos do Rio de Janeiro, eu me “considerava” um sujeito “durão e curtido”, imune a qualquer sobressalto, susto ou temor de “seres sobrenaturais”.

Ledo engano. Disso tive a plena certeza naquela noite escura como breu junto à varanda da casa de praia.

Pensava ter que lidar com um bêbedo e jamais poderia, nem por sonhos, imaginar que iria defrontar-me com uma “criatura” tão invulgar e para meu espanto alojada na minha varanda.

Quando o fraco facho de luz bateu “naquilo”, me senti transportado às profundezas do inferno de “Hades”, pois, ali , justo a menos um metro de meus olhos, havia uma “coisa” monstruosa que só poderia ter surgido do outro mundo!

“ Quase cuspi o coração boca afora ! O cagaço foi tão grande que dificilmente passarei por algum maior nesta vida.”.

Um descomunal “ser” de pele negra e lustrosa, grunhindo qual verdadeiro “Leviatã”, abriu seus membros superiores como se fosse a capa negra do demônio e lançou-se sobre mim, para agarrar-me. A “coisa” assombrosa, cujo perfil difuso era mal iluminado pela velha lanterna, ergueu-se até dois metros de altura e escancarou uma colossal bocarra vermelha, decorada com afiados e longos dentes de marfim enquanto debatia-se grotescamente no chão de ladrilhos, armando um “bote” na minha direção.

O monstro só poderia ter brotado diretamente do quintos do inferno e no susto me pareceu um “morcego gigantesco” do tamanho dum hipopótamo e aqueles imensos dentes em arco, que rapidamente focalizei, certamente serviriam ao vampiro para sugar o sangue de suas vítimas. Meu choque topando de chofre na escuridão da noite, tão inesperadamente e naquelas circunstâncias, com a dantesca criatura, foi de transferir, qualquer cardíaco, desta existência para uma melhor. Meu cérebro travou e presumo que tenha literalmente “levitado”, pois meus músculos e nervos paralisaram; não me recordo como consegui recuar.

Afastei-me alguns metros, apaguei a lanterna e pensei em buscar a arma.

Passados alguns instantes, mais sereno, comecei a cismar. Enfim o que seria aquilo ? Deveria haver uma explicação lógica! Antes de qualquer ação precisava saber o que, exatamente, era aquilo.
Depois de “cutucar a mim próprio” para constatar que não estava sonhando e encher bem os pulmões de ar, redobrando minha provisão de coragem, aproximei-me da “jardineira” da varanda e só então apertei o “plug” da lanterna.

Sim, lá estava o monstro no mesmo lugar.

Só então, e muito lentamente, pude constatar que na realidade tratava-se de uma variedade dos enormes “Leões Marinhos”, creio que fosse uma “Morsa”( Morsa : Finnez Mursu - Trichecus, os gigantes dos mamíferos da espécie dos pinípedes, animais corajosos e temíveis). O “bicho” tinha um porte avantajado, pesaria dias depois, no “Mercado Público de Florianópolis, conforme a tabuleta na exposição, 280 kg.

Devagar pus-me a matutar para encontrar uma maneira de tirar o “Leão Marinho” dali.

Nisso, observando melhor, notei que entre as nadadeiras superiores, ( braços) que abertas, no susto, me pareceram a “capa do demônio”, e o pescoço, havia uma maçaroca de fios de “nylon”, restos do que foi uma rede de pesca, que lhe estrangulavam fortemente a goela. O animal devia estar faminto e como viu que o portão da rampa para o mar estava aberto, certamente entrou atraído pelo cheiro da carne do churrasco.

Na geladeira havia “manjuvas” para isca da carretilha de pesca que eu freqüentemente atirava, de meu jardim, ao mar, além de muita sobra de carne temperada para a churrascada daquela noite. Acendi as bruxuleantes luzes então alimentadas pela oscilatória energia fornecida pela “Ellfa”-Empresa de Luz e Força de Florianópolis S/A, apanhei as manjuvas e fui jogando-as para o bicho que as abocanhava em pleno ar. Os 02 kg de manjuvas nem para aperitivo bastaram, o bicho pedia mais.

Entretanto preocupava-me a “trança” dos fios que o sufocavam e resolvi ao menos tentar livrá-la daquele suplício. Rápido fui à garagem, apanhei uma grossa vara de bambu e, na ponta, amarrei minha afiada faca de pesca. Enchi um balde com pedaços cortados do resto da carne temperada e, depois de acender todas as luzes da área, aventurei-me à safá-la daquela forca. Atirei-lhe um grande pedaço da carne com ossos e, de longe, alcei a vara para cortar a cordoalha. Enfiei a faca virada com o lado cego contra o pelego da “morsa”, mantendo o gume em posição oposta e empurrei a vara, firme e com vigor, contra a fiação torcida.

Foi uma só estocada e a embolação de nylon estava secionada. Tive a nítida impressão de que o bicho, fazendo um movimento de torção com a cabeça e pescoço, “compreendeu”, que fora eu quem o livrou do laço.

Então devagar fui atirando os nacos em direção do portão da rampa para o mar, conduzindo o pesado “Arctocephalus” para aquela saída. A criatura arrastava-se para apanhar o alimento que eu ia jogando e entre cada novo lançamento, levantava a cabeça e meio corpo na minha direção, fixando-me com seu olhar profundo e esperto, como a implorar que eu tornasse a jogar comida. A operação foi demorada, durante a qual pude observar que tratava-se de uma fêmea e progressivamente o “focídio” foi ficando dócil ; chegou até a esboçar sorrisos de satisfação quando eu lhe atirava as sardinhas e as postas de carne. A criatura diferençava-se muito dos balofos e desengonçados “Leões Marinhos”, ( Otaria flavescens, e Arctocephalus australis ) do Atlântico e Pacífico sul, era muita ágil, esperta e de “otária” nada tinha. O corpo era esguio, o focinho não era achatado, tinha pequenas orelhas, pouco bigode, pelugem sedosa e poder-se-ia mesmo dizer que sua “feição de rosto” era bonita e agradável, enfim apresentava um aspecto elegante, cativando quem a observasse.

Num relance da memória, recordei-me de “Ulísses”, o grego, na sua “Odisséia”, que precisou tapar os ouvidos com cera para não ser atraído pelo “ canto das sereias”, apreciando entretanto seus avassaladores encantos, conto épico onde, com toda certeza, o autor inspirou-se na extrema semelhança das “focas” com as beldades femininas. Dias após procurei, na biblioteca pública que havia na rua Trajano, conhecer algo mais sobre leões marinhos, lobos marinhos, ursos marinhos morsas, focas e lontras. Pelas estampas que lá apreciei e mesmo através de todas quanto até o presente pude observar , não foi possível encontrar alguma, cuja semelhança fosse fidedigna. Certamente não era uma foca, entretanto também não se parecia com um leão, lobo marinho ou morsa . Sua aparência facial estava mais para a de uma lontra, do que para os conhecidos lobos- do- mar. Por incrível que possa parecer, e custa-me dizer isso, a verdade é que sua fisionomia era muito feminina - acentuadamente feminil. Queiram perdoar-me, porém muita mulher por ai existe, bem mais atraente ficaria se permutasse seu rosto com o daquela criatura.

Deu-me uma imensa compaixão perceber quanto faminta estava e, quando consegui fechar o portão atrás dela, derramei-lhe todo o balde de carne e ainda tornei a preparar outro que foi vorazmente consumido pela famélica visitante. Foi uma infelicidade que eu estivesse tão cansado naquela noite, pois creio que poderia, com alguma paciência, tê-la feito permanecer tranqüilamente no quintal, que serviria de seguro abrigo quando do retorno de suas incursões ao mar. Também não deixava de ser perceptível sua fácil domesticação e pude constatar que seu “processamento mental” era de fato muito superior ao de um chimpanzé, quando reagia com muita vivacidade a cada gesto meu, transmitindo, com movimentos das nadadeiras superiores ( Braços) e pelo seu olhar, a certeza de um “raciocínio cerebral” consideravelmente adiantado .

Muitos anos depois, o “oceanólogo” Jacques Cousteau, durante sua expedição pelo Amazonas levaria, bordo do “ Calypso”, uma lontra ou ariranha avançadamente amestrada e ainda a marinha de guerra americana utilizar-se-ia dos focídios para desativar “bombas” de superfície e nas profundidades dos mares. Na manhã seguinte, junto à praia, não havia mais sinal da criatura.

Evidentemente, não pude deixar de contar a ocorrência, com todos detalhes, a meus colegas funcionários da Secretaria da Fazenda. Os mais íntimos foram chamados por meu pai ao Gabinete da Secretaria de Estado, e esperando o anúncio de alguma nova medida de procedimento fiscal, vieram tensos já aguardando problemas pela frente. Meu pai, o primeiro, naquela manhã, a saber do episódio, acomodado em sua elíptica escrivaninha de Secretário de Estado, então pediu que eu relatasse “um caso real que valeria a pena perder dez minutos para ouvir”, para aqueles funcionários que de pé aguardavam, ansiosos, alguma novidade administrativa. Enquanto eu desenvolvia o relato contando todos os pormenores do episódio daquele meu encontro com a “sereia”, um dos presentes, o Dr. José Baião ( nascido 31/10......), não resistiu de tanto rir, vermelho a verter lágrimas, engasgou passando mal e precisaram socorrê-lo.

Cheguei a arrepender-me por não ter ficado quieto, pois durante semanas a fio, fui alvo das piadas e gozações de meus colegas que truncando a ocorrência, com pérfidas palavras, faziam “blague” sobre o meu encontro com a “morsa” que convertiam para “moça” e o lance que foi “amistoso”, maliciosamente transformavam em “amoroso” e de reboque inventavam os mais picantes chistes para me atazanar, e nisso o “ilhéu” era mestre. Até pelotas de cera apareciam na minha escrivaninha com bilhetes de recomendação, onde constava : “Vacina auricular contra a sedução do canto das sereias”.

Passados alguns dias do meu encontro como a “criatura”, um colega informou-me que no “ Mercado Público”, no centro da Capital, estava exposto um “Leão Marinho” apanhado na praia de Coqueiros. Mandei-me para lá e assisti a um dos espetáculos mais deprimentes que o apregoado “ser racional” possa produzir. Uma fila de cerca de vinte pessoas aguardava a vez para adentrar um tapume em quadro, após pagar entrada. Ao sair um grupo de 10 pessoas, outras tantas entravam. Sim, sem dúvida alguma era a minha “ Morsa”, agrilhoada com grossas argolas de ferro, uma no pescoço e outra antes da nadadeira traseira, ambas fixas a correntes. A infeliz fêmea, já então erradamente classificada na tabuleta de “Promoção do Espetáculo” como “Leão Marinho”, pesando 280 kg , era objeto da prática dos mais baixos atos de provocação, perversidade e perversão.

Para atiçá-la estocavam-na com longo ferro de construção, puxavam-lhe com força a argola que envolvia a nadadeira traseira para que o populacho de “ seres evoluídos, criados e feitos à semelhança de um Deus”, com sua curiosidade torpe e pervertida, pudesse melhor apreciar a região pubiana da criatura, onde a molestavam com um cabo de vassoura. Riam e diziam gracejos aqueles obscenos humanóides da platéia, que a cada domingo, implorando misericórdia somente para si próprios, purgavam seus pecados nos templos para então, perdoados, isentos e aliviados, poderem tornar a encher o espaço, com nova série de depravações. E não eram poucos, já havia dias que uma multidão assistia, em grupos de dez indivíduos, a sessão de tortura e sado-masoquismo.

Quando estive na fila, e não se passaram mais de vinte minutos, dois grupos de pessoas me precederam, portanto o espetáculo fora repetido duas vezes em vinte minutos, antes de meu ingresso. E não pensem que eram pessoas incultas, absolutamente não. Todos eram adultos e a maioria, moda na época, trajava terno e gravata. Fiquei enojado com a “decantada humanidade - senhora do planeta por outorga divina !” Tudo acontecendo em pleno século XX, na Capital de um Estado, a menos de 200 metros do Palácio do Governo e de sede episcopal ou Catedral , “mater e magistra” daquela escória de povaréu.

A criatura ficou de pé e nisso, aproximando-me, abanei com a mão e bati pausadamente palmas para ela, como fiz repetidas vezes naquela noite em minha casa. Ela mirou-me fixamente e a seguir, sorrindo, emitiu um som misto de sopro, lamento e miado, causando-me a forte impressão de que me reconheceu, porém logo seu olhar transformou-se, denotando tristeza, como a suplicar misericórdia libertando-a daqueles suplícios.
Dirigi algumas palavras ao responsável da “promoção”, tentando fazê-lo compreender a barbárie que praticava - mas a reação dos assistentes, contra mim, quando falei que aquilo era “caso de polícia”, foi tamanha que pouco faltou para me agredirem. Um deles, conhecido de vista, pegando-me pelo braço levou-me para fora daquele antro, dizendo : “deixa prá lá, a polícia nada tem a ver isso, é só um animal, não há mal nenhum, etc.”.

Revoltado retirei-me dali, pois a “criatura”, um vertebrado superior, do gênero dos pinípedes, representativo de um elo no encadeamento da origem das espécies, muito próxima da vertente a que devemos nossa própria origem, ( portanto nossa aparentada direta no grande ramo dos vertebrados), ali estava a provar e padecer toda a sandice estulta de que é, sempre foi, e infelizmente está a parecer que sempre será, dotada a soberba e prepotente humanidade.

Acabrunhado com o que assisti, fui caminhando pela calçada junto ao muro do fétido lagamar da “Baia Sul”, ( Onde o mar encostava no trapiche rente ao Mercado, atualmente existe o grande aterro ) até a ponte-passadiço que servia ao bar do “Miramar”, enquanto perguntava-me : “Que espécie de caridade, pregam as religiões no que concerne aos seres da natureza animal, a fim de, excluídos os costumeiros paralogismos de seus apologistas, objetivar a efetiva educação, incutindo, naquela plebe ignara e rude, algum sentimento moral de sensibilidade, misericórdia e piedade , se não de afeição, pelo menos de eqüidade ecológica na divisão de espaços deste planeta que não somente a nós, ditos racionais humanos, pertence por natural direito, o verdadeiro direito, e não o sofisma manobrado por “Montesquieu” que artificial e mecanicamente o transveste em “leis” exclusivas, para, depois de pactuadas pelos interesseiros-interessados, prevalecer draconianamente sobre toda a “Natureza do Planeta”.

“IUS NATURALE EST QUOD NATURA ONMIA ANIMALIA DOCUIT” -ULPIANUS, liber 01 parágr.3 D. de just 01,01 . ( Domitílio Ulpiano – nascido em Tyro em 170 e falecido em Roma em 228.)

Mal passados seis meses, em fevereiro de 1960, na praia de Cabeçudas, Itajaí, assistido por grande número de curiosos, me vi compelido a “sacrificar caritativa e misericordiamemte”, em pleno mar, a tiro de revólver 32, arma que, a nado, portei sobre minha cabeça, debaixo da alta touca de borracha, para banho, de minha mãe que a tudo assistiu, um legítimo Leão Marinho, animal que distante cem metros mar adentro, debatia-se a sofrer, expondo um profundo corte na garganta pelo qual expelia ar e água, portanto já estava, muito antes de ser por mim alvejado, irremediável e mortalmente ferido.

Mas essa é outra “história”.
{(“ Se tiver toda a fé a ponto de remover montes e não tiver caridade nada sou- 01.Coríntios 13-3.})”
Niels Deeke-1986.Memorialista em Blumenau -SC

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

- Repensando o Turismo

Crônica do renomado escritor, jornalista e colunista, Carlos Braga Mueller, que hoje nos relata sobre turismo em Santa Catarina.

REPENSANDO O TURISMO




Por Carlos Braga Mueller






Santa Catarina tornou-se, nas últimas décadas, uma referência em turismo nacional, coisa, aliás, que incomoda muita gente da área, especialmente de outras regiões do país.

As belezas naturais da Ilha Capital tem atraído não só turistas de lazer, mas também eventos como congressos e convenções, o chamado turismo de negócios.

Blumenau também tem presença garantida neste mapa turístico, não só nas temporadas específicas, principalmente na da Oktoberfest, mas durante o ano inteiro, quando o turismo de negócios é bastante forte.
Para sedimentar esta escolha pela cidade teuto-brasileira, contribuem as cervejarias artesanais de toda a região, que podem ser visitadas, além da proximidade da cidade mais alemã do Brasil, Pomerode, sem falar da topografia característica da cidade, entre montanhas e o rio.
Parque das Nascentes e Morro Spitzkopf
Quem faz um passeio pelas praias de Floripa, ou pelo verdejante Vale do Jordão, na zona sul de Blumenau, onde ficam o Parque das Nascentes e o do Spitzkopf, jamais esquecerá os cenários.
Camboriú 1962 e 1970 - Foto Rubens Heusi
No litoral, entre tantos apreciados balneários, se sobressai Balneário Camboriú, que lá por volta de 1960, 70, sem imaginar o prestigio que um dia teria, se auto intitulava, modestamente, como a "Copacabana do Sul", lembram ?
Camboriú 2010
Pois é. Tudo isso mostra a potencialidade das riquezas naturais e culturais do nosso Estado; assim a possibilidade de se aumentar o leque das atrações é imenso.
E é isto que assusta grupos econômicos poderosos, que teimam em investir na região norte-nordeste, ali implantando empreendimentos arquimilionários para abrigar turistas, ávidos por praias, belezas naturais e sol, muito sol.
A imprensa, sempre atenta, acaba mostrando o que vai bem e o que vai mal.
O jornal "A Folha de São Paulo", estampou na capa da sua edição dominical de 23/01/2011, uma foto da praia central de Balneário Camboriú tomada pela sombra dos prédios já às 3 horas da tarde. Aos banhistas resta um pequeno espaço de sol na areia, entre uma construção e outra, conta - e mostra - o jornal. É verdade; negar, não dá. A especulação imobiliária, que começou a sombrear a praia desde a construção dos primeiros "arranha-céus" Imperador e Imperatriz, prossegue sem parar, agora com espigões de até 44 andares.
Qualquer dia, não tenham dúvida, a sombra chega à famosa Ilha das Cabras, cartão postal de Camboriú.
Fala-se em aumentar a faixa de areia...
Já em Blumenau, uma turismóloga, visitante, criticou de forma veemente o estado em que se encontra o "Centro Histórico de Blumenau", em depoimento publicado recentemente no jornal de maior circulação do Vale do Itajaí.
A turista e turismóloga destacou a situação em que está o terreno que abrigou durante décadas o Estádio Aderbal Ramos da Silva, prestes a ser fatiado em imóveis e via pública; o espigão inacabado do Clube Náutico América; enfim, abriu-se contra o que classificou como o descaso de Blumenau, que não estaria preservando seu patrimônio cultural como deveria.
Mas é ali, no antigo Boulevard das Palmeiras, hoje Alameda Duque de Caxias, que se situam a Biblioteca Pública, o Arquivo Histórico, o Museu da Família Colonial.
E logo ao lado, no começo da Rua 15, ficam o Museu da Cerveja, a Fundação Cultural e o Mausoléu Dr. Blumenau. São estes monumentos e atrações que enchem as vistas dos turistas. Claro, não se justifica o emperramento dos casos citados pela visitante.
E, para mostrar que mesmo com tudo que possa existir de ruim para o turista, nosso Estado é muito bom, o mesmo jornal paulista, na mesma edição acima citada, em reportagem feita com a super model Alexandra Ambrósio, ouviu desta que, para fugir do mundo, ela passa suas férias na Praia Brava, a da Ilha de Santa Catarina, onde comprou um apartamento quando tinha 17 anos. E olha que já está chegando aos 30.
Contra fatos, não há argumentos.
Crônica: Carlos Braga Mueller/Jornalista e escritor
Arquivo: Adalberto Day

sábado, 12 de fevereiro de 2011

- Blumenau, dos cinemas que eu amo!


Por Carlos Braga Mueller
Jornalista e ex-exibidor

Quando o Cine Busch construiu seu prédio novo, por volta de 1939/1940, as sessões de cinema aconteceram excepcionalmente no Salão de Baile do Clube Náutico América, ao lado da Praça Hercílio Luz.
Quando as enchentes de 1983/1984 invadiram os Cines Busch e Blumenau (inclusive determinando o fechamento deste último), o Carlos Gomes promoveu sessões de cinema durante algum tempo. 
O primeiro cinema fixo de Santa Catarina foi o Busch (foto), em 1904. Frederico Guilherme Busch Senior, descendente de alemães de Santo Amaro da Imperatriz, veio para Blumenau e foi aqui que marcou sua presença como pioneiro em várias atividades, entre elas o cinema, que então engatinhava, utilizando o Salão Holetz para as exibições dos filmes mudos, ou as "cenas animadas", como se dizia então.
 Era um tempo em que a sociedade se encontrava no salão para assistir filmes que eram exibidos exclusivamente nas grandes capitais ... e em Blumenau !
Desde pequeno eu ouvia as narrativas de minha tia, pianista Antonietta Braga, que ficava ao lado da tela executando as músicas enquanto o filme mudo era projetado. Nas cenas românticas, o piano acompanhava com suavidade; se a ação era de suspense, os graves tomavam conta do ambiente.
Quer dizer, Blumenau tem muita tradição em cinema.
Praticamente a história do cinema é, também, a história dos cinemas de Blumenau !
Agora, custa acreditar que o Multiplex do Shopping (foto) ficará pelo menos dois meses inativo.
O que vai ser desativado, durante este tempo, é um importante segmento do fluxo cultural do povo blumenauense.
Em São Paulo, agora mesmo, a comunidade paulistana e suas autoridades lutam para preservar o funcionamento do Cine Belas Artes, que não consegue mais pagar o aluguel das salas que ocupa.
Aqui, simplesmente se fecham todas as salas, embora temporariamente, mas sem qualquer alternativa ! Aliás, tem alternativa, sim: ir ao cinema em Brusque, Itajaí ou Rio do Sul.
Publicado no Jornal de Santa Catarina, em Artigos com o título Blumenau, dos cinemas , dia 12/fevereiro/2011.
Texto enviado por Carlos Braga Mueller Escritor e Jornalista
Arquivo de Adalberto Day

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

- A despedida de Dr. Blumenau

[...] O pesar foi geral quando, em 1884, o Dr. Blumenau deixou a Colônia para se juntar à sua família que já se encontrava na Alemanha. Na época, em quase todos os jornais de idioma alemão no sul do Brasil, foi publicada, reportagem cujo teor era o seguinte: “ A bordo do Vapor “Progresso”, deixou a nossa Colônia no dia 15 do corrente mês, o Sr. Dr. Hermann Blumenau para iniciar viagem à Europa. Na noite anterior ao embarque, seus amigos e admiradores se reuniram, no Hotel Schreep, onde estava hospedado, para então se despedirem dele. Foi um ato que todos cumpriram comovidos e com o coração constrito. Tratava-se de apertar a mão do amigo, por todos benquisto, o “Pai Blumenau”, como era cognominado e, quiçá, ver pela última vez seu cabelo grisalho e na nobre face.”
Por proposta do Vigário de Paróquia de São Paulo Apóstolo, formaram uma comissão com presidente e escriturário, a qual em reunião tomou as seguintes resoluções:
1) O Município de Blumenau deverá eterno agradecimento ao Sr. Dr. Blumenau, por seus 40 (quarenta) anos de incansável trabalho.
2)Este município deve ao seu fundador e diretor o bem-estar e o êxito alcançados deste à sua fundação e ficará devendo, preferencialmente por todo porvir, pelos longos anos de trabalho e sacrifícios dependidos.
3) Estas resoluções serão publicadas no jornal.
Em seguida, os participantes dirigiriam-se ao salão superior do hotel e, na presença do homenageado, o Padre Jacobs, a pedido, em nome de todos os presentes e em nome também da comunidade.pronunciou a alocução de despedida . Nela expressou os sentimentos dos blumenauenses, nos seguintes termos: - “De forma improvisada, se reuniu uma parcela de seus inúmeros amigos e admiradores para se despedir. Todos se acham no dever de agradecer os seus esforços e a incansável atividade que dedicou a esta Colônia, durante os 40 anos, desde sua fundação. O futuro reconhecerá melhor os sucessos dessa atividade. Ele plantou a semente que germinou e se transformou numa árvore maravilhosa e que no futuro trará bastantes frutos. Muitas horas amargas e muitos dias ingratos anuviaram sua existência. Que uma velhice agradável e despreocupada seja o seu pagamento. Nós todos, de coração, dizemos ]: “Adeus” – e, ao mesmo tempo, “Até a vista!”

O Dr. Blumenau, profundamente comovido, agradeceu as palavras, manifestando, ao mesmo tempo, a alegria de ver seus amigos ali reunidos.
Logo após as palavras do Pe. Jacobs, o Dr. Blumenau citou o conhecido verso do poeta da canção da “Despedida”, que diz: “Quando amigos se separam, dizem: Auf Wiedersehn (Até Breve)”. Foi grande a alegria de todos, pois não excluía, ante o pronunciamento do homenageado, a esperança que todos tinham de que ele retornasse a Blumenau.
Na seqüência da reunião de despedida, o Dr. Blumenau recusou os elogios e manifestações de louvor, assegurando sentir a maior satisfação, caso houvesse realmente contribuído para o bem estar da Colônia e de seus residentes. Depois estendeu a mão a todos, abraçando alguns, o que para todos foi, sem dúvida, um momento inesquecível. Realmente a despedida desse homem foi muito comovente. Estava com os cabelos grisalhos, não tanto pelo passar dos anos, quanto pelo estóico esforço com que se empenhou desveladamente por longos anos de incansável labor, no trato dos negócios administrativos desta terra.
Todos ficaram profundamente sensibilizados ao ver esse venerável veterano , com sua agradável e sincera maneira, encontrar palavras de despedida para cada um dos mais caros amigos e assim deixar marcada, na lembrança de todos , a sua inconfundível personalidade.
Quem, naquele momento, poderia deixar de ver, ante seus olhos, o descortinar de um quadro do passado na história do desenvolvimento dessa grande Colônia, tão intimamente identificada com seu fundador e diretor? Honra ao homem que, desprezando oportunidades de empregar sua capacidade intelectual em condições mais favoráveis num país civilizado, preferiu seguir seus impulsos idealistas, desenvolvendo sua atividade, até avançada idade , em áreas nunca até então cultivadas da imensa floresta, para dar vida a uma brilhante e próspera Colônia Alemã.
É oportuno citar aqui a poesia feita pelo Sr. Vigário, em forma de acróstico, que foi lida e depois entregue ao Dr. Blumenau, e que á a seguinte:
“Acróstico ao Sr. Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau - 15 de agosto de 1884:
Belas flores que você cuidou,
Livres, flores - sua coroa de honra,
Um Vale que você zelou
Muito brilho no futuro trará
E colherá sua benção
No tempo mais distante
Apesar de invejosos se manifestarem,
Um sucesso a honrará!
Blumenau em Deus Confia!
Adeus! E viva muitos anos
Temos isto a dizer como despedida
E o dia jubiloso chegará
Ao clamor glorioso dos céus,
Vendo tempestades o cercar,
Onde sem descanso estiver
Logo erguerá os olhares nos céus
Todos sempre lhe dirão,
Ao “Porto Seguro” venha!
Blumenau em Deus Confia!
Em seguida, foi elevado um brinde ao Dr. Blumenau, que respondeu com outro à Colônia e a seus moradores.
No entanto, pode-se deduzir pelas palavras que pronunciou, por ocasião da solenidade de despedida, que ele esperava regressar. Também algumas noticias de jornais da época aventuram so9bre essa possibilidade, reportando que o Dr. Blumenau retornava à Alemanha por incumbência e solicitação do Governo Imperial.
Hoje, realmente não se sabe e é difícil imaginar que o Dr. Blumenau recebesse novamente uma prova de benemerência oficial, depois de longa espera e amargas provas de paciência. Portanto, apesar de um jornal noticiar essa nova incumbência oficial, não se pode entendê-la verdadeira, mesmo ante o conhecimento de que ele não havia “caído em desgraça”. Até o fim, continuou nas boas graças do imperador, que muito o considerava, e, entre amigos, o fundador da Colônia sempre contou com personalidades influentes, como por exemplo, o Visconde de Bom Retiro e o Dr. Alfredo d`Escragnolle Taunay.
A emancipação de Blumenau teve por conseqüência a dissolução da diretoria da Colônia, fato que ocorreu por motivos gerais e não como um ato dirigido contra a pessoa do Dr. Blumenau, tanto que o mesmo registrou-se quando na emancipação de outras colônias. Em todo esse episódio o que causa espécie, é a circunstância de deixarem o Dr. Blumenau partir sem sequer uma palavra oficial de agradecimento por parte do Governo imperial, do que se conclui que houve falta de sensibilidade daquelas autoridades.
Na Alemanha o Dr. Blumenau continuou dando mostras de seu apego à Colônia que fundará , elevando sua voz em defesa dos interesses pela preservação da boa reputação dos alemães residentes no sul do Brasil. Com a colaboração de seus amigos, Karl Von Koseritz e Hugo A. Gruber, publicou um Manifesto no qual convocava os teuto-brasileiros a subscreverem uma petição a ser encaminhada à Assembléia Prussiana. Nesse documento era exigida a revogação do “Rescrito de Von der Heydt", de 3 de novembro de 1859, que proibia a emigração de alemães para o Brasil. A iniciativa do Dr. Blumenau foi coroada de sucesso.
Ao Dr. Blumenau, os efeitos provocados pelo contrato de venda de suas terras em Blumenau, em maio de 1885, com o Pastor Gustav Stutzer, causaram muitos dissabores, tanto particulares como jurídicos. Defrontou-se com processos, sujeitando-se a discussões pessoais através de cartas e jornais, o que, certamente, não tornou mais agradáveis e despreocupados os últimos anos de sua existência.
Após falecerem alguns de seus melhores amigos, como Karl Von Koseritz e o Dr. Alfredo d`Escragnolle Taunay que o antecederam, o Dr. Blumenau faleceu em Braunschweig, com 79 anos de idade, no dia 30 de outubro de 1899 [...]


Dados extraídos do livro O município de Blumenau e a história de seu desenvolvimento. Escrito em 1917 por José Deeke/reeditado -Blumenau Nova Letra,1995 e revisado pelo Dr. Niels Deeke, neto de José.
Ficha Catalográfica elaborada pela Fundação "Casa Dr. Blumenau" - Blumenau - SC
Título original "Das Munizip Blumenau und seine Entwickelungsgeschichte", José Deeke, 1917.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

- Victor Hering

V I C T O R  H E R I N G ( 1902- 1961 )

UM INSIGNE BLUMENAUENSE NOBILITADO COM A

¨” COMENDA DA ORDEM DA ÁRVORE “
___________
Apresentamos hoje mais uma colaboração exclusiva de importância fundamental para nossa historiografia do renomado Niels Deeke - Memorialista em Blumenau. Hoje são prestadas justas homenagens à um ilustre blumenauense ao completar 50 anos de seu falecimento.

 ¨Homenagem Memorial aos 50 anos do falecimento de Victor Hering"

MINHAS SINGELAS PALAVRAS COMO PREITO DE GRATIDÂO AO SR. VICTOR HERING.- in memoriam. Autoria de Niels Deeke
Decorria o mês de maio de 1952, lá pelas 20,00 horas de um dia de semana, quando Niels Deeke aos seus 15 anos de idade, estava “esfriando” o motor de sua motocicleta depois de “ter dado um rápido pico” sobre o asfalto do Bom Retiro. Para descansar sentou-se, ou melhor montou no banco junto à calçada da praça D. Pedro II ( existente nas confluências das ruas Paraná < atual Vidal Ramos > , Floriano Peixoto e rua Hermann Hering. O busto de D. Pedro II, lá constante, foi inaugurado em 1950 durante as festividades comemorativas do Centenário de Blumenau, ao passo que o terreno fora, em época anterior, doado à municipalidade pelo Sr. Max Hering, genitor de Victor Hering), que era fronteira à casa de Victor Hering, pondo os fundilhos sobre o encosto e os pés no assento do dito. Nisso, retornando da indústria Cia. Hering, numa limousine – deveria ser um “chevrolet modelo fleetline” em duas cores que suponho fosse verde claro e creme - chegava o Sr. Victor que, para adentrar sua residência, precisava ultrapassar a praça. Certamente percebeu o folgazão aboletado, daquele jeito irreverente, com os pés no tabuado pintado em verde, que o próprio Sr. Victor mandou esmaltar na mesma cor dos canos-grade que entremeavam os pilares do muro da morada. Cá posso estar confundindo e tenho dúvidas, talvez os canos do muro estivessem pintados da cor do alumínio. Colocado o carro na garagem, o sr. Victor saiu pelo mesmo caminho que adentrou, caminhou até o banco - evidentemente pretendendo passar uma justa e merecida reprimenda naquele desocupado que lá pitava um cigarro bandido. Aproximando-se mais e, no lusco-fusco, enxergando melhor exclamou : “Ah ! Na escuridão não reconheci - é o Niels ! Também isso não são maneiras de sentar num banco público, mas não faz mal”, e continuou : - “A propósito semana passada estive conversando com o Ralf (Raf Gross- Bruno Ralf Gross) que falou-me de teu atual interesse por orquídeas, e que estavas organizando um orquidário de sarrafado, o que é muito bom, porém deverás cuidar para não arrancar as plantas de qualquer maneira das árvores pelos matos, pois a maioria certamente irá morrer”. Prosseguindo disse ser uma pena que para plantar as orquídeas fosse preciso cortar os “xaxins” que tanto embelezavam a floresta. E nisso concordei, era um enorme pecado desfalcar as florestas dos majestosos xaxins e quanto às plantas, ponderei que nas nossas matas, no médio vale, quase nada mais havia de orquídeas legítimas – as epífetas - somente topava-se com as “Cattléias Leopoldi” – os ditos Leopoldões - alguns “Epidendros” e raríssimas Catléias Intermédias. Laelias no médio vale do Itajaí, suponho jamais existiram espontâneas e se alguma for encontrada , deverá ter sido introduzida antropicamente. Com relação aos xaxins, lamentei que no “Mato dos Padres” ( atual Parque Santo Antônio), onde deles abastecia-me, restassem somente espécimes muito jovens e raquíticos que não se prestavam para fixação das epífetas. Aí o Sr. Victor, concordando disse que nem sempre foi assim, pois se eu desejasse ver como seria exuberante o Mato dos Padres caso não houvessem depredado os xaxins, poderia observar o passado representado ainda naquela atualidade então existente no Mato da Cia. Hering, do qual este último era uma natural continuação territorial do Mato dos Padres. E nisso fez o convite para acompanhá-lo no domingo próximo, quando iria inspecionar a floresta do morro no “Schweine Rücken” – Costado do Porco, o dito Morro da Companhia. Para mim não poderia haver melhor programa, mesmo porque fazia anos que lá estivera numa churrascada que foi preparada junto às represas, e na oportunidade muito pouco pude observar da floresta que tanto me interessava. Perguntado se eu não causaria incômodo, respondeu o Sr. Victor que ao contrário, ser-lhe-ia um prazer, e pediu que eu fosse com traje apropriado, porque desejava aproveitar a oportunidade para verificar o progresso da nidificação oriunda de um cruzamento experimental de “Jacus” com “Jacupembas”, que haviam acasalado em cativeiro e depois foram soltas, ovos cuja incubação natural estava sendo induzida na própria mata. Havia tempos que eu havia apreendido junto ao Sr. Johannes Roedel, biólogo e zelador responsável pelo Jardim Zoológico de Pomerode, durante os longos anos de 1942 a 1952, em que o Parque foi propriedade do então meu tio Victor Weege, a identificar o sexo dos Jacus – gênero Penélope e das Jacutingas – gênero Pipele, nos quais o macho possui nos olhos um anel vermelho, enquanto nas fêmeas a coloração é escura e uniforme. Contudo interessa-lhe, especificamente, saber se havia ocorrido a eclosão, e nisso eu poderia ajudar escalando determinadas árvores para constatar o que ocorrera com os ovos. Assim acertaram o passeio para 6,30 horas do domingo próximo e, na hora aprazada, eu encostava minha moto nos fundos da casa do Sr. Victor, o qual já estava na cozinha a tomar seu café, e convidou-me para sentar-me à mesa e me alimentasse, o que procedi apesar de avisar que já havia tomado café em casa, mas em razão da insistência acabei comendo mais uma fatia de pão com “Schmierwurst”. Depois do Sr. Victor ter, rapidamente, se despedido de sua esposa, dona Eulália, embarcamos, somente os dois, em um Jeep cinzento, importado e de quatro cilindros que suponho fosse um dos muitos então compostos na Linha de Montagem de Jeeps de empresa ¨Samarco¨- em Itajaí.. Sim...poucos recordam-se , porém houve no pós grande guerra e durante vários anos, uma aprestada Linha de Montagem desses utilitários em Itajaí, que recebia, da Willys Overland nos EUA, os veículos sob forma CKD (Complete Knock-Down) e aqui, meu tio Victor Félix Deeke, os montava e negociava. Tomando o rumo para a Cia Hering e após passarem pelo pátio interno e estreitos acessos junto à fábrica, alcançaram o caminho do morro. Foi a partir daquele ponto que passei a receber a melhor de todas as aulas de comportamento ambiental ( ecologia ou ambiemntalismo : eram termos desconhecidos no vernáculo ) que um guri poderia ter a felicidade de ouvir, além de assisti-la em pleno ambiente natural. Com paciência de Jó e com o carisma que lhe era peculiar, o Sr. Victor argüia-me e explicava cada detalhe da natureza ali preservada. Ainda na subida no morro indicou, à beira da estradinha, alguns dos grandes pteridófitos (xaxins pretos - fetos vegetais < botânica : Filifolha ordem Filicales > com mais de 10.000 espécies ainda existentes, as quais, no fim do período geológico do Triássico, há cerca de 200 milhões de anos, recobriram, predominantemente, toda nossa região ), de mais de 4 metros de altura, daqueles volumosos - grossos na base - que só conseguia-se encontrar muito longe, lá para os fundos da Terceira Vargem (Alto Garcia), muito diferentes os peludos xaxins vermelhos – dotados de fibras frágeis - existentes no planalto serrano e que são, agora, objeto de devastação para a produção de recipientes para conter samambaias, esta outra pteridófita. Apreciei as sementeiras parcialmente sombreadas pela própria floresta, com diversas mudinhas de essências nativas- todas classificadas, coisa que na época, na nossa região, nem se sonhava produzir. Quem quer que fosse e por mais desinteressado que pudesse ser, ficaria profundamente impressionado com o desvelo do Sr. Victor, um dendrófilo convicto, que, ao mirar a floresta - com sereno entusiasmo refletido em seus luzidios olhos zarcos - coloridos de idílico azul – assumindo uma expressão poética e sonhadora - fazia irradiar contagiante e profundo sentimento ecológico em quem fosse seu circunstante. Tanto havia eu perlustrado florestas só pensando em chumbar o que viesse pela frente que jamais tivera desprendimento para observar uma semente de um simples “cedro”, quando as observei pela vez primeira naquele dia no qual, o dedicado Sr. Victor, mostrou-lhe um monte delas que, espinhentas, estavam sobre um tabuleiro rústico lá naquele mato. Enfim comentou longamente sobre a germinação das içaras, a necessidade de desgastar a casquinha dos frutos ( içara ou juçara é o fruto, o palmiteiro inteiro é, em tupi, Pindó = Euterpe Edulis ) para melhor brotação, a paradoxal multiplicação das Figueiras, cujas sementes, para germinarem, necessitam de lugar extremamente seco, e pouco tempo após brotadas, para crescerem passam a requerer locais excessivamente úmidos, e nisso até um bando tucanos estava a chilrear pelas imediações. Quanto ao ninho dos Jacus-híbridos e deles próprios, nem sombras - estava completamente desfeito - e talvez houvessem mudado de local. Depois de tudo fiscalizar com muito apuro e de comentar sobre a rigidez do lenho das legítimas madeiras ¨ Tajubas¨ ( alguns a denominam Itajuba, nada as relacionando as amazônicas Itaúbas ) dotadas de grandes espinhos e que suponho seja a árvore de madeira mais dura da mata atlântica, superando os araribás, araçás, sucurujubas, canelas e camboatás, retornamos não muito além o meio-dia. Desde então mudei radicalmente o seu comportamento florestal. Não deixei de seguir para os matos - porém a espingarda passou a ser um “enfeite” - caçava somente com os olhos....... mirando as orquídeas nas árvores, e pelo chão as pedrinhas exóticas dos ribeirões. Extasiava-me com o místico encanto da natureza selvática. Passei a ser outro - transmutei-me, até mesmo na maneira de caminhar pelas matas - coisa que fazia, por atavismo, desde meus cinco anos de idade, porém só a partir daquele dia pude sentir-me totalmente integrado à selva que me transmitia confortante tranqüilidade e um sentimento de satisfação inenarrável - um prazer muito gostoso – verdadeiro êxtase que me inebriava - misto de presença, humildade, participação, contemplação, deslumbramento e gratidão.além de identificação com à exuberante “natureza” – que antes era para mim simplesmente “algo” solitário e acessório do contexto natural. Certamente desde então melhorei, e presumo que em condições logarítmicas e, isto, em grande parte, fiquei a dever ao magnânimo Sr. Victor Hering, que, com sua magistral habilidade, logrou transformar um “predador compulsivo” em “preservador contumaz” – e conforme alguns me avaliam – um virtual extremado conservacionista - propugnando o defeso perene da Fauna e Flora à ação predatória da dita sociedade racional humana, pois, a partir de então, em absoluto, e compulsivamente, não consegui mais identificar-me comigo próprio sem visitar, quando tempo houvesse, a “minha querida mata”. Entre os assuntos que o Sr. Victor abordou, recordo-me de sua acerba crítica ao deflorestamento que por dez anos seguidos, a partir de 1939 o S.N.M. – Serviço Nacional da Malária - procedeu em toda a “Mata Primordial” que cercava o centro urbano de Blumenau. Somente a Mata da Cia. Hering e, parcialmente o Mato dos Padres, escaparam daquele autêntico insulto à Natureza. O Sr. Victor perguntou-me, também, se eu havia observado as conseqüências da aspersão de DDT e do querosene que poucos anos antes, 1947-1949, haviam os dois helicópteros do S.N.M ou da Fundação Rockfeller, . levado a efeito sobre todas as matas circundantes, e nisso relatei-lhe minhas constatações no Mato das Padres, onde o pessoal do SNM havia derrubado muitas das grandes figueiras e outras árvores foram escaladas com a utilização dos conhecidos “carrapatos” de aço fixados aos calçados, tudo objetivando erradicar os “gravatas” ( Caraguatás ) que, em grande quantidade, jaziam ao chão, entremeados de outras parasitas e alguns “leopoldões”. Não atino com trabalho mais inútil que aquele, pois semelhava-se ao de Síssifo, derrubá-las do alto para deixá-las proliferarem mosquitos no chão.As folhagens dos sombreados xaxins igualmente não escaparam ao borrifamento com querosene e DDT, que desfigurou suas belas aparências, definhando-os irreversivelmente. Quando chegado em minha casa, à noite, perguntei ao meu pai, qual o motivo justificativo para aquele procedimento tão dispendioso que exerceram, durante quase um ano, os dois helicópteros ( um de cor azul e o outro em vermelho-vinho) que tinham por heliponto o “Campo de futebol do Grêmio Esportivo Olímpico”, recebendo por resposta que médicos infectologistas “haveriam constatado, por volta de 1939, um surto epidêmico de “malária hemolítica” (seria a atual Dengue hemorrágica ? ) em Massaranduba, Corupá e região da Subida, e, então, o S.N.M, subsidiado pela Fundação Rockfeller, procedeu a pulverização, lançando DDT adicionado ao querosene sobre a mata, evitando derrubar toda a floresta – justificavam : “como dos males, o menor” - porém o meu pai – Hercílio - estava convicto que tudo seria reflorestado com “cunninghâmias” e “eucaliptos”- conforme os “barnabés federais” haviam prometido. Pois sim ! Plantaram menos de 1.000 árvores, e o próprio Hercílio, quando prefeito naquela época de 1952, continuava a reflorestar - através ônus exclusivo para a municipalidade - o Morro da Caixa d’Água e o Morro do Aipim com as ditas Cunninghamias que deveriam ter sido introduzidas pelo Governo Federal, mas não foram. Ainda em 1965, para reparar a devastação, plantou, ele Hercílio Deeke, através comodato entre a Prefeitura de Blumenau e o Colégio Santo Antônio, no dito Morro dos Padres, 32.400 “Piuns Elliottii”, quando parte das mudas eu próprio - Niels Deeke - procedi, gratuitamente, afretamentos em uma Kombi do “Moinhos Reunidos Itajaí” – com duas cargas de 3.000 torrões cada, que busquei no Horto Florestal de Araquari para, contribuindo com o “bem público e o meio-ambiente ” embelezar a cidade de Blumenau. Foi tudo inútil – esforço jogado fora - pois atualmente depredaram todo aquele reflorestamento – cujas árvores pertenciam, exclusivamente, à municipalidade. Suponho que os administradores municipais nos mandatos que sucederam a gestão encerrada em 31/01/1966, nem mesmo sabiam que o plantio e as respectivas árvores eram patrimônio municipal. De tudo permanece o meu gratíssimo reconhecimento à bondade do saudoso Sr. Victor Hering, que com sua generosa proficiência revelou-me a verdadeira maneira de apreciar a Natureza. Foi, ele, sem favor algum, um baluarte do florestamento e reflorestamento, pessoa de caráter reto e de ilibada personalidade – um Varão de Plutarco – um gentlemann honorável, exemplo modelar para os preservadores da natureza, enfim um grandioso vulto na ¨idade de ouro¨ da evolução de Blumenau. Através seu abnegado empenho fez-se respeitado quando chamava a atenção para a importância da preservação de nossas florestas nativas, ressaltando o quanto representam para o equilíbrio do meio ambiente, estimulando observância de sua conservação. Entre as muitas homenagens recebidas, o Sr. Victor Hering, na década de 1950, foi, muito meritoriamente, nomeado “Delegado Florestal em Santa Catarina”, e agraciado pelo Ministro da Agricultura, e com o Laurel Máximo, nobilitando-o com a insigne “Comenda da Ordem da Árvore”
A Victor Hering, in memoriam, Niels Deeke agradece por feito despertar em si, naquele inesquecível domingo, um sentimento único, de inenarrável complexidade, referto de inebriante deslumbramento, quando passou a sentir-se plenamente integrado a fantástica magnitude da “Evolução Criativa”, tão idilicamente consubstanciada na beleza das nossas queridas florestas.
Meus agradecimentos ao Sr. Victor Hering.
Niels Deeke
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Sinopse da Relação Genealógica e traços biográficos de VICTOR HERING - MAX VICTOR HERING . Nascido em Bl’au aos 28/7/1902 onde faleceu em 07/02/1961. Filho de Max Alfred Hering, nascido aos 04/7/1875 em Tannhausen-Alemanha, vindo ao Brasil quando tinha dois anos de idade, e que faleceu, em Bl’au aos 23/01/1976, o qual casou-se, em 1898, com Klara Kleine, falecida em 19/02/1964 . [ Klara Hering- nome de rua CEP 89.010-560 –com início à Rua Mal. Floriano Peixoto – alto, no bairro Jardim Blumenau ] Klara Kleine, consta da família de Theodor Kleine e encontra-se referida junto à “Crônica Genealógica da Família Jensen” no histórico de LR II F3 : KATHARINE ( SOPHIE ?) JENSEN, nascida em 1851 ou 1852 em Husum/Holstein.e falecida a .......de..... .........de 1922, antes de transcorridos três meses após a morte do marido.]
Max Alfred Hering, filho de Hermann Hering, este nascido aos 03/01/1835 em Hartha, Saxônia e falecido aos 28/11/1915 em Bl’au e que foi o fundador da “Indústria Têxtil Cia. Hering”, e de Minna Foerster, nascida aos 09/8/1839 em Neustadt, Saxônia e falecida aos 24/02/1906 em Bl’au. Max Alftred Hering foi diretor gerente da Cia. Hering em Bl’au. Victor Hering freqüentou o primeiro grau da Escola Alemã (Deutsche Schule) em Bl’au, quando esta ainda situava-se na rua das Palmeiras ( Alameda Duque de Caxias), no local onde atualmente ( estamos em1997) está edificado o prédio que abriga a Biblioteca Fritz Müller e o Arquivo Histórico Municipal. Interrompeu os estudos quando a escola foi fechada durante a Primeira Grande Guerra. No período, durante dois anos, recebeu aulas particulares, e após, pelo tempo de três anos, foi aluno do Colégio Porto Seguro (Antiga Olinda Schule) em São Paulo. Aos 18 anos viajou à Alemanha, preparando-se, inicialmente, para os exames qualificativos de acesso à universidade (Abitur), instituição seletiva que perdura até a atualidade (1997) Depois de freqüentar cursos de engenharia, diplomou-se, em 1930, em engenharia na Escola Politécnica de Darmstadt. Na seqüência deu continuidade à longa tradição de atividades da família Hering, assumindo os trabalhos técnicos e administrativos na indústria “Cia Hering”, à qual dedicou toda a sua vida profissional. Mediante seu empenho contribuiu decisivamente para o progresso da empresa, gerando continuamente mais empregos através de salutar relacionamento entre o capital e o trabalho, logrando alcançar notável sucesso em seus objetivos sociais. Destacou-se por sua significativa participação na transferência e desenvolvimento de tecnologia no acabamento da malha de algodão nos anos cinqüentas - fator que garantiu a qualidade e competitividade dos produtos da empresa, bem como a preservação da capacidade produtiva do parque fabril durante os difíceis anos em que decorreu a Segunda Grande Guerra, conflagração que provocou o fechamento das importações até mesmo para peças de reposição. Foi desde 1931 diretor-suplente, posteriormente diretor-industrial, e em 1946 diretor da Empresa Cia Hering, cargo no qual permaneceu até seu prematuro falecimento, aos 58 anos de idade. Victor Hering casou-se, em 1934, com Eulália Müller sobrinha-bisneta do Engº Heinrich Krohberger-F1N5, Telefone de Dona Eulália em 02.6.2000 : 3.22.1995. (Vide Vórtex 31: “CRÔNICA GENEALÓGICA DA FAMÍLIA KROHBERGER ” junto à classificação F1N5 ). Victor Hering exerceu intensa participação comunitária : Foi candidato a Prefeito de Blumenau pelo P.S.D; primeiro presidente do Clube de Caça e Tiro Blumenau; integrou a orquestra sinfônica de Bl’au; presidente do Clube Náutico América; presidente do Aéreo Clube de Blumenau; membro do Rotary Clube de Bl’au; presidente e organizador de exposições da Associação Rural de Bl’au; presidente da subcomissão de exposições nas festividades comemorativas do “ lº Centenário de Blumenau - 1950”.
Em 1950 executou a lª pavimentação asfáltica em Santa Catarina, na rua Hermann Hering, que liga o bairro Bom Retiro, onde situa-se a empresa “Hering” (Foto), ao centro da cidade. Igualmente projetou e executou a abertura da rua Bruno Hering, interligando o bairro do Bom Retiro ao bairro da Velha. Victor Hering foi um amante da natureza, pioneiro, portanto, do atual movimento ecológico. Realizou pesquisas em silvicultura, implantando na mata existente dos fundos da Cia. Hering , numerosos talhões experimentais com essências de coníferas ( Pinus Eliottis,Cunninghamia e Araucárias) além de eucaliptos e espécies nativas, as quais posteriormente forneceram sementes para o então incipiente reflorestamento no país. Através seu abnegado empenho pela natureza fez-se respeitado e estimulou que a respeitassem, chamando a atenção para a importância da preservação de nossas florestas nativas, ressaltando o quanto representam para o equilíbrio do meio ambiente. Victor Hering foi muito meritoriamente, na década de 1950, nomeado “Delegado Florestal em Santa Catarina”, e agraciado pelo Ministro da Agricultura, com a Nobilitante “Comenda da Ordem da Árvore”. Em 18/7/1965, com a presença do governador Celso Ramos, foi inaugurada a “ Escola Básica Victor Hering” no bairro da Vila Nova em Bl’au ( Vide Relatório dos Negócios Administrativos do Prefeito Hercílio Deeke - ano 1965 pág. 103).

Em 14/11/1964, a Indústria Têxtil Cia. Hering, inaugurou no Parque Florestal junto à sua empresa, no bairro Bom Retiro, a “Represa Victor Hering”.

Eulália Hering, sua esposa, faleceu em 29/5/2006 aos 97 anos de idade no Hospital Santa Catarina – Blumenau. Inumada no Cemitério Evangélico Blumenau- Centro em 30/5/2006. Teve três filhos dos quais dois já eram falecidos em maio de 2006, e deixou ainda 12 netos e 11bisnetos.

Seqüências do casal Victor e Eulália, sendo uma masculina e duas femininas.
Dr. Klaus G. Hering, que casou-se com Maria Luísa Renaux ( Divorciados)
Elke Hering, que casou-se com Lindolf Bell e faleceu em 1994
Maike Hering , casou-se com Diomário Queiroz. From: sementesul semente@ccb.ufsc.br Date: 20/04/2006 15:48.Subject: nota de falecimento. Prezados : É com muito pesar que informamos o falecimento da Profa. Maike Hering Queiroz, ocorrido no dia 19 de abril de 2006 em Florianópolis. A Rede Semente Sul perde uma de suas criadoras, mas acreditamos que as sementes que ela lançou ao longo de tantos anos de pesquisa e ensino continuarão produzindo frutos que perpetuarão seu trabalho.A profª. Maike deixa saudades entre todos os que tiveram a oportunidade de compartilhar de sua companhia e saberes. Assim, agradecendo todas as orientações e conselhos recebidos, continuaremos trabalhando no caminho que a professora Maike nos ensinou.

Com gratidão. Equipe do Projeto Rede Semente Sul – UFSC REDE SEMENTE SUL

Fontes : Biografia de Victor Hering, elaborada pelo seu filho o dr. Klaus G. Hering, para os 30 anos da fundação da Escola Básica Victor Hering.

O “Parque Florestal Hering”, fundado por Max Victor Hering, tinha a área de 620.843 m2. Segundo o IPPUB da Pref..Municipal de Blumenau, dados de 1998, tem a altitude de 485 metros.

Em 1952, em almoço do Rotary Clube de Blumenau, numa terça feira , no Teatro Carlos Gomes, ( época do mês imediatamente anterior à visita do Cônsul Geral da República Alemã em Porto Alegre RS Sr. Rodolfo Pamperrien ) estando presentes o Comandante do 23º R.I.- Cel. Osmar Soares Dutra, o Sr. Victor Hering, pronunciou interessantes palavras sob o tema “ – Florestamento e Reflorestamento” – matéria que foi publicada na integra pelos jornais locais.
Colaboração Niels Deeke - Memorialista em Blumenau

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